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A ILLUSTRE
CASA DE RAMIRES
Obras do mesmo auctor;
Revista de Portugal. 4 grossos volumes 12s000
As Minas de Salomão. 1 volume ^ . . . 600
Os Maias, i grossos volumes 2$000
O Crime do Padre Amaro. Terceira edição inteira-mente re-
fundida, recomposta, e differente na forma e na acção
da edição primitiva. 1 grosso volume 1S200
O Primo Bazilio. Terceira edição. 1 grosso volume . . . 1$000
A Relíquia. 1 grosso volume líOOO
O Mandarim. Quarta edição. 1 volume 500
Correspondência de Fradique Mendes. 1 volume 600
Xo prelo:
A Cidade e as Serras.
Eça de Queiroz
A ILLUSTRE
Casa de Ramires
PORTO
LIVRARIA CHARDRON
De Lello d Irniãn, editores
1900
Pertence no Brazil o direito ce propriedade d'esta obra ao
cidadão Francisco Alves, livreiro editor no Rio de Janeiro, que,
para a garantia que lhe offerece a lei n.° 496 de 1 d" A gosto de
1898, fez o competente deposito na Bibliotheca nacional, segun-
do a determinação do art. 13. "" da mesma- Lei.
Porto — 1 mprensa Moderna
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
Desde as quatro horas da tarde, no calor e si-
lencio do domingo de Junho, o Fidalgo da Torre, em
chinellos, com uma quinzena de linho envergada so-
bre a camisa de chita còr de rosa, trabalhava. Gon-
çalo !Mendes Ramires (que n'aquella sua velha aldèa
de Santa Ireneia, e na villa visinha, a aceada e vis-
tosa Villa-Clara, e mesmo na cidade, em Oliveira,
todos conheciam pelo «Fidalgo da Torre») trabalhava
n"uma Novella Histórica, A Torre de D. RamireS;
destinada ao primeiro numero dos Annaes de Lit-
teratura e de Historia, Revista nova, fundada por
José Lúcio Castanheiro, seu antigo camarada de Coim-
bra, nos tempos do Cenáculo Patriótico, em casa das
Severinas.
A ILUSTRE CASA DE HAMIRES
A livraria, clara e larga, cscaiolada d'azul, com
pesadas estantes de pau preto onde repousavam, no
pó e na gravidade das lombadas de carneira, grossos
fólios de convento e de íòro, respirava para o pomar
por duas janellas, uma de peitoril e poiaes de pedra
almofadados de velludo, outra mais rasgada, de va-
randa, frescamente perfumada pela madresilva que se
enroscava nas grades. Deante d'essa varanda, na
claridade forte, pousava a mesa — mesa imniensa de
p(''s torneados, coberta com uma colcha desbotada
de damasco vermelho, e atravancada n'essa tarde
pelos rijos volumes da Historia Genealógica, todo o
Vocabulário de Rluteau, tomos soltos do Panorama,
o ao canto, em pilha, as obras de Walter Scott sus-
tentando um copo cheio de cravos amarellos. E d*ahi,
da sua cadeira de couro, ílonçalo Mendes Kamires,
pensativo deante das tiras de papel almaço, roçando
pela testa a rama da penna de pato, avistava sempre
a inspiradora da sua Novella, — a Torre, a antiquis-
sima Torre, quadrada e negra sobre os limoeiros do
pomar que era redor crescera, com uma pouca d*hera
no cunhal rachado, as fundas frestas gradeadas de
ferro, as ameias e a miradoira bem cortadas no azul
de .lunho, robusta sobrevivência do Paço acastellado.
(la fallada Honra de 8anta Ireneia. solar dos Mendes
riamires desde os melados do século X.
(V)nçal() Mendes liamlros (como confessava esse
A IIJ.rSTHE C.VS.V DE RAMIRES
severo genealogista, o morgado de Cidadelhe) era
certamente o mais genuino e antigo fidalgo de Por-
tugal. Raras lamilias, mesmo coevas, poderiam traçar
a sua ascendência, por linha varonil e sempre pura,
até aos vagos Senhores que entre Douro e Minho
mantinham castello e terra murada quando os barões
francos desceram, com pendão e caldeira, na hoste
do Borguinhâo. E os Ramires entroncavam limpida-
mente a sua casa. por linha pura e sempre varonil,
no filho do Conde Nuno :\íendes, aquelle agigantado
Ordonho Mendes, senhor de Treixedo e de Santa
Ireneia, que casou em 967 com Dona Elduara, Con-
dessa de Carrion, filha de Bermudo o Gotto^o, Rei
de Leão.
Mais antigo na Hespanha que o Condado Portu-
calense, rijamente, como elle, crescera e se afamara
o Solar de Santa Ireneia — resistente como elle ás for-
tunas e aos tempos. E depois, em cada lance forte da
Historia de Portugal, sempre um ^lendes Ramires
avultou grandiosamente pelo heroísmo, pela lealdade,
pelos nobres espíritos. Um dos mais esforçados da li-
nhagem, Lourenço, por alcunha o Cortador, collaço de
Affonso Henriques (com quem na mesma noite, para
receber a pranchada de cavalleiro, vellára as armas
na Sé de Zamora), apparece logo na batalha d'Ou-
rique, onde também avista Jesus-Christo sobre finas
nuvens d"ouro, pregado numa cruz de dez covados.
I.r.lSTUK CASA DE RA.MIliKS
No cerco de Ta^■i^a, !Maitim Ramires, íreire de San-
ThiagO; arromba a golpes de acha um postigo da
Couraça, rompe por entre as cimitarras que lhe de-
cepam as duas mãos, e surde na quadrella da torre
albarran, com os dous pulsos a esguichar sangue,
bradando alegremente ao IMestre: — «D. Payo Peres,
Tavira é nossa ! Real, Real por Portugal ! » O velho
Egas Ramires, fechado na sua Torre, com a levadiça
erguida, as barbacans erriçadas de frecheiros, nega
acolhida a El-Rei D. Fernando e Leonor Telles que
corriam o Norte em folgares e caçadas — para que a
presença da adultera nâo macule a pureza extreme
do seu solar! Em Aljubarrota, Diogo Ramires o Tro-
vador desbarata um troço de besteiros, mata o Adian-
tado-mór de Galliza, e.por elle. nâo por outro, cahe
derribado o pendão real de Castella, em que ao fim
da lide seu irmão d'armas, D. Antão d' Almada, se
embrulhou para o levar, dançando e cantando, ao
Mestre d"Aviz. Sob os muros d'Arzilla combatem
magnificamente dois Ramires, o edoso Sueiro e seu
neto Fernão, e deante do cadáver do velho, trespas-
sado por quatro virotes, estirado no pateo da Alcá-
çova ao lado do corpo do Conde de Marialva — Af-
tbnso V arma juntamente cavalleiros o Príncipe seu
filho e Fernão Ramires, murmurando entre lagrimas:
«Deus vos queira tão bons como esses que ahi ja-
zem!...») ;Mas eis que Portugal se faz aos mares! E
A ir.i.i sTíiK CASA ni-: r>\.\imF.s
raras são então as armadas e os combates de Oriente
em que se não estorce um Ramires — ficando na len-
da tragico-maritima aquelle nobre capitão do Golpho
Pérsico, Ralthazar Ramires, que, no naufrágio da
Santa Barbara, reveste a sua pesada armadura, e no
castello de proa, hirto, se afunda em silencio cora a
náu que se afunda, encostado á sua grande espada.
Em AIcacer-Kebir, onde dous Ramires sempre ao
lado d'El-Rei encontram morte soberba, o mais no-
vo, Paulo Ramires, pagem do Guião, nem lezo nem
ferido, mas não querendo mais vida pois que El-Rei
não vivia, colhe um ginete solto, apanha uma acha
d'armas, e gritando:— «Vai-te, alma, que já tar-
das, servir a de teu senhor!» — entra na chusma
mourisca e para sempre desapparece. Sob os Phi-
lippes, os Ramires, amuados, bebem e caçam nas
suas terras. Reapparecendo com os Braganças, ura
Ramires, Vicente, Governador das Armas d'Entre-
Douro e Minho por D. João IV, raette a Castella,
destroça os Hespanhoes do Conde de Venavente, e
toma Fuente-Guifial. a cujo furioso saque preside
da varanda d" um Convento de Franciscanos, em
mangas de camisa, comendo talhadas de melancia.
Já. porém, como a nação, degenera a nobre raça...
Álvaro Ramires, valido de D. Pedro lí; brigão faça-
nhudo, atordoa Lisboa cora arruaças, íurta a mulher
d'um Vedor da Fazenda que mandara matar a pau-
A ILLISTHE CASA DE RAMIRES
ladas por pretos, incendeia em Sevilha depois de per-
der cem dobrões uma casa de tavolagem, e termina
por commandar uma urca de piratas na frota de
Murad o Multraptllio. No reinado do Sr. D. João ^'
Nuno Ramires brilha na Corte, ferra as suas mulas
de prata, e arruina a casa celebrando sumptuosas
festas de Egreja, em que canta no coro vestido com
o habito de Irmão Terceiro de S. Francisco. Outro
Ramires, Christovam, Presidente da Mesa de Con-
sciência e Ordem, alcovita os amores d'el-rei D. José I
com a filha, do prior de Sacavém. Pedro Ramires,
Provedor e Feitor-mór das Alfandegas, ganha fama
em todo o Reino pela sua obesidade, a sua chalaça,
as suas proezas de glutão no Paço da Bemposta com
o arcebispo de Thessalonica. ígnacio Ramires acom-
panha D. João VI ao Brazil como Reposteiro-IVIór.
negoceia em negros, volta com um bahíi carregado
de peças d'ouro que lhe rouba um administra-
dor, antigo frade capuchinho, e morre na seu solar
da cornada de um boi. O avô de Gonçalo, Damião,
doutor liberal dado ás Musas, desembarca com
1). Pedro no Mindello, compõe as empoladas procla-
mações do Partido, funda um jornal, o Anti-Frade,
e depois das Guerras Civis arrasta uma existência
rheumatica em Santa Ireneia, embrulhado no seu
capotão de briche, traduzindo para vernáculo, com
um lexicon e um pacote de simonte, as obras de Va-
A ILI.[ STliK CASA DK IJAMIRES
lerius Flaccus. O pae de Gonçalo, ora Regenerador,
ora Histórico, vivia em Lisijoa no Hotel Universal,
gastando as solas pelas escadarias do Banco Hypo-
thecario e pelo lagedo da Arcada, até que um Mi-
nistro do Iieino, cuja concubina, corista de S. Carlos,
elle fascinara, o nomeou, (para o afastar da Capital)
Governador Civil de Oliveira. Gonçalo, esse, era l)a-
charel formado com um li no terceiro anno.
E n'esse anno justamente se estreou nas Lettras
Gonçalo Mendes Ramires. Um seu companheiro de
casa, José Lúcio Castanheiro, algarvio muito magro,
muito macilento, de enormes óculos azues, a quem
Simão Craveiro ''chamava o « Castanheiro Patrioti-
nheiro», fundara um Semanário, a Pátria — «com
o alevantado intento (affh-mava sonoramente o Pros-
pecto) de despertar, não só na mocidade Académica,
mas em todo o paiz, do cabo Silleiro ao cabo de
Santa Maria, o amor tão arrefecido das bellezas,
das grandezas e das glorias de Portugal!» Devorado
por essa idéa, «a sua Idéa», sentindo n'ella uma
carreira, quasi uma missão. Castanheiro incessan-
temente, com ardor teimoso de Apostolo, clamava
pelos botequins da Sophia, pelos claustros da Uni-
versidade, pelos quartos dos amigos entre a fumaça
dos cigarros,— «a necessidade, caramba, de reatara
tradição! de desatulhar, caramba, Portugal da allu-
vião do estrangeirismo!» — Como o Semanário ap-
.V ILLISTRE CASA DE RAMIRES
pareceu regularmente durante três Domingos, e pu-
blicou realmente estudos recheiados de griphos e ci-
tações sobre as Capellas da Batalha, a Tomada d'Or-
inuz, a Embaixada de Trintão da Cunha, começou
logo a ser considerado uma aurora, ainda pallida mas
segura, de Renascimento Nacional. E alguns bons es-
píritos da Academia, sobretudo os companheiros de
casa do Castanheiro, os três que se occupavam das
cousas do saber e da intelligencia (porque dos três
restantes um era homem de cacete e forças, o outro
guitarrista, e o outro «premiado»), passaram, aqueci-
dos por aquella chamma patriótica, a esquadrinhar na
Bibliotheca, nos grossos tomos nunca d'antes visi-
tados de Fernam Lopes, de Ruy de Pina, dWz.urara.
proezas e lendas — «só portuguezas, só nossas (como
supplicava o Castanheiro), que refizessem á nação
abatida uma consciência da sua heroicidade!» As-
sim crescia o Cenáculo Patriótico da casa das Seve-
1^ rinas. E fòi então que Gonçalo Mendes Ramires, moço
muito affavel, esvelto e loiro, d'uma brancura sâ de
porcelana, com uns finos e risonhos olhos que fa-
cilmente se enterneciam, sempre elegante e apurado
na batina e no verniz dos sapatos — apresentou ao
Castanheiro, n'um domingo depois do almoço, onze ti-
t ras de papel intituladas D. Guiomar. N'ellas se con-
tava a velhíssima historia da castellâ, que, emquanto
longe nas guerras do Ultra-mar o castellâo barbudo
A ILLISTRK CASA 1)K UAMIUKS
(' cingido de ferro atira a acha-d'armas ás portas de
.Icriisalom, recebe ella na sua camará, com os braços
nús. por noite de Maio e de lua, o pagem de annel-
lados cabellos... Depois ruge o inverno, o castellâo
\olta, mais ])arbudo, com um bordão de romeiro.
Pelo villico do Castello, homem espreitador e de amar-
gos sorrisos, conhece a traição, a macula no seu nome
lâa puro, honrado em todas as Hespanhas! E ai do
pagem ! ai da dama ! Logo os sinos tangem a finados,
.lá no patim da Alcáçova o verdugo, de capuz escar-
late, espera, encostado ao machado, entre dous cepos
cobertos de pannos de dó... E no final choroso da
If. Cufo/nai-j como em todas essas historias do Ro-
manceiro d'Amor, também brotavam rente ás duas
sepulturas, escavadas no ermo, duas roseiras brancas
a que o vento enlaçava os aromas e as rosas. Ue sorte
que (como notou José Lúcio Castanheiro, coçando pen-
sativamente o queixo) não resaltava n'esta D. Guio-
nmr nada que íosse «só portuguez, só nosso, abro-
lhando do solo e da raça!» Mas esses amores lamen-
tosos passavam n*um solar de Riba-Côa: os nomes dos
cavalleiros, Remarigues, Ordonho, Froylas, Gutierres,
tinham um delicioso sabor godo : em cada tira resoa-
vam bravamente os genuínos : « Bofú ! ... Mentes pela
iiorja ! ... Pagem, o meu murzello .'...»: e através de
ioda esta vernaculidade circulava uma sufficiente
lurba de cavallaricos com saios alvadios, beguinos
10 A ILLlSTlíE CASA DE RAMIUES
sumidos na sombra das engulas, ovençaes sopezando
fartas bolsas de couro, uchòes espostejando nédios
lombos de cerdo ... A Novella portanto marcava um
salutar retrocesso ao sentimento nacional.
— E depois (accrescentava o Castanheiro) este
velhaco do Gonçalinho surde com um estylo terso,
másculo, de boa côr archaica... l)"optima cor ar-
chaica! Lembra até o Bobo, o Monge de Cister!...
A Guiomar, realmente, é uma castellã vaga. da Bre-
tanha ou da Aquitania. !IMas no villico, mesmo no
castellâo, já transparecem portuguezes, bons portu-
guezes de fibra e d'alma, d"entre Douro e Cavado . . .
Sim senhor ! Quando o Gonçalinho se enfronhar den-
tro do nosso passado, das nossas chronicas, temos em-
fim nas Lettras um hoiiiem que sente biun o torrão,
sente bem a raça !
D. Guiomar encheu três paginas da Pátria.
N'esse Domingo, para celebrar a sua entrada na Litte-
ratura, Gonçalo Mendes Tiamires pagou aos camara-
das do Cenáculo e a outros amigos uma ceia — ondr
íoi acclaraado, logo depois do frango com ervilhas.
quando os moços do Camolino, esbaforidos, renova-
vam as garrafas de Collarcs, como «o nosso Walter
Scott ! » Elle, de resto, annunciára já com simplici-
dade um Romance em dois volumes, fundado nos
annaes da sua Casa, n'um rude fcíito de sublime or-
gulho de Tructesindo ^lendes Ramires, o amigo e
A ILUSTRE CASA DK RAMIRES 11
Alfores-mór de D. Sancho I. Por temperamento, por
aquelle saber especial de trajes e alfaias que reve-
lara na D. Guiomar, até pela antiguidade da sua
linhagem, Gonçalinho parecia gloriosamente votado a
restaurar em Portugal o Piomance Histórico. Possuía
uma missão — e começou logo a passear pela Calçada,
pensativo, com o gorro sobre os olhos, como quem
anda reconstruindo um mundo. No acto d"esse anno
levou o Pi.
Quando regressou das ferias para o Quarto-Anno
já não refervia na rua da Mathematica o Cenáculo ar-
dente dos Patriotas. O Castanheiro, formado, vegetava
em Villa Real de Santo António : com elle desappa-
recera a Pátria : e os moços zelosos que na Biblio-
theea esquadrinhavam as Chronicas de Fernam Lo-
pes e de Azurara, desamparados por aquelle Apostolo
que os levantava, recahiram nos romances de Georges
Ohnet e retomaram á noite o taco nos bilhares da
Sophia. Gonçalo voltava também mudado, de luto
pelo pae que morrera em Agosto, com a barba cres-
cida, sempre affavel e suave, porém mais grave,
averso a ceias e a noites errantes. Tomou um quarto
no Hotel Mondego, onde o servia, de gravata branca,
um velho creado de Santa Ireneia, o Bento: — e os
seus companheiros preferidos foram três ou quatro
rapazes que se preparavam para a Politica, folhea-
vam attentamente o Diário das Camarás, conheciam
lá ■ A II.LrSTIÍí: CASA DK RAMIRES
alguns enredos da Corte, proclamavam a necessidade
d'iima «Orientação positiva» e d'um «largo fomento
rural», consideravam como leviandade reles e ja-
cobina a irreverência da Academia pelos Dogmas, e,
mesmo passeando ao luar no Choupal ou no Penedo
da Saudade, discorriam com ardor sobre os dous
Chefes de Partido — o Braz Victorino, o homem novo
dos Regeneradores, e o velho Barão de S. Fulgençio,
chefe clássico dos Históricos, inclinado para os Re-
generadores, por que a Regeneração lhe representava
tradicionalmente idéas de conservantismo, de elegância
culta e de generosidade, Gonçalo frequentou então o
Centro Regenerador da Couraça, onde aconselhava á
noite, tomando chá preto, «o fortalecimento da aucto-
ridade da Coroa», e «uma forte expansão colonial!»
Depois, logo na Primavera, desmanchou alegremente
esta gravidade politica: e ainda tresnoitou, na taberna
do Camolino, em bacalhoadas festivas, entre o estridor
das guitarras. ^las não alludio mais ao seu grande
Romance em dous volumes : e ou recuara ou se es-
quecera da sua missão d"Arte Histórica. Realmente
só na Paschoa do Quinto-Anno retomou a penna —
para lançar, na Gazeta do Porto, contra um seu pa-
trício, o Dr. André Cavalleiro. que o [Ministério do
S. Fulgençio nomeara Governador civil de Oliveira,
duas correspondências muito acerbas, d'um rancor
intenso e pessoal, (a ponto de chasquear « a feroz
A ILLlSTlíK CASA DE UAMlllES l.'í
l)igodeira ne<?ra de S. Ex.'* » ). Assignara Juvenal,
como outr'ora o pae, quando publicava commiini-
cados políticos d'01iveira n"essa mesma Gazeta do
Povlo, jornal amigo, onde um Vlllar Mondes, seu
remoto parente, redigia a Revinta Estrangeira. Mas
Irra aos amigos no Centro— ^( os dous botes decisivos
que atirariam o Sr. Cavalleiro abaixo do seu Cavai-
lo ! » E um d'esses moços sérios, sobrinho do Bispo
de Oliveira, não disfarçou o seu assombro:
— Oli Gonçalo, eu sempre pensei que você e o
Cavalleiro eram Íntimos! Se bem me lembro quando
voct'' chegou a Coimbra, para os Preparatórios, viveu
na casa do Cavalleiro, na rua de S. João... Pois não
ha uma amizade tradicional, quasi histórica, entro
Kamires e Cavalleiros ? . . . Pai pouco conheço Oliveira,
nunca andei para os vossos sitios; mas até creio que
Corinde. a quinta do Cavalleiro. pega com Santa
íreneia !
E Conçalo enrugou a face, a sua risonha e lisa
face, para declarar seccamente que Corinde não pe-
gava com Santa Íreneia : que entre as duas terras
corria muito justificadamente a ribeira do Coice: e
que o Sr. André Cavalleiro. e sobre tudo Cavallo,
era um anima! detestável que pastava na outra
margem! — O sobrinho do Bispo saudou e exclamou :
— Sim senhor, boa piada!
Um anno depois da Formatura, Gonçalo íoi a
14 A ILUSTRE CASA DE RAMIRES
Lisl)oa por causa da hypotheca da sua quinta de
Praga, junto a Lamego, que certo foro annual de dez
réis e meia gallinha, devido ao Abbade de Praga,
andava empecendo terrivelmente nos Conselhos do
Banco Ilypotíiecario : — e também para conhecer mais
estreitamente o seu Cheíe, o Braz Victorino, mostrar
lealdade e submissão partidária, colher algum fino
conselho de conducta Politica. Ora uma noite, vol-
tando de jantar em casa da velha Marqueza de Lou-
redo, a «tia Louredo», que morava a Santa Clara,
esbarrou no Rocio com José Lúcio Castanheiro, en-
tão empregado no Ministério da Fazenda, na repar-
tição dos Próprios Nacionaes. Mais defecado, mais
macilento, com uns óculos mais largos e mais tene-
brosos, o Castanheiro ardia todo, como em Coimbra,
ha cliamma da sua ídéa — «a resurrciçâo do senti-
mento portuguez!» E agora, alariíando a proporções
condignas da Capital o plano da Pátria, labutava
devoradoramente na creação d'unia ilevista quinze-
nal, de setenta paginas, com capa azul, os Annaes
de Litteratura e de Historia. Era uma noite de
Maio, macia e quente. E, passeando ambos em torno
das fontes seccas do Rocio, Castanlieiro, que sobra-
çava um rolo de papel e um gordo folio encaderna-
do em bezerro, depois de recordar as cavaqueiras
geniaes da rua da IMisericordia, de maldizer a falta
de intellectualidade de Villa Real de Santo António
V Il.l.rSTHK CASA DE HAMIliKS
— voltou sofregamente ;i sua Idéa, e supplicou a
Oonçalo !Mendes Ramires que lhe cedesse para os
Annaes esse Romance que elle annunciára em Coim-
bra, sobre o seu avoengo Tructesindo Ramires, Âl-
feres-mór de Sancho í.
Gonçalo, rindo, confessou que ainda não come-
çara essa grande obra !
— Ah! murmurou o Castanheiro, estacando, com
os negros óculos sobre elle, duros e desconsolados.
Então voct' não persistio?... Não permaneceu íiel d
Idéa?...
Encolheu -os hombros, resignadamente, já acos-
tumado, atravez da sua missão, a estes desfallecimen-
tos do Patriotismo. Nem consentio que Gonçalo, hu-
milhado perante aquella Fé que se mantivera tão
pura e servidora — alludisse, como desculpa, ao in-
ventario laborioso da Casa, d(>pois da morte do papá...
— Bem. bem! Acabou! Proscratinare luzitanum
esl. Trabalha agora no verão... Para Portuguezes,
menino, o verão é o tempo das bellas fortunas e dos
rijos leitos. Xo verão nasce Nun' Alvares no Bomjar-
dim ! No verão se vence em Aljubarrota! No verão
chega o Gama á índia!... E no verão vae o nosso
Gonçalo escrever uma novellasinha sublime!... De
resto os Animes só apparecem em Dezembro, cara-
cteristicamente no Primeiro de Dezembro. E você em
três mezes resuscita um mundo. Serio, Gonçalo Men-
16 A ILLl STKK CASA DK KAMIKES
des ! . . . É um dever, um santo dever, sobretudo para
os novos, collaborar nos Aniiaes. Portugal menino,
morre por falta de sentimento nacional ! Nós estamos
immundameute morrendo do mal de não ser Porta-
guezes i
Parou — -ondeou o braço magro, como a correia
d'um látego, n'um gesto que açoutava o Rocio, a
Cidade, toda a Nação. Sabia o amigo Gonçalinho o
segredo d'esta borracheira sinistra? É que, dos Por-
tuguezes, os peores despresavam a Pátria — e os
melhores ignoravam a Pátria. O remédio?... Re-
velar Portugal, vulgarisar Portugal. Sim, amigui-
nho! Organizar, com estrondo, o reclamo de Portu-
gal, de modo que todos o conheçam— ao menos como
se conhece o Xarope Peitoral de James, hein ? Ê quo
todos o adoptem — ao menos como se adoptou o sa-
bão do Congo, hein? E conhecido, adoptado, que to-
dos o amem emíim, nos seus heróes, nos seus feitos,
mesmo nos seus defeitos, em todos os seus padrões,
e até nas veras pedrinhas das suas calçadas! l*ara esse
íim. o maior a emprehender n'este apagado século
da nossa Historia, fundava (dle os Aiinaes. Para ber-
rar! Para atroar Portugal, aos bramidos sobre os
telhados, com a noticia inesperada da sua grande-
za! E aos descendentes dos que outr'ora lizeram o
licino incumbia, mais que aos outros, o cuidado pie-
doso de o refazer... Como? Reatando a tradição, ca-
ramba !
A ILUSTRE CASA DE IIAMIUES 17
— Assim, vocês! Por essa historia de Portugal
lóra, vocês são uma enfiada de Ramires de toda a
belleza. Mesmo o desembargador, o que comeu n'uma
ceia de Natal dois leitões!... É apenas uma barriga.
-Mas que barriga!^ Ha n ella uma pujança heróica que
prova raça, a raça mais forte do que prometle a força
humana, como diz Camões. Dois leitões, caramba I
Ate enternece ! . . . E os outros Ramires, o de Silves,
o de Aljubarrota, os de Arzilla, os da índia! E os
cinco valentes, de quem você talvez nem saiba, que
morreram no Salado ! Pois bem, resuscitar estes va-
rões, e mostrar n*elles a alma íaçanhuda, o querer
sublime que nada verga, é uma soberba lição aos
novos... Tonifica, caramba! Pela consciência que
renova de termos sido tão grandes sacode este cho-
cho consentimento nosso em permanecermos peque-
nos ! É o que eu chamo reatar a tradição... E de-
pois feito por você próprio, Piamires, que chie ! Ca-
ramba, que c/iic! É um fidalgo, o maior fidalgo de
Portugal, que, para mostrar a heroicidade da Pátria,
abre simplesmente, sem sahir do seu solar, os ar-
chivos da sua Casa, velha de mais de mil annos.
K de rachar ! . . . E você não precisa fazer um grosso
romance... Nem um romance muito desenvolvido
está na Índole militante dii Revista. Basta um conto,
de vinte ou trinta paginas... Está claro, os Ainiaes
por ora não podem pagar. Também, você não pre-
18 A ILUSTKE CASA DE RAMIRKS
cisa! E que diabo! não se trata do pccunia, mas
d' ama grande renovação social... E depois, menino,
a littoratura leva a tudo em Portugal. Eu sei que o
Gonçalo em Coimbra, ultimamente, frequentava o
Centro Regenerador. Pois, amigo^ de folhetim em
folhetim, se chega a S. Bento ! A penna agora, como
a espada outr'ora, edifica reinos . . . Pense você n'isto 1
E adeus! que ainda hoje tenho de copiar, para lettra
christâ, este estudo do Henriques sobre Ceylâo . . .
Você não conhece o Henriques ? . . . Não conhece.
Ninguém conhece. Pois quando na Europa, n'essas
grandes Academias da Europa, ha uma duvida sobre
a Historia ou a Litteratura cingaleza, gritam para cá,
para o Henriques!
Abalou, agarrado ao seu rolo e ao sou tomo —
e- Gonçalo ainda o avistou, na porta e claridade da
tabacaria Nunes, agitando o braço esguio d'Apostolo
deante d'um sujeito obeso, de vasto colletí^ branco,
que recuava, com espanto, assim perturbado no
quieto gozo do seu grosso charuto e da doce noite
de IMaio.
O F^idalgo da Torre recolheu para o Bragança,
iaiprossionado, ruminando a idéa do Patriota. Tudo
n"ella o seduzia — e lhe convinha: a sua collabora-
çâo n*unia Revista considerável, de setenta paginas,
oin companhia de Escriptores doutos, lentes das Es-
colas, antigos Ministros, até Conselheiros (TEstado:
A ILLUSTRE CASA DE «AMIRES IO
a antiguidade da sua raça, mais antiga que o Reino,
popularisada por uma historia d'heroica belleza, -em
que com tanto fulgor resaltavam a bravura e a so-
berba d"ahiia dos Ramires ; e emfim a seriedade aca-
démica do seu espirito, o seu nobre gosto pelas in-
vestigações eruditas, apparecendo no momento em
que tentava a carreira do Parlamento e da Po-
litica!... E o trabalho, a composição moral dos ve-
tustos Ramires, a resurreiçâo archeologica do viver
Affonsino, as cem tiras de almaço a atulhar de prosa
forte — não o assustavam... Não! porque felizmente
já possuia a «sua obra» — e cortada em bom panno,
alinhavada com linha hábil. Seu tio Duarte, irmão de
sua mãe (uma senhora de Guimarães, da casa das
Balsas), nos seus annos de ociosidade e imaginação,
de 184Ó a i850, entre a sua carta de Bacharel e o
seu Alvará de Delegado, fora poeta — e publicara no
Bardo, semanário de Guimarães, um Poemeto em
verso solto, o Casfello de Santa Ireneia, que assignára
com duas iniciaes D. B. Esse castello era o seu, o Paço
antiquíssimo de que restava a negra torre entre os li-
moeiros da horta. E o Poemeto cantava, com romântico
garbo, um lance de altivez feudal em que se subli-
mara Tructesindo Ramires, Alferes-mór de Sancho I,
durante as contendas de Aífonso 11 e das senhoras
Infantas. Esse volume do Bardo, encadernado em
marroquim, com o brazâo dos Ramires, o açor negro
âO A IJXISTIÍE CASA DE P.A.MIRES
' em campo escarlate, ficara no Archi^'0 da Casa como
um trecho da Chronica heróica dos Ramires. E mui-
tas vezes em pequeno Gonçalo recitara, ensinados
pela mamã, os primeiros versos do Poema, de tão
harmoniosa melancolia :
Na pallidez da tarde, entre a folhagem
Que o outomno amarellece. ..
Era com esse sombrio íeito do seu vago avoongo
que Gonçalo Mendes Ramires decidira em Coimbra,
quando os camaradas da Pátria e das ceias o accla-
mavam «o nosso Walter Scott», compor mn Roman-
ce moderno, d" um realismo épico, em dous robustos
volumes, formando um estudo ricamente colorido da
Meia-Eidade Portugueza... E agora lhe servia, e com
deliciosa facilidade, para essa Novella curta e sóbria,
* de trinta paginas, que convinha aos Aiinaes.
No seu quarto do Bragança abrio a varanda. E
debruçado, acabando o charuto, na dormente suavi-
dade da noite de Maio, ante a magestade silenciosa
do rio e da lua, pensava regaladamente que nem te-
ria a canceira d'esmiuçar as chronicas e os íolios
massudos... Com ef feito! toda a reconstrucçâo His-
tórica a realisára, e solidamente, com um saber des-
tro, o tio Duarte. O Paço acastellado de Santa íre-
neia, com as fundas carcovas, a torre albarran, a
A ILLI STUK (1ASA DE líA.MIIíKS '21
alcáçova, a masmorra, o pharol e o balsâo: o velho
Triictesindo, enorme, e os seus flocos de cabellos e
barbas ancestraes derramados sobre a loriga de ma-
lha; os servos mouriscos, de surrões de couro, ca-
vando os regueiros da horta; os oblatos resmungan-
do á lareira as Vidas dos Santos; os pagens jo-
gando no campo do tavolado — tudo resurgia, com
verídico realce, no Poemeto do tio Duarte! Ainda
recordava mesmo certos lances: o truâo açoutado;
o íestim e os uchôes que arrombavam as cubas de
cerveja; a jornada de Violante Ramires para o Mos-
teiro de Lorvão...
Junto á fonte mourisca, entre os ulmeiros,
A cavalgada pára , . .
O enredo todo com a sua paixão de grandeza
barbara, os recontros bravios em que se saciam a
punhal os rancores de raça, o heróico íallar despe-
dido de lábios de ferro — lá estavam nos versos do
titi, sonoros e bem balançados...
Monge, escuta ! O solar de D. Ramires
Por si, e pedra a pedra se aluirá,
Se jamais um bastardo lhe pisasse,
Com sapato aviltado, as lages puras !
i2
A ILLISTHE CASA DE RAMIRES
Na realidade só lhe restava transpor as formas
fluidas do Roniantismo de 1846 para a sua prosa tersa
e máscula (como confessava o Castanheiro), de ópti-
ma côr archaica, lemhrando o Bobo. E era um pla-
gio ? Não ! A quem, com mais seguro direito do que
a elle, Raniir^s. pertencia a memoria dos Ramires
históricos ? A resurreição do velho Portugal, tão bella
no Castello de Sanfa Ireneni, não era obra indivi-
dual do tio Duarte — mas dos Herculanos, dos Re-
bellos, das Academias, da erudição esparsa. E, de
resto, quem conhecia hoje esse Poemeto, e mesmo o
Bardo, delgado semanário que perpassara, durante
cinco mezes, ha cincoenta annos, n'uma villa de Pro-
víncia?...! Não hesitou mais, seduzido. E em quanto
se despia, depois de beber aos goles um copo d*agua
com bicarbonato de soda, já martellava a primeira
linha do conto, á maneira lapidaria da Sfdammbô :
— «Era nos Paços de Santa Ireneia, por uma noite
d'inverno, na sala alta da Alcáçova...»
Ao outro dia, procurou .Tose Lúcio Castanheiro
na repartição dos Próprios Nacionaes, á pressa, — por
que, depois d'uma conferencia no Banco Hypotheca-
rio, ainda promettera acompanhar as primas Chellas
a uma Exposição de Bordados na livraria Gomes. E
annunciou ao Patriota que, positivamente, lhe asse-
gurava para o primeiro numero dos Annaes a No-
A ILLlSTilE CASA DE IIAMIRES 2.'}
vella, a ijae já decidira o titulo — a Torre de D. Ra-
jiiires :
— Que lhe parece?
Deslumbrado. José Castanheiro atirou os ma-
grissimos braços, resguardados pelas mangas d"alpa-
ca, até á abobada do esguio corredor em que o re-
cebera :
— Sublime ! . . . A Torre de D. Ramires ! ... O
grande feito de Tructesindo ^lendes Ramires con-
tado por Gonçalo Mendes Ramires!... E tudo na mes-
ma Torre! Na Torre o velho Tructesindo pratica o
íeito; e setecentos annos depois, na mesma Torre,
o nosso Gonçalo conta o feito! Caramba, menino,
carambissima ! isso é que é reatar a tradição !
Duas semanas depois, de volta a Santa Ireneia,
Gonçalo mandou um creado da quinta, com uma car-
roça, a Oliveira, a casa de seu cunhado José Barrôlo,
casado com Gracinha Ramires, para lhe trazer da
rica livraria clássica que o Barròlo herdara do tio
Deão da Sé todos os volumes da Historia Genealo-
[jica — «e (accrescentava n'uma carta) todos os car-
tapacios que por lá encontrares com o titulo de
ccChronicas do Rei Fulano...» Depois, do pó das
suas estantes, desenterrou as obras de Walter Scott,
volumes desirmanados do Panorama, a Historia de
Herculano, o Bobo, o Monrje de Cister. E assim
24 A ILUSTRE CASA DE RAMIRES
abastecido, com uma íarta resma de tiras dahnaço
sobre a banca, começou a repassar o Poemeto do tio
Duarte, inclinado ainda a transpor para a aspereza
d'uma manhã de Dezembro, como mais congénere
com a rudeza íeudal dos seus avós, aquella lusida
cavalgada de donas, monges e homens d*armas
que o tio Duarte estendera,- atravez d'uma suave
melancolia outomnal, pelas veigas do Mondego...
Na pallidez da tarde, entre a folhagem
Que o outomno aniarellece. . .
Mas, como era então Junho e a lua crescia, Gon-
çalo determinou por fim aproveitar as sensações de
calor, luar e arvoredos, que lhe fornecia a aldeia —
para levantar, logo á entrada da sua Noveila, o ne-
gro e immenso Paço de Santa Ireneia, no silencio
d'uma noite d' Agosto, sob o resplendor da lua cheia.
E já enchera desembaraçadamente, ajudado pelo
Bardo, duas tiras, quando uma desavença com o seu
caseiro, o Manoel Relho, que amanhava a quinta por
oitocentos mil reis de renda, veio perturbar, na fresca
e noviça inspiração do seu trabalho, o Fidalgo da
Torre. Desde o Natal o Relho, que durante annos de
compostura e ordem se emborrachava sempre aos
domingos com alegria e com pachorra, começara a
tomar, três e quatro vezes por semana, bebedeiras
A ILUSTRI-: CASA OK UAMIltKS 23
desabridas, escandalosas, em ([iie espancava a mu-
lher, atroava a quinta de berros, e saltava para a
estrada, estruedelhado, de varapau, desafiando a quieta
aldeia. Por fim, uma noite em que Gonçalo, á banca,
depois do chá, laboriosamente escavava os íossos do
Paço de Santa Ireneia — de repente a Rosa cozinhei-
ra rompeu a gritar «Aqui d'El-rei contra o Relho!»
E, atravez dos seus brados e dos latidos dos cães,
uma pedra, depois outra, baterajn na varanda vene-
rável da livraria ! Enfiado, Gonçalo Mendes Ramires
pensou no revólver... Mas justamente n'essa tarde o
creado, o Bento, descera aquella sua velha e única
arma á cozinha para a desenferrujar e arear! Então,
atarantado, correu ao quarto, que fechou á chave, g
empurrando contra a porta a commoda com tão de- #
sesperada anciedade que frascos de crystal, um coíre
de tartaruga, até um crucifixo, tombaram e se par-
tiram. Depois gritos e latidos findaram no pateo —
mas Gonçalo não se arredou n'essa noite d'aquelle
refugio bem defendido, fumando cigarros, ruminan-
do um furor sentimental contra o Relho, a quem
tanto perdoara, sempre tão aífavelmente tratara, e
que apedrejava as vidraças da Torre! Cedo, de ma-
nhã convocou o Regedor; a Rosa, ainda tremula,
mostrou no braço as marcas roxas dos dedos do
Relho; e o homem, cujo arrendamento findava em
Outubro, foi despedido da quinta com a mulher, a
26 A ILLrSTUE f.ASA DE R.VMIP.ES
arca e o catre. Immediatamente appareceu um la-
vrador dos Bravaes, o José Casco, respeitado em
toda a fregaezia pela sua seriedade e forca espan-
tosa, propondo ao fidalgo arrendar a Torre. Gon-
çalo Mendes Ramires porém, já desde a morte do
pae, decidira elevar a renda a novecentos e cin-
coenta mil réis: — e o Casco desceu as escadas, de
cabeça descahida. Voltou logo ao outro dia, reper-
correu miudamente toda a quinta, esfarellou a terra
entre os dedos, esquadrinhou o curral e a adega,
contou as oliveiras e as cepas: e n"um esforço, em
que lhe arfaram todas as costellas, oílereceu nove-
centos e dez mil réis! Gonçalo não cedia, certo da
sua equidade. O José Casco ^'oltou ainda com a mu-
lher; depois, n"um domingo, com a mulher e' ura
compadre, — e era uni coçar lento do queixo rapado,
umas voltas desconfiadas em torno da eira e da horta,
umas demoras sumidas dentro da tulha, que torna-
vam aquella manhã de Junho intoleravelmente longa
ao Fidalgo, sentado n"um banco de pedra do jardim,
debaixo d' uma mimosa, com a Gazeta do Porto.
Quando o Casco, pallido, lhe veio ofíerecer novecen-
tos e trinta mil réis — Gonçalo Mendes Ramires ar-
remessou o jornal, declarou que ia elle, por sua
conta, amanhar a propriedade, mostrar o que era
um torrão rico, tratado pelo saber moderno, com
phosphatos, com machinas! O homem de Bravaes,
A ILLISTRE CASA DE r.A.MUiES 27
então, arrancou um fundo suspiro, acceitou os no-
vecentos e cincoenta mil reis. Á maneira antiga o
Fidalgo apertou a mão ao lavrador — que entrou na
cozinha a enxugar um largo copo de vinho, espon-
jando na testa, nas cordoveias rijas do pescoço, o
suor anciado que o alagava.
Mas, como entulhada por estes cuidados, a veia
abundante de Gonçalo estancou — nâo foi mais que
um fio arrastado e turvo. Quando n'essa tarde se
accomodou á banca, para contar a sala d'armas> do
Paço de Santa Ireneia por uma noite de lua — só
conseguiu converter servilmente n'uma prosa agua-
da os versos lisos do tio Duarte, sem relevo que
os modernisasse, desse magestade senhorial ou bel-
lesa saudosa áquelles macissos muros onde o luar,
deslisando atravez das rexas, salpicava scentelhas
pelas pontas das lanças altas, e pela cimeira dos
raorriões . . . E desde as quatro horas, no calor e
silencio do domingo de .Junho, labutava, empur-
rando a penna como lento arado em chão pedrego-
so, riscando logo rancorosamente a linha que sen-
,tia deselegante e molle, ora n'um reboliço, a sacudir
e reenfiar sob a mesa os chinellos de marroquim,
ora immovel e abandonado á esterilidade que o tra-
vava, com os olhos esquecidos na Torre, na sua dif-
íicillima Torre, negra entre os limoeiros e o azul,
toda envolta no piar e esvoaçar das andorinhas.
28 A ILLISTHE CASA DE HAMIUES
Por fim, descorçoado, arrojou a peima que tão
desastrosamente emperrara. E íechando na gaveta,
com uma pancada, o volume precioso do Bardo:
— Irra! Estou perfeitamente entupido! É este ca-
lor! E depois aquelle animal do Casco, toda a ma-
nhã ! . . .
Ainda releu,, coçando sombriamente a nuca, a
derradeira linha rabiscada e suja:
— « ... Na sala altaneira e larga, onde os lar-
gos e pallidos raios da lua... » Larga, largos!... E
os pallidos raios, os eternos pai/idos raios!... Tam-
bém este maldito castelio, tão complicado!... E este
D. Tructesindo, que eu não apanho, tão antigo!...
Emfim, um horror!
Atirou, n'um repellâo, a cadeira de couro; cra-
vou, com furor, um charuto nos dentes; — e abalou
da livraria, batendo desesperadamente a porta, n'um
tédio immenso da sua obra, d'aquelles confusos e
enredados Paços de Santa Ireneia, e dos seus avós,
enormes, resoantes, chapeados de íerro, e mais va-
gos que fumos.
II
Bocejando, apertando os cordões das largas pan-
talonas de seda que lhe escorregavam da cinta, Gon-
çalo, que durante todo o dia preguiçara, estirado no
divan de damasco azul, com uma vaga dòr nos rins,
atravessou languidamente o quarto para espreitar,
no corredor, o antigo relógio de cliarâo. Cinco ho-
ras e meia ! . . . Para desannuviar, pensou n'uma
caminhada pela fresca estrada dos Bravaes. Depois
numa visita (devida já desde a Paschoa!) ao velho
Sanches Lucena, eleito novamente deputado, nas
Kleições Geraes de Abril, pelo circulo de Villa Cla-
ra. Mas a jornada á Feifnsa. á quinta do Sanches
Lucena, demanda^■a uma hora a cavallo, desagradá-
vel com aquella teimosa dòr nos rins que o filara
na véspera á noite, depois do chá, na Assembleia da
Villa. E. indeciso, arrastava os passos no corredor,
30 A ILUSTRE CASA DE RAMIRES
para gritar ao Bento ou á Rosa que lhe subissem
uma limonada, quando, atravez das varandas aber-
tas, resooLi, um vozeirão de grosso metal, que gra-
cejando mais se engrossava, rolava pelo pateo, n'uma
cadencia cava de malho malhando:
— Oh sò Gonçalo! Oh sô Gonçalâo ! Oh sô Gon-
çalissimo iMendes Piamires ! . . .
Reconheceu logo o Tito, o António Villalobos,
seu vago parente, e seu companheiro de Villa Clara,
onde aquelle homenzarrão excellente, de velha raça
Alemtejana, se estabelecera sem motivo, só por af-
feiçâo bucólica á villa. E havia onze annos que a atu-
lhava com os seus possantes membros, o lento re-
bombo do seu vozeirão, e a sua ociosidade espalhada
pelos bancos, pelas esquinas, pelas ombreiras das
lojas, pelos balcões das tabernas, pelas sachristias a
caturrar com os padres, até pelo cemitério a philo-
sophar com o coveiro. Era um irmão do velho mor-
gado de Cidadelhe (o genealogista), que lhe estabe-
lect^ra uma mesada de oito moedas para o conser-
var longe de Cidadelhe — e do seu sujo serralho de
moças do campo, e da obra tenebrosa a que agora
se atrellára, a Verídica Inquirição, uma Inquirição
sobre as bastardias, crimes e titulos illegitimos das
famílias fidalgas de Portugal. E Gonçalo, desde estu-
dante, amura sempre aquelle Hercules bonacheirão,
que o seduzia pela prodigiosa íorça, a incomparável
A ILUSTRE CASA DE RAMIRES 31
potencia em beber todo um pipo e em comer todo
um anho, e sobretudo pela independência, uma su-
prema independência, que, apoiada ao bengalão ter-
riíico e com as suas oito moedas dentro da algi-
beira, nada temia e nada desejava nem da Terra
nem do Céo. — Logo debruçado na varanda, gritou:
— Oh Tito, sobe!... Sobe emquanto eu me visto.
Tomas um cálice de genebra... Vamos depois pas-
sear até aos Bravaes...
Sentado no rebordo do tanque redondo e sem
agua que ornava o pateo, erguendo para o casarão a
sua franca e larga face requeimada, cheia de barba
ruiva, o Tito movia lentamente como um leque um
velho chapéo de palha:
— Não posso... Ouve lá! Tu queres hoje á noite
cear no Gago, commigo e com o João Gouveia? Vae
também o Videirinha e o violão. Temos uma tainha
assada, uma famosa. E enorme, que eu comprei
esta manhã a uma mulher da Costa por cinco tos-
tões. Assada pelo Gago!... Entendido, hein? O Gago
abre pipa nova de vinho, do Abbade de Chandim. Eu
conheço o vinho. É d"aqui, da ponta fina.
E Tito, com dous dedos, delicadamente, sacudio
a ponta molle da orelha. Mas Gonçalo, repuxando as
pantalonas, hesitava:
— Homem, eu ando com o estômago arrazado...
E desde hontem á noite uma dôr nos rins. ou no
32 A ILI.rSTKK CASA DE RAMIRES
fígado, ou no baço, Dão sei bem, n'uma d'essas en-
tranhas! . .. Até hoje, para o jantar, só caldo de gal-
linha e gallinha cosida . . . Emfim ! vá ! Mas, á cautela,
recommenda ao Gago que me prepare para mim um
franguinho assado . . . Onde nos encontramos ? Na As-
sembléa ?
O Tito despegara logo do tanque, pousando na
nuca o chapéo de palha:
— Hoje não me gasto pela Assembléa. Tenho
senhora. Das dez para as dez e meia, no Chafariz...
Vae também o Videirinha com a viola. Viva!... Das
dez para as dez e meia ! Entendido . . . E franguinho
assado para S. Ex.'\ que se queixa do rim !
E atravessou o pateo, com lentidão bovina, pa-
rando a colher n'uma roseira, junto ao portão, uma
rosa com que florio a quinzena de velludilho còr
d'azeitona.
Immediatamente Gonçalo decidira não jantar,
certo dos benefícios d'aquelle jejum até ás dez ho-
ras, depois de um passeio pelos Bravaes e pelo valle
da Riosa. E, antes de entrar no quarto para se ves-
tir, empurrou a porta envidraçada sobre a escura
escada da cozinha, gritou pela Rosa cozinheira. Mas
nem a boa velha, nem o Bento por quem também
berrou furiosamente, responderam, no pesado silen-
cio em que jaziam, como abandonados, esses som-
brios tundos de grande lage e de grande abobada
A ILLlSTItK CASA I)K liAMIRES '.VA
que restavam do antigo Palácio, restaurado por Vi-
t-entc Ramires depois da sua campanha em Castella,
incendiado no tempo de El-Rei D. José 1. Então
Oonçalo desceu dous,. degráos da gasta escadaria de
pedra e atirou outro dos longos brados com que
atroava a T.orre - desde que as campainhas andavam
desmanchadas. E descia ainda para invadir a cozi-
nha quando a Rosa acudio. Sahira para o pateo da
horta com a filha da Crispola! não sentira o Snr.
í)outor!.. .
— Pois estou a berrar ha uma hora! E nem
você nem Bento!... E por que não janto, ^'ou cear
a \'illa Clara com os amigos.
A Rosa, do sonoro fundo do corredor, protestou,
desolada. Pois o Sr. Doutor ficava assim em je-
jum até horas da noite? — Filha d"um antigo hortelão
da Torre, crescida na Torre, já cozinheira da Torre
quando Gonçalo nascera, sempre o tratara por « me-
nino », e mesmo por « seu riquinho » até que elle
partio para Coimbra e começou a ser, para ella e
para o Bento, o «Sr. Doutor». — E o Sr. Doutor,
ao menos, devia tomar o caldinho de gallinha, que
apurara desde o meio dia, cheirava que nem feito
no céo!
Gonçalo, que nunca discordava da Piosa ou do
Bento, consentio — e já subia, quando reclamou ainda
a Rosa para se informar da Crispola, uma desgra-
34 A li.l.rSTIiK CASA I)K li.VMIMES
cada viuva f[ue, com um rancho faminto de crian-
ças, adoecera pela Pasclioa de febres perniciosas.
— A Crispola vae melhor, Sr. Doutor. Já se le-
vanta. Diz a pequena que já se levanta... Mas muito
derreadinha . . .
Gonçalo desceu loi^o outro degráO; debruçada
na escada, para mergulhar mais confidencialmento
n*aquellas tristezas :
— (Jlhe, oh llosa, então se a pequena ahi está.
coitada, que leve para casa á mãe a gallinha que eu
tinha para jantar. E o caldo... Que leve a panella!
Eu tomo uma chávena de chá com biscoitos. E olhe!
Mande também dez tostões á Crispola... Mande dois
mil réis. Escute ! Mas não lhe mande a gallinha e o
dinheiro assim seccamente . . . Diga que estimo as
melhoras, e que hi passarei por casa para saber. E
esse animal do líento que me suba agua quente!
No quarto, em mangas de camisa, deante do es-
pelho, um immenso espelho rolando entre columnas
douradas, estudou a lingua que lhe parecia saburro-
sa, depois o branco dos olhos, receiando a amarelli-
dâo de bilis solta. E terminou por se contemplar
na sua feição nova. agora que rapara a barba em
Lisboa, conservando o bigodinho castanho, frisado o
leve, e uma mosca um pouco longa, (jue lhe alon-
gava mais a face aquilina e fina, sempre d'uma
f brancura ác nata. O seu desconsolo era o cabello.
A ILIJSTHE CASA DE UAMIUKS 35
bem ondeado, mas ténue e fraco, e, apezar de todas
as aguas e pomadas, necessitando já risca mais
elevada, quasi ao meio da testa clara.
— È internai! Aos trinta annos estou calvo... '
R todavia nâo se despegava do espelho, n"uma
contemplação agradada, recordando mesmo a re-
commendaçâo da tia Louredo, em Lisboa:— «Oh
sobrinho ! o menino, assim galante e esperto, nâo se
enterre na província! Lisboa está sem rapazes. Pre-
cisamos cá um bom Ramires!» — Nâo! nâo se en-
terraria na província, iminovel sob a hera e a poei-
ra melancólica das cousas immoveis, como a sua
Torre ! . . . Mas vida elegante em Lisboa, entre a sua
parentella histórica, como a aguentaria com o conto
e oitocentos mil reis de renda (lue lhe restava, pa-
gas as dividas do papá? E depois realmente vida
em Lisboa só a desejava com uma posição politica,
— cadeira em S. Bento, influencia intellectual no seu
Partido, lentas e seguras avançadas para o Poder.
E essa, tão docemente sonhada em Coimbra, nas fá-
ceis cavaqueiras do Hotel Mondego, — muito remota
a entrevia! Ouasi inconquistavel, para além de um
muro alto e áspero, sem porta e sem fenda!... De-
putado—como? Agora, com o horrendo S, Fulgencio
e os Históricos no Ministério durante três gordos an-
nos, nâo voltariam Eleições Geraes. E mesmo n'al-
guma Eleição Supplementar que possibilidade logra-
36 A II.U STI;K casa DV. RAMIHK-
ria elle. que, desde Coimbra. ]>em levianamente, ar-
rastado por uma elegância de tradições, se mani-
festara sempre Regenerador, no «Centro» da Couraça,
nas correspondências para a Gazeta do Porto, nas
verrinas ardentes contra o cheíe do Districto, o Ca-
valleiro detestável?... Agora só lho restava espe-
rar. Esperar, trabalhando; ganhando em consistência
social; edificando com sagacidade, sobre a base do
seu immenso nome histórico, uma pequenina nomea-
da politica ; tecendo e estendendo a malha preciosa
das amizades partidárias desde Santa Ireneia até ao
Terreiro do Paço . . . Sim! eis a theoria explendida: —
mas consistência, nomeada, aíTeiçôes politicas, como
se conquistam? «Advogue, escreva nos jornaes!» fora
o conselho distrahido e risonho do seu cheíe, o liraz
Victorino. Advogar em Oliveira, mesmo era íáslioa?
Não podia, com aquelle seu horror ingenito. quasi
physiologico, a autos e papelada forense. Fundar um
jornal em Lisboa como o Ernesto Rangel, seu com-
panheiro de Coimbra no Hotel Mondego? Era façanha
fácil para o neto adorado da Snr.'' D. Joaquina Ran-
gel que armazenava dez mil pipas de vinho nos bar-
racões do Gala. Batalhar n'um jornal de Lisboa? N'es-
sas semanas de Capital, sempre pelo Ranço Hypothe-
cario, sempre com as «primas», nem formara relações
duráveis e úteis nos dous grandes Diários Regenera-
dores, a Manha e a Verdafle ... De. sorte que. real-
A ILUSTRE CASA 1)1-: KA.MIUES
mente, n"esse muro que o separava da fortuna só
descobria um buraquinho, bem apertado mas servi-
çal— os Annaes de Villeratiiva e d'Histoi'ia, com
a sua collaboração de Professores, de Politicos, até
d" um Ministro, até de um Almirante, o Guerreiro
Araújo, esse tocante massador. Appareceria pois nos
Annaes com a sua Torre, rc\elando imaginação e
um saber rico. Depois, trepando da invenção para o
terreno mais respeitável da Erudição, daria um es-
tudo (que até lhe lembrara no comboio, ao voltar de
Lisboa!) sobre as «Origens Visigothicas do Direito
Publico em Portugal...» Oh, nada conhecia, é certo,
d'essas Origens, d'esses ^'isigodos. Mas, com a bella
historia da Aãniitúsl ração Publica em Portugal que
lhe emprestara o Castanheiro, comporia corrediamente
um resumo elegante... Depois, saltando da Erudição
ás Sciencias Sociaes e Pedagógicas — por que não
amassaria uma boa « Reforma do Ensino Jurídico em
Portugal» em dous artigos massudos, de Homem
d'Estado?... Assim avançava, bem chegado aos Re-
generadores, construindo e cinzelando o seu pedestal
litterario, até que os Regeneradores voltassem ao Mi-
nistério, e no muro se escancarasse a desejada porta
triumphal. — E no meio do quarto, em ceroulas, com
as mãos nas ilhargas, Gonçalo Mendes Ramires con-
cluio pela necessidade de apressar a sua Novella.
— Mas, quando acabarei eu essa Torre? assim
emperrado, sem veia, com o fígado combalido?...
38 A ILLISTI!!-: CASA DE liAMIRES
O Bento, velho de face rapada e morena, com
um lindo cabello branco todo encarapinhado, muito
limpo, muito íresco na sua jaqueta de ganga, en-
trara vagarosamente, segurando a intusa d'agua
quente.
— Oh Bento, ouve lá! Ta não encontraste na
mala que eu trouxe de Lisboa, ou no caixote, ura
írasco de vidro com um pó branco ? É um remédio
inglez que me deu o Sr. Dr. Mattos . . . Tem um ro-
tulo em inglez, com um nome inglez, não sei quê,
frua salt . . . Quer dizer sal de fructas...
O Bento cravou no soalho os olhos, que depois
cerrou, meditando. Sim, no quarto de lavar, em cima
do bahú vermelho, ficara um írasco com pó, embru-
lhado num pergaminho antigo como os do Archivo.
— É esse! declarou C.onçalo. Eu precisava em
Lisboa uns documentos por causa d'aquelle uialvado
foro de Praga. E por engano, na balbúrdia, lev(»
do Archivo um periíaminho perfeitamente inútil !
Vae buscar o rolo... -Mas tem cuidado com o frasco!
O Bento, cuidadoso, sempre lento, ainda enfiou
os botões d"agatha nos punhos da camisa do Sr.
Doutor, e desdobrou sobre a cama, para elle vestir,
a quinzena. a§ calças bem vincadas, de cheviote leve.
E Gonçalo, retomado pela idéa de artigos para os
Annaes, folheava, rente á janella. a Historia da
Adniinistraçào Publica em l'orlufjal, quando Bento
A ILlASTliK CASV UK UAMIliKS 39
\oltou com um rolo de pergaminho. (i"oude pendia,
por fitas roídas, um sello de chumbo.
— Esse mesmo! exclamou o Fidalgo atirando o
volume para o poial da janella. É esse mesmo que
eu enrolei no pergaminho para se não quebrar. Des-
embrulha, deixa em cima da commoda. .. O Sr. Dr.
Mattos aconselhou que o tomasse com agua tépida.
em jejum. Parece que ferve. K limpa o sangue, des-
annuvia a cabeça. . . Pois eu muito necessitado ando
de desannuviar a cabeça!... Toma tu também, Ben-
to. E dize á Rosa que tome. Todos tomam agora, até
o Papa!
Com cuidado, o Bento desenrolara o frasco, esten-
dendo sobre o mármore da commoda o pergaminho
(luro, onde a lettra do século xvt se encarquilhava
amarella e morta. E Gonçalo, abotoando o colarinho :
— Ora ahi está o que eu levo preciosamente para
deslindar o foro de Praga! Um pergaminho do tempo
de ]). Sebastião. . . E só percebo mesmo a data, mil
quatrocentos. .. Não, mil quinhentos e setenta e sete.
rsas vésperas da jornada d"Africa. .. Emfim! serviu
para embrulhar o frasco.
O Bento, que escolhera no gavetão um collete
branco, relanceou de lado o pergaminho venerável :
— Naturalmente foi carta que El-rei D. Sebas-
tião escreveu a algum avosinho do Sr. Doutor...
— Naturalmente, murmurava o Fidalgo, deante
40 A ILUSTRE CASA 1)K RAMIRES
do espelho. E para lhe dar alguma cousa boa, alguma
cousa gorda... Antigamente ter rei era ter renda.
Agora... Não apertes tanto essa tivella, homem! Tra-
go ha dias o estômago inchado... Agora, com efíei-
to, esta instituição de Rei anda muito safada, Bento t
— Parece que anda, observou gravemente o Ben-
to. Também, o Século affiança que os Beis estão a
acabar, e por dias. Ainda hontem affiançava. E o
Século é jornal bem informado. . . No de hoje, não
sei se o Sr. Doutor leu, lá vem a grande festa dos
annos do Sr. Sanches Lucena, e o fogo do vistas, e
o bródio que deram na Feitosa. . .
Enterrado no divan de damasco, Gonçalo esten-
dera os pés ao Bento que lhe laçava as botas bran-
cas:
— Esse Sanches Lucena é um idiota! Ora que
arranjo fará a esse homem, aos sessenta annos, ser
deputado, passar mezes em Lisboa no Francfort,
abandonar as propriedades, deixar aquella linda
quinta... E para qui^? Para rosnar de vez em quan-
do «apoiado!» Antes elle me cedesse a cadeira, a
mim, que sou mais esperto, não possuo grandes
terras, e gosto do Hotel Bragança. E por Sanches
Lucena. . . O Joaquim amanhã que me tenha a egoa
prompta, a esta hora, para eu ir á Feitosa visitar esse
animal. . . E ponho então o fato novo de montar que
trouxe de Lisboa, com as polainas altas. . . Ha mais de
A IM.I STltK CASA 1)K liAMIUKS M
dois annos que não vojo a 1). Anna Lucena. É uma
linda mulher!
— Pois quando o Sr. Doutor estava em Lisboa
elles passaram ahi, na caleche. Até pararam, e o
Sr. Sanches Lucena apontou para a Torre, a mostrar
á senhora. . . IMulher muito perfeita ! E traz uma
íírande luneta, com um grande cabo, e um grande
grilhão, tudo d'oiro. . .
— Bravo! . . . Encharca bem esse leneo com agoa
de Colónia, que tenho a cabeça tão pesada!... Essa
1). Anna era uma jornaleira, uma moça do campo,
de Corinde?
Bento protestou, com o frasco suspenso, espan-
tado para o Fidalgo:
— Não senhor! A Snr." D. Anna Lucena é de
gente muito baixa! Filha d'um carniceiro d'Ovar, . ,
E o irmão andou a monte por ter morto o ferrador
d" Ílhavo.
— Emfmi, resumiu Gonçalo, fdha de carniceiro,
iniião a monte, bella mulher, luneta d'oiro... Me-
rece fato novo!
Em Villa-Clara, ás dez horas, sentado n"um dos
bancos de pedra do Chafariz, sob as olaias, o Tito
esperava com o amigo João Couveia — que era o
Administrador do Concelho da Mlla. Ambos se aba-
A IMASTmc C.ASA DE P.AM1I!K>
navam com os chapéus, em silencio, gozando a Ires-
cura e o sussurro da agua lenta na sombra. E a
«meia» batia no relógio da Camará, quando Gonçalo,
que se retardara na Assembléa n'um \oltarete enre-
missado, appareceu annunciando uma fome terrível,
«a fome histórica dos Ramires», e apressando a mar-
cha para o Gago — sem mesmo consentir que o Tito
descesse á tabacaria do Brito, a buscar uma garrafa
de aguardente de canna da fiadeira, velha e «da
ponta fina. . . »
— Não ha tempo! Ao Gago! Ao Gago!... Senão
devoro um de Vocês, com esta furiosa fome Jiami-
rica !
.Mas, logo ao subirem a Calçadinha. parou elle
cruzando os braços, interpellando divertidamente o
Sr. Aministrador do Concelho pelo estupendo íeito
do seu Governo . . . Então o seu Governo, os seus
amigos Históricos, o seu honradíssimo S. Fulgencio —
nomeavam, para Governador Civil de Monforte, o
António Moreno! O António Moreno, tão justamente
chamado em Coimbra Antoninha Morena ! Não, real-
mente, era a derradeira degradação a que podia ro-
lar um paiz! Depois d"esta, para harmonia perfeita
dos serviços, só outra nomeação, e urgente — a da
.loanna Salgadeira, Procuradora Geral da CorO)a!
E o João Gouveia, um homem pequeno, muito es-
curo, muito secco. de bigode mais duro que piassaba.
A ILLLSTIÍE CAS.V DK UA.MIUES 4.'{
esticado n'uma sobrecasaca curta, com o chapéu de
coco atirado para a orelha, não discordava. Empre-
gado imparcial, servindo os Históricos como servira
os Iiegeneradores, sempre acolhia com imparcial iro-
nia as riomeaçues de bacharéis novos, Históricos o li
Regeneradores, para os gordos logares Administra-
tivos. Mas. n"este caso, sinceramente, qiiasi vomi-
tara, rapazes! Governador Civil, e de Monforte, o
António Moreno, que elle tantas vezes encontrara no
quarto, em Coimbra, vestido de mulher, de roupão
aberto, e a carinha l)onita coberta de pó de arroz!...
— E, travando do braço do Fidalgo, recordava a noite
em que o José Gorjâo, muito bêbedo, de cartola e
com um revólver, exigia furiosamente que o padre
Justino, também bêbedo, o casasse com o Antoninho
deante d'um nicho da Senhora da Boa Morte! Mas
o Tito, que esperava, íloreando o bengalão, declarou
áquelles senhores que se o tempo sobejava para ar-
rastarem assim na rua, a conversar de Politica e
d'indecencias — então voltava elle ao Brito, buscar a
aguardentesinha. . . Immediatamente o Fidalgo da
Torre, sempre brincalhão, sacudiu o braço do Admi-
nistrador, e galgou pela Calçadinha, aos corcovos,
com as mãos fortemente juntas, como colhendo uma
rédea, contendo um cavallo que se desboca. •
E na sala alta do Gago. ao cimo da escada es-
guia e Íngreme que subia da taberna, a um canto
A lUJSTUE CASA Dl-: IIAMIRES
da comprida mesa allumiada por dois candieiros do
petróleo, a ceia foi muito alegre, muito sajjoreada.
Gonçalo, que se declarava miraculosamente curado
pelo passeio até aos Bravaes e pelas emoções do vol-
tarete em que ganhara desenove tostões ao Manoel
Duarte — começou por uma pratada d'ovos com chou-
riço, devorou metade da tainha, devastou o seu «fran-
go de doente», clareou o prato da salada de pepino,
lindou por um montão de ladrilhos de marmellada:
c atravez d"este nobre trabalho, sem que a fina
Itrancura da sua pelle se afogueasse, esvasiou uma
ca.neca vidrada de Alvaralhâo, porque logo ao pri-
meiro trago, e com desgosto do Tito, amaldiçoara o
vinho no\o do Abbade. Á sobremeaa appareceu o Vi-
deirinha, «o Videirinha do violão», tocador afamado
de Villa Clara, ajudante da Pharmacia, e poeta com
versos de amor e de patriotismo já impressos no
Independente d' Oliveira. Jantara n'essa tarde, com
o violão, em casa do commendador Barros, que cele-
brava o anniversario da sua commenda: e só accei-
tou um copo d'Alvaralhâo, em que esmagou um la-
drilho do marmellada «para adocicar a goella». De-
pois, á meia noite, Oonçalo obrigou o Oago -i esper-
tar o lume, ferver um café «muito forte, um café
terrível, Gago amigo! um café capaz de abrir talento
no Sr. Commendador Barros!» Era essa a hora di-
vina do violão e do «fadinho». E já o Videirinha
A ILI.LSTI-.r: CAS\ 1)K liAMIllKS
recuara para a sombra da sala, pigarreanilo. atíinan-
do os bordões, pousado com melancolia á borda d"am
l)anco alto.
— A Soleãdd. Videirinha! pediu o bom Tito. pen-
sativo, enrolando um grosso cigarro.
Nideirinha gemeu deliciosamente a Soledad:
Ouando lores ao cemitério
Ai Soleílail, Sol<>(];td ! . . .
Depois, apenas elle lindou, acclamado. e emquantu
acertava as cravelhas, o Fidalgo da Torre e João
Gouveia, com os cotovellos na mesa, os charutos
lumegando, conversaram sobre essa venda de Lou-
renço Marques aos Inglezes, preparada surrateira-
inente (conforme clamavam, arripiados de horror,
os jornaes da Opposiçâo) pelo Governo do S. Ful-
gencio. E Gonçalo também se arripiava! Não com a
alienação da Colónia — mas com a impudência do S.
Fulgencio! <jue aquelle careca obeso, tilho sacrilego
d'um írade que depois se fizera mercidro em Cabe-
celhos, trocasse a libras, para se manter mais dois
annos no Poder, um pedaço de Portugal, torrão au-
gusto, trilhado heroicamente pelos Gamas, os Athay-
des, os Castros, os seus próprios avós — era para elle
uma abominação que justificava todas as violências,
mesmo uma revolta, e a casa do Iiraçranea enterrada
46 A II-LISTRE CASA DE UAMIRES
no lodo do Tejo! Trincando, sem parar, amêndoas
torradas, João Gouveia observou:
— Sejamos justos, Gonçalo Mendes! Olhe que os
Regeneradores . . .
O Fidalgo sorrio superiormente. Ah! se os Re-
generadores realisassem essa grandiosa operação —
bem! Esses, primeiramente, nunca commetteriam a
indecencia de vender a ínglezes terra de Portugue-
zes! Negociariam com Francezes, com Italianos, po-
vos latinos, raças fraternas ... E depois os bons mi-
• Ihões soantes seriam applicados ao fomento do Paiz,
com saber, com probidade, com experiência. Mas
esse horrendo careca do S. Fulgencio!... — E no seu
furor, engasgado, gritou por genebra, por que real-
mente aquelle cognac do Gago era uma peçonha
torpe !
O Tito encolheu os hombros, resignado:
— Não me deixaste ir buscar a aguardentesinha.
agora aguenta ... E a genebra é ainda mais p(!ço-
nhenta. Nem para os negros d'esse Lourenço Mar-
ques que tu queres vender.,. Portuguezes indecen-
• tes, a vender Portugal ! Até o Sr. Administrador do
Concelho devia jjrohibir estas conversas...
Mas o Sr. Administrador do Concelho afíirmou
que as consentia, e rasgadamente . . . Por que tam-
bém elle, como Governo, venderia Lourenço Mar-
ques, e Moçambique, e toda a Costa Oriental! E ás
A ILUSTRE CAS.V I)K HAMIlUíS
talhadas ! Em leilão ! VIU, toda a Africa, posta em
praça, apresroada no Terreiro do Paço! E sabiam os
amigos porqiK'? Pelo são principio de forte adminis-
tração— (estendia o braço, meio alçado do banco,
como n"um Parlamento). . . Pelo são principio de que
todo o proprietário de terras distantes, que não pô-
de valorisar por íalta de dinheiro ou gente, as deve ^
vender para concertar o seu telhado, estrumar a sua
horta, povoar o seu curral, fomentar todo o bom
torrão que pisa com os pés . . . Ora a Portugal res-
tava toda uma riquíssima |)rovincia a amanhar, a
regar, a lavrar, a semear — o Alemtejo!
'J Tito lançou o vozeirão, desdenhando o Alem-
tejo como uma pellicula de terra de má qualidade,
que, fora umas legoas de campos em torno de Beja
e de Serpa, por um grão só dava dois, e, apenas
esgaravetada, logo mostrava o granito . . .
— O mano João tein lá uma herdade immensa.
immensissima, que rende trezentos mil réis!
O Administrador, que advogara em Mertola, pro-
testou, encristado. O Alemtejo! Província abandona-
da, sim ! Abandonada miseravelmente, desde séculos,
pela imbecilidade dos governos . . . Mas riquissima, a
fertilissima !
— Pois então os Árabes... E qual Árabes! #
Ainda ha dias o Freitas (}alvão me contava . . .
Mas Gonçalo Mendes, que cuspira também a
'l-8 A ILUSTliE CASA DE RAMIRES
genebra cora uma carantonlia. acudiu, n'ura resumo
varredor, condemnando todo o Alemtejo como uma
desgraçada illusão !
Estirado por sobre a mesa, o Administrador
gritava :
— Você já esteve no Alemtejo?
— Também nunca estive na China, e . . .
— ^ Então não íalle ! Só a vinha espantosa que
plantou o João ÍMaria . . .
— Quê! Umas cem pipas de zurrapa! Mas, n"ou-
tros sitios, legoas c legoas sem . . .
— Um celleiro !
— Uma charneca!
E atravez do tumulto o Videirinha, repenican-
do com solitário ardor, le^ ado na torrente d'ais do
«fado» da Ariosa, soluçava contra uns olhos negros,
donos do seu coração :
Ai 1 que (los teus iie.uros olhos
Mc vem hoje a perdição...
(.) petróleo dos candieiros lindava : o o Gago.
reclamado para trazer castiçaes, surdio em mangas
de camisa, detraz d'uma cortina de chita, com a sua
esperta humildade banhada em riso, lembrando a
suas Excellencias que passava da uma horasinha da
noite ... U Administrador, que detestava noitadas.
A ILUSTRE CASA DE RAMIRES 49
nocivas á sua garganta (de amygdalas loucamente
ínílamniaveis), puxou o relógio com terror. E rapi-
damente roabotoado na sobrecasa, de chapéo coco
mais tombado ú banda, apressou o lento Tito, por
que ambos moravam no alto da Villa — elle deíron-
te do Correio, o outro na viella das Therezas, n'uma
casa onde outr'ora habitara e apparecera apunha-
lado o antigo carrasco do Porto.
O Tito porém não se aviava. Com o bengalão
debaixo do braço, ainda chamou o Gago ao íundo
sombrio da sala estreita, para cochichar sobre o em-
brulhado negocio d'uma compra de espingarda, so-
berba espingarda Winchester, empenhada ao Gago
pelo filho do tabellião Guedes d'01iveira. E, quando
desceu a escadaria, encontrou á porta da taberna,
no estendido luar que orlava a rua adormecida, o
Fidalgo da Torre e o João Gouveia bruscamente en-
galfinhados na costumada contenda sobre o Gover-
nador Civil de Oliveira — o André Cavalleiro!
Era sempre a mesma briga, pessoal, furiosa e
vaga. Gonçalo clamando que não alludissem deante
d'elle, pelas cinco chagas de Christo, a esse bandi-
do, esse Snr. Cavalleiro e sobretudo Cavallo, man-
dão burlesco que desorganizava o Districto ! E João
Gouveia muito teso, muito secco, com o coco mais
cabido na orelha, assegurando a intelligencia supe-
rior do amigo Cavalleiro, que estabelecera limpeza e
.'iO A ILLLSTRE CASA DE RAINIIRES
ordem, como Hercules, nas cavallariças d"01iveira!
O Fidalgo rugia. E Videirinha, com o violão resguar-
dado atraz das costas, supplicava aos amigos que
recolhessem á taberna, para não alvorotar a rua...
— Tanto mais que defronte, coitada, a sogra do
Dr. Venâncio está desde hontem com a pontada!
— Pois então, berrou Gonçalo, não venham com
disparates que revoltam! Dizer você, Gouveia, que
(31iveira nunca teve Governador Civil como o Caval-
leiro ! . . . rsâo é por meu pae! O papá já lá vae ha
trez annos, infelizmente. E concordo que não fos-
se boa auctoridade. Era írou.vo, andava doente . . .
Mas depois tivemos o Visconde de Freixomil. Ti-
vemos o Bernardino. Você serviu com elles. Eram
dois homens!... Mas este cavallo d*este Cavallei-
ro! A primeira condição para a auctoridade su-
perior d'um Districto é não ser burlesca. E o Caval-
leiro é d"entremez! Aquella guedelha de trovador, e
a horrenda bigodeira negra, & o olho languinhento
a pingar namoro, e o papo empinado, e o pó-pó-
po/t ! É d'entremez! E estúpido, d"uma estupidez
fundamental, que lhe começa nas patas, vem su-
bindo, vem crescendo. Uh senhores, que animal ! . .
Sem contar que é malandro.
Teso na sombra do immenso Tito, como uma
estaca junto d"uma torre, o Administrador mordia
o charuto. Depois, de dedo espetado, com uma sere-
nidade cortante:
A ILUSTRE CASA DE RAMIRES
— N'oct' acabou?.. . Pois, Gonçalinho, agora es-
cuto! Em todo o districto d'01iveira, note bem, em
todo elle! não ha ninguém, absolutamente ninguém,
que de longe, muito de longe, se compare ao Ca-
valleiro em intelligencia. caracter, maneiras, saber,
e finura politica!
O Fidalgo da Torre emmudeceu, varado. Por
fim sacudindo o braço, n'um desabrido, arrogante
desprezo :
— Isso são as opiniões d'um subalterno! v
— E isso são as expressões d'um malcreado! ui-
vou o outro, crescendo todo, com os olhinhos esbu-
galhados a fuzilar.
ímmediatamente entre os dois, mais grosso que
um barrote, avançou o braço do Tito, estendendo
uma sombra na calçada:
— Olá! Oh rapazes! Que desconchavo é este?
^'ocès estão borrachos ? . . . Pois tu, Gonçalo . . .
Mas já Gonçalo, n'um d'esses seus impulsos ge-
nerosos e amoraveis que tão finamente seduziam.
se humilhava, confessava a sua brutalidade, sensibi-
iisado:
— Perdoe você, João Gouveia! Sei perfeitamen-
te que você defende o Cavalleiro por amizade, nâo
por dependência . . . Mas que quer, homem? Guan-
do me faliam n'esse Cavallo . . . Nâo sei, é por con-
tagio da besta, orneio, atiro coice!
A ILUSTRE CASA DE RAMIRES
O Gouveia, sem rancor, logo reconciliado (por-
([ue admirava carinhosamente o Fidalgo da Torre),
deu um puxão forte á sobrecasaca e apenas obser-
vou «que o Gonçalinho era uma ílôr, mas pica-
va... » Depois, aproveitando a emoção submissa de
Gonçalo, recomeçou a glorificação do Cavalleiro,
mais sóbria. Recouhecia certas fraquezas. Sim, com
effeito, aquelle modo impertigado . . . Mas que cora-
ção!— E o Gonçalinho devia considerar.. .
O Fidalgo, de novo revoltado, recuou, espal-
mando as mãos:
— Escute você, oh João Gouveia ! Por que é
que você lá em cima, á ceia, não comeu a salada
de pepino? Estava divina, até o Videirinha a ap-
peteceu! Eu repeti, acabei a travessa... For que
foi? Por que você tem horror physiologico, hor-
ror visceral ao pepino. A sua natureza e o pepino
são incompatíveis. Não ha raciocínios, não ha subti-
lezas, que o persuadam a admittir lá dentro o pepi-
no. Você não duvida que elle seja cxcellente, desde
i]ue tanta gente de bem o adora: mas você não
pôde... Pois eu estou para o Cavalleiro como vo-
cê para o pepino. Não posso! Não ha molhos, nem
razoes, que m'o disfarcem. Para mim c ascoroso.
Não vae! Vomito! . . . E agora ouça . . .
Então Tito, que bocejava, interveio, já farto:
— Bem! Parcce-me que apanhamos a nossa dose
A ILLUSTRE CASA DE RAMIIIES !i'\
(le Cavai lei ro, e valente! Somos todos muito boas pes-
soas e só nos resta debandar. Eu tive senhora, tive
tainha. . . Estou derreado. E não tarda a madrugada,
([ue vergonha!
O Administrador pulou. Oh Diabo! E elle, ás nove
horas da manhã, com commissão de recenseamen-
to!... Para esmagar bem o anu'io, cingiu Gonçalo
n'um rijo abraço. E, quando o Fidalgo descia para
o Chafariz com o Videirinha (que n'estas noites
festivas de Villa Clara o acompanhava sempre pela
estrada até ao portão da Torre), João Gouveia ainda
se voltou, pendurado do braço do Tito no meio da
Calçadinha, para lhe lembrar um preceito moral
«de não sei que philosopho»:
— «Não vale a pena estragar boa ceia por causa
de má politica. . .» Creio que é d'Aristoteles!
E até Videirinha, que de novo afinava a viola,
se preparava para um solto descante ao luar, mur-
murou respeitosamente por entre abafados harpejos:
— Não vale a pena, Sr. Doutor. , . Realmente não
vale a pena, por que em Politica hoje c branco, ama-
nhã é negro, e depois, zás, tudo é nada !
O fidalgo encolhera os hombros. A Politica ! Como
se elle pensasse na Auctoridade, no Sr. Governador
civil d'01iveira — quando injuriava o Sr. André Ca-
valleiro, de Corinde! Não! o que detestava era o
A ILUSTRE CASA DE RAMIRES
homem — o falso homem cVolho langoroso! Por que
entre elles existia um d"esses fundos aggravos que
outrora, no tempo dos Tructesindos, armavam um
contra o outro, em dura arrancada de lanças, dois
bandos senhoriaes. . . — E pela estrada, com a lua"no
alto dos oiteiros de Valverde, em quanto no violão
do Videirinha tremia o choro lento do fado do Vimio-
so, Gonçalo Mendes recordava, aos pedaços, aquella
historia que tanto enchera a sua alma desoccupada.
Kamires e Cavalleiros eram famílias vizinhas, uma
com a velha torre em Santa Ireneia, mais velha que
o Reino — a outra com quinta bem tratada e rendosa
em Corinde. E quando elle, rapaz de dezoito annos,
enfiava enfastiadamente os preparatórios do Lyceu,
André Cavalleiro, então estudante do Terceiro-Anno,
Já o tratava como um amigo serio. Durante as fé-
rias, como a mãe lhe dera um cavallo, apparecia to-
das as tardes na Torre; e muitas vezes, sob os ar-
voredos da quinta ou passeando pelos arredores de
Bravaes e Valverde, lhe confiava, como a um espi-
rito maduro, as suas ambições politicas, as suas idéas
de vida que desejava grave e toda votada ao Estado,
(iracinha Ramires desabrochava na flor dos seus de-
zeseis annos; o mesmo em Oliveira lhe chamavam a
«flor da Torre». Ainda então vivia a governante
ingleza de Gracinha, a boa IMiss Rhodes — que, como
todos na Torre, admirava com enthusiasmo André
A ILLUSTÍIE CASA DE RAMIUES 55
Cavalleiro pela sua amabilidade, a sua ondeada ca-
helleira romântica, a doçura quebrada dos seus olhos
larííos, a maneira ardente de recitar Victor Hugo
e João de Deus. E, com essa íraqueza que lhe amol-
lecia a alma e os princípios perante a soberania do
Amor, favorecera demoradas conversas de André com
Maria da Graça sob as olaias do Mirante e mesmo
cartinhas trocadas ao escurecer por sobre o muro
baixo da Mãe d" Agua. Todos os domingos o Caval-
leiro jantava na Torre: — e o velho procurador Re-
bello já preparara, com esforço e resmungando, um
conto de reis para o enxoval da «menina». O pae
de Gonçalo, Governador Civil de Oliveira, sempre
atarefado, enredado em Politica e em dividas, ama-
nhecendo só na Torre aos Domingos, approvava esta
collocação de Gracinha, que, meiga e romanesca, sem
mãe que a velasse, creava na sua vida, já difficil, um
tropeço e um cuidado. Sem representar como elle
uma familia de immensa Chronica, anterior ao Rei-
no, do mais rico sangue de Reis godos, André Ca-
valleiro era um moço bem nascido, filho de gene-
ral, neto de desembargador, com brasão legitimo
na sua casa apalaçada de Corinde, e terras fartas,
em redor, de boa semeadura, limpas de hypothe-
c£is. . . Depois, sobrinho de Reis Gomes, um dos Che-
fes Históricos, já filiado no Partido Histórico (desde
o Segundo Anno da Universidade), a sua carreira
o6 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
andava marcada com segurança e brilho na Poli-
tica e na Administração. E emfim Maria da Graça
amava enlevadamente aquelles reluzentes bigodes, o&
homl)ros fortes de Hercules bem educado, o porte
ufano que lhe encouraçava o peitilho e que impres-
sionava. Ella, em contraste, era pequenina e frágil,
com. uns olhos timidos e esverdeados que o sorriso
humedecia e enlanguescia, uma transparente pelle de
porcellana fina, e cabellos magníficos, mais lustrosos e
negros que a cauda d' ura corcel de guerra, que lhe
rolavam até aos pés, em que se podia embrulhar toda,
assim macia e pequenina. Quando desciam ambos as
alamedas da quinta, miss Rhodes (que o pae, pro-
fessor de Litter atura Grega em Manchester, recheara
de Mithologia) pensava sempre em «Marte cheio de
força amando Psyché cheia de graça.» E mesmo os
criados da Torre se maravilhavam do «lindo par!»
Só a Snr." D. Joaquina Cavalleiro, a mãe de André, se-
nhora obesa e rabugenta, detestava aquella terna as-
siduidade do filho na Torre, sem motivo pesado, só por
«desconfiar da pinta da menina e desejar nora mais
comesinha. . .» Felizmente, quando André Cavalleiro
se matriculava no Quinto Anno, a desagradável ma-
trona morreu d'uma anasarca. O pae de Gonçalo re-
cebeu a chave do caixão: Gracinha tomou luto: e
Gt)nçalo, companheiro de casa do Cavalleiro Jia rua
do S. João, em Coimbra, enrolou um fumo na manga
A ILUSTRE CAS\ DE RAMIRES
da batina. Logo em Santa Ireneia se pensou que o
explendido André, libertado da peca opposicâo da
manaã, pediria a «Flor da Torre» depois do Acto de
Formatura. Mas, findo esse desejado Acto, Cavalleiro
abalou para Lisboa — por que se preparavam Elei-
ções em Outubro, e elle recebera do tio Reis Gomes,
então Ministro da Justiça, a promessa de « ser depu-
tado» por Bragança.
E todo esse verão o passou na Capital; depois em
Cintra, onde o negro langor dos seus olhos húmidos
amollecia corações; depois n'uma jornada quasi trium-
phal a Bragança com foguetes e avivas ao sobrinho
do Sr. conselheiro Reis Gomes!» Em Outubro Bra-
gança « confiou ao dr. André Cavalleiro (como escre-
veu o Ec/io de fraz-os-Montes) o direito de a repre-
sentar em Cortes com os seus brilhantes conheci-
mentos litterarios e a sua íormosissima presença de
orador...» Recolheu então a Corinde; mas nas suas
visitas á Torre, onde o pae de Gonçalo convalescia
d'uma febre gástrica que exacerbara a sua antiga
diabetes, André já não arrastava sofregamente Gra-
cinha, como outr'ora, para as silenciosas sombras da
quinta, permanecendo de preferencia na sala azul, a
conversar sobre Politica com Vicente Ramires, que
se não movia da poltrona, embrulhado n'uma manta.
E Gracinha, nas suas cartas para Coimbra a Gonçalo,
já se carpia de não correrem tão doces nem tão inti-
.'Í6 A ILLUSTP.E CASA DE RAMIRES
mas as visitas do André á Turre, «occupado, cumo
andava sempre agora, a estudar para deputado ...»
Depois do Natal o Cavalleiro voltou para Lisboa, para
a abertura das Cortes, muito apetrechado, com o seu
creado ]\Iatheus, uma linda égua que comprara em
Villa Clara ao Manoel Duarte, e dous caixotes de
livros. E a boa !\Iiss Rhodes sustentava que Marte,
como convinha a um heróe, só reclamaria Psyché
depois d'um nobre feito, uma estreia nas Camarás.
t(n'um discurso lindo, todo flores...» Quando Gon-
çalo, nas férias de Paschoa, appareceu na Torre, en-
controu Gracinha inquieta e descorada. As cartas do
seu André, que se estreara «e n*um discurso lindo,
todo flores. . . », eram cada semana mais curtas, mais
calmas. E a ultima (que ella lhe mostrou em se-
gredo), datada da Camará, contava em três linhas
mal rabiscadas aque tivera muito que trabalhar em
commissõos, que o tempo se pozera lindo, que n'essa
noite era o baile dos condes de Viflaverde, e que elle
continuava com muitas saudades o seu fiel André...»
Gonçalo Mendes Piamires, logo n"cssa tarde, desaba-
fou com o pae, que definhava na su^ poltrona:
— Eu acho que o André se está portando muito
inal com a Gracinha... O papá não lhe parece?
Vicente Ramires apenas moveu, n'um gesto de
vencida tristeza, a mão descarnada d'onde a cada
momento lhe escorregava o annel d'armas.
A ILLISTRF, CASA DE RAMIRES 59
Por fim em Maio a sessão das Camarás termi-
nou— essa sessão que tanto interessara Gracinha,
anciosa «que elles accabassem de discutir e tives-
sem férias. » E quasi immediatamente ella em Santa
Ireneia, Gonçalo em Coimbra, souberam pelos jornaes
que eco talentoso deputado André Cavalleiro partira
para Itália e França n"uma longa viagem de re-
creio e d'estudo. » E nem uma carta á sua escolhida,
quasi sua noiva ! . . . Era um .ultraje, um bruto ul-
traje, que outr'ora, no século xii, lançaria todos os
Ramires, com homens de ca vali o e peonagem, sobre
o solar dos Cavalleiros, para deixar cada trave dene-
grida pela chamma, cada servo pendurado d*uma
corda de canave. Agora Vicente Ramires, apagado
«> mortal, murmurou simplesmente: «Que traste!»
Elle em Coimbra, rugindo, jurou esbofetear um
dia o infame! A boa Miss Rhodes, para se consolar,
desembrulhou a sua velha harpa, encheu Santa Ire-
neia de magoados harpejos. E tudo findou nas lagri-
mas que Gracinha, durante semanas, tão desconso-
lada da vida que nem se penteava, escondeu sob as
olaias do Mirante,
E, ainda depois d'esses annos, a esta lembrança
das lagrimas da irmã, um rancor invadiu Gonçalo,
tão redivivo que atirou para o lado, para sobre as
sebes da valia, uma bengallada, como se fossem ás
costas do Cavalleiro! — Caminhavam então junto á
60 A ILUSTRE CASA DE RAMIRES
ponte da Portclla, ondo, os campos se alargam, e da
estrada se avista Villa-Clara, que a lua branqueava
toda, desde o convento de Santa Thereza, rente ao
Chafariz, até ao muro novo do cemitério, no alto, com
os seus finos cyprcstes. Para o fundo do valle, clara
também no luar, era a egrejinha de Craquède, Santa
Maria de Craquède, resto do antigo Mosteiro em que
ainda jaziam, nos seus rudes túmulos de granito, as
grandes ossadas dos Ramires Afíonsinos. Sob o arco,
docemente, o riacho lento, arrastando entre os sei-
xos, sussurrava na sombra. E Videirinha, enlevado
n'aquelle silencio e suavidade saudosa, cantava, n'um
gemer surdo de bordões:
Baldadas são tuas queixas,
Escusados são teus ais.
Que é como se eu morto fora,
E não me verás nujica mais ! . . .
»
E Gonçalo retomara as suas recordações, repas-
sava tristezas que d(>pois cahiram sobre a Torre. Vi-
cent(> Ramires morrera n'uma tarde dWgosto, sem
sollrimento, estendido na sua poltrona á varanda,
com os olhos cravados na vdha Torre, nmrmurando
para o padre Soeiro: — «(juantos Hamires verá ella
ainda, n'esía casa, e á sua sombra?...» Todas essas
ferias as consumiu Concalo no escuro cartório, des-
A II.LISTUE CASA 1)K liAMIliKS 61
ajudado (por quo o procurador, o bom Piebello, tam-
l)em Deus o chamara), revolvendo paptns, apurando
o estado da casa — reduzida aos dois contos e trezen-
tos mil reis que rendiam os foros de Craquède, a her-
dade de Praga, e as duas quintas hist(»ricas, Treixedo
e Santa Ireneia. Quando regressou a Coimbra deixou
Gracinha era Oliveira, em casa de uma prima, D. Ar-
minda Nunes Viegas, senhora muito abastada, muito »
bondosa, que habitava no Terreiro da Louça um im-
menso casarão cheio de retratos d"avoengos e de ar-
vores de costado, onde ella, vestida de Aelludo preto,
pousada n'um camapé de damasco, entre aias que íia-
vam, perpetuamente relia os seus Livros de Cavalla-
ria, o Ainadis, Leandro o Bello, Tr islão e Branca flor,
as Chronicas do Imperador Clariínundo. . . Foi ahi
que José Barrôlo (senhor d"uma das mais ricas ca-
sas d'Amarante) encontrou Gracinha Piamires, e a
amou com uma paixão profunda, quasi religiosa —
estranha n'aquelle moço indolente, gorducho, de bo-
chechas coradas como uma maçã, e tão^escasso d'e^-
pirito que os amigos lhe chamavam «o José Baco-
co». O bom Barrolo residira sempre em Amarante
com a mãe, não conhecia o trahido romance da
«Plúr da Torre» — que nunca se espalhara para além
dos cerrados arvoredos da quinta. E, sob o enterne-
cido e romanesco patrocínio de D. Arminda, noivado
e casamento docemente se apressaram, em três me-
(iâ A ILUSTRE CASA DE RAMIRES
zes, depois d* uma carta d(! Barròlo a Gonçalo Mendes
Ramires jurando — «que a afíeiçâo pura que sentia
pela prima Graça, pelas suas virtudes e outras qua-
lidades respeitáveis, era tão grande que nem achava
no Diccionario termos para a (íxplicar. . . » Houve
uma boda luxuosa: e os noivos (por desejo de Gra-
(únha, para se não aífastar da querida Torre), depois
d'uma jornada filial a Amarante, «armaram o seu ni-
nho» em Oliveira, á esquina do largo d'El-Rei e da rua
das Tecedeiras, n*um palacete que o Bacoco herdara,
com largas terras, do seu tio Melchior, Deão da Sé.
Dois annos correram, mansos e sem historia. E Gon-
çalo Mendes Ramires passava justamente em Olivei-
ra as suas ultimas férias de Paschoa quando André
Cavalleiro, nomeado Governador Civil do Districto,
tomou posse, estrondosamente, com foguetes, philar-
monicas, o Governo civil e o Paço do Bispo illumi-
nados, as armas dos Cavalleiros em transparentes no
(•afé da Arcada e na Recebedoria ! . . . Barròlo co-
nhecia o Cavalleiro quasi intimamente, admirava o
seu talento, a sua elegância, o seu brilho Politico.
Mas Gonçalo Mendfs l«amires, que dominava sobe-
ranamente o bom Bacoco, logo o intimou a não vi-
sitar o Sr. Governador Civil, a não o saudar sequer
na rua, «; a partilhar, por dever d*alliança, os ranco-
res ({ue existiam entre Cavalleiros e Ramires! José
Barròlo cedeu, submisso, espantado, sem comprehen-
A ILLL.STlllí CAS.V DE RAMIRES ()."{
(ler. Depois uma noite, no quarto, enfiando as chi-
uellas, contou a («racinha «a exquisitice de Gon-
çalo » :
— K sem motivo, sem offensa, só por eaiisa da
Politica!... Ora, vr tu! Um bello rapaz como o Ca-
valleiro! Podíamos íazer um ranchinlio tão agrada-
\ el ! . . .
Outro sereno anno passou. . . E n'essa primave-
ra, em Oliveira, onde se demorara para a festa dos
annos de Barròlo, eis que Gonçalo suspeita, fareja,
descobre uma incomparável infâmia! O impertigado
homem da bigodeira negra, o Sr. André Cavalleiro,
recomeçara com soberba impudência a cortejar Gra-
cinha Piamires, de longo, mudamente, em olhadellas
tundas, carregadas de saudade e langor, procurando
agora apanhar como amante aquella grande fidalga,
aquella Piamires, (}ue desdenhara como esposa!
Tão levado ia Gonçalo pela branca estrada, no
rolo amargo d'estes pensamentos, que não reparou
110 portão da Torre, nem na portinha verde, á es-
quina da casa, sobre três degráos. E seguia, rente do
muro da horta, quando Videirinha, que estacara com
(»s dedos mudos nos bordões do violão, o avisou, rindo :
— Oh, Sr. Doutor, então larga assim a estas ho-
riis de corrida para os Bravaes ?
(>4- A ILUSTRE CAS\ DE RAMIRES
Gonçalo virou, bruscamonte despertado, procu-
rando na algibeira, entre o dinheiro solto, a chavi-
nha do trinco :
— Nem reparava... Que lindamente você tem
tocado, Videirinha! Com lua, depois de ceia, não ha
companheiro mais poético . . . Realmente você é o
derradeiro trovador portuguez!
Para y ajudante de Pharmacia, lilho d"um pa-
deiro d"01iveira, a familiaridade d"aquclle tamanho
Fidalgo, que lhe apertava a mão na botica deante
do Pires boticário e em Oliveira deante das Auctori-
dades, constituía uma gloria, quasi uma coroação, e
sempre nova, sempre deliciosa. Logo sensibilisado,
feriu os bordões rijamente:
— Então, para acabar, lá vae a grande trova,
Sr. Doutor!
Era a sua famosa cantiga, o Fado dos Ramires,
rosário de heróicas Quadras celebrando as Lendas
da Casa illustre — que elle desde raezes apurava e
completava, ajudado na terna tarefa pelo saber do
velho Padre Soeiro, capellão c archivista da Torre.
Gonçalo empurrou a portinha verde. No corre-
dor espirrava uma lamparina mortiça, já sem azei-
te, junto ao castiçal de prata. E Videirinha, recuan-
do ao meio da estrada, com um « dlindlon» ardente,
litára a Torre, que, por cima dos telhados da vasta
casa. mergulbava as ameias, o negro miradoiro, no
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 6o
luminoso silencio do ceu de verão. Depois para ella
c para a lua atirou as endeixas glorificadoras, na
dolente melodia d' um fado de Coimbra, rico em ais:
Quem te v'rá sem que estremeça,
Torre de Santa Ireneia,
Assim tão negra e callada,
Por noites de lua cheia. . .
Ail Assim callada, tão negra,
Torre de Santa Ireneia!
Ainda suspendeu para agradecer ao Fidalgo, que
o c(mvida\ a a subir e enxugar um cálice do genebra
salvadora. Mas retomou logo o descante, ditoso em
descantar, como sempre arrebatado pelo sabor dos
seus versos, pelo prestigio das Lendas, emquanto
Gonçalo desapparecia — com folgazãs desculpas ao
Trovador «por cerrar a portinha do Castello. ..»
Ai ! ahi estás, forte e soberba,
Com uma historia em cada ameia, • ^
Torre mais velha que o reino,
Torre de Santa Ireneia I . . .
E começara a quadra a Muncio Ramires, Dente
<le Lobo, quando em cima uma sala, aberta á fres-
cura da noite, se allumiou — e o Fidalgo da Torre,
66 A ILU STUE CASA DE RAMIRES
com O charuto acceso, se debruçou da varanda para
receber a serenada. Mais ardente, quasi soluçante,
vibrou o cantar do Videirinha. Agora era a qua-
dra de Gutierres Uamires, na Palestina, sobre o
monte das Oliveiras, á porta da sua tenda, deante
dos Barões que o acclamavam com as espadas nuas.
recusando o Ducado de Galiléa e o senhorio das
Terras d"Além-Jordâo. — Que não podia, em verdade,
acceitar terra, mesmo Santa, mesmo de Galiléa. . .
Quem já tinlia em Portugal
Torras de Santa Ireneia !
— Boa piada! murmurou Gonçalo.
Videirinha, enthusiasmado, entoou logo outra
nova, trabalhada n'cssa semana — a do sahimento
de Aldonça iíamires, Santa Aldonça, trazida do mos-
teiro dWrouca ao solar de Treixedo, sobre o alma-
draque em que morrera, aos hombros de ((uatro
Reis!
— Bra\o! gritou o Fidalgo pendurado da va-
randa. Essa é íamosa, oh Videirinha! Mas ahi ha
Reis de ^nais. . . (juatro Heis!
Enlevado, empinando o braço do violão, o aju-
dante da Pharmacia lançou outra, já antiga — a d'a-
quelle terrível Lopo Ramires que, morto, se erguera
da sua campa no Mosteiro de Craquéde, montara um
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 07
ginete morto, e toda a noite galopara atravez da Hes-
panha para se bater nas Navas de Tolosa! Pigar-
reou— e, mais chorosamente, atacou a do Descabe-
çado :
IA passa a nej^ra fiyura, . .
Mas Gonçalo, que abominava aquella lenda, a
silenciosa figura degolada, errando por noites de
inverno entre as ameias da Torre com a cabeça nas
mãos — despegou da varanda, deteve a Chronica im-
mensa :
— Toca a deitar, oh Videirinha, hein? Passa das
três horas, é um horror. Olhe! O Tito e o Gouveia
jantam cá na Torre, no Domingo. Appareça tam-
bém, com o violão e cantiga nova; mas menos si-
nistra... Bona será! Que linda noite!
Atirou o charuto, fechou a vidraça da sala —
a «sala velha,» toda revestida d*esses denegridos
e tristonhos retratos de Ramires que elle desde pe-
queno chama\'a as caranfonhas dos vovôs. E, atra-
vessando o corredor, ainda sentia rolarem ao longe,
no silencio dos campos cobertos de luar, façanhas ri-
madas dos seus :
Ai ! lá na grande batalha. . .
El-Rei Dom Sebastião
O mais moço tios Ramires *
Que era pagem do guião. . .
G8 A ILIASTRE CASA DE RAMIRES
Despido, soprada a vella, depois de um rápido
signal da cruz, o Fidalgo da Torre adormeceu. Mas
no quarto, que se povoou de Sombras, começou
para elle uma noite revolta e pavorosa. André Ca-
valleiro e João Gouveia romperam pela parede, re-
vestidos de cotas de malha, montados em horrendas
tainhas assadas! E lentamente, piscando o olho máo,
arremessavam contra o seu pobre estômago pontoa-
das de lança, que o faziam gemer e estorcer sobre o
leito de pau preto. Depois era, na Calçadinha de
Villa-Clara, o medonho Ramires morto, com a ossa-
da a ranger dentro da armadura, e El-rei Dom Aííon-
so II, arreganhando afiados dentes de lobo, que o
arrastavam furiosamente para a batalha das Navas.
Elle resistia, fincado nas lages, gritando pela Rosa,
por Gracinha, pelo Titól Mas D. Aííonso tão rijo
murro lhe despedia aos rins, com o guante de fer-
ro, que o arremessava desde a Hospedaria do Gago
até á Serra Morena, ao campo da lide, luzente e
fremente de pendões e d'armas. E immediatamente
seu primo d*Hespanha, Gomes Ramires, Mestre de
Calatrava, debruçado do negro ginete, lhe arrancava
os derradeiros cabellos, entre a retumbante galhofa
de toda a hoste sarracena e os prantos da tia Lou-
redo trazida como um andor aos hombros de quatro
l»eis!... — Por fim, moido, sem socègo, jú com a
madrugada clareando nas lendas das janellas e as
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 69
andorinhas piando no beiral dos telhados, o Fidalgo
da Torre atirou um derradeiro repellâo aos lençoes,
saltou ao soalho, abrio a vidraça — e respirou deli-
ciosamente o silencio, a frescura, a verdura, o re-
pouso da quinta. Mas que sede! uma sede desespe-
rada que lhe encortiçava os lábios! Recordou en-
tão o famoso fruit salt que lhe recommendára o
Dr. Mattos, — arrebatou o frasco, correu á sala de
jantar, em camisa. E, a arquejar, deitou duas fartas
colheradas n'um copo d'agua da Bica-Velha, que
esvasiou d'um trago, na fervura picante.
— Ah! que consolo, que rico consolo!...
Voltou derreadamente á cama: e readormeceu
logo, muito longe, sobre as relvas profundas d' um
prado d' Africa, debaixo de coqueiros susurrantes,
entre o apimentado aroma de radiosas flores que
brotavam atravez de pedregulhos d'oiro. D'essa per-
feita beatitude o arrancou o Bento, ao meio dia, in-
quieto com aaquelle tardar do Sr. Doutor.»
— É que passei uma noite horrenda. Bento! Pe- ê
sadelos, pavores, bulhas, esqueletos... Foram os mal-
ditos ovos com chouriço; e o pepino... Sobretudo o
pepino! Uma idéa d'aquelle animal do Tito... Depois,
de madrugada, tomei o tal fruit salt, e estou óptimo,
homem ! . . . Estou optimissimo ! Até me sinto capaz
de trabalhar. Leva para a livraria uma chávena de
chá verde, muito forte . . . Leva também torradas.
/<• A ILI.rsrilE CASA DE RAMIRES
E momentos depois, na livraria, com ura rou-
pão de flanella sobre a camisa de dormir, sorvendo
lentos goles de chá, Gonçalo relia junto da varanda
essa derradeira linha da Novella, tão rabiscada e
molle, em que «os largos raios da lua se estiravam
pela larga sala d'armas...» De repente, n'uma rasgada
impressão de claridade, entreviu detalhes expres-
sivos para aquella noite de Castello e de verão — as
pontas das lanças dos esculcas faiscajido silencio-
samente pelos adarves da muralha, e o coaxar
triste das rans nas bordas lodosas dos fossos . . .
— Bons traços !
Achegou de vagar a cadeira, consultou ainda no
volume do Bardo o Poemeto do tio Duarte. E, des-
annuviado, sentindo as Imagens e os Dizeres surgi-
rem como bolhas d' uma agua represa que rebenta,
atacou esse lance do Capitulo I em que o velho
Tructesindo Ramires, na sala d*arraas de Santa Ire—
neia, conversava com seu filho Lourenço e seu pri-
mo D. Garcia Viegas, o Sabedor, de aprestos de
guerra... Guerra! Porque? Acaso pelos cerros ar-
raianos corriam, ligeiros entre o arvoredo, almoga-
vares mouros? Não! Mas desgraçadamente, «n"aquella
terra já remida e christã, em breve se crusariam,
umas contra outras, nobre lanças portuguezas!...»
Louvado Deus ! a penna desemperrára ! E, at-
A ILLLSTHE CASA DE RAMIRES 71
t»'nto ás paginas marcadas n'um tomo da Historia
<rHerculano, esboçou com segurança a Epocha da
sua Novella — que abria entre as discórdias d(í Af-
fonso II e de seus irmãos por causa do testamento
d'EI-Rei seu pae, D. Sancho I. rs"esse começo do Ca-
pitulo já os Infantes D. Pedro e D. Fernando, esbu-
lhados, andavam por França e Leão. Jii com elles
abandonara o Reino o íorte primo dos Ramires, Gon-
çalo Mendes de Souza, chefe magnifico da casa dos
Souzas. E agora, encerradas nos castellos de Monte-
-Mór e de Esgueira, as senhoras Infantas, D. Thereza
f 1). Sancha, negavam a D. Affonso o senhorio real
sobre as villas, fortalezas, herdades e mosteiros, que
tão copiosamente lhes doara El-Rei seu pae. Ora,
antes de morrer no Alcaçar de Coimbra, o senhor
\). Sancho supplicára a Tructesindo Mendes Ramires,
seu collaço e Alíeres-Mór, por elle armado cavalleiro
€m Lorvão, que ^empre lhe servisse e defendesse a
filha amada entre todas, a infanta D. Sancha, senhora
de Aveyras. Assim o jurara o leal Rico-Homem junto
do leito onde, nos braços do Bispo de Coimbra e do
Prior do Hospital sustentando a candeia, agonisava,
vestido de burel como um penitente, o vencedor de
Silves... Mas eis que rompe a íéra contenda entre
Affonso II, asperamente cioso da sua auctoridade de
Rei — e as Infantas, orgulhosas, impellidas á resistên-
cia pelos freires do Templo e pelos Prelados a quem
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
D. Sancho legara tão vastos pedaços do Reino ! ím-
mediatamente Alemquer e os arredores d'oatros cas-
tellos são devastados pela hoste real que recoliiia
das Navas de Tolosa. Então D. Saacha e D. Thereza
appellam para El-rei de Leão, que .entra cora seu fi-
lho D. Fernando por terras de Portugal a soccorrer
as «Donas opprimidas.» — E n'este lance o tio Duarte,
no seu Castello de Santa Ireneia, interpellava com
soherho garbo o Alferes-Mór de Sancho I:
Que farás tu, mais velho dos Ramires?
Se ao pendão leonez juntas o teu
Trahes o preito que deves ao rei vivo !
Mas se as Infantas deixas indefezas '
Trahes a jura que destes ao rei morto ! . . .
Esta duvida, porém, não angustiara a alma d'esse
Tructesindo rude e leal que o Fidalgo da Torre ri-
jamente modelava. jN"essa noite, apenas recebera
pelo irmão do Alcaide d'Aveyras, disfarçado em be-
guino, um aíílicto recado da senhora D. Sancha — or-
denava a seu fdho Lourenço que, ao primeiro arre-
bol, com quinze lanças, cincoenta homens de pé da
sua morcé e quarenta besteiros, corresse sobre Mon-
te-mór. EUe no emtanto daria alarido — e em dous
dias entraria a campo com os parentes de solar,
um troço mais rijo de cavalleiros acontiados e de
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
frecheiros, para se juntar a seu primo, o Souzão^
que na vanguarda dos leonezes descia d'Alva-do-
Douro. '
Depois logo de madrugada o pendão dos Rami-
res, o Açor negro em campo escarlate, se plantara
deante das barreiras gateadas : e ao lado, no chão,
amarrado á haste por uma tira de couro, reluzia o
velho emblema senhorial, o sonoro e fundo caldei-
rão polido. Por todo o CastcUo se apressavam os
serviçaes, despendurando as cervilheiras, arrastando
com fragor pelas lages os pesados saios de ma-
lhas de ícrro. Nos pateos os armeiros aguçavam as-
cumas, amaciavam a dureza das grevas e coxotes
com camadas d'estopa. Já o adail, na ucharia, arro-
lara as rações de vianda para os dous quentes dias
da arrancada. E por todas as cercanias de Santa
Ireneia, na doçura da tarde, os atambores mou-
riscos, abafados no arvoredo, tararam! tararam! ou
mais vivos nos cabeços, ratatam ! ratatam ! convoca-
vam os cavalleiros de soldo e a peonagem da mes-
nada dos Ramires.
No emtanto o irmão do Alcaide, sempre disfar-
çado em beguino, de volta ao castello d'Aveyras com
a boa nova de prestes soccorros, transpunha ligeira-
mente a levadiça da carcova . . . E aqui, para ale-
grar tão sombrias vésperas de guerra, o tio Duarte,
no seu Poemeto, engastara uma sorte galante:
A ILUSTRE CASA DE IIAMIRES
Á moça, que na fonte encliia a bilha.
O frade íouba um beijo c diz Amen!
Mas Gonçalo hesitava em desmanchar coin um
beijo de clérigo a pompa d"aqu(ílla íormusa sortida
d'armas . . . E mordia pensativamente a rama da pen-
na — quando a porta da livraria rangeu,
— O correio.. .
Era o Bento com os Jornaes e duas cartas. O
Fidalgo apenas abriu uma, lacrada com o enorme
sinete d'armas do Barròlo — rcpellindo a outra em
que reconhecera a lettra detestada do seu alfaiate de
Lisboa. E immediatamente, com uma palmada na mesa:
— Oh diabo! quantos do mez, hoje? quatorze.
hein?
O Bento esperava com a mão no fecho da porta.
— É que não tardam os annos da mana Gra-
ça! De todo esqueci, esqueço sempre. E sem ter
um presentinho engraçado... Que secca, hein?
Mas na véspera o Manoel Duarte, na Assembléa.
á mesa do voltarete, annunciára uma fuga a Lisboa
por três dias, para tratar do emprego do sobrinho
nas Obras Publicas. Pois corria a \'illa-Clara pedir
ao snr. Manoel Duarte que lhe comprasse era Lis-
boa um bonito guarda-solinho de seda branca com
rendas . . .
— O snr. Manoel Duarte tem gosto; tem muito
A ILUSTRE CASA DE RAMIRES
ii:osto! E então o Joaquim que não selle a egoa; já
oâo vou ao Sanches Lucena. Oh, senhores, quando
pagarei eu esta infame visita ? Ha três mezes ! . . .
Kmíim, por dous dias mais a bella D. Anna não en-
velhece; e o ^"elho Lucena também não morre.
E o Fidalgo da Torre, que decidira arriscar o
beijo folgazão, retomou a penna, arredondou o sou
rmal com elegante harmonia :
«A moça, furiosa, gritou: Fu! Fu! uillão! E o
beguino, assobiando, aligeirou as sandálias pelo cór-
rego, na sombra das altas faias, emquanto que por
Lodo o fresco valle, até Santa Maria de Craquêde, os
itambores mouriscos, tararam! ratamtam! convoca-
\'à\\\ á mesnada dos Ramires, na doçura da tarde...»
III
Durante a longa semana, nas horas da calma, o
Fidalgo da Torre trabalhou com aflerro e proveito.
E n"essa manhã, depois de repicar a sineta no cor-
redor, duas vezes o Bento empurrara a porta da li-
vraria, avisando o snr. Doutor «que o almocinho,
assim á espera, certamente se estragava.» Mas de
sobro a tira d'almaço Gonçalo rosnava «já vou!»
—sem despegar a penna, que corria como quilha
leve em agua mansa, na pressa amorosa de termi-
nar, antes do almoço, o seu Capitulo I.
Ah! e que canceira' lhe custara, durante esses
dias. esse copioso Capitulo, tão difficil, com o im-
menso Castello de Santa Ireneia a erguer; e toda
uma edade esfumada da Historia de Portugal a con-
densar em contornos robustos ; e a mesnada dos Ra-
mires a apetrechar, sem que faltasse uma ração nos
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
alforges, ou uma garrimcha nos caixotes, sobre o dor-
so das mulas ! Mas felizmente, na véspera, já movera
para íóra do Castello o troço de Lourenço Piamires,
em soccorro de Monte-mór, com um vistoso coriscar
de capellos e lanças em torno ao pendão tendido.
E agora, n'esse remate do Capitulo, era noite, c
o sino de recolher tangera, e a almenára luzira na
Torre albarran, e Tructesindo Rannires descera á sala
térrea da Alcáçova para ceiar — quando íóra, deante
da carcova, com três toques fortes annunciando fi-
lho-d'algo, uma bozina apressada soou. E, sem que o
villico tomasse permissão do Senhor, o alçapão daleva-
diça rangeu nas correntes de ferro, rebombou cava-
mente nos apoios de pedra. Ouem assim chegava em
dura pressa era Mendo Paes, amigo de AíTonso fl e
mordomo da sua Cúria, casado com a filha mais velha
de Tructesindo, 1). Theresa — aquella que, pelo on-
deante e alvo pescoço, pelo pisar mais leve que um
vuo, os Uamires chamavam a Garça Real. O Senhor
do Santa Ireneia correra ao patim para acolher, n'um
abraço, o genro amado — «membrudo cavalleiro, com
os cabellos ruivos, a alvíssima pelle da raça germâ-
nica dos visigodos ...» E, de mãos enlaçadas, am-
bos penetraram n'essa sala de abobada, allumiada
por tochas que toscos anncis de ferro seguravam,
chumbados aos muros.
Ao meio pousava a massiça meza de carvalho,
.V Il.l.l STISE CASA UE RAMIUES
rodeada do oscanhos até ao topo, onde se erguia,
deante d'um áspero mantel de linho coijerto de pra-
tos de estanho e de picheis luzidios, a cadeira se-
nhorial com o Açor grossamente lavrado nas altas
espaldas, e d'ellas suspensa, pelo cinturão tauxeado
de prata, a espada de Tructesindo. Por traz negre-
java a funda lareira apagada, toda entulhada do
ramos de pinheiro, com a prateleira guarnecida de
conchas, entre bocaes de sangucsugas, sob dois mo-
lhos de palmas trazidas da Palestina por Gutierres
Ramires, o d'Ultra/nar\ Rente a um esteio da cha-
miné, um íalcâo, ainda emplumado, dormitava na
sua alcondora: e ao lado, sobre as lages, n'uma ca-
mada de juncos, dois alões enormes dormiam tam-
bém, com o focinho nas patas, as orelhas rojando.
Toros de castanheiro sustentavam a um canto um
pipo de vinho. Entre duas frestas engradadas de íer-
ro, um monge, com a lace sumida no capuz, sen-
tado na borda de uma arca, lia, á claridade do can-
tlil que por cima fumegava, um pergaminho desen-
rolado . . . Assim Gonçalo adornara a soturna sala
Affonsina com alfaias tiradas do Tio Duarte, de Walter
Scott, de narrativas do Panorama. Mas que esforço !...
Vj mesmo, depois de collocar sobre os joelhos do
monge um folio impresso em Moguncia por Ulrick
Zoli. desmanchara toda essa linha tão erudita, ao
recordar, com um murro na mesa, que ainda a Im-
80 A ILUSTRE CASA DE RAMIRES
prensa se não inventara em tempos de seu avô Tru-
ctesindo, e que ao monge lettrado apenas competia
«um pergaminho de amarellada escripta...»
E caminhando nos ladrilhos sonoros, desde a la-
reira até ao arco da porta cerrado por uma cortina
de couro, Tructesindo, com a branca barba espalhada
sobre os braços cruzados, escutava Mendo Paes, que,
na confiança de parente e amigo, jornadeára sem ho-
mens da sua mercê, cingindo apenas por cima do
brial de lâ cinzenta uma espada curta e um punhal
sarraceno. Açodado e coberto de pó correra Mendo
Paes desde Coimbra para supplicar ao sogro, em
nome do Rei e dos preitos jurados, que se não ban-
deasse com os de Leão e com as senhoras Infan-
tas. E já desenrolara ante o velho todos os funda-
mentos invocados contra ellas pelos doutos Notários
da Cúria — as resoluções do Concilio de Toledo! a
bulia do Apostolo de Roma, Alexandre ! o velho íóro
dos Visigodos!... De resto, que injuria íizera ás se-
nhoras Infantas seu real irmão para assim chamarem
hostes Leonezas a tcírras de Portugal? Nenhuma!
Nem regedoria nem renda dos castcllos e villas da
doação de D. Sancho lhes negava o senhor D. Afíonso.
O Rei do Portugal só queria que nenhum palmo de
chão portuguez, baldio ou murado, jazesse fora de
seu senhorio real. Escasso e ávido El-Rei D. Affon-
so?... Mas não entregara elle á senhora D. Sancha
A ILLISTRE CASA DE RAMIRES 81
oito mil morahitinos d'oiro? E a gratidão da irmã
lòra o Leonez passando a raia e logo cahidos os cas-
íellos [formosos d'Ulgoso, de Contrasta, d'Urros e de
Lanhosello! O mais velho da casa dos Souzas, Gon-
í-alo Mendes, não se encontrara ao lado dos cavallei-
ros da Cruz na jornada das Navas, mas lá andava
em 'recado das Infantas, como moiro, talando terra
portugueza desde Aguiar até Miranda! E já pelos cer-
ros d*Além-Douro apparecera o pendão renegado das
treze arruellas — e por traz, farejando, a alcateia
dos Castros ! Carregada ameaça, e de armas christâs,
opprimindo o Ueino — quando ainda Moabitas e Aga-
renos corriam á rédea solta pelos campos do Sul!...
E o honrado Senhor de Santa Ireneia, que tão rija-
mente ajud;ira a fazer o Reino, não o deveria decerto
desfazer^arrancando d*elle os pedaços melhores para
monges e piíra donas rebeldes! — Assim, com arre-
messados passos, exclamara Mendo Paes, tão acalo-
rado do esforço e da emoção, que duas vezes encheu
de vinho uma conca de pau e d' um trago a despe-
jou. Depois, limpando a bocca ás costas da mão
tremula:
— Ide por certo a Monte-mór. senhor Tructe-
sindo Piamires! Mas em recado de paz e boa avença,
persuadir vossa senhora D. Sancha e as senhoras In-
fantas que voltem honradamente a quem hoje con-
tam por seu pae e seu Rei !
82 A ILLLSTRE CASA DE RAMIRES
O enorme senhor de Santa Ireneia parara, pou-
sando no genro os olhos duros, soh a ruga das so-
brancelhas, hirsutas e brancas como sarças em ma-
nhã de geada :
— Irei a Monte-mór, Mendo Paes, mas levar o
meu sangue e o dos meus para que justiça logre
quem justiça tem.
Então ilendo Paes, amargurado, ante a heróica
teima :
— Maior dó, maior dó! Será bom sangue de Pii-
cos-homens vertido por más destórras . . . Senhor
Tructesindo Ramires, sabei que em Canta-Pedra vos
espera Lopo do Baião, o Bastardo, para vos tolher a
passagem com cem lanças!
Tructesindo ergueu a vasta face — com um riso
tão soberbo e claro que os alões rosnaram torva-
mcnte, e, acordando, o falcão esticou a aza lenta:
— Boa nova e de boa esperança! E, distei, se-
[dior !Mordomo-mór da Cúria, tão de íeição e certa
assim m"a trazeis para me intimidar?
— Para vos intimidar?... Nem o Senhor Ar-
chanjo S. Miguel vos intimidaria descendo do céo
com tod a sua hoste e a sua espada de lume! Do
sobra o sei, senhor Tructesindo l\amires. Mas casei
na vossa casa. E já que n'esta lide não sereis por
mim bem ajudado, quero, ao menos, que sejaes bem
avisado.
A ILLISTRE CASA DE RAMIRES ' 8.'{
O velho Truotesindo bateu as palmas para cha-
mar os sergentes:
— Bem, bem, a cear, pois! A ceia, Frei Munio!...
K vós. Mendo Paes, deixai receios.
— Se deixo! Nâo vos pôde vir damno que me
anceie de cem lanças, de duzentas, que vos surjani
a caminho.
E. emquanto o monge enrolava o seu pergami-
nho, se acercava da mesa — !Mondo Paes ajuntou com
tristeza, desafivelando vagarosamen^te o cinturão da
espada :
— Só um cuidado me pesa. E é que, n"esta jor-
nada, senhor meu sogro, ides ficar de mal com o
Tieino e com o Rei.
— Filho e amigo! De mal ficarei com o Reino je-
(om o Rei, mas de bem com a honra e commigo !
Este grito de fidelidade, tão altivo, nâo resoava
no poemeto do tio Duarte. E quando o achou, com
inesperada inspiração, o Fidalgo da Torre, atirando a
penna, esfregou as mãos, exclamou, enlevado:
— Caramba! Aqui ha talento!
Rematou logo o Capitulo. Estava esfalfado. ;í
banca do trabalho desde as nove horas, a n 4ver in-
tensamente, e em jejum, as energias magnificas dos
seus fortes avós! Numerou as tiras — fechou na ga-
veta á chave o volume do Bardo. Depois á janella,
com o collete desabotoado, ainda lançou o brado ge-
84 A ILLLSTP.E CASA DF, RAMIRES
nial n'uni grave e rouco tom, como o lançaria Tru-
ctesindo: — . .. «de. mal com o Reino e com o Rei, mas
de bem com a honra e commigo !...» E sentia n'elle
realmente toda a alma de am Ramires, como elles
eram no século xii, de sublime lealdade, mais presos
á sua palavra que um santo ao seu voto, e alegre-
mente desbaratando, para a manter, bens, contenta-
mento e vida !
O Bento, que espalhara outro repique desespe-
rado, escancarou a porta da livraria :
— É o Pereira... Está lá em baixo no pateo o
Pereira que quer íallar ao Sr. Doutor.
Gonçalo Mendes íranziu a testa, com impaciên-
cia, assim repuxado d*aquellas alturas onde respirava
os nobres espíritos da sua raça:
— Que massada!... O Pereira... Que Pereira?
— O Pereira; o Manoel Pereira, da Piiosa; o Pe-
reira Brazileiro.
Era um lavrador, com casal na Riosa, chamado
lirazileiro por ter herdado vinte contos de um tio,
regatâo no Pará. Comprara então terras, trazia ar-
rendada a Cúvti(ja, a íallada propriedade dos condes
de Monte-Agra. envergava aos domingos uma sobre-
casaca de panno íino, e dispunha de sessenta votos
na Freguezia.
— Ah! Dize ao Pereira que suba, que conversa-
mos emquanto ilmóço... E põe outro talher.
A ILLUSTRE CASA DE RÀMIUES S^i
A sala do jantar da Torre, ([ue aljria por trez
portas envidraçadas para uma funda varanda alpen-
drada, conservava, do tempo do avô Damião, (o tra-
ductor de Valerius Flaccus) dous formosos pannos
d'Arraz representando a Expedição dos Argonautas.
Louças da índia e do Japão, desirmanadas e precio-
sas, recheiavauí um immenso armário de mogno. K
sobre o mármore dos aparadores rebrilhavam os
restos, ainda ricos, das pratas famosas dos Ramires
que o Bento constantemente areava e polia com
amor. Mas Gonçalo, sobretudo de verão, sempre al-
moçava e jantava na varanda luminosa e fresca, bem
esteirada, revestida até meio-muro por finos azulejos
do século xviii, e offerecendo a um canto, para as
preguiças do charuto, um profundo canapé de palhi-
nha com almofadas de damasco.
Quando lá entrou, com os jornaes da manhã
que não abrira, o Pereira esporava, encostado a um
grosso guarda-sol de panninho escarlate, consideran-
do pensativamente a quinta que, d'alli, se abrangia
até aos álamos da ribeira do Coice o aos outeiros
suaves de Valverde. Era um velho esgalgado e rijo,
todo ossos, com um carão moreno, de olhos miudi-
nhos e azulados, e uma barbicha rala, já branca,
entre dous enormes collarinhos presos por botões
de ouro. Homem de propriedade, acostumado á Ci-
8(» A ILUSTRE CASA DE RAMIRES
dade e ao trato das Auetoridades, estendeu larga-
mente a mão ao Fidalgo da Torre, e acceitou, sem
embaraço, a cadeira qae elle lhe empurrara para a
mesa — onde dominavam, com os seus ricos lavores
duas altas eníusas de crystal antigo, uma cheia d"açu-
cenas e a outra de vinho verde.
— Então, que bom vento o traz pela Torre, Pe-
reira amigo? Não o vejo desde Abril!
— É verdade, meu Fidalgo, desde o sabbado em
que cahiu a grande trovoada, na véspera da eleição !
confirmou o Pereira afíagando o cabo do guarda-sol
que conservara entre os joelhos.
Gonçalo, n'uma esfaimada pressa do almoço, re-
picou a campainha de prata. Depois rindo:
— E os seus votos, Pereira amigo, segundo o
costume, lá foram para o eterno Sanches Lucena,
direitinhos, como os rios vão para o mar!
O Pereira também riu, com um riso agradado
que lhe descobria os mãos dentes. Pois o circulo
era uma propriedade do Sr. Sanches Lucena! Ca-
valheiro de fortuna, homem de. bem, conhecedor, ser-
viçal... E então, quando lhe calhava como em Abril
o apoio do (3overno, nem Nosso Senhor Jesus Christo
•que voltasse á terra e se propuzesse por Villa-Clara
desalojava o patrão da Fe/íosa !
O Bento, vagaroso, de jafjueta do lustrina preta
•íObre o aAcntal resplandecente, entrava com um
A ILLISTRE CASA DE RAMIRES 87
prato d'ovos estrellados, quando o Fidal^ro, que des-
ilobrára o guardanapo, o amarrotou, arremessou
com nojo:
— Este guardanapo já serviu! Eu estou farto
de gritar. Nào me importa guardanapo roto, ou com
passagens, ou com remendos.. . Mas branquinho, fres-
quinho cada manhã, a cheirar a alfazema!
E reparando no Pereira, que discretamente ar-
redava a cadeira :
— O quê! Você não almoça, Pereira?...
Não, agradecia muito ao Fidalgo, mas n'essa
tarde comia as sopas com o genro nos Bravaes, que
era festa pelos annos do netinho.
— Bravo! Parabéns. Pereira amigo! Dè lá um
beijo meu ao netinho . . . Mas então ao menos um
copo de vinho verde.
— Entre as comidas, meu Fidalgo, nem agua nem
vinho.
Gonçalo farejara, arredara os ovos. E reclamou
o «jantar da familia», sempre muito farto e sabo-
roso na Torro, e começando por essas pesadas sopas
de pão, presunto e legunues, que elle desde creança
adorava e chamava as palnnganns. Depois, barrando
de manteiga uma bolacha :
— Pois francamente. Pereira, esse seu Sanches
Lucena não faz honra ao circulo! Homem excellen-
te, decerto, respeitável, obsequiador... Mas mudo,
Pereira ! Inteiramente mudo !
88 A ILLUSTRE CASA DE RAMiUES
O lavrador roçou vagarosamente pelas ventas
cabelludas o lenço vermelho, enrolado em bóia:
— Sabe as cousas, pensa com acerto...
— Sim! mas pensamento e acerto nâo lhe sahem
de dentro do craneo! Depois está muito velho, Pe-
reira! Que edade terá elle? Sessenta?
— Sessenta e cinco. Mas de gente muito rija,
meu Fidalgo. O avô durou até aos cem annos, E ain-
da o conheci na loja...
— Como, na loja?
Então o Pereira, enrolando mais o lenço, estra-
nhou que o Fidalgo não soubesse a historia do San-
ches Lucena. Pois o avô, o Manoel Sanches, ora uu>
Unheiro do Porto, da rua das Hortas. E casado tam-
bém com uma moça muito vistosa, muito íaría-
Ihuda...
— Bem! atalhou o Fidalgo. Isso é honroso para
o Sanches Lucena, isente que engordou, que trepou...
E eu concordo, Pereira, o circulo deve mandar a Lis-
boa um homem como o Sanches Lucena, que tenha
n'elle terra, raizes, interesses, nome... Mas é preciso
que seja também homem com talento, com arrojo.
Um deputado, que, nas grandes questões, nas crises,
se erga, transporto a Camará!... E depois, Pereira
amigo, em Politica quem mais grita mais arranja.
Olho a estrada da Riosa! Ainda em papel, a lápis
vermelho... E, se o Sanches Lucena fosse homem de
A ILLISTUE CASA DE RAMIUES 8Í>
berrar em S. Bento, já o Pereira trazia por lá os
seus carros a chiar.
O Pereira abanou a cqljeça, com tristív.a :
— Ahi talvez o Fidalgo acerte... Para essa es-
tradinha da Piiosa sempre faltou quem gritasse. Alii
talvez o Fidalgo acerte!
Mas o Fidalgo emmudecera, embebido na chei-
rosa sopa. dentro d' uma caçoila nova. com raminhos
de hortelã. E então o Pereira, acercando mais a ca-
deira, cruzou no rebordo da mesa as mãos, que meio
século de trabalho na terra tornara negras e duras
como raizes — e declarou que se atrevera a incom-
modar o Fidalgo, áquellas horas do ahnocinho, por-
que njessa semana começava um corte de madeiras
para os lados de Sandim, e desejava, antes que sur-
dissem outros arranjos, conversar com S. Ex.** so-
bre o arrendamento da Torre...
Gonçalo reteve a colher, num pasmo risonho :
— Você queria arrendar a Torre, Per(>ira?
— Queria conversar com V. Ex.". Como o Relho
está despedido...
— Mas eu já tratei com o Casco, o .íosé Casco
dos Bravaes! Ficamos meio apalavrados, ha dias...
Ua mais de uma semana.
O Pereira coçou arrastadamente a barba rala.
Pois era pena, grande pena . . . Elle só no sabbado
s"inteirára da desavença com o Belho. E. se o Fi-
!M) A ILLISTRE CASA DE RAMIRES
(lalgo não resalvava o segredo, por quanto ficjíra o
arrendamento?
— Não resalvo, não, homem! >sovecentos e cin-
coenta mil réis.
O Pereira tirou da a]gil)eira do colíete a caix<i
de tartaruga, e sorveu detidamente uma pitada,
com o carão pendido para a esteira. Pois maior
pena, mesmo para o Fidalgo. Emfmi ! depois de pa-
lavra trocada ... Mas era peT^a, porque elle gostava da
propriedade; já pelo S. João pensara em abeirar o
Fidalgo; e, apezar dos tempos correrem escassos,
não andaria longe de oílerecer um conto e cin-
coenta, mesmo um conto cento e cincoental
Uonçalo esqueceu a sopa, n'uma emoção que
lhe afogueou a face fina, ante um tal accrescimo de
renda — e a exceliencia de tal rendeiro, hom'-m abas-
tado, com metal no banco, e o mais fino amanhador
ih' terras de todas as cercanias!
— Isso é serio, oh Pereira?
O vellio lavrador pousou a caixa de rapé sobre
a toalha, com decisão:
— Meu Fidalgo, eu não era homem que en-
trasse na Torre para eaçoar com V. Ex."""! Propos-
ta a valer, cscriptura a íazer... Mas se o arrenda-
mento está tratado . . .
Recolheu a caixa, apoiava a mão larga na ineza
para se erguer, quando (lonçalo acudiu, nervoso,
empurrando o prato:
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES ÍH
— Escute, homem!... Eu, não contei por miúdo
i) caso do Casco. Você compreliendc, sabe como
essas cousas passam... O Casco veiu, conversamos;
eu pedi novecentos e cincocnta mil reis e porco
pelo Natal. Primeiramente concordou, que sim; logo
udiante emendou, que não . . . Voltou com o com-
padre; depois, com a mulher e o compadre, e o
afilhado, e o cão ! Depois só. Andou ahi pela quinta,
a medir, a cheirar a terra; acho até que a pro-
vou. Aquellas rahulices do Casco!... Por fim, uma
tarde, lá gemeu, lá acceitou os novecentos e cin-
coenta mil riús, sem porco. Cedi do porco. Aperto de
mão, copo de vinho. Ficou de apparecer para combi-
nar, tratar da escriptura. Não o avistei mais, ha quasi
duas semanas! Naturalmente já virou, já se arre-
pendeu... Para resumir, não tenho com o Cascojcon-
tracto firme. Foi uma conversa em que apenas es-
tabelecemos, como base, a renda de novecentos e
cincoenta. E eu, que detesto cousas vagas, já an-
dava pensando era encontrar melhor homem !
Mas o Pereira coçava o queixo, desconliado.
EUe, em negócios, gostava de lisura. Sempre se
entendera bem com o Casco. Nem por um con-
dado se atravessaria nos arranjos do Casco, ho-
mem violento, assomado. ])e modo que desejava as
cousas claras, para não surdir desgosto rijo. Não se
lavrara escriptura, bem! Mas ficara, ou não, palavra
dada entre o Fidalgo e o Casco?
92 A ILLISTUE CASA DE RAMIRES
Gonçalo !Mendes Ramires, que fiudára apressa-
damente a sopa e enchia um copo de vinho verde
para se cahiiar, fitou o lavrador, quasi severa-
mente :
— Homem, essa pergunta!... Pois se eu ti-
vesse confirmado ao ('asco decisivamente a palavra
de Gonçalo Iiamires, estava agora aqui a tratar, ou
sequer a conversar comsigo. Pereira, sobre o arren-
damento da Torre?
O Pereira baixou a cabeça. Também era ver-
dade!... Pois, n'esse caso, elle abria a sua tenção,
claramente. E, como conhecia a propriedade, e apu-
rara o seu calculo— offerecia ao Fidalgo um conto
cente e cincoenta mil réis, sem porco. Mas não dava
para a família nem leite, nem hortaliça, nem fructa.
O Fidalgo, homem sô, pouco se aproveitava. A Torre,
porém, casa antiga, enxameava de gentes e d'adhe-
rentes. Todos apanhavam, todos abusavam . . . Em-
fim, esse era o seu principio. E de resto, para a meza
do Fidalgo e mesmo dos creados, bastava o pomar
e a horta de regalo . . . Que horta e pomar necessi- '■
tavam trato mais geitoso: mas elle, por amor do Fi-
dalgo, e gosto seu, por lá passaria e tudo luziria...
Emquanto ás outras condições, acceitava as do antigo
arrendamento. E escriptura assignada para a outra
semana, no sabbado... Estava feito?
Gonçalo, depois de um momento em que pes-
A ILUSTRE C\SA DE ItAMIHES 03
tanejou nervosa e tremulamente, estendeu a mão
aberta ao Pereira :
— Toque! Agora shn! Agora liça palavra dada!
— E nosso Senhor lhe ponha virtude, concluiu
o Pereira, firmado no immenso guarda-sol para se
erguer. Então no sabbado, em Oliveira, para a es-
criptura... Assigna V. Ex.'"' ou o Sr. padre Soeiro?
Mas o fidalgo calculava :
— >sâo, homem, não pôde ser ! No sabbado, com
effeito, estou em Oliveira, mas são os annos da ma-
na Maria da Graça...
O Pereira destapou de novo os maus dentes,
n"um riso de estima:
— Ah! e como vae a snr.'' 1). Maria da Oraça?
lia que edades a não vejo! Desde o anno passado, na
procissão de Passos, em Oliveira... Muito boa se-
nhora! .Muito dada! E o Sr. José Barròlo? Pessoa
«'\cellente também, a valer, o Sr. José Barròlo...
K que terra a d'elle, a Ribeirinha ! A melhor pro-
priedade d"estas vinte léguas em redor. Linda pro-
priedade! A do André Cavalleiro que lhe está pe-
gada, a Biscaia, não se lhe compara — é como cardo
ao pé de couve.
O Fidalgo da Torre descascava um pecego,
sorrindo :
— Do André Cavalleiro nada presta. Pereira!
Xem terra, nem alma!
1)4 A ILLISTRE CASA DE RAMIRES
O lavrador pareceu surprehendido. Elle imaíri-
nava que o Fidalgo e o Cavalleiro continuavam
chegados e amigos... Não era Politica! Mas parti-
cularmente, como cavalheiros...
^0 que? Eu e o Cavalleiro? Nem como ca-
valheiro nem como politico. Que elle nem é cava-
lheiro nem politico. É apenas cavallo, e resabiado.
O Pereira ficou silencioso, com os olhos na toa-
lha. Depois, resumindo :
— Então está entendido, no sahhado, na cidade.
E, SC não faz transtorno ao Fidalgo, passamos pelo
tabelliâo Guedes, e fica o feito arrumado. O Hdalgo,
naturalmente, vae para a casa da senhora sua mana.. .
— Sempre. Appareea você ás trez horas. Lá
conversamos com o padre Soeiro.
— Também ha que edades não encontro o Sr-
padre Soeiro!
— Oh! esse ingrato, agora, raramente apparece
na Torre. Sempre em Oliveira, com a mana (3raça,
que é a menina dos seus encantos... Então nem um
cálice de vinho do Porto, Pereira?... Bem, até sab-
liado. Não esqueça o beijinho para o neto.
— Cá me vae no coração, meu Fidalgo... Ora
essa! Pois consentia eu que V. Ex." se levantasse?
Sei perfeitam<mte a escada, e ainda passo pela cozinha
para debicar com a tia liosa. .lá desde o tempo do
naesinho de V. Ex.". que Deus haja, conheço bem a
A II.LLSTIIE CASA DE RAilIUES í)o
Torre!... E sempre nVesperancei de trazer n'esta
([uiula ama lavoura a meu gosto, de consolar!
Durante o caíé, esquecido dos joruaes, Gonçalo
i,'Ozou a excellencia d'aquelle negocio. Duzentos mil
réis mais de renda. E a Torre tratada pelo Pereira,
com aquelle amor da terra e saber de lavra que
transformara o chavascal do Monte-Agra n'uma ma-
ravilha de seara, vinha e horta!... Além d"isso, ho-
mem abastado, capaz de um adeantamento. E eis ahi
mais uma evidencia do valor da Torre, esse affinco
do Pereira em a arrendar, elle tão apertado, tão se-
guro... (juasi se arrependia de lhe não ter arran-
cado um conto e duzentos. Emfmi, a manhã fora fe-
cunda! E: realmente, nenhum accordo firmado o col-
lava ao Casco. Entre elles apenas s"esboçára uma
conversa, sobre um arrendamento possível da Torre,
a debater depois miudamente, n'uma Ijase nova de
novecentos e cincoenta mil reis... E que insensatez
se elle, por escrupuloso respeito d'essa conversa es-
boçada, recusasse o Pereira, retivesse o Casco, lavra-
dor do rotina — dos que raspam a terra para comer,
<i a deixam cada anno deperecendo, mais cançada e
chupada!...
— Bento, traze charutos! E o Joaquim que tenha
a égua sellada das cinco para as cinco e meia. Sem-
pre vou á Feilosa... Hoje é o dia! .
Accendeu um charuto, voltou á livraria. E. im-
Í)G A IM.rSTUE CASA DK UAMIRES
mediatamente releu o linal magnifico: «De mal com
o líeino e com o Rei, mas de bem com a hom'a e
commigo!» — Ah! como alli gritava a alma inteira
do velho portuguez, no seu amor religioso da pala-
\ra e da honra! E, com a tira d'almasso entre os
dedos, junto da varanda, considerou um momento a
Torre, as poeirentas frestas engradadas de ferro, as
resistentes ameias, ainda inteiras, onde agora adejava
um bando de pombas . . . (juantas manhãs, ás frescas
horas d'alva, o velho Tructesindo se encostara áquel-
las ameias, então novas e brancas! Toda a terra em
redor, semeada ou bravia, decerto pertencia ao po-
deroso Rico-Homem. E o Pereira, n'esse tempo colo-
no ou servo, só abordava o seu Senhor de joelhos e
tremendo! Mas não lhe pagava um conto cento e
cincoenta mil réis de sonora moeda do Reino. Tam-
bém, que diabo, o vòvò Tructesindo não precisava...
<,)uando os saccos rareavam nas arcas, e os acosta-
dos rosnavam por tardança de soldo, o leal Ricò-Ho-
mem, para se prover, tinha as tulhas e as adegas dos
Concelhos mal defendidos — ou então, numa volta
de estrada, o ovençal voltando de recolher as ren-
das reaes, o bufarinheiro genovez com os machos
ajoujados de trouxas. Por baixo da Torre (como lhe
contara o papá) ainda negrejava a masmorra feu-
dal, moio atulhada, mas com restos de correntes
^•humbadus aos pilares, e na abobada a argola d'ondc
A lI.I.ISTliF CASA DK RAMIRES 97
pendia a polé, e no lagedo os baraços em que se
escorava o potro. E, n'essa surda e húmida cova, oven-
çal, buíarinheiro. clérigos e mesmo burguezes de
lòro uivavam sob o açoite ou no torniquete, até lar-
garem agonizando o derradeiro morabitino. Ah ! a
ramantica Torre, cantada tão meigamente ao luar
pelo Videirinba. quantos tormentos abaíára!...
E de repente, com um berro. (Gonçalo agarrou
de sobre a mesa um volume de Walter Scott,
que atirou sem piedade, como uma pedra, contra o
tronco de uma faia. É que descortinara o gato da
liosa cozinheira, trepado, d'unhas fincadas n'um ra-
mo, arqueando a espinha, para assaltar um ninho de
melros.
(Juando n'essa tarde o Fidalgo da Torre, airoso
no seu fato novo de montar, polainas de couro po-
lido, luvas de camurça branca, parou a égua ao
portão da Fe/tosa — um velho todo esfarrapado, com
longos cabellos ctihidos pelos hombros c immensas
l)arbas espalhadas polo peito, im mediatamente se er-
gueu do banco de pedra onde comia rodellas de
chouriço, bebendo d"uma cabaça, para o avisar que
o Sr. Sanches Lucena e a Sr.'^ D. Anna andavam por
fora, de carruagem. Oonçalo pediu ao velho que
puchasse o ferro da sineta. E entregando um cartão
7
98 A ILLIISTRE CASA DE RAMIRKS
ao iiiDço. ([ue entreabrira a rica grade dourada,
com um S e um L entrelaçados sob uma coroa de
conde :
— O Sr. Sanches Lucena, bem?
O Sr. Conselheiro, agora, um pouquinho me-
lhor ...
— O que? Esteve doente?
— Pois o Sr. Conselheiro, aqui ha três ou qua-
tro semanas, andou muito agoniado . . .
— Oh! Sinto muito... Diga ao Sr. Conselheiro
que sinto muitissimo!
Chamou o velho que repicara a sineta para o^
recompensar coui um tostão. K. interessado por aquel-
las barbaças e melenas de mendigo de Melodrama i
— Vocemecè pede esmola por estes sitios?
Õ homem ergueu para elle os olhos sujos, aver-
melhados da poeira e do sol, mas risonhos, quasi con-
tentes :
^Também me chego pela Torre, meu Fidalgo.
E, graças a Deus, lá me fazem muito bem.
— Então quando lá voltar diga ao Bento . . .
Você conhece o Bento?
Se conhecia ! E a Snr.** llosa . . .
' — Píjís diga ao Bento que lhe dr umas calças,
homem! Você assim, com essas calças, não anda
decente.
O velho riu, num riso lento e desdentado, mi-
A ILH STRE CASA DE RAMIRES 99
rnndo com gosto os sórdidos farrapos que lhe trape-
javain nas canellas, mais denegridas e seccas que
galhos de inverno:
— Ròtinhas, rutinhas... Mas o Sr. dr. Júlio diz
que me ficam assim bem. O Sr. dr. Júlio, quando
lá passo, sempre me tira o retrato na machina.
Ainda na semana passada... Até com uns pedaços
de grilhões dependurados do pulso, e uma espada er-
guida na mão . . . Parece que para mostrar ao Go-
verno.
Gonçalo, rindo, picou a égua. Pensava agora em
alongar por Valverde: depois recolheria por Villa-
Clara, e tentaria o Gouvèa a partilhar na Torre um
cabrito assado no espeto de cerejeira, para que elle
na véspera, na Assembléa, convidara o Manoel Duarte
e o Tito. INIas ao atravessar a «Cruz das Almas»,
onde a estrada de Corinde, tão linda, com as suas fdas
d'alaraos, crus.i a ladeira de Valverde, parou — no-
tando ao fundo, para o lado de Corinde, como o con-
fuso esbarro d' uma carrada de lenha, e uma car-
riola d"açouguo, e uma mulher de lenço escarlate
bracejando so])re a albarda d' um burro, e dous la-
vradores de enxada ás costas. E, de repente, todo o
encalhe se despegou — a mulher trotando no seu
Ijurrinho, logo sumida n'uma volta de arvoredo ;
a carriola solavancando n"um rolo leve de poeira;
o carro avançando para a « Cruz das Almas » a
100 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
chiar tardamente; os cavadores descendo para uma
cliâ atravez das leiras de íeno... Na estrad^, só res-
tou, como desamparado, um homem de jaqueta ao
hombro, que se arrastava penosamente, coxeando.
Gonçalo trotou, com curiosidade:
— Que foi?... Vocemecê que tem?
O homem, com a perna encolhida, levantou para
Gonçalo uma íace arrepanhada, quasi desmaiada, que
reluzia sob us camarinhas de suor :
— Nosso Senhor lhe dè muito boas tardes, meu
Fidalgo! Ora o que hade ser? Desgraças d'esta vida!
E, gemendo, contou a sua historia. — Desde me-
'/es padecia d'uraa chaga n'um torno/.ello. que não
seccára, nem com emplastos, nem com pó de mur-
tinhos, nem com henzeduras... E agora andava
arriba, na fazenda do Sr. dr. Júlio, a concertar um
socalco, para ajudar um compadre também doente
com maleitas — e, zás, desaba mn pedregulho, que
topa na ferida, leva a carne, lasca o osso, o deixa
n'aquella lastima!... Até rasgara a fralda para enso-
par o sangue e amarrar por cima o lenço.
— Mas assim não podo andar, homem! D'ond('
é vocemecê?
— De Cof-indc, meu Fidalgo. ?»Ianoel Solha, do
logar da Finta. Até lá, sempre me hei-de arrastar.
— E então, d"cssa gente toda, que ahi estava ha
bocado, ninguém o poude ajudar?... Uma carriola.
^ dous latagões. ..
A ILLUSTRE CASA DE r.AilIUES 101
Uma rija líuinada, no teimoso esforço de fir-
mar a perna, arrancou um grito ao Solha. Mas sor-
riu, arquejando... Que queria o Fidalgo? Cada um,
ueste mundo, tem a sua pressa... Emfim, a rapariga
do burro promettêra passar pela Finta, para avisar.
E talvez um dos seus rapazes apparecesse na estrada
com uma eguasita que elle comprara pela Paschoa —
e que, por desgraça, também mancava!...
Immediatamente, com um salto leve, o Fidalgo
da Torre desmontou:
— Bem! Então, égua por égua, já vocemec^í
tem aqui esta. ..
O Solha embasbacou para Gonçalo:
— Ora essa ! Santo nome de Deus ! . . . Pois eu
havia de ir a cavallo, e V, Ex.'^ a pé?
Gonçalo ria:
— Homem, com essas discussões de «eu a pé»
e «você a cavallo», e «faz favor» e «não senhor»,
é que perdemos um tempo precioso. Monte, esteja
quieto, e trote para a Finta!
O outro recuava para a valleta da estrada, sa-
cudindo a cabeça, esgazeado, como no espanto de
um sacrilégio:
— [sso é que não, meu senhor, isso é que não !
Antes eu acabasse aqui á mingoa, com a chaga
em bolor!
Gonçalo bateu o pé, com auctoridade: •
lOâ A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
— Monte, que mando eu! Vocemecè é um la-
vrador de enxada, eu sou um Doutor formado em
Coimbra, sou eu que sei, sou eu que mando!
E o Solha, logo submisso ante aquella força
deslumbrante do Saber superior, agarrou em silen-
cio a crina da égua, enfiou respeitosamente o es-
tribo, ajudado pelo Fidalgo, que, sem tirar as luvas
brancas, lhe amparava o pé entrapado e manchado
de sangue.
Depois, quando elle repousou no selllm com um
ah ! consolado :
— Então que tal?
O homem só murmurava o nome de Nosso Se-
nhor, na gratidão e no assombro d'aquclla caridade:
— Mas isto é a volta do mundo... Eu aqui, na
égua do Fidalgo! E o Fidalgo, o Sr. Gonçalo Rami-
res, da Torre, a pé pela estrada !
Gonçalo gracejou. E, para entreter a caminhada,
perguntou pela quinta do Dr. Júlio, que agora se arro-
jara a obras e plantações de vinha. Depois, como o
IManoel Sõllia conhecia o Pereira Brasileiro (que pen-
sara em arrendar as terras do Dr. .lulio), conversa-
ram sobre esse esperto homem, sobre as grandezas
da Corf/ga. Já sem embaraço, direito no sellim, no
gosto d'aquella intimidade com o Fidalgo da Torre, o
Solha esquecia a chaga, a dòr que adormentara. E ú
estribeira do Solha, attento e sorrindo, o Fidalgo es-
tugava o passo na poeira branca.
A ILLfSTItE CASA DE RAMIRES 103
Assim se avizinhavam da Bica-Santa, um dos
sítios decantados d*aqueilas cercanias formosas. Ahi
a estrada, cortada na encosta d' um monte, alarga e
íbrma um arejado terraço, d'onde se abrange todo
o valle de Corinde, tão rico em casaes, em ar-
voredos, em searas, em aguas. No pendor do monte,
coberto de carvalhos e de tragas musgosas, brota a
Ibnte nomeada, que já em tempos d'El-íiei D. João V
cura\ a males d'entranhas — e que uma devota senhora
de Corinde, 1). Rosa Miranda Carneiro, mandou en-
canar desde o alto até a um tanque de mármore,
onde agora corre beneficamente, por uma bica de
bronze, sob a imagem e patrocinio de Santa Rosa
de Lima. De cada lado do tanque se encurvam dous
compridos bancos de pedra, que a espalhada ra-
maria das carvalheiras tolda de sombra e frescura.
É um suave retiro onde se apanham violetas, se co-
mem merendas, e senhoras dos arredores se sentam
em rancho, nas tardinhas de domingo, escutando os
melros, gozando a povoada, luminosa e verdejante
largueza do valle.
Antes porém de desembocar na Bica-Santa, e
perto do legar do Serdal, a estrada de Corinde que-
bra n*uma volta: — ^e, ahi, de repente, a égua pu-
lou, n'um reparo, que obrigou o Fidalgo da Torre,
desconfiado da pericia do Solha, a deitar a mão á
caimba do freio. Fora o encontro inesperado d' uma
iOÍ A ILLUSTRE CASA DK n\.\llllKS
carruagem — uma caleche forrada d'azul, com a pa-
relha coberta de redes brancas contra a mosca, e na
ahnoíada, tèzo, um cocheiro de bigode,- farda de
golla escarlate e chapéo de tope amarello. E Gon-
çalo mantinha ainda a égua pelo freio, como ar-
rieiro servióal em trilho perigoso — quando avistou,
sentado n*um dos bancos de pedra, junto da Bica,
com um chale-manta por cima dos joelhos, o velho
Sanches Lucena. Ao lado o trintanario, agachado,
esfregava com um molho d'herva a botina que a
bella D. Anna lho estendia, apanhando o vestido do
linho crú, apoiando a outra mão, sem luva, na cinta
vergada e íina.
0 A desconcertada apparicâo do Fidalgo da Torre,
pux.ando pela rédea a sua égua onde se escarran-
chava regaladamente um cavador em mangas de
camisa, alvorotou aquelle repousado e dormente re-
canto da Bica. Sanches Lucena esbugalhava os olhns.
esbugalhava os óculos, n'um arremesso do curiosida-
de que o levantiira, com o pescoço esticado, o chale-
manta escorregado para a relva. 1). Anna recolheu
bruscamente a botina, logo empertigada, na gravi-
dade condigna da senhora da Fe/fona, retomando
como uma insígnia o cabo d"ouro da luneta d'ouro.
suspensa por um cordão d'ouro. K até o trintanario
ria pasmadamente para o Solha.
Mas já, com o seu desembaraço elegante, Gon-
A ILLISTUE CAS.V DE RAMIUES U)o
calo, n'um relance, saudara D. Anna, apertava com
fervor a mão espantada do Sanches Lucena, e, ale-
gremente se conííratulava por aquelle encontro di-
toso! Pois viniia justamente da Feitosa! E ahi sou-
bera com desgosto, por um moço da quinta de-
certo exagerado, que o Sr. Conselh(íiro nas ultimas
semanas andara doente... E, então como estava?
com.o estava? — Oh! a physionomia era excellente!
— Pois não é verdade, Sr.'^ D. Anna? O aspecto
(■' excellente!
Com um leve requebro da cabeça, um fofo on-
dear do molho do plumas brancas sobre o chapéo de
palha veiTnelha, ella volveu n'uma voz rolada, lenta e
gorda, que arripiou Gonçalo:
— O Sanches agora, graças a Deus, desíructa
melhor saúde . . .
— Um pouco melhor, sim, com eíTeito, muito
agradecido a V. Ex.'\ Sr. Gonçalo liamires! murmu-
rou o descarnado e corcovado homem, repuxando
para os joelhos o chale-manta.
E, com os óculos a luzir, cravados em Gonçalo,
na curiosidade que o abrazava, quasi lhe rosara a
lace afdada, mais amarella que um cirio:
— Mas, com perdão de V. Ex." ! como é que
V. Ex.''^ anda por aqui, pela estrada de Corinde,
n"este estado, a pé, trazendo ú rédea um lavrador
de enxada?...
106 A ILUSTRE CASA DE RAMIRES
Rindo, sobretudo para D. Anna, cujos olhos íor-
inosamente negros, d' uma íunda refulgencia liquida,
também esperavam, sérios e reservados, Gonçalo
contou o desastre do bom homem, que encontrara
no caminho gemendo, arrastando a perna escala-
vrada . . .
— De sorte que lhe ofíereci a minha égua... E
até, se V. Ex.^ me permitte, minha senhora, é neces-
sário que eu combine com elle o resto da jornada...
Rapidamente, voltou ao Solha, que, de novo aca-
nhado ante os senhores da Feifosa, com o chapéu
na mão, encolhido sobre o sellim, como attenuando
a sua grandeza, logo se desestribou para desmontar.
Mas já Gonçalo lho ordenava que trotasse para a
Finta — e lhe mandasse a égua por um dos seus rapa-
zes, alli á Bica-Santa, onde elle se demorava com o
Snr. Conselheiro. E quando o Solha largou, saudando
desabaladamente, torcido, como impellido a seu pe-
zar pelos acenos risonhos com que o Fidalgo o des-
pedia, o assombro do Sanches Lucena recomeçou:
— Ora uma cousa d'estas! Eu tudo esperaria,
tudo, menos o Sr. Gonçalo Mendes Ramires a tra-
zer á rédea, pela estrada de Corinde, um cavador
d'enxada! É a repetição do Bom Samaritano... Mas
para melhor !
Gonçalo gracejou, sentado no banco, junto de
Sanches Lucena. — Oh! o Bom Samaritano não mere-
A ILUSTRE CASA DE RAMIRES 107
cera uma pagina tão amável no Evangelho somente
por ofíerecer o burro a um Levita doente: decerto
mostrara virtudes mais bellas... — E sorrindo para
D. Anna, que, do outro lado de Sanches Lucena,
espalhava a luneta, com lentidão magestosa, pelas
arvores e pela Fonte que tão bem conhecia:
— Ha dous annos, minha senhora, que eu não
tenho a honra...
Mas Sanches Lucena despediu um grito :
— Oh! Sr. Oonçalo Piamires! V. Ex." traz sangue
na mão!
O Fidalgo reparou, espantado. Sobre a luva de
camurça branca resaltavam duas manchas arro-
xeadas :
— Não é sangue meu! foi naturalmente quando
o Solha montou, e eu lhe segurei o pé escalavrado . . .
Arrancou a luva, que arremessou para as hervas
bravas, por traz do banco de pedra. E continuando o
sorriso :
— Com eífeito, não tenho a honra de encontrar
a V. Ex.", minha senhora, desde o baile do barão das
Marges, em Oliveira, o famoso baile de Entrudo . . .
Ha mais de dois annos, era eu estudante. E ainda
me recordo que V. Ex.'' estava vestida esplendida-
mente de Catharina da Rússia ...
E, emquanto a envolvia no sorrir dos olhos finos
e meigos, pensava: — «Formosa creatura! mas ordi-
•108 A ILLUSTliE CASA DE RAMIUES
naria! e que voz!...» D. Arma também se recordava
do baile dos Marges:
— O cavalheiro, porém, está equivocado. Eu não
íui de Russa, fui de Imperatriz...
— Sim, d'ímperatriz da Rússia, de Grande Ca-
tharina . . . E com ura gosto! com. um luxo!
Sanches Lucena voltou vagarosamente para Gon-
çalo os óculos d'ouro, apontou um dedo alongado e
lívido :
— Pois também eu me lembro que sua mana,
e minha senhora, a Sr.'' D. Graça, trazia um trage
de lavradeira de Vianna... Foi uma luzidissiraa
festa; nem admira; o nosso Marges é sempre primo-
roso... E desde essa noite não tornei a encontrar a
mana de V. Ex.'* em intimidade. Apenas de longe,
na missa ...
De resto pouco residia agora em Oliveira, apesar
de conservar a casa montada, creadagem o cochei-
ra— porque, ou culpa do ar ou culpa da agua, não-
se dava bem na Cidade.
Gonçalo acalorou mais o seu interesse:
— Mas então, realmente, V. Ex." o que tem tido?
Sanches Lucena sorriu, com amargura. Os mé-
dicos, em Lisboa, não se entendiam. Uns attribuiam
ao estômago — outros attribuiam ao coração. Por-
tanto, aqui ou alli, viscera essencial atacada. E sof-
fria crises — más crises... Emllm, com a graça de
A ILLISTUE CASV DE n.VMíRES 109
Deus, e regimen, e leite, e descanço, ainda esperava
arrastar uns annos.
— Oh! com certeza! exclamou Gonçalo alegre-
mente. E V. Ex."' não pensa que a estada em Lisboa,
e as Camarás, e a Politica, a terrível Politica, o fa-
tiguem, o agitem?. . .
>sâo, pelo contrario, Sanches Lucena passava
toleravelmente em Lisboa. Melhor mesmo que na
Feitosa ! Depois, gostava d'aquella distracção das
Camarás. E como conservava amigos na Capital,
uma roda escolhida, uma roda fina . . .
— Um d'esses nossos excellentes amigos, V. Ex."'
decerto conhece. Elle é parente de V. Ex."'. .. O D. João
da Pedrosa.
Gonçalo, alheio ao homem, mesmo ao nome,
murmurou polidamente:
— Sim. o D. João, decerto...
E Sanches Lucena, passando pelas suissas bran-
cas a mão magríssima, quasi transparente, onde re-
luzia um enorme annel (Farmas de saphira :
— E não somente o D. João... Outro dos nossos
amigos é egualmente parente de V. Ex.^\ o chega-
do. Muitas \ezcs temos lallado de \'. Ex.'', e da sua
casa. Que elle pertence também á primeira no-
breza . . . E o Arronches Manrique.
— Cavalheiro muito dado. muito divertido! ac-
crescontou D. Anna, com uma convicção que lhe
110 A ILLISTUE CASA DE RAMIRKS
alteou o poito, a que o corpete justo marcava a
força viçosa e a perfeição.
A Gonçalo também nunca chegara esse nome
sonoro. Mas não hesitou:
— Sim, perfeitamente, o Manrique... De resto,
eu tenho tantos parentes em Lisboa, e vou tão pouco
a Lisboa ! . . . E V. Ex.", Sr." D. Anna . . .
Mas o Sanches Lucena insistia, deliciado n"aquella
conversa de parentescos fidalgos:
— V. Ex.'\ naturalmente, tem em Lisboa toda a
sua parentella histórica. Assim eu creio que V. Ex." é
primo do Duque de Lourençal... O Duarte Louren-
çal! EUe não usa o titulo, por Aliguelismo, ou antes
por habito; mas emfim é o legitimo Duque de Lou-
rençal. É quem representa a casa de Lourençal.
Gonçalo, sorrindo attentamente, desabotoara o
fraque, procurava a sua velha charuteira de couro.
— Sim, com effeito, o Duarte... Somos primos.
Diz elle que somos primos. E eu acredito. Entendo
tão pouco d'arvores de costado ! . . . De facto as casas
em Portugal andam muito cruzadas; todos somos pa-
♦ rentes, não só pelo lado d' Adão, mas pelos Godos... E
V. Ex.'\ Sr.'' D. Anna, prefere a estada em Lisboa?
Mas, reparando que escolhera um charuto, dis-
trahidamente o trincara:
— Oh! perdão minha senhora... la fumar sem
saber se V. Ex." . . .
A ILUSTRE CASA DE líAMIllES 111
Ella saudou, descendo as longas pestanas :
— O cavalheiro pôde fumar; o Sanches não íu-
ma, mas eu até aprecio o cheiro.
Gonçalo agradeceu, enjoado com aquella voz
redonda e gorda, aquelles horrendos « cavalheiro, o
cavalheiro! . ..y> Mas pensava: — «que linda pelleL
que bella creatura!...» E Sanches Lucena, inexorá-
vel, estendera o dedo agudo :
— Pois eu conheço muito, não o Sr. I). Duarte
Lourençal, não tenho essa subida honra por ora, mas
seu irmão, o Sr. D. Philippe. Cavalheiro esíimabi-
lissimo, como ^'. Ex.'^ decerto sabe , . . E depois, que
talento... Qui' talento, no cornotim!
—Ah!
— O qut'! V. Ex." não ouviu seu primo, o Sr.
1). Philippe Lourençal, tocar cornetim?
E até a bella I). Anna se animou, com um sor-
riso languido dos beiços cheios, mais vermelhos que
cerejas maduras sobre o fresco rebrilho dos dentes,
pequeninos:
— Oli! toca ricamente! O Sanches gosta muito-
de musica; eu também... Mas, como V. Ex.'' com-
prehende, qui na uldéa, com a íalta de recursos . . .
Gonçalo, arremessando o phosphoro, exclamara
logo, n'um sincero interesse :
— Então, queria que V. Ex.'^ ouvisse um amigo
meu, que é verdadeiramente sublime no violão, o-
Videirinha ! . . .
112 A IIJ.rSTHK CASA DE ItAAirRES
Sanches Lucena estranhou o nome, a sua vul-
garidade. E o Fidalíro, singelamente:
— E um rapaz nmito meu amigo, de Villa-Clara . . .
O José Videira, ajudante da Pharmacia...
« Os óculos de Sanches Lucena cresceram de puro
espanto :
— Ajudante da Pharmacia <> amigo do Sr. Gon-
çalo Mendes líamires!
Sim, desde estudante, dos exames do Lyceu.
Até o \'ideirinha passava as ferias na Torre, com a
mãe, antiga costureira da casa. Tão ])oni rapaz, tão
simples... E na realidade, no n iolâo, um génio!
— Agora tem elle uma cantiga admirável que
chamou o Fado dos Ramires. A musica é com ef-
leito um íado de Coimbra, um fado conhecido. i\Ias
os versos são d"elle, umas quadras engraçadas sobre
cousas da minha Casa, lendas, |)atranhas... Pois li-
cou sublime! Ainda ha dias na Torre, comigo e com
o Tito . . .
E a este nome, familiar e menineiro, Sanches
Lucena mostrou outro reparo:
— O fito?
O Eidalgo ria :
— E uma velha alcunha d'amizade que nós da-
mos ao António \'iil,ilobos.
Então Sanches Lucena atirou ambos os braços,
como se alguém nuiito querido apparocesse na es-
trada :
A ILI.l SrUE CASA DE RAMIUKS il3
— O António Villalohos! Mas esse é um dos
nossos fieis e bons amigos! Cavalhoiro estimabilis-
sirao! Quasi todas as semanas nos faz o favor de
apparecer pela Feitosa...
E agora era o Fidalgo que pasmava ante essa
intimidade a que nunca o Tito alludira, quando no
Gago, na Torre, na Assemiiléa, se berrava, politican-
do, o nome do Sancbes Lucena!
— Ah V. E\." conhece . . .
-Mas 1). Anna, que se erguera bruscamente do
banco, e, debruçada, recolhia a luva e a sombri-
nha— lembrou ao marido o esfriar lento da tarde, a
neblina subindo sempre áquella hora do valle aque-
cido :
— Sabes que nunca te faz bem ... E também não
laz bem á parelha, assim parada, ha tanto tempo.
Immediatamente Sanches Lucena, receioso, pu-
xara da algibeira um espesso lenço de seda branca
para abafar o pescoço. E, receioso também pela pa-
relha, logo se arrancou pesadamente do banco de
pedra, com um aceno cançado ao trintanario para
apanhar o chalé, avisar o cocheiro. Mas ainda atra-
vessou, vergado e arrimado á bengala, para o pa-
* rapeito que resguarda a estrada sobre o despenhado
pendor do monte, dominando o \alle. E confessava
a Gonçalo que aquelle era, nos arredores da Feitosa,
o seu passeio preferido. Não só pela belleza do sitio,
8
Í.14 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
já cantado pelo «nosso mavioso Cunha Torres»; — mas
porque do terraço da Bica, sem esforço, sentado no
banco, avistava n'uma largueza terras suas:
— Olhe V. Ex.''... Para além d'aquelle souto, até
á chã e ao cômoro onde está a casota amarella e por
traz o pinhal, tudo é meu... O pinhal ainda é meu...
Acolá, do renque d'álamos para deante, depois do la-
meiro, é também meu... Alli, do lado da ermida,
pertence ao Monte-Agra . , . Mas, mais para lá, pas-
sado o azinhal, pelo monte acima, é tudo meu!
O livido dedo, o braço escanifrado na manga de
casimira preta, cresciam por sobre o \alle. — Além
os pastos . . . Adeante os centeios . . . Depois o bra-
vio...— Tudo d'elle! E, por traz da magra figura al-
quebrada, de chapéo enterrado na nuca, o abafo de
seda subido até ás pallidas orelhas quasi despegadas,
D. Anna, esvelta, clara e sã como um mármore, com
um sorriso esquecido nos lábios gulosos, o formoso
peito mais cheio, acompanhava a enumeração copio-
sa, affincava a luneta sobre os pastos, e os pinhaes,
e os centeios, sentindo já — tudo d'ella!
— E agora acolá, detraz do olival, concluiu San-
ches Lucena com respeito, é sitio seu, Sr. Gonçalo
Mendes Ramires . . .
—Meu?...
— De V. Ex.", quero dizer, ligado á casa de
V. Ex.\ Pois não reconhece?... Além, por traz do
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 115
moinho, passa a estrada de Santa Maria de Craquêde.
São os túmulos dos seus antepassados... Passeio
que eu também ás vezes faço, e com gosto. Ainda ha
um mez visitamos detidamente as ruinas. E acredite
que fiquei impressionado ! Aquelle bocado de claustro
tão antigo, os grandes esquifes de pedra, a espada
chumbada á abobada por cima do tumulo do meio...
É de coramover! E achei muito bonito, muito filial,
da parte de V. Ex.^ o ter sempre aquella lâmpada
de bronze accèsa de noite o de dia . . .
Gonçalo engrolou um murmúrio risonho — por-
que não se recordava da espada, nunca recommen-
dára a lâmpada. Mas Sanches Lucena, agora, sup^
plicava um precioso favor ao snr. Gonçalo Mendes
Ramires. E era que S. Ex.* lhe concedesse a honra
de o conduzir na carruagem á Torre... Alvoroçada-
mente Gonçalo recusou. Nem podia! combinara com
o homem da perna dorida esperar alli, na Bica, pela
sua egoa.
— Mas fica aqui o meu trintanario, que leva a
egoa de V. Ex.'^ á Torre.
— Não,* não, se V. Ex.*^ me permitte, eu espe-
ro... Depois metto polo atalho da Crassa, porque te-
nho ás oito horas na Torre, á minha espera para
jantar, o Tito.
D. Anna, do meio da estrada, apressou logo o
marido sacudidamente, com a ameaça renovada da
116 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
friagem, do relento... Mas, junto da caleche, Sanches
Lucena ainda emperrou para affirmar a Gonçalo,
com a descarnada mão sobre o encovado peito, que
aquella tardt^ lhe licava cehíbre. ..
— Porque vi uma cousa que poucas Ví^zes se
terá visto: o maior fidalgo de Portugal, a pé pela
estrada de Corinde, levando á rédea no seu próprio
cavallo um cavador de enxada!
Ajudado por Gonçalo, trepou emfim pesadamente
ao estribo. 1). Anna já se enterrara nas almofadas,
alçando entre as mãos, como uma insígnia, o cabo
rebrilhante da luneta d'ouro. O trintanario também
se entezoLi, cruzou os braços : e a caleche apparatosa,
com as manchas brancas das redes dos cavallos, mer-
gulhou no silencio e na penumbra da estrada, sob a
espalhada ramaria das faias.
« Que massada ! » exclamou Gonçalo. E não vse
consolava de tarde tão linda assim desperdiçada . . .
Intolerável, esse Sanches Lucena, com o Snr. D. Fu-
lano e o Snr. D. Sicrano, e a sua gula de «roda
íina», e «tudo d'elle» por collina e valle! A mulher,
explendida peça de carne, como filha de carniceiro, —
mas sem migalha de graça ou alma. E que voz. Jesus,
que voz! Gente pedante e sabuja... — E agora só
desejava recuperar a sua egoa, galopar para a Torre,
e desa!)afar com o Tito, lamiliar da Feilthsfd o seu
• asco poi- toda aquolla Sancharia.
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 117
A egoa não tardou, a trote largo, montada pelo
filho do Solha, que, ao avistar o Fidalgo, saltou á
estrada, do chapéu na mão, encouchado e encarnado,
balbuciando que o pae chegara bem, pedia a Nosso
Senhor lhe pagasse a caridade...
— Bem, bem! Recados a tou pae. Ouc estimo as
melhoras. Lá mandarei saber.
N.'um pulo montara — galopava pelo lacil atalho
da Crassa. Mas, deante do portão da Torre, encon-
trou um moço do Gag^, com um bilhete do Tito,
annunciando que não podia jantar na Torre porque
partia n'essa semana para Oliveira!
— Que disparate! Para Oliveira também eu parto;
masjan4:o hoje! Até combinávamos, o levava na car-
ruagem... Elle que ficou a fazer, o Snr. D. António?
O rapaz coçou pensativamente a cabeça:
— O Snr. D. António passou lá por casa para eu
trazer o bilhete ao Fidalgo... Depois, creio que tem
festa, porque entrou defronte no tio Cosme foguetei-
ro, a comprar bichas de rabear...
Aquellas inesperadas bichas de rabear causaram
logo ao Fidalgo uma immensa inveja:
— E onde é a festa, sabes?
— Eu não sei, meu Fidalgo... Mas parece que
é cousa rija, porque o Snr. João Gouvèa encom-
mendou lá ao patrão dous grandes pratos de bolos
de bacalhau.
118 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
Bolos de bacalhau! Gonçalo sentio como a amar-
gura de uma traição:
— Oh ! que animaes !
E de repente ideou uma vingança alegre:
— Pois se vires hoje o Snr. D. António ou o
Snr. João Gouvêa não te esqueças de lhes dizer que
sinto muito... Que eu também cá tinha á noite na
Torre uma festa. E havia senhoras. Vinha a Snr.*
D. Anna Lucena... Não te esqueças, hein?
Gonçalo galgou as escâtias rindo da sua inven-
ção. Mas, n'essa noite, ás nove horas, depois do ar-
rastado e atochado jantar com o -Manoel Duarte, en-
trou na sala grande dos retratos, apenas allumiada
pelo lampeâo dourado do corredor, para buscar uma
caixa de charutos. E casualmente, atravez da janella
aberta, reparou n'um homem que, em baixo, rente da
sombra dos alamos, rondava, espreitava . . . IMais at-
tento, imaginou reconhecer os poderosos hoiilbros,
o andar bovino do Tito. Mas não, com certesa! o
homem trasia jaqueta e carapuço de lã. Curioso,
abafando os passos, ainda se abeirou da varanda.
O vulto porém descera da estrada, logo sumido sob
as arvores d*uma quelha que contorna o Casal do
Miranda, e desemboca adiante, na Portella, junto das
])rimeiras casas de Villa-Clara.
IV
o palacete dos Barrôlos em Oliveira (conhecido
desde o começo do século pela Casa dos Cunhaes)
erguia a sua fidalga íachada de doze varandas no
Largo d'El-Rei, entre uma solitária viella que conduz
ao Quartel e a rua das Tecedeiras, velha rua mal
<'mpedrada, ladeirenta, opprimida pelo comprido ter-
raço do jardim, e pelo muro íronteiro da antiga cerca
das Monicas. E n'essa manhã, justamente quando
Gonçalo, na caleche da Torre puxada pela parelha
do Torto, desembocava no Largo d'El-Rei, subia
pela Tecedeiras, dobrando a esquina dos Cunhaes,
n'um cavallo negro de fartas clinas, que feria as
lages com soberba e garbo, o Governador Civil, o
André Cavalleiro, de collete branco e chapéu de pa-
lha. N'um relance, do íundo da caleche, o Fidalgo
ainda o surprehendeu levantando os pestanudos olhos
120 A ILLLSroE l.VSA DE JIA.MIHES
negros para as varandas de ferro do palacete. E pu-
lou, com um murro no joelho, rugindo surdamente —
« que biltre ! » Ao apear no portão ( ura portão baixo,
como esmagado pelo immenso escudo de armas dos
Sás) tão suííocada indignação o impellia que não re-
parou nas effusões do porteiro, o velho Joaquim da
Porta, e esqueceu dentro da caleche os presentes para
Gracinha, a caixa com o guardasolinho e um cesto de
flores da Torre coberto de papel de seda. Depois em
cima, na sala d"espera, onde José Barròlo correra, ai»
sentir nas lages do Largo silencioso o estrépito di»
calhambeque, desabafou logo, arrebatadamente, ati-
rando o guarda pó para uma cadeira de couro :
— Oli senhores! Que eu não possa vir á cidade
sem encontrar de cara este animal do Cavalleiro! E
sempre no Largo, defronte da casa! É sorte!.,. Esse
bigodeira não achará outro logar para onde vá ca-
racolar com a pileca?
José Barròlo, uai moço gordo, de cabello rui\ o
e crespo, com um buço claro n"uma face mais re-
donda e corada que uma bella maçã, accudiu, inge-
nuamente :
— Pileca?!... Oh, menino, tem agora um cavalh»
lindo! Um cavallo lindo, que (;om|)rou ao .Marges!
— Pois bem! É um burro leio em cima d'um
cavallo bonito. Que fiquem ambos na cavallariça. Ou
que vão ambos pastar para as l)e\ezas!
A ILLISTIIE CAS\ DERAMllíES lâl
O BaiTÔlo escancarou a boca larga e fresca, de
soberbos dentes, n'um lento pasmo. E de repente,
cora uma patada no soalho, vergado pela cinta, rom-
peu n"uma risada que o suffocava, lhe inchava as
veias :
— Essa é d'arromba! Não, essa é para contar
no Club... Um burro feio em cima d'um cavallo
bonito! E ambos a pastarem!... Tu^vens hoje rico,
menino! Olha que essa! Ambos a pastarem, com os
íocinhos na herva, o Governador civil e o cavallo . . .
É (larromba !
llebolava pela sala. com palmadas r.idiantes so-
bre a coxa obesa. E Gonçalo, adoçado por aquella
ovação que celebra\a a sua facécia:
— Bem. Dá cú esses ossos, ou antes esses untos.
E como vae a família? A Gracinha?... Oh! viva a
linda íl()r!
Era ella, com a sua ligeiresa airosa e menineira,
os magniticos cabellos soltos sobre um penteador de
rendas, correndo alvoroçada para o irmão, que a en-
volveu n'um abraço e em dous beijos sonorys. E
immediatamente, recuando, a declarou mais bonita,
mais gorda:
— Positivamente estás mais gorda, até mais al-
ta... E sobrinho ? . . . Não ? nada, por ora ?
Gracinha cerou, com aquelle seu languido sor-
riso que mais lhe humedecia e Ibe enternecia a do-
çura dos olhos esverdeados. '
122 A ILLLSTRE CASA DE RAMIRES
— Se ella não quer, ella não quer! gritava o
José Barrôlo, gingando, com as mãos enterradas nos
bolsos do jaquetão que lhe desenhava as ancas roli-
ças. A culpa não é cá do patrão... Mas ella não se
decide !
O fidalgo da Torre reprehendeu a irmã:
— Pois é necessário um menino. Eu por mim
não caso, não tenho geito : e lá se vão d'esía feita
Barrôlos e Ramires ! A extincçào dos Barrôlos é uma
limpeza. Mas, acabados os Ramires, acaba Portugal.
Portanto, Snr.*^ D. Graça Ramires, depressa, em no-
me da nação, um morgado! Um morgado muito gor-
do, que eu pretendo que se chame Tructesindo!
Barrôlo protestou, aterrado :
— O que? Turtesinho? Não! para tal sorte não
o fabrico eu!
Mas Gracinha deteve aquelles gracejos picantes,
desejosa de saber da Torre, e do Bento, e da Rosa
cosinheira, e da horta, e dos pavões... Conversando,
penetraram na outra sala, guarnecida de contadores
da índia, de pesados cadeirões dourados de damasco
azul, com três varandas sobre o Largo d'El-Rei.
Barrôlo enrolou um cigarro, reclamou a historia do
Relho, da grande desordem. Também elle arranjara
uma «pega» cora o rendeiro da Ribeirinhn, por
causa d' um corte de pinhal. Essa do Relho porém
tora tremenda . . .
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES i23
E Gonçalo, enterrado ao canto do fundo camapé
azul, desabotoando preguiçosamente o jaquetão de
chaviote claro:
— Não! foi muito simples. Já ha mezes esse Re-
lho andava bêbedo, sem despegar . . . Uma noite ber-
rou, ameaçou a Rosa, agarrou n'uma espingarda. Eu
desci, e n'um instante a Torre ficou desembaraçada
de Relhos e de barulhos.
— Mas veio o Regedor, com cabos! accudio o
Barròlo.
Gonçalo saccudiu os hombros, impaciente:
— Veio o regedor? Veio depois, para legalisar!
Já o homem abalara, corrido. E como resultado ar-
rendei a Torre ao Pereira, ao Pereira da Riosa . . .
Contou esse negocio excellente, tratado na va-
randa, ao almoço, entre dous copos de vinho verde.
Barròlo admirou a renda — gabou o rendeiro. Assim
Gonçalo descortinasse outro Pereira para a quinta
de Treixedo, terra tão generosa, tão mal amanhada !
Á borda do camapé, coberta pelos bellos cabei-
los que lavara n'essa manhã e que cheiravam a ale-
crim. Gracinha comtemplava o irmão com ternura:
— E do estômago, andas melhor? Continuam as
ceias com o Tito?
— Oh! esse animal! exclamou Gonçalo. Ha dias
prometteu jantar na Torre, até a Rosa assou um
cabrito no espeto, magnifico... Depois falhou: creio
lâi A ILLUSTRE CASA DE R\MIRES
que teve uma orgia infame, com bichas de rabear.
Elle vem esta semana a Oliveira ... E é verdade !
vocês sabiam da intimidade do Tit(S com o Sanches
Lucen'a ?
Historiou então, cora exagero alegre, o encon-
tro da Bica-Santa, o horror que lhe causara a bella
D. Anna. a descoberta inesperada d'essa familiaridade
do Tito na Feitosa.
Barrôlo recordou que uma tarde, antes do S. João.
avistara o Tito, deante do portão da Feitosa, a pas-
sear pela trela ura cãosinho l)ranco de regaço...
— Mas o ((ue eu não coraprchendo, menino, é
esse teu «horrur» pela D. Anna... Caramba! Mulher
soberba! Um quebrado de quadris, uns olhões, um
peitoril...
— Calle essa boca impura, devasso! gritou Gon-
çalo. Pois aqui ao lado da sua mulher, que é a flor
das Graças, ousa louvar semelhante peça de carne!
Gracinha rindo, sem ciúmes, comprehendia «a
admiração do José.» Realmente, a Anna Lucena, que
vistosa, que bella!...
— Sim, concedeu Gonçalo, bella como uma bella
egoa... Mas aquella voz gorda, papuda... E a lune-
ta, os modos... E «o cavalheiro pôde fumar, o ca-
Vidheiro está enganado...» Oh! senhores, pavorosa!
RarnMo gingava, deante do sophá, com as mãos
nos bolsos da rabona:
A ILLISTRE CASA DE RAMIUKS lâli
— Uvas verdes, Snr. 1). Gonçalo, uvas verdes t
O Fidalgo dardejou sobre o cunhado uns olhos •
ferozes :
— Nem (ju»' ella se me oíferocesse, de joelhos,
em camisa, com os duzentos contos do Sanches n'uma '
salva d'ouro !
Sorrindo, Nermelha como uma pionia, com um
«oh» escandalisado, Gracinha bateu no hombro de
Gonçalo — que puxou por ella, galhofeiramente:
— Venha lá essa bochecha, e outra beijoca, para
purificar ! Com effeito, só pensar na D. Anna arrasta
a gente ás imagens brutaes... Dizias então do es-
tômago . . . Sim, filha, combalido. E ha dias mais
pesado, desde o tal cabrito no espeto e da com-
panhia beberrona do .Alanoel Duarte. Tu tens cá
agua de Vidago ? . . . Então, Barrôlinho, sè angélico. *
Manda trazer já uma garrafinha bem íresca. E olha!
pergunta se subiram um açafate e uma caixa de
papelão que eu deixei na caleche? Que ponham no
meu quarto. E não desembrulhes, que é surpreza...
Escuta! Que me levem agua bem quente. Preciso
mudar toda a roupa... Estava uma poeirada por esse
caminho !
E quando o Barrôlo abalou, a rebolar e a asso-
biar, Gonçalo, esfregando as mãos:
— Pois vocês ambos estão explendidos! E na
harmonia que convém. Tu positivamente mais íórte,
126 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
mais cheia. Até pensei que fosse sobrinho. E o Bar-
rôlo mais delgado, mais leve...
— Oh, agora o José passeia, monta a cavallo, já
não adormece tanto depois de jantar, . ,
— E a outra familia? A tia Arminda, o rancho
Mendonça? Bem?... Padre Sueiro, que^é íeito d'esse
santo ?
— Teve um ataquesito de rheumatismo, muito
ligeiro. Agora bom, sempre no Paço do Bispo, na
Bibliotheca... Parece que se entretém a fazer um li-
vro sobre os Bispos.
— Bem sei, a Historia da Sé d'OUveira... Pois
eu também tenho trabalhado muito, Gracinha 1 Ando
a escrever um Romance.
— Ah!
9 — Um Romance pequeno, uma Novella, para os
^ Ánnaes de Litteratiira e de Historia^ uma Revista
que fundou um rapaz meu amigo, o Castanheiro...
É sobre um facto histórico da nossa gente . . . Sobre
um avô nosso, muito antigo, Tructesindo.
— Tem graça, que fez elle?
— Horrores. MaS é pittoresco . . . E depois o Paço
de Santa Ireneia, no século XH, em todo o seu ex-
plendor! Emfun uma bolla reconstrucçâo do velho
Portugal e sobre tudo dos velhos Ramires. Has-do
gostar. . . Não ha amores, tudo guerras. Apenas, muito
remotamente, uma das nossas antepassadas, uma
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 12Í
I). Menda, que eu nem sei se realmente existiu. Tem
seu chie, hein?... E tu comprehendes, como eu desejo
tentar a Politica, preciso primeiramente apparecer,
espalhar o meu nome...
Gracinha sorria docemente para o irmão, no cos-
tumado enlevo :
. — E agora tens alguma idéa? A tia Arminda lá
continua sempre com a teima que devias entrar na
Diplomacia. Ainda ha dias... «Ai, o Gonçalinho, assim
galante, e com aquelle nome, só n"uma grande em-
baixada ! »
Gonçalo despegara lentamente do vasto cama-
pé, reabotoando o jaquetão claro:
— Com eííeito ando com uma idéa, ha dias... Tal-
vez me viesse d'um romance inglez, muito interes-
sante, e que te recommendo, sobre as antigas Minas
de Ophir, King Salomon's Mines. .. Ando com idéas
de ir para a Africa.
— Oh Gonçalo, credo! Para a Africa?
O escudeiro entrara com duas garrafas de agua
de Vidago, ambas desarrolhadas, n'uma salva. Preci-
pitadamente, para aproveitar o « piquesinho », Gon-
çalo encheu um copo enorme de crystal lavrado.
Ah! que delicia d'agua! — E como o Barrôlo voltava,
annunciando que cumprira as ordens de S. Ex.*:
— Bem ! então logo conversamos ao almoço, Gra-
cinha! Agora lavar, mudar de roupa, que não paro
com estas infames comichões...
i'2ii A ILUSTRE CASA DE IIAMIUES
Barrôlo acompanhou o cunhado ao quarto, um
(los mais espaçosos e alegres do Palacete, forrado de
cretones còr de canário com uma varanda para o
jardim, e duas janellas de peitoril sobre a rua das
Tecedeiras e os velhos arvoredos do convento das
jMonicas. Gonçalo impaciente despiu logo o casaco,
saccudiu para longe o coilete:
— Pois tu estás explendido, Barròlo! Deves ter
perdido três ou quatro kilos. São naturalmente os ki-
los que Gracinha ganhou . . . Vocês, se assim se equi-
libram, ficam períeitos.
Deante do espelho Barròlo acariciava a cinta,
com um risinho deleitado:
— Realmente, parece que adelgacei... Até sinto
nas calças.. .
Gonçalo abrira o gavetão da rica commoda de
ferragens douradas, onde conservava sempre roupa
(até duas casacas), para evitar o transporto de malas
entre os Cunhaesea Torr(í. K ria. aconselhava o bom
Barròlo a « adelgaçar » sem descanço, para bolleza da
futura raça Barrolica — quando em baixo, na silen-
ciosa rua das Tecedeiras as patas de um cavallo de
luxo feriram as lages em cadencia lenta.
Logo desconfiado, Gonçalo correu á janella,
ainda com a camisa que dí^sdobrava. E era el/e!
Kra o André Cavalleiro, que descia ladeando, so-
peando a rédea, para escar\"ar com garbo e íragor
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 129
a rampa mal empedrada. Gonçalo virou para o Bar-
rulo a íace chammejante de fiiròr:
— Isto é uma provocação! Se este descarado
<l'este Cavalleiro passa outra vez na maldita pileca,
por debaixo das janellas, apanha com um balde
d'agua suja ! . . .
Barròlo, inquieto, espreitou :
— Naturalmente vae para casa das Louzadas...
Anda agora muito intimo das Louzadas , . . Sempre
por aqui o vejo ... E é para as Louzadas.
— Que seja para o inferno! Pois, em toda a ci-
dade, não ha outro caminho para casa das Louza-
das? Duas vezes em meia hora! Grande insolente!
Tem uma chapada d'agua de sabão, pela grenha e
pela bigodeira, tão certo como eu ser Ramires, filho
de meu pae Ramires !
Barròlo beliscava a pelle do pescoço, constran-
gido ante aquelles rancores ruidosos que desman-
chavam o seu socego. Já, por imposição de Gon-
çalo, rompera desconsoladamente com o Cavalleiro.
E agora antevia sempre uma bulha, um escândalo
que o indisporia com os amigos do Cavalleiro, lhe
vedaria o Club e as doçuras da Arcada, lhe tornaria
Oliveira mais enfadonha que a sua quinta da Ribei-
rinha ou da Murtosa, solidões detestadas. Não se
conteve, arriscou o costumado reparo :
130 A ILLLSTRE CASA DE RAMIRES
♦ — Ó Gunçalinho, olha que também todo esse es- '
palhafato só por causa da Politica ...
Gonçalo quasi quebrou o jarro, na íuria com
que o pousou sobre o mármore do lavatório:
— Politica! Ahi vens tu com a Politica! Por
Politica não se atira .agua suja aos Governadores
Civis. Que elle não é Politico, é só malandro ! Além
d"isso...
Mas terminou por encolher os hombros, emmu-
decer, diante do pobre bacoco de bochechas pasma- Â
das, que, n'aquellas rondas do Cavalleiro pelos Cu-
nhaes, só notava o o lindo cavallo» ou «o caminho
mais curto para as Louzadas!. . .»
— Bem! resumiu. Agora larga, que me quero
vestir... Do bigodeira me encarrego eu.
— Então, até logo... Mas se elle passar nada
d' asneiras, hein?
— Só justiça, aos baldes!
E bateu com a porta nas costas resignadas do
bom Barrólo, que, pelo corredor, suspirando, lamen-
tava o assomado gonio do Gonçalinlio, as cóleras
desproporcionadas em que o lançava «a Politica.»
Em quanto se ensaboa\a com vehemencia, de-
pois se vestia n'uma pressa irada, Gonçalo ruminou
aqu,elle intolerável escândalo. Fatalmente, apenas se
apeava em Oliveira, encontrava o homem da grande
guedelha, caracolando por sob as janellas do pala-
A ILUSTRE CASA DE RAxMIlíES 131
cete, na pileca de grandes clinas! E o que o de-
solava era perceber no coração de Gracinha, pobre
coração meigo c sem fortaleza, uma teimosa raiz
de ternura pelo Cavalleiro, bem enterrada, ainda
\'ivaz, íacil de reflorir . . . E nenhum outro senti-
mento forte que a defendesse, n'aquella ociosidade
d'01iveira — nem superioridade do marido, nem en-
canto d'um filho no seu berço. Só a amparava o or-
gulho, certo respeito religioso pelo nome de Rami-
res, o medo da pequena terra espreitadeira e me-
x.eriqueira. A sua salvação seria o abandono da
cidade, o encerrado retiro n'uma das quintas do
Barròlo, a Ribeirinha, sobretudo a Murtosa, com a
linda matta, os musgosos muros de convento, a aldêa
em redor para ella se occupar como castellâ bené-
fica. -Mas quê ! Nunca o Barròlo, consentiria em per-
der o seu voltarete no Club, e a cavaqueira da ta-
bacaria « Elegante », e as chalaças do Major Ri-
bas!
Afogueado pelo calor, pela emoção, Gonçalo
abriu a varanda. Em baixo, no curto terraço ladri-
lhado', orlado de vasos de louça, precedendo o jar-
dim, Gracinha, ainda soltos os cabellos por cima
do penteador, conversava cora outra senhora, mui-
to alta, muito magra, de chapéu marujo enfeitado
de papoulas, que segurava entre os braços um re-
polhudo molho de rosas.
1:{Í A ILLLSTRE CASA DE RAMIRES
Era a a prima» Maria Mendonça, mulher de José
Mendonça, condiscipulo do Barròlo em Amarante,
agora capitão do Regimento de Cavallaria estacio-
nado em Oliveira. Filha d"um certo D, António, se-
nhor (hoje Visconde) dos Paços de Severim, devo-
rada pela preoccupaçâo de parentescos fidalgos, de
origens fidalgas, ligava sempre surrateiramcnte o vago
solar de Severim a todas as casas nobres de Portugal
— sobre tudo, mais gulosamente, á grande casa de
Ramires: e, desde que o regimento se aquartellára
em Oliveira, tratara logo Gracinha por «tu» e Gon-
çalo por a primo», com a intimidade especial, que
convém a sangues superiores. Todavia mantinha ami-
sades muito seguidas e activas com brazileiras ricas
dT)Iiveira — até com a viuva Pinho, dona da loja de
pannos, que (segando se murmurava) lhe fornecia
os dous filhos ainda pequenos de calções e de jale-
cas. Também convivia intimamente, já na cidade, já
na Feitosa, com 1). Anna Lucena. Gonçalo gostava da
sua graça, da sua agudfza, da vivacidade maliciosa
que a agitava n'iuna linda crepitação de galho, ar-
dendo com alegria. E quando, ao rumor da janella
perra, ella levantou os olhos lusidios e espertos, foi
em ambos uma surpresa carinhosa:
— Oh prima Maria ! Oue felicidade, logo que
chego e que abro a janella ...
— P" para mim. |)rim() Gonçalo, que o não via
A ILLLSTRE CASA DE RAMIRES IXi
desde a sua volta de Lisboa!,.. Pois está mais lin-
do, assim de bigode . . .
— Dizem que estou lindíssimo, absolutamente
irresistível! Até aconselho á prima Maria que se nã(t
approxime muito de mim, para se não incendiar.
Ella deixou pender desoladamente nos braços
o seu pesado molho de rosas:
— Ai Jesus, então estou perdida, que ainda agora
prometti á prima Graça jantar cá esta tarde ! . . . Oh
Gracinha, por quem és, põe um biombo entre os
dois!
Gonçalo gritou, pendurado da varanda, já de-
liciado com os chistes da prima Maria:
— Não! enfio eu um abat-jour pela cabeça
para attenuar o meu brilho!... E o maridinho, os
pequenos ? Como vae o nobre rancho ?
— Vivendo, com algum pão e muita graça de
Deus... Então até logo, primo Gonçalo! E seja mi-
sericordioso !
E ainda elle ria, encantado — já a prima Maria,
depois de cochichar e d'estalar dois beijos apressados
na face de Gracinha, desapparecêra pela porta envi-
draçada da sala com a sua elegância esgalgada-
Gracinha, huitamente, subiu os três degraus de már-
more do jardim. Da varanda, Gonçalo ainda avis-
tou atra vez da r amar ia leve, entre as sebes de buxo,
o penteador branco, os tartos cabellos cabidos, relu—
l.'J4 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
síndo no sol como uma cascata de azeviche. Depois
o negro brilho, as claras rendas, desapparcceram sob
os loureiros da rua que conduzia ao Mirante.
Mas Gonçalo nâo se arredou d'entre as janellas,
limando vagamente as unhas, espreitando pelas cor-
tinas, n'uma desconfiança, quasi n'um terror que o
Cavalloiro de novo surgisse na pileca — agora que
Gracinha se embrenhara para os lados d"esse com-
modo Mirante, construcção do século xvm, imitando
um Templosinho do Amor, que rematava o longo
terraço do jardim e dominava a rua das Teccdeiras.
Mas a calçada permanecia silenciosa, sob as derra-
madas sombras de arvoredo do Palacete e do Con-
vento. E por fim decidiu descer, envergonhado da
espionagem — certo que a irmã não se mostraria ao
* Cavalleiro na varandinha do I\Iirante, assim com os
cabellos cm desalinho, por cima d\un penteador.
E cerrava a porta, quando se (>ncontrou deante
dos braços do Padre Su(;iro, que o prenderam pela
cinta com affago e respeito.
— Oh! meu ingratíssimo Padre Sueiro ! excla-
mava Gonçalo, batendo ternamente nas gordas cos-
tas do Capellâo. Então que feia acção foi esta? Mais
de um mez sem apparecer na Torre! Agora para
o Sr. Padre Sueiro já nâo ha Gonçalinho, ha só
Gracinha. . .
Enternecido, quasi com uma lagrima a bailar
A ILLUSTP.E CASA DE RAMIRES .135
nos mansos olhos miúdos, que mais negrejavam en-
tre a írescura rozea da face roliça e a cabecinha
branca como algodão — Padre Sueiro sorria, fechan-
do as mãos sobre o peito da batina d"nlpaca, d'onde
surdia a ponta de um lenço de quadrados verme-
lhos. E não lhe escasseara certamente o desejo d'ir á
Torre. Mas aquelle trabalhinho na Bibliotheca do Paço
do Bispo... Depois o seu rheumatismosito. . . Emfim
a Sr." ]J. Graça sempre esperando S. Ex.", um dia, ou-
tro dia . . .
— Bem, bem! acudiu alegremente Gonçalo, com-
tanto que o coração não se esquecesse da Torre...
— Ah! esse! murmurou Padre Sueiro com com-
movida gravidade.
E pelo corredor de paredes azues, adornadas
com gravuras coloridas das batalhas de Napoleão,
Gonçalo resumiu as novidades da Torre :
— Como o Padre Sueiro sabe, rebentou aquelle
escândalo do Relho... E ainda bem. porque conclui
um negocio esplendido. Imagine! Arrendei ha dias
a quinta ao Pereira Brazileiro, ao Pereira da Riosa.
por um conto cento e cincoenta mil réis . . .
O capellão suspendeu a pitada, que colhera n'uma
caixa de prata dourada, pasmado para o Fidalgo: <
— Ora ahi está como as cousas se inventam!
Pois por cá constou que V. Ex." tratara com o José
Casco, o José Casco dos Bravaes. Até no Domingo,
ao almoço, a Sr.'"* D. Graça . . .
•136 A ILLUSTUE CASA DE RAMIRES
— Sim, interrompeu o Fidalgo coiu uma fugidia
côr na face fina. F^ffectivamente o Casco veio á Torro,
conversámos. Primeiramente quiz, depois não quiz.
Aquellas cousas do Casco! Emfim, uma massada...
Não ficou nada decidido. E quando o Pereira, uma
bella manhã, me appareceu com a proposta, eu, in-
teiramente desligado, acceitei, e com que alvoroço!,..
Imagine! Um augmento soberbo de renda, o Pereira
como rendeiro ... O Padre Sueiro conhece bem o
Pereira . . .
— Homem entendido, concordou o Capellâo co-
çando embaraçadamente o queixo. Não ha duvida.
E homem de bem . . . Depois não havendo palavra
dada ao Cas . . .
— Pois o Pereira para a semana vem á cidade,
atalhou apressadamente Gonçalo. O Padre Sueiro pre^
vine o tabelliâo Guedes, e assignamos essa bella es-
criptura. São as condições costumadas. Creio que ha
uma reserva a respeito da hortaliça e do porco . . .
Emfim o Padre Sueiro deve receber carta do Pereira.
E inunediatamente, descendo a escada, passando
o lenço perfumado pelo bigode, gracejou com o ca-
pellâo sobre o famoso Fado dos Ramires em que
elle collaborava com o Videirinha. Oh! Padre Sueiro
fornecera lendas sublimes ! Mas aquella de Santa Al-
donça, realmente, fora ataviada com exageração . . .
Quatro Reis a levarem a Santa aos hombros!
A ILLUSTRE CASA DE RAMIUES 137
— São Reis de mais, Padre Sueiro!
O bum capellâo protestou, logo interessado e se-
rio, no amor d'aquella obra que glorificava a Casa:
— Ora essa! Com perdão de V. Ex.'\.. Perfei-
tissimamente exacto. Lá o conta o Padre Guedes do
Amaral, nas suas Damas da Corte do Ceu, livro pre-
cioso, livro raríssimo, que o Sr. José Barròlo tem
na Livraria. Não especifica os lieis, mas diz qua-
tro . . . « Aos hombros de quatro Reis e com acompa-
nhamento de muitos Condes. » Mas o nosso José Vi-
deira declarou que não podia metter os Condes por
causa da rima.
O Fidalgo ria, dependurando n'um cabide, ao
fundo da escada, o chapéu de palha com que descera:
— Por causa da rima, pobres Condes... Mas o
fado está lindo. Eu trago uma copia para a Gracinha
cantar ao piano ... E agora outra cousa, Padre
Sueiro. O que se conta por ahi do Governador Ci-
vil, d'esse Sr. André Cavalleiro?.. .
O capellâo encolheu os hombros, desdobrando
cautelosamente o seu vasto lenço de quadrados ver-
melhos :
— Eu, como V. Ex.* sabe, não entendo de Po-
litica. Depois também não frequento os cafés, os sí-
tios onde se questiona Politica . . . Mas parece que
gostam.
No corredor ura escudeiro gordo, de opulentas
I"i8 A ILUSTRE CASA DE RAMIRES
suissas ruivas, que Gonçalo não conhecia, l)adalou a
sineta do almoço. Gonçalo reparou, avisou o homem
que a Snr." D. Maria da Graça andava para o fundo
do jardim ...
— Entrou agora, Snr. D. Gonçalo! accudiu o es-
cudeiro. E até manda perguntar se V. Ex.*' deseja para
o almoço vinho verde de Amarante, de Vidainhos.
Sim, com certeza, vinho de Viduinhos. Depois
sorrindo :
— Oli Padre Sueiro, previna este escudeiro novo
que eu nâo tenho Dom. Sou simplesmente Gonçalo,
graças a Deus !
O capellâo murmurou que todavia, em docu-
mentos da Primeira Dynastia, appareciam Ramires
com Do/n. E, como Gonçalo parara deante do repos-
teiro corrido da sala, logo o bom velho se curvou,
com as suas escrupulosas, reverentes ccremonias.
para o Fidalgo passar.
— Então, Padre Sueiro, por quem é!
iVIas elle, com apegado respeito :
— Depois de V. Ex.", meu senhor...
Gonçalo afastou o reposteiro, empurrou doce-
mente o capellâo :
— Padre Sueiro, já nos documentos da Primeira
Dynastia se estabeleceu que os vSantos nunca andam
a traz dos Pecca dores !
— V. Ex." manda, e sempre com que graça!
A ILLISTIIF, CASA DE li.VMIRKS 13í)
Depois dos annos de Gracinha, uma tarde, pelas
três horas, Gonçalo, recolhendo com Padre Sueiro
d'uma visita á Bibliotheca do Paço do Bispo, sentiu
logo da antecâmara o vozeirão do Tito, que rolava na
sala azul em trovão lento. Franziu vivamente o re-
posteiro— e sacudiu o punho para o immenso homem
(jue enchia um dos cadeirões dourados, estirando por
sobre as flores do tapete umas botas novas de gros-
sas tachas reluzentes :
— Oh infame!... Então n'outro dia assim me
larga, sem escrúpulo, depois de eu lhe preparar um
cabrito estupendo, assado n'um espeto de cerejeira?
E para quê?... Para uma orgia reles, com bolinhos
de bacalhau e bichinhas de rabear!
Tito não desmanchou a sua conchegada beati-
tude:
— Impossibilissimo. De tarde encontrei o João
Gouveia no Chafariz. E só então nos lembrámos de
que eram os annos da D. Casimira. Dia sagrado!
Aquellas ceias de Villa-Clara, as tresnoutadas
« pandegas » com violão, impressionavam sempre
Barròlo, que as appetecia. E com o olho aguçado,
do canto da mesa onde esfarelava cuidadosamente
pacotes de tabaco dentro de uma terrina do Japão :
— Quem é a D. Casimira? Vocês em Villa-Clara
descobrem uns typos . . . Conta lá !
140 A ILLrSTRE CASA DE UAMIHES
— Um monstro! declarou Gonçalo. Uma matro-
naça bojuda como uma pipa, com um pêllo nojento
no queixo. Vive ao pé do Cemitério, n"um cacifro
que tresanda a petróleo, onde este senhor e as au-
ctoridades vão jogar o quino, e derriçar com umas
serigaitas de cazabeque vermelho e de farripas . . .
Nem se pôde decentemente contar deante do Snr.
Padre Sueiro!
O capellâo, que sem rumor se esbatera n'uma
sombra discreta, entre os franjados setins d'uma cor-
tina e um pesado contador da índia, moveu os hom-
bros n'um consentimento risonho, como acostumado
a todas as fealdades do Peccado. E, com pachorra, o
Tito emendava o esboço burlesco do Fidalgo:
— A D. Casimira é gorda, mas muito aceada.
Até me pediu para eu lhe comprar hoje, na cidade,
uma bacia nova d'assento. A casa não cheira a pe-
tróleo e fica por traz do convento de Santa Thereza.
As serigaitas são simplesmente as sobrinhas, duas
raj)arigas alegres que gostam de rir e de troçar , . .
E o Snr. Padre Sueiro podia, sem medo...
— Bem, bem! atalhou Gonçalo. Gente deliciosa 1
Deixemos a D. Casimira, que tem bacia nova para
os seus semicupios . . . Vamos á outra iníamia do
Snr. António Villalobos !
Mas Barrôlo insistia, curioso:
— Não, não, conta lá, Tito... Noite d'annos, pa-
tuscada rija, hein?
A IIXUSTRE CASA DE KAMIRES 141
— Ceia pacata, contou o Tito com a seriedade
qae lhe merecia a festa das suas amigas. A D. Ca-
simira tinha uma bella frangalhada com ervilhas. O
.íoâo Gouveia trouxe do Gago uma travessa de bolos
de bacalhau que calharam... Depois, fogo de vistas
na horta. O Videirinha tocou, as pequenas canta-
ram... Não se passou mal.
Gonçalo esperava — irresistivelmente interessa-
do pela ceia das Casimiras :
— Acabou, hein? . . . Agora a outra infâmia, mais
grave! Então o Snr. António Villalobos é intimo do
Sanches Lucena, frequenta todas as semanas a Fei-
tosa, toma chá e torradas com a bella D. Anna, e
esconde tenebrosamente dos seus amigos estes pri-
vilégios gloriosos? . . .
— Sem contar, gritou o Barròlo deliciosamente
divertido, que lhe passeia á trela os câesinhos fel-
pudos!
— Sem contar que lhe passeia á trela os câesi-
nhos felpudos! echoou cavamente Gonçalo. Responda,
meu illustre amigo!
O Tito remecheu o vasto corpo dentro do ca-
deirão, recolheu as botas de tachas luzentes, afagou
lentamente a face barbuda, que uma vermelhidão
aquecera. E depois de encarar Gonçalo, intensamen-
te, com um esforço de sagacidade que mais o afo-
gueou :
í 12 A ILUSTRE CASA DE RAMIRES
— Tu já alguma vez, por curiosidade, me per-
guntaste se eu conhecia o Sanches Lucena? Nunca
me perguntaste . . .
O Fidalgo protestou. Não ! Mas constantemente
na Assembleia, no Gago, na Torre, elles berravam,
em questões de Politica, o nome do Sanches Lucena !
Nada mais natural, até mais prudente, do que aliu-
dir o Snr. Tito á sua intimidade illustre! Ao me-
nos para evitar que elle, ou os amigos, deante do
Snr. Tito que comia as torradas da Feitosa, tratas-
sem o Sanches Lucena como um trapo !
O Ti(ó despegou do cadeirão. E afundando as
mãos nos bolsos da quinzena d'alpaca, sacudindo
desinteressadamente os hombros:
— Cada um tem sobre o Sanches a sua opi-
nião ... Eu apenas o conheço ha quatro ou cinco
inezes, mas acho que é serio, que sabe as cousas...
Agora, lú nas Camarás...
Gonçalo, indignado, bradava que se não discu-
tiam os méritos do Snr. Sanches Lucena — mas os
segredos do Snr. Tito Villalobos! E o escudeiro novo,
avançando as suissas ruivas por uma fenda do re-
posteiro, annunciou que o Snr. Administrador de
Villa-Clara procurava Suas Ex.'"...
Barrôlo largou logo a terrina de tabaco:
— O Snr. João Gouveia! Que entre! Bravo! te-
mos cá toda a rapaziada de Viila-CIara !
A lí-LUSTIlE CASA DE RAMIRES 143
E Tito, da janclla onde se rofagiára, lançou o
vozeirão, mais troante, abafando a importuna con-
versa do Sanches e da Feilosa:
— Viemos ambos! Por signal n'uma traquitana
infame... Até se nos desferrou uma das pilecas e
tivemos de parar na V^endinha. Não se perdeu tempo,
que ha agora lá um vinhinho branco que é d"aqui
da ponta fina ! . . .
Beliscava a orelha. Aconselhava ruidosamente
Barròlo e Gonçalo a passarem na Vendinha, para
provar a pinga celeste.
— Até aqui o Snr. Padre Sueiro lhe atiçava uma
caneca valente, apesar do Peccado!
Mas João Gouveia entrou, encalmado, empoei-
rado, com um vinco vermelho na testa, do chapéu
e do calor — e abotoado na sobrecasaca preta, de cal-
ças pretas, de luvas pretas. Sem fôlego, apertou si-
lenciosamente pela sala as mãos amigas que o aco-
lhiam. E desabou sobre o camapé, implorando ao ami-
go Barròlo a caridade d'uma bebidinha fresca !
— Estive para entrar no café Mónaco. Mas re-
llccti que n'esta grandiosa casa dos Barròlos as be-
bidas são de mais confiança.
— Ainda bem! Você que quer? Orchata ? San-
irria ? Limonada ?
— Sangria.
E, limpando o pescoço e a testa, amaldiçoou o
indecente calor d'01iveira:
144 A ILUSTRE CASA DE RAMIRES
— Mas ha gente que gosta! Lá o meu cheio, o
Snr. Governador Civil, escolhe sempre a hora do ca-
lor para passear a cavallo. Ainda hoje... Xa reparti-
ção até ao meio dia ; depois, cavallo á porta ; e larga
até á estrada de Ramilde, que é uma Africa . . . Não
sei como lhe nâo fervem os miolos!
— Oh! acudiu Gonçalo, é muito simples. Se elle
os não tem!
O administrador saudou gravemente :
— Já cá faltava com a sua ferroadasinha o Snr.
Gonçalo Mendes Ramires! Nâo comecemos, nâo co-
mecemos... Este seu cunhado, Barròlo, é bicho in-
domesticavel! Sempre reponta!
O bom Barròlo gaguejou, constrangido, que
Gonçalinho era Politica nâo dispensava a piada...
— Pois olhe! declarou o administrador, sacudindo
o dedo para Gonçalo. Esse Snr. André Cavalleiro,
que nâo tem miolos, ainda esta manhã na Reparti-
ção gabou com immensa sympathia os miolos do
Snr. Gonçalo Mendes Ramires!...
E Gonçalo, muito serio:
— Também nâo faltava mais nada! Para esse
Governador Civil ser perfeitamente absurdo só lhe
restava que me considerasse um asno!
— Perdão! gritou o Administrador, que se er-
guera, desabotoando logo a sobrecasaca, para com-
modidade da contenda.
A II.LISTHK CASA DE KAMIHKS .li,">
Barròlo aciidio, aítlicto. carri'<.MrKlo nos hoiii-
bros do Gouveia— para o soecarar «• o repor no ca-
ma pé:
— Não, nienin(ts. não! Politica, não! E então essa
inassada do Caxalleiro... \'amos ao que importa.
^'oct' janta comnosco, João Gouveia ?
— Não, obrigado. Já promotti jantar com o Ca-
valleiro. Temos lá o ígnacio Vilhena. \'ae lêr um ar-
tigo que (iscreveu para o Boletim r/ • Gtumaraen so-
bre umas fòrraas de fabricar ossos de martyres, des-
cobertas nas obras do convento do S. Bento. Estou
com curiosidade... E a Snr." D. Graça, bem? Quem
eu não avistava havia mezes era o Snr. Padre Suei-
ro. Nunca apparece agora pela Torre ! . . . Mas sem-
pre rijo. sempre viçoso. Oh. Snr. Padre Sueiro.
qual é o seu segredo para toda essa meninice?
])o seu canto, o capellâo sorriu timidamente. O
segredo? Poupar a \'ida — não a consumindo nem
com ambições nem com decepções. Ora para elle.
louvado Deus, a vida corria muito simples e muito
pequenina. E fora o seu rheumatismo.. .
Depois, corando d'acanhamento, atra\ ez das sen-
tenças evangélicas que lhe escapavam :
— Mas mesmo o rheumatismo não é mal per-
dido. Deus. que o manda, sabe porque o manda . . .
Sofírer edifica. Por que enfim o que nós soffremos
nos leva a pensar no que os outros soíTrem . . .
10
146 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
— Pois olhe, volveu com alegre incredulidade
o Administrador, eu, quando tenho os meus ata-
ques de garganta, não penso na garganta dos
outros 1 Penso só na minha que me dá bastante
cuidado. E agora a vou regalar n'aquella bella
sangria . . .
O escudeiro vergava, com a luzente bandeja de
prata, carregada de copos de sangria onde boiavam
rodellinhas de limão. E todos se tentaram, todos be-
beram, até Padre Sueiro, para mostrar ao Snr. An-
tónio Villalobos que não desdenhava o vinho, dadi-
va amável de Deus— pois como ensina Tibulo com
verdade, apezar de gentílico, iu'nus fácil dites âni-
mos, mollia corda dal, enrija a alma e adoça o co-
ração.
João Gouveia, depois d'um suspiro consolado,
pousou na bandeja o copo que esvasiára d'um trago
e interpellou Gonçalo:
— Vamos a saber! Então n'outro dia que histo-
ria phantastica íoi essa d'uma festa na Torre, com
senhoras, com a D. Auna Lucena?... Eu não acre-
ditei quando o pequeno do Gago me encontrou, me
deu o recado. Depois...
Mas d'entre as cortinas da janella. onde acabava
a sangria, Tito novamente rebombou. interpellando
também o Fidalgo:
— Oh sò Gonçalo ! E o que me contou ha pouco
A ILLIJSTRE CAS.V DE RAMIRES " 147
O Barròlo?... Que andavas com idéas de abalar para
a Africa?
Ao espanto de João Gouveia qiiasi se misturou
terror. Para a Africa?... O quê? Com um emprego
para a Africa?...
— Nâo! plantar cocos! plantar cacau! plan-
tar café! exclamava o Borrôlo, com divertidas pal-
madas na coxa.
Pois Tito approvava a idéa! Também elle, se
arranjasse um capital, dez ou quinze contos, tentava
a Africa, a traficar com o preto . . . E também se fosse
mais pequeno, mais secco. Oue homens do seu cor-
panzil, necessitando muita comezaina e muita vinha-
ça, nâo aguentam a Africa, rebentam!
— O Gonçalo sim! É chupado, é rijo; não car-
rega na agua-ardente; está na conta para Africa-
nista ... E sempre te digo ! Carreira bem mais de-
cente que essa outra por que tens mania, de de-
putado ! Para que? Para palmilhar na Arcada, para
bajular Conselheiros.
Barròlo concordou, com alarido. Também nâo
comprehendia a teima de Gonçalo em ser deputa-
do! Que massada! Eram logo as intrigas, e as de-
sandas nos jornaes, e os enxovalhos. E sobretudo
aturar os eleitores.
— Eu, nem que me nomeassem depois Governa-
dor Civil, com um titulo e uma gran-cruz a tira-
collo, como o Freixomil!
118 \ ILLr.STKE CASA Di: KVMIUlilS
Gonçalo escutara. n"uin silencio risonho e supe-
rior, enrolando laboriosamente um cigarro com o
tabaco do liarròlo:
— \'ocrs não comprohendem . .. \'oct''S não co-
nhecem a organisaçâo de Portugal. Perguntem alii ao
Gouveia. . . Portugal é uma fazenda, uma bella fazen-
da, possuída por uma parceria, ('omo vocês sabem
ha parcerias commerciaes e parcerias ruraes. Esta de
Lisboa é uma parceria politica, que governa a her-
dade chamada Portugal... Nós os Portuguezes per-
tencemos todos a duas classes: uns cinco a seis mi-
lhões que trabalham na íazenda. ou vivem n'ella a
olhar, como o Barrôlo, e que pagam; e ims trinta su-
jeitos em cima. em Lisboa, que formam a parceria.
que recebem e que governam. Ora eu, por gosto,
por necessidade, por habito de fumilia. desejo man-
dar na lazonda. Mas, para entrar na parceria poli-
lica. o cidadão portuguez precisa uma habilitação —
ser deputado. Exactamente como. quando pretende
entrar na Magistratura, necessita uma ha!)ilitaçâo —
ser bacharel. l'or isso procuro começar como depu-
tado para acabar como parceiro e governar... Não
c verdade, João ("-ouveia?
O Administrador voltiíra á bandeja das sangrias,
de que saboreava outro copo, agora lentamente, aos
goles :
— Sim. coui elfeito. essa é a carreira... Candi-
A ILLl STRK CASA UE RAMIRES • i4U
(lato, Deputado, Politico, Conselheiro, Ministro, Man-
darim. E a carreira... E melhor qne a d'Aírica.
For fim na Arcada, em Lisboa, também cresce cacau
e ha mais sombra!
Barrulo no emtanto abraçara o hombro pos-
sante do Tito, com quem mergulhou no \âo da ja-
nella. n'uma coníraternidade d'ideias, gracejando:
— Pois eu, sem ser dos taes /;CT/*ce«/'o.y, também
mando nos bocados de Portugal que mais me inte-
ressam por que mo pertencem!... E sempre queria
vèr ([ue esse S. Fulgencio. ou o Braz Victorino, ou
la os políticos do Terreiro do Paço, se mettessem
a dispor nas minhas terras, na Ribefrhiha ou na
Murtosa... Era a tiro!
Encostado á vidraça, Tito coçava a barba, im-
t
pressionado :
— Pois sim, liarròlo! Mas voe»; na HiheiVinha
r na Murtom tem de pagar as contribuições que
elies mandarem. E n'esses concelhos tem d'aguen-
tar íis auctoridades que elles nomearem. E goza para
lá d'estradas se elles lh'as íizerem. E vende o carro
de pão e a pipa de vinho com mais ou menos pro-
\ eito, segundo as leis que elles votarem ... E assim
tudo. O Gonçalo não deixa de acertar. É o diabo! Quem
manda é quem lucra... Olhe! o maroto do meu senho-
rio em Villa-Clara, agora para o S. Miguel, augmenta
a renda da casa em que en moro, um cochicho que
150 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
ninguém quer, por que mataram lá o carrasco, que
ainda lá apparece . . . E o Cavalleiro, esse, como par-
ceiro, vive de graça n"este bello palácio de S. Do-
mingos, com cocheira, com jardim, com horta . . .
Barrôlo atirou um cltut, de mão espalmada, abafan-
do o vozeirão do Tito, com medo que as regalias do
Cavalleiro, assim proclamadas, renovassem as fúrias
de Gonçalo. Mas o Fidalgo não percebera, attento ao
João Gouveia, que, enterrado no camapé depois da
sangria, novamente contava o seu assombro, ao en-
contrar no chafariz, em Villa-Clara, o rapasola do
Gago com o recado da grande íesta na Torre:
— E cheguei a desconfiar que realmente vocò
desse festa, quando bateram as nove, depois as nove
e meia, e o Tito sem chegar para a ceia d^ D. Casi-
mira ! . . . Bem, pensei, também recebeu recado e aba-
lou para a Torre! Por fim, apenas elle appareceu, de
carapuço e de jaqueta, percebi que fora troça do Snr.
]). Gonçalo . . .
Então o Fidalgo pasmou com uma inesperada,
estranha suspeita:
— De carapuço e jaqueta? O Tito andava n"essa
noite de carapuço e de jaqueta ? . . .
Mas bruscamente Barròlo, da funda janella, lan-
çou para dentro, para a sala, um brado de pavor:
— Oh! rapazes! Santo Deus! Ahi vêem as Lou-
zãdas !
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 151
João Gouveia saltou do camapé, como n'um pe-
rigo, reabotoando arrebatadamente a sobrecasaca ;
Gonçalo, atarantado, esbarrou com o Tito e o Bar-
ròlo que recuavam, no terror de serem apercebidos
atravez dos vidros largos; até Padre Sueiro, pru-
dente, abandonou o seu recanto onde corria os ócu-
los pela Gaz-eta do Porto. E todos. d'entre a fenda
das cortinas, como soldados na íresta de uma cida-
della, espreitavam o Largo, que o sol das quatro ho-
ras dourava por sobre os telhados musgosos da Cor-
doaria. Do lado da rua das Pegas, as duas Louzadas,
muito esgalgadas, muito sacudidas, ambas com man-
teletes curtos de seda preta e vidrilhos, ambas com
guardasoes de xadresinho desbotado, avançavam, es-
tirando pelo largo empedrado duas sombras agudas.
As duas manas Louzadas! Seccas, escuras e gár-
rulas como cigarras, desde longos annos, em Oliveira,
eram ellas as esquadrinhadoras de todas as vidas,
as espalhadoras de todas as maledicências, as tece-
deiras de todas as intrigas. E na desditosa Cidade
não existia nódoa, pecha, bule rachado, coração do-
rido, algibeira arrasada, janella entreaberta, poeira
a um canto, vulto a uma esquina, chapéu estreado
na missa, bolo encommendado nas Mathildes, que
os seus quatro olhinhos furantes d'azeviche sujo não
descortinassem — e que a sua solta lingoa, entre os
dentes ralos, não commentasse com malicia estriden*^
152 A ILLUSTRE CASA DE HAMIRES
te! D'ellas surdiam todas as cartas unonymas que in-
festavam o Districto: as pessoas devotas cousidera-
vam como penitencias essas visitas em que ellas
durante horas galravam, abanando os braços escani-
Irados: e sempre por onde ellas passassem ficava la-
tejando um sulco de desconfiança e receio. Mas quem
ousaria rechaçar as duas manas Louzadas? Eram
[ilhas do decrépito e venerando General Louzada;
eram parentas do Bispo; eram poderosas na pode-
rosa confraria do Senhor dos Passos da Penha. E
depois d'uma castidade tão rigida, tão antiga o tão
resequida, e por ellas tão espaventosaaiente alar-
deada— que o Marcolino do Independente as alcu-
nhara de Duas Mil Virgens.
— Não vêem para cá! trovejou o Tito. com
immenso allivio.
Com efteito no meio do Largo, rente ií grade
que circumda o antigo Kelogio-de-Sol, as duas manas
paradas, erguiam o bico escuro, farejando e espiando
a Egrejinha de S. Matheus onde o sino lançara um
repique de baptisado.
— Oh. c*os diabos, que é para cá!
As Louzadas, decididas, investiam contra o portão
(los Cunhaes! Então loi um pânico! As gordas per-
nas do Barrôlo, fugindo, abalaram, quasi derru-
baram sobre os contadores, os potes bojudos da ín-
dia, (lonçalo bradava que se escondessem no pomar.
A IIXLSTKK CASA 1)K UAMÍUES .K>:{
Desconcertado, o Gouveia rebuscava com desespero
o seu chapéu coco. S<'» o Tito, que as abominava e
a quem elias ciianiavam o Poli/pliemo. retirou com
serenidade, abrigando o Padre Sueiro sob o seu bra-
i;o forte. E já o bando espavorido se arremessara
sobre o reposteiro —quando Gracinha appareceu.
com um íresco vestido de sedinha cõr de morango,
sorrindo, pasmada, para o tropel que rolava:
— Oue lui ".' Que foi? . . .
Um clamor abafado envolveu a doce senhora
ameaçada:
— As Louzadas!
— Oh!
Fugidiamente o Tito e .João Gouveia aperta-
ram a mão que ella lhes abandonou, esmorecida. A
sineta do portão tilintara, temerosa! E a fila acaval-
lada, onde Padre Sueiro rebolava a reboque, enfiou
para a livraria que o Barròlo aíerrolhou, gritando
ainda a Gracinha, com uma inspiração :
— Esconde as sangrias!
Pobre Gracinha ! Atarantada, sem tempo de cha-
mar o escudeiro, carregou ella para uma banqueta
do corredor, n"um estorço desesperado, a pesada
salva — com ((ue as Louzadas, se a descortinassem,
edificariam por sobre a cidade, e mais alta que a
Torre do S. Matheus, uma historia pavorosa de «vi-
nhaça e bebedeira». Depois, offegando, relanceou no
lo4 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
espelho o penteado. E direita como n'uina arena,
com a temeridade simples e risonha dos antigos
Ramires, esperou a arremettida das manas terriveis.
No outro domingo, depois do almoço, Gonçalo
acompanhou a irmã a casa da tia Arminda Viilegas,
que na véspera,' ao tomar (como costumava todos
os sabbados) o seu banho aos pés, se escaldara e re-
colhera á cama, apavorada, reclamando uma junta
dos cinco cirurgiões d'01iveira. Depois acabou o cha-
ruto sob as acácias do Terreiro da Louça, pensando
na sua Novella abandonada na Torre durante essas
semanas, e no lance íamoso do Capitulo 11 que o
tentava e que o assustava — o encontro de Lourenço
Piam ires com Lopo de Bayâo, o Bastardo, no valle fatal
de Cantapedra. E recolhia aos Cunhaes (porque pro-
mettera ao Barròlo uma trotada a cavallo, até ao Pinhal
de Estevinha, para aproveitar a doçura do domingo
ennevoado) quando, na rua das Vellas, avistou o ta-
belliâo Guedes, que sabia da confeitaria das Mathildes
com um grosso embrulho de pasteis. Ligeiramente, o
Fidalgo atravessou logo a rua — emquanto o Gue-
des, da borda do passeio, pesado e barrigudo, na
ponta dos botins miudinhos gaspeados de verniz, des-
cobria, n'uma cortezia immensa, a calva, emplumada
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 155
ao meio pelo famoso tufo de cabello grisalho que
lhe valera a alcunha de «Guedes Popa»:
— Por quem é, meu caro Guedes, ponha o cha-
péu ! Como está ? Sempre fero e moço. Ainda bem ! . . .
Fallou com o meu Padre Sueiro? O Pereira da Riosa,
por fim, só vem á cidade na quarta íeira...
Sim ! Sim ! O Snr. Padre Sueiro passara pelo
cartório, para avisar — e elle apresentava os para-
béns a S. Ex.'' pelo seu novo rendeiro...
— Homem muito competente, o Pereira! Já ha
vinte annos que o conheço . . . E olhe V. Ex.'"' a pro-
priedade do Conde de Monte-Agra ! Ainda me lem-
bro d'ella, um chavascal; hoje que primor! Só a vi-
nha que elle tem plantado ! Homem muito compe-
tente ... E V. Ex." com demora ?
— Dois ou três dias... Não se atura este calor
de Oliveira. Hoje, felizmente, refrescou. E que ha de
novo? Como vae a politica? O amigo Guedes sempre
bom Regenerador, leal e ardente, hein ?
Subitamente o Tabellião. com o seu embrulho
de doces conchegado ao collete de seda preta, agi-
tou o braço gordo e curto, n'uma indignação que
lhe esbraseou de sangue o pescoço, as orelhas ca-
belludas, a face rapada, toda a testa até ás abas do cha-
péu branco orlado de íumo negro :
— E quem o não ha-de ser, Snr. Gonçalo Men-
des Ramires? Quem o não ha-de ser?... Pois este ul-
timo escândalo!
lotí A lí-I-LSTRE CASA DE RAMIHKS
Os risonhos olhos de Gonçalo lo,i,'o se alargaram,
sérios :
— Uue escândalo?
O Tabelliâo recuou. Pois S. Eu.." não sabia da
uitima prepotência do (io\ernador Civil, do Snr. An-
dré Cavalleiro ?
— O quê, caro aniiíío?...
O Guedes cresceu todo sobre o bico dos botins
pequeninos, e bojou, e inchou, para exclamar :
— A transferencia do Noronha!... A transíeren-
ciii do desgraçado Noronha!
Mas uma senhora, também obesa, do buço car-
regado, toda a estalar em ricas e rugidoras sedas
de missa, arrastando severamente pela mão um
menino que rabujava, parou, fitou o Guedes — por-
que o digno homem com o seu ventre, o seu em-
brulho, a sua indignação, atravancava a entrada das
Mathildes. Apressadamente, o Fidalgo levantou, para
ella entrar, o fecho da porta envidraçada. Depois.
n"um alvoroço:
— Õ amigo Gutides naturalmente vae para casa.
K o meu caminho. Andamos c conversamos... Ora
essa! Mas o Noronha... Gue Noronha?
— O liicardo Noronha... V. Fa." conhece. O pa-
gador das Obras-Publicus!
— Ah! sim, sim... Kntâo tr.uisffrido? Transfe-
rido arbitrariamente ?
A U.U STHK CASA UE l-.AMIliiCS l.^r
Na rua das Brocas por oiido desciam, no silencio.
<■ solidão das lojas cerradas, a cólera do Guedes
resoou. mais solta :
— Intamemente. Snr. Gonçalo M<ndes Kamires.
Infamissimamente! E para Alniodovar, para os con-
lins do Alemtejo!... Para uma terra scni recursos,
sem distracções, sem famílias ! . . .
Parara, com os doces contra (t coração, os olhi-
nlios esl)up:alhados para o Fidalgo, coriscando. (>
Noronha! Um empretrado trabalhador, honradíssimo I
K sem Politica, absolutamente sem Politica. Nem
(los Históricos, nem dos Regeneradores. Só da famí-
lia, das três irmãs <|ue sustentava, três ílòres... K
homem estimadíssimo na cidade, cheio de prendas !
Um talento immenso para a musica!... Ah! o Snr.
(ionçalo Ramires não sabia? Pois compunha ao piano
cousas lindas! Depois precioso para reuniões, para
• muos. Era elle quem organisa\a sempre em Oliveira
as representações de curiosos . . .
— Porque, como ensaiador, crtsia \'. Ex," que não
lia outro, mesmo na capital... Não ha outro! E.
zás, de reponte, para Almodo\ ar. para o inferno, com
as irmãs, com os tarecos! Só o piano!... \>ja V. K\."
só o transporte do piano!
Gonçalo resplandecia:
— É um bello escândalo. Ora que felicidade esta
do o ter encontrado, meu caro Guedes!... E não se
sabe o motivo ?
lo8 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
De novo caminhavam demoradamente pelo pas-
seio estreito. E o tabelliâo encolhia os hombros, com
amargura. O motivo! Publicamente, como sempre
n'estas prepotências, o motivo era a conveniência do
Serviço . . .
— Mas todos os amigos do Noronha, por toda a
cidade, conhecem o verdadeiro motivo... O intimo,
o secreto, o medonho 1
— Então?
Guedes relanceou a rua, com prudência. Uma
velha atravessava, coxeando, segurando uma bilha.
E o tabelliâo segredou cavamente, junto á face des-
lumbrada do fidalgo. — É que o Snr. André Caval-
leiro, esse infame, se encantara com a mais velha
das irmãs Noronhas, a 1). Adelina, formosíssima ra-
pariga, alta e morena, uma estatua ! . . . E repellido
(porque a menina, cheia de juizo^ uma pérola, per-
cebera a intenção villissima) em quem se vinga, por
despeito, o Snr. Governador Givil? No pagador! Para
Almodovar com as meninas, com os tarecos!... Era
o pagador quem pagava!
— É uma bella maroteira! murmurou Gonçalo, ba-
nhado de gosto e riso.
— E note V. Ex." ! exclamava o Guedes, com a mão
gorda a tremer por cima do chapéu. Note V. Ex.'
que o pobre Noronha, na sua innocencia, tão bom
homem, gostando sempre d'agradar aos seus chefes,
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 159
ainda ha semanas dedicara ao Cavalleiro uma valsa
linda!... A Mariposa, uma valsa linda!
Gonçalo não se conteve, esfregou as mãos n'um
iriumpho :
— Mas que preciosa maroteira ! . . . E não se tem
íallado? Esse jornal d'opposiçâo, o Clarim d' Oliveira.
nem uma denuncia, nem uma allusâo?...
O Guedes pendeu a cabeça, descorçoado- O Snr.
Gonçalo Ramires conhecia bem essa gente do Cla-
rim... Estylo — e estylo brincado, opulento... Mas
para assoalhar, assim n'um caso gravíssimo como o
do Noronha, a verdade bem nua — pouco nervo, ne-
nhuma valentia. E depois o Biscainho, o redactor
principal, andava a passar surrateiramente para os
Históricos. Ah! O Snr. Gonçalo Mendes Ramires não
■Mt inteirara? Pois esse torpíssimo Biscainho bolinava.
De certo o Cavalleiro lhe acenara com posta . . . Além
d"isso, como provar a infâmia? Cousas intimas, cou-
sas de família. j\âo se podia apresentar a declaração
da D. Adelina, menina virtuosíssima — e com uns
olhos!... Ah! se fosse no tempo do Manoel Justino
e da Aurora de Oliveira!... Esse era homem para
estampar logo na primeira pagina, em letra graúda :
«Alerta! que a xVuctoridade superior do Districto ten-
tou levar a deshonra ao seio da íamilia Noronha! ...»
— Esse era um homem! Coitado, lá está no ce-
mitério de S. Miguel... E agora, Snr. Gonçalo Ra-
mires, o despotismo campeia, desenfreado!
I<>0 A ll.l.t srUK CASA lii: HAMIHEí
Bufava, arla\a. esíalíado d'aqaelle fogoso desa-
bafo. Dobraram calados a esquina das Brocas para
a bella rua, novamente calçada, da Princeza D. Amé-
lia. E logo na segunda porta, parando, tirando da al-
gibeira o trinco, o Guedes, que ainda resfolgava,
offereceu a S. Ex." para descançar.
— Não, não. obrigado, meu caro amigo. Tive
immenso, immenso prazer, em o encontrar... Essa
historia do Noronha é tremenda !..» Mas nada me
<^spanta do Snr. Governador Civil. Só me espanta
([ue o não tenham corrijdo d*01iveira, como elle me-
rece, com pancada e assuada . . . Emíim, nem toda a
gente boa jaz no cemitério de S. ÍMigiiel... Até ama-
nhã, meu Guedes. E obrigado!
Da rua da Princeza D. Amélia até o Largo de ¥Á-
\\pÃ, Gonçalo correu com o deslumbramento de quem
descobrisse um thesouro e o levasse debaixo da
capa! E ahi le\a\a com eífeito o «escândalo, o rico
<!Scandalo», que tanto farojiíra, por que tanto alme-
jara, para desmantelar o Snr. Governador Civil na
sua fiel cidade do Oliveira que lhe levantava arcos de
buxo! E, por uma mercê de Deus, o «rico escânda-
lo», demoliria também o homem no coração de Gra-
cinha, onde. apezar do antigo ultraje, elle permane-
cia como um bicho n'um fructo, esfuracando e estra-
gando... E não duvidava da efficacia do escândalo!
Toda a cidade se revoltaria contra a Authoridadf
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 161
(emieira, que opprime. desterra um íuuccionario
admirável — por que a irmã do pobre senhor se re-
cusou á baba dos seus beijos. E Oracinha?... Como
resistiria Gracinha áquelle desengano — o seu antigo
André abrazado pela menina Noronha e por ella re-
pollido com nojo e com mota? Oh! o escândalo era
soberbo ! Só restava que estalasse, bem ruidoso, so-
bre os telhados d'01iveira e sobre o peito de Gracinha
como trovão benéfico que limpa ares corrompidos.
K d'esse trovão, rolando por todo o Norte, se encar-
regava elie cora delicia. Libertav^a a cidade d*um Go-
\ernador detestável, Gracinha d'iim sonho errado. E
assim, com uma certeira pennada, trabalhava /;;'oy?r/-
trifi et pro domo !
Nos Cunhaes correu ao quarto do Barròlo, que
se vestia trauteando o Fado dos fíamires, e gritou
atravez da porta com uma decisão ílammejante :
— Não te posso acompanhar á Estevinha. Tenho
que escrever urgentemente. E não subas, não me per-
turbes. Necessito socego!
Nem attendeu aos protestos desolados com que
o Barrôlo accudira ao corredor, em ceroulas. Galgou
a escada. No seu quarto, depois de despir rapidamente
o casaco, de excitar a testa com um borrifo d'agua
de Colónia, abancou á mesa — onde Gracinha coUoca-
va sempre entre flores, para elle trabalhar, o monu-
mental tinteiro de prata que pertencera ao tio Melchior.
162 A ILl.rSTliE CASA DE RAMIRES
E sem emperrar, sem rascunhar, n'um d'esses soltos
fluxos de Prosa que brotam da paixão, improvisou uma
Correspondência rancorosa para a Gazeta do Porto
contra o Snr. Governador Civil. Logo o titulo fulmi-
*nava — Monstruoso at tentado! Sem desvendar o no-
me da familia Noronha, contava miudamente, como
um acto certo e por elle testemunhado. « a tentati^■a
villòa e ])aixa da primeira Auctoridade do Districto
contra a pudicicia, a paz de coração, a honra de uma
doce rapariga de dezeseis primaveras!» Depois era
a resistência desdenhosa — t(que a nobre creança oppu-
zera ao l)on Juan administrativo, cujos bellos bigodes
são o espanto dos po\'os !» Por fim vinha — «a desforra
torpe e sem nome que S. Ex." tomara sobre o zelo-
so empregado (que é também um talentoso artista),
obtendo d'este nefasto Governo que íosse transferi-
do, ou antes arrojado, cruelmente exilado, com a la-
inilia de três delicadas senhoras, para os confins do
íicino, para a mais árida e escassa das nossas Pro-
víncias, por o não poder empacotar para a Africa no
porão sórdido d"uma fragata!» Lançava ainda alguns
rugidos sobre «a agonia politica de Portugal». Com pa-
vor triste, recordava os pe4ores tempos do Absolutis-
mo, a innocencia soterrada nas masmorras, o prazer
desordenado do Príncipe sendo a expressão única da
Lei! E terminava perguntando ao Governo se co-
briria este seu agente — «este grotesco Nero. quo
A ILLLSTRE CAS\ DK RAMIRES IO,"»
como oiitr"ora o outro, o grande, em Roma, tentava
levar a seducçâo ao seio das íamilias melhores, e
commettia esses abusos de poder, motivados por
lascívias de temperamento, que íoram sempre, em
todos os séculos e todas as civilisaçôes. a execração
do justo!»— E assignava Juvenal. *
Eram quasi seis horas quando desceu á sala, li-
geiro e resplandecente. Gracinha martellava o piano,
estudando o Fado dos Ramires. E Barrôlo (que não se
arriscara a um passeio solitário) folheava, estendido
no camapé, uma famosa Historia dos Crimes da In-
(jitizição que começara ainda em solteiro.
— Estou a trabalhar desde as duas horas! ex-
clamou logo Gonçalo, escancarando a janella. Fi-
quei derreado. Mas, louvado seja Deus, fiz obra de
Justiça . . . D'esta vez o Snr. André Cavalleiro vae
abaixo do seu cavallo!
Barrôlo fechou immediatamente o livro, com o
cotovello nas almofadas, inquieto:
— Houve alguma coisa?
E Gonçalo, plantado deante d'elle, com um ri-
sinho suave, um risinho feroz, remexendo na algibei-
ra o dinheiro e as chaves:
— Oh! quasi nada. Uma bagatella. Apenas uma
infâmia... Mas para o nosso Governador Civil infâ-
mias são bagatellas.
Sob os dedos de Gracinha o Fado dos Ramires
esmoreceu, apenas roçado. n"um murmúrio incerto.
104 A ILLUSTRE CASA BK RAMIRES
O Barrôlo esperava, esgaseado :
— Desembucha!
E Gonçalo desabafou, com estrondo:
— Pois uma maroteira immensa, homem! O No-
ronha, o pobre Noronha, perseguido, espesinhado,
■expulso! Com a familia... Para o inferno, para o
Algarve !
— O Noronha pagador?
— O Noronha pagador. Foi o infeliz pagador
que pagou!
E, regaladamente, desenrolou a historia lamen-
tável. O Snr. André Càvalleiro namoradissimo, todo
em chammas pela irmã mais velha do Noronha.
E atacando a rapariga com ramos, cartas, versos,
estropidos cada manha por deante da janella, a la-
dear na pileca! Até lhe soltara, ao que parece, uma
velha marafona, uma alcoviteira... E a rapariga,
um anjo cheio de dignidade, impassível. Nem se re-
voltava, apenas se ria. Era uma troça em casa das
Noronhas, ao chá, com a leitura da versalhada ar-
dente em que elle a tratava de «Nympha, d'estrella
da tarde...» Emílm uma sordidez funambulesca!
O pobre Fftdo dos Ramires debandou pelo te-
clado, n'um tumulto de gemidos desconcertados e ás-
peros.
— E eu não ter ouvido nada! murmurava o liar-
ròlo, assombrado. Nem no Club, nem na Arcada . . .
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 165
— Pois, meu amiguinho, quem ouviu, e um ía-
moso estampido, foi o pobre Noronha. Arremessado
para o fundo do Alemtejo, para um sitio doentio,
coalhado de pântanos. É a morte... É uma conde-
mnaçâo á morte!
A esta appariçâo da Morte, surdindo dos pân-
tanos, Barrôlo atirou uma palmada ao joelho, des-
confiado:
— Mas quem diabo te contou tudo isso?
O Fidalgo da Torre encarou o cunhado com des-
dém, com piedade:
— Quem me contou!? E quem me contou que D.
Sebastião morreu em Alcacer-Kebir?... São os factos.
É a Historia. Toda Oliveira sabe. Por acaso ainda
esta manhã o Guedes e eu conversamos sobre o
caso. Mas eu já sabia!... E tenho tido pena. Que dia-
bo! Não ha crime em se estar apaixonado como o
pobre André. Louco, perdido! Até a chorar na Re-
partição, deante do Secretario Geral. E a rapari-
ga ás gargalhadas!... Agora onde ha crime, e hor-
rendo, é na perseguição ao irmão, ao pagador, empre-
gado excellente, d'um talento raro... E o dever de
todo o homem de bem, que prese a dignidade da
Administração e a dignidade dos costumes, é de-
nunciar a infâmia... Eu, pela minha parte, cumpri
esse bom dever. E com certo brilho, louvado Deus!
— (jue fizeste?
160 A ILl.rSTRK CASA DE RAMIRES
— Enterrei na ilharga do Snr. Governador Ci-
vil a minha bòa penna de Toledo, até á rama !
O Barròlo, impressionado, beliscava a pelle do
pescoço. O piano emmudecera: mas Gracinha não se
movia do mocho, com os dedos entorpecidos nas
teclas, como esquecida deante da larga folha onde
se enfileiravam, na lettra apurada do Videirinha, as
quadras triumphaes dos Ramires. E subitamente Gon-
çalo sentiu n'aquella immobilidade sufíocada o des-
peito que a trespassava. Sensibilisado, para a liber-
tar, lhe poupar algum soluço escapando irresistivel-
mente, correu ao piano, bateu com carinho nos po-
bres hombros vergados que estremeceram:
— Tu não dás conta d"esse lindo fado, rapariga l
Deixa, que eu te cantarolo uma quadra, á bôa moda
do Videirinha... Mas primeiramente sè um anjo...
Grita ahi no corredor que me tragam um copo d'a-
gua bem fresca do Poço Velho.
Ensaiou as teclas, entoou versos, ao accaso, n'um
esforço esganiçado:
Ora na grande batalha,
Quatro Ramires valentes . . .
Gracinha desapparecera por uma fenda do re-'
posteiro, sem rumor. Então o bom Barròlo, que
deante da sua terrina da índia enrolava um cigarro
A ILLUSTUE CASA 1)K IIAMIUKS 1G7
com pensativo cuidado, correu, desafogou, deJjruçado
sobre Gonçalo, da certeza que lentamente o in-
\ adira :
— Pois, menino, sempre te dis^o... Essa irmã do
Noronha é um mulherão soberbo! Mas o que eu não
acredito é que ella se fizesse arisca. Com o Cavallei-
ro, bonito rapaz. Governador civil?... Não acredito.
i) Cavalleiro saboreou!
E com as bochechas Insidias d"admiração:
— Aquelle velhaco ! Para cavallos e para mulhe-
res não ha outro, em 01i\ eira !
A Gazeta do Porto, com a Correspondência vin-
gadora, devia desabar sobre Oliveira na quarta-
feira de manhã, dia dos annos da prima Maria IVIen-
donça. Mas Gonçalo, ainda que não temesse (resalva-
do pelo seu pseudonymo de Jurenal) uma briga gros-
seira com o Cavalleiro nas ruas da Cidade, nem mes-
mo com algum dos seus partidários servis e íaça-
nhudos como o Marcolino do Independente — re-
colheu discretamente a Santa Ireneia na terça-feira.
a cavallo, acompanhado pelo Barrôlo até á Vendinha,
onde ambos provaram o vinho branco celebrado pelo
Tito. Depois, para recordar os logares memoráveis em
que na sua Novella se encontravam, com desastrado
choque d'armas, Lourenço Ilamires e o Bastardo de
Bayâo — tomou o caminho que, atravessando os po-
mares da espalhada aldèa de Canta-Pedra, entronca
na estrada dos Bravaes.
170 A ILLU.STUE CASA DE RAMIRES
N'um trote folgado passara á Fabrica de Vidros,
depois o Cruzeiro sempre coberto pelas pombas que
esvoaçam do pombal da Fabrica. E entrava no logar
de Nacejas — quando, á janella d'uma casinha muito
limpa, rodeada de parreiras, appareceu uma linda
rapariga, morena e fina, com jaqué de panno azul e
lenço de cambraieta bordada sobre fartos bandós on-
deados. Gonçalo, sopeando a égua, saudou, sorriu
suavemente :
— Perdão, minha menina... Vou bem por aqui.
para Canta-Pedra?
— Vae, sim senhor. Em baixo, á ponte, mette
para a direita, para os alamos. E é sempre a se-
guir...
Gonçalo suspirou, gracejando:
— Antes desejava ficar!
A moça corou. E o Fidalgo ainda se torceu no
selim para gosar a fina face morena, entre os dous
craveiros da janellinha, na casa tão bem caiada.
]N'esse momento, ao lado, d" uma quelha enra-
mada, desembocava um caçador do campo, de jale-
ca e barrete vermelho, com a espingarda atraves-
sada nas costas, seguido por dois perdigueiros. Era
um latagão airoso, que todo elle, no bater dos sa-
patões brancos, no menear da cinta enfaixada em
seda, no levantar da face clara de suissas louras,
transbordava de presumpçâo e pimponice. N"um re-
A ILLISTUE CASA I)K RAMIRES 171
lance surprehendeu o sorriso, a attençâo galante do
Fidalgo. E estacou, pregando sobre elle, com lenta
arrogância, os bellos olhos pestanudos. Depois passou
desdenhosamente, sem se arredar da égua na la-
deira estreita, quasi raspando pela perna do Fidalgo
o cano da caçadeira. ÍMas adiante ainda atirou uma
tossidela secca e de chasco — com um bater mais
petulante dos tacões.
Gonçalo picou a egoa, colhido logo por aquelle
desgraçado temor, aquelle desmaiado arrepio da car-
ne, que sempre, ante ({ualquer risco, qualquer amea-
ça, o forçava irresistivelmente a encolher, a recuar,
a abalar. Em baixo, na ponte, desesperado contra a
sua timidez, deteve o trote, espreitou para traz,
para a branca casa ílorida. O mocetão parara, en-
costado á espingarda, sob a janella onde a rapariga
morena ' se debruçava entre os dous vasos de cra-
vos. E assim encostado, depois de rir para a moça.
acenou ao Fidalgo, n'um desafio largo, com a cabeça
alta, a borla do barrete toda espetada como uma crista
tlammante.
Gonçalo Mendes Ramires metteu a galope pelo
copado caminho d'alamos que acompanha o riacho das
Donas. Em Canta-Pedra nem se demorou a estudar
{como tencionava para proveito da sua Novella) o
valle, a ribeira espraiada, as ruinas do Mosteiro de
Recadâes sobre a collina. e no cabeço fronteiro o
172 A ILLUSTIIE CASA DE RAMIRES
moinho que assenta sobre as denegridas pedras da
antiga e tão íallada Honra d"ÂveIlans. De resto o ceu.
cinzento e abafado desde manhã, entenebrecia para
os lados de Craquede e de Villa-Clara. Um baio morno
remexeu a folhagem sedenta. E já gotas pesadas se es-
magavam na poeira — quando elle. sempre galopando,
entrou na estrada dos Bravaes.
Na Torre encontrou uma carta do Castanheiro.
O patriota anelava por saber « se essa Torre de D.
iífíaniires se erguia emfim para honra das letras, como
«a outra, a genuína, se erguera outr'ora, em séculos
«mais ditosos, para orgulho das armas...» E accres-
centava n'um Post-Scriptum — «Planeio immensos
«cartazes, pregados a cada esquina de cada cidade de
«Portugal, annunciando em letras de covado a appa-
«riçâo salvadora dos Annaes! E, como tenciono pro-
«metter n'elles aos povos a sua preciosa Novellasinha,
«desejo que o amigo Gonçalo me informe se ella tem,
«á moda de 1<S:J(), um saboroso sub-titulo, como £p^'-
«sodios do século XII. ou ('hro)uca do Reinado de Af-
a/onso II. ou Scenafi da Me/a -Idade Portuyueza ...
«Eu voto pelo sub-titulo. Como o sub-solo n'um edi-
«licio, o sub-titulo n'um livro alteia e dá solidez. A
«obra, pois, meu Ramires, cora essa sua imaginação
«feracissima ! . . . »
Esta invenção de immensos cartazes, com o seu
nome e o titulo da sua >sovella em letras de cores
A ILLl STRE CASA DE RAMIRES Ivlí
estridentes, enchendo cada esquina de Portugal, de-
leitou o Fidalgo. K logo n'essa noite, ao rumor da
rhuva densa que estalava na folhagem dos limoeiros,
retomou o seu manuscripto, parado nas primeiras
linhas, amplas e sonoras, do Cap. II...
Atravez d'ellas, e na frescura da madrugada,
Lourenço Mendes Ramires, com o troço de caval-
leiros e peonagem da sua mercê, corria sobre Monte-
-Mór em soccorro das senhoras Infantas. Ma^, ao pe-
netrar no valle de Canta-Pedra, eis que o esforçado
filho de Tructesindo avista a mesnada do Bastardo
de Bayão, esperando desde alva (como annunciái'a
-Mendo Paes) para tolher a passagem. — E então, n'es-
ta sombria Novella de sangue e homizios, brotava
inesperadamente, como uma rosa na fenda d'um bas-
tião, um lance de amor, que o tio Duarte cantara no
Bardo com dolente elegância.
Lopo de Bayão, cuja belleza loura de fidalgo
godo era tão celebrada por toda a terra d"Entre
-Alinho-e-Douro que lhe chamavam o Claro-Sol, amara
arrebatadamente D. Violante, a filha mais nova de
Tructesindo Ramires. Em dia de S. João, no solar de
Lanhoso, onde se celebravam lides de toiros e jogos
de tavolagem, conhecera elle a donzella explendida,
que o tio Duarte no seu Poemeto louvava com des-
lumbrado encanto :
Que liquido fulgor dos negros olhos!
Que fartas tranças de lustroso ébano 1
A ILLUSTRE CASA 1)K HAMIRES
E ella, certamente, rcndcrii tambein o coração
áquelle moço resplandecente o còr d'ouro, que, n'essa
tarde de festa, arremessando o rojão contra os toiros,
ganhara duas tachas bordadas [)ela nobre Dona de La-
nhoso— e á noite, no sarau, se requebrara com tão re-
picado garbo na dança dos .A[archatins... Mas Lopo
era bastardo, d' essa raça de Bayão, inimiga dos Ra-
mires por velhissimas brigas de terras e precedên-
cias desde o conde D. Henrique — ainda assanhadas
depois, durante as contendas de 1). Tareja e de Aífon-
so Henriques, quando na cúria dos Barões, em Gui-
marães, Mendo de Bayão, bandeado com o (Jonde do
Trava, e Ramires o Corlador, collaço do moçct Infan-
te, se arrojaram ás íaces os guantes ferrados. E, fiel
ao ódio secular, Tructesindo liamires recusara com
áspera arrogância a mão do Niolante ao mais velho
dos de Bayão, um dos valentes de Silves, que pelo
Natal, na Alcáçova de S.ia Ireneia, lh'a pedira para
Lopo, seu sobrinho, o Claro-Sol, offerecendo aven-
ças quasi submissas d'alliança e doce paz. Este ul-
traje revoltara o solar de Bayão — que se honrava cm
Lopo, apezar de bastardo, pelo lus,tre da sua bravu-
ra e graça galante. E então Lopo terido dorida-
mente no seu coração, mais luriosamente no seu
orgulho, para fartar o esfaimado desejo, para infa-
mar o claro nome dos Ramires — tentou raptar D.
Violante. Era na primavera, con\ todas as veigas do
A ILI.ISTUE (.ASA Dlí UA.MIKES Í7.>
Mondego já verdes. A donosa senhora, entre alguns
escudeiros da Honra e parentes, jornadeava de Trei-
xedo ao mosteiro de Lorvão, onde sua tia D. Branca
era abbadeça... Languidamente, no Bardo, descan-
tara o tio Duarte o romântico lance:
Junto d fonte mourisca, entre os ulmeiros,
A cavalgadura pára...
E junto aos ulmeiros da íonto surgira o Claro-
Sol — que, com os seus, espreitava d'um cabeço ! Mas,
logo no começo da curta briga, um primo de D. Vio-
lante, o agigantado Senhor dos Paços d'Avenim, o
desarmou, o manteve um momento ajoelhado sob o
lampejo e gume da sua adaga. E com vida perdoada,
rugindo de surda raiva, o Bastardo abalou entre os pou-
cos solarengos que o acompanhavam n'esta affouta ar-
remettida. Desde então mais fero ardera o rancor en-
tre os de Bayâo e os Ramires. E eis agora, n'esse co-
meço da Guerra das Infantas, os dois inimigos rosto
a rosto no valle estreito de Canta-Pedra! Lopo com
um bando de trinta lanças e mais de cem besteiros da
Hoste Real. Lourenço Mendes Ramires com quinze
cavalleiros e noventa homens de pé do seu pendão.
Agosto findava: e o demorado estio amarellecera
toda a relva, as pastagens íamosas do valle, até a
loíhagem de amieiros e freixos pela beira do ria-
176 A ii.Li STRb: i:.vsA de ramikes
cho das Donas que s'arrastava entre as pedras
lustrosas, em fios escassos, com dormido murmú-
rio. Sobre um outeiro, dos lados de Pxamilde, avul-
tava, entre possantes ruinas erriçadas de sarças, a
denegrida Torre Redonda, resto da velha Honra de
Avellans, incendiada durante as cruas rixas dos de
Salzedas e dos de Landim, e agora haijitada pela alma
gemente de Guiomar de Landim, a Mal-casada. No
cabeço fronteiro e mais alto, dominando o valle, o
mosteiro de Piecadâes estendia as suas cantarias no-
vas, com o forte torreão, asseteado como o d'uma for-
taleza— d'onde os monges se debruçavam, esprei-
tando, inquietos com aquelle coriscar d'armas que
desde alva enchia o valle. E o mesmo temor acos-
sara as aldeias chegadas — porque, sobre a crista das
coUinas, se apressavam para o santo e murado refugio
do convento gentes com trouxas, carros toldados,
magras filas de gados.
Ao avistar tão rijo troço de cavalleiros e peões,
espalhado até á beira do riacho por entre a sombra
dos freixos, Lourenço Ramires soíTreou, susteve a leva,
junto d'um montão de pedras onde apodrecia, en-
cravada, uma tosca cruz de pau. E o seu esculca
que largara rédeas soltas, estirado sob o escudo de
couro, para reconhecer a mesnada — logo voltou, sem
que Irccha ou pedra de íundu o colhessem, gritando:
— São homens de Bavão e da Hoste Real!
A ILLUSTRE CAS.V DE RAMIRES 177
Tolhida pois a passagem! E em ffiie clesigiialado
recontro ! IMas o denodado Ramires não duvidou
avançar, travar peleja. Sósinho que assomasse ao
valle, com uma quebradiça lança de monte, arremet-
teria contra todo o arraial do Bastardo ... — No
emtanto já o adail de Bayâo se adeantára, curveteando
no rosilho magro, com a espada atravessada por cima
do morrião que pennas de garça emplumavam. E
pregoava, atroava o valle com o rouco pregão :
— Deter, deter! que não ha passagem! E o no-
bre senhor de Bayâo, em recado d'El-Bey e por
mercê de Sua Senhoria, vos guarda vidas salvas se
volverdes costas sem rumor e tardança!
Lourenço Ramires gritou :
— A elle, besteiros!
Os virotes assobiaram. Toda a curta ala dos ca-
valleiros de Santa-íreneia tropeou para dentro do
valle, de lanças ristadas. E o fdho de Tructosindo,
erguido nos cstribões de ferro, debaixo do panno
solto do seu pendão que apressadamente o alferes
saccára da funda, descerrou a vizeira do casco para
que lhe mirassem bem a face destemida, e lançou
ao Bastardo injurias de furioso orgulho:
— Chama outros tantos dos villões que te seguem
que, por sobre elles e por sobre ti, chegarei esta
noite a IMonte-Mór !
E o Bastardo, no seu fouveiro, que uma rede de
178 A iLLrsTiiE i;asa de ramiues
malha cobria, toda acairelada d"ouru, atirava a mão
calçada de ferro, clamava:
— Para traz, (Toade vieste, voltarás, itulrâo trai-
dor, se eu por mercê mandar a teu pae o teu corpo
n'umas andas!
Estes teros desafios rolavam em versos serena-
mente compassados no Poemeto do Tio Duarte. E
depois de os reforçar, Gonçalo Mendes Ramires, (sen-
tindo a alma enfunada pelo heroísmo da sua raça
como por um ^■ento que sopra de funda com pina) ar-
rojou um contra o outro os dous bandos valorosos.
Grande briga, grande grita...
— Ala! Ala!
— Rompe! Rompe!
— Cerra por Bayâo!
— Casca pelos Ramires!
Através da gi^ssa poeirada e do alovanto zunem
os garruchões, as rudes balas de barro despedidas das
íuudas. Almogavres de Santa-íreneia, almogavres da
Hoste Real, em turmas ligeiras, carregam, topam, com
baralhado arremesso d'ascumas que se partem, do
dardos que se cravam: e ambas logo refogem,
refluem— em quanto, no chão revolto, algum mal-
ferido estrebucha aos urros, e os atordoados cam-
baleando buscam, sob o abrigo do arvoredo, a fres-
quidâo do riacho. Ao meio, no embate mais nobre
da peleja, por cima dos corcéis que se empinam, ar-
A ILLUSTHE CASA DK HAMIRES 179
fando ao peso das coberturas de malha, as lisas pran-
chas dos montantes lampejam, retinem, embebidas nas
chapas dos broqueis: — e já, dos altos arções de cou-
ro vermelho, desaba algum hirto e chapeado senhor,
com um baque de ferragens sobre a terra molle. Ca-
valleiros e iníançôes, porém, como n'um torneio, ape-
nas terçam lanças para se derribarem, abolados os
arnezes, com clamores de excitada ufania: e sobre a
villanagem contraria, em quem cevam o furor da ma-
tança, se abatem os seus espadões, se despenham as
suas achas, esmigalhando os cascos de íerro como
bilhas de greda.
Por entre a pionagem de Bayâo e da Hoste Real
Lourenço Ramires avança mais levemente que cei-
feiro apressado entre herva tenra. A cada arranque
do seu rijo murzello, alagado d'espuma, que sacode
furiosamente a testeira rostrada-— sempre, entre pra-
gas ou gritos por Jesus! um peito verga trespassado,
braços se retorcem em agonia. Todo o seu afan era
chocar armas com Lopo. Mas o Bastardo, tão ar-
remessado e afírontador em combate, não se arredara
n'essa manhã da lomba do outeiro onde uma fda de
lanças o guardava, como uma estacada: e com bra-
dos, não com golpes, aquentava a lide! No ardor de-
*^ sesperado de romper a viva cerca Lourenço gastava
as forças, berrando roucamente pelo Bastardo com
os duros ultrajes de churdo ! e marrano ! Já d'entre
180 A ILLUSTRE CASA DE RAMíRES
a trama íalseada do camalho lhe borbulhavam do
hombro, pela loriga, fios lentos de sangue. Um lan-
ço de virotâo, que lhe partira as charneiras da
greva esquerda, íendera a perna d'onde mais sangue
brotava, ensopando o forro d'estopa. Depois, varado
por uma frecha na anca, o seu grande ginete aba-
teu, rolou, estalando no escoucear as cilhas preguea-
das. E, desembrulhado dos loros com um salto, Lou-
renço Ramires encontrou em roda uma sebe erriçada
de espadas e chuços, que o cerraram — em quanto
do outeiro, debruçado na sella, o Bastardo bra-
mava :
— ^ Tendei tende! para que o colhaes ás mãos!
Trepando por cima de corpos, que se estorcem
sob os seus sapatos de íerro, o valente moço arre-
mette, a golpes arquejados, contra as pontas luzentes
que recuam, se furtam... E, triumphantes, redobram
os gritos de Lopo de Bayâo :
— Vivo, vivo! tomadel-o vivo!
— Não, se me restar alma, villâo! rugia Lou-
renço.
E mais raivosamente investia, quando um calhau
agudo lhe acertou no braço r— que logo amorteceu,
pendeu, com a espada arrastando, presa ainda ao
l)unho peio grilhão, mas sem mais servir que uma
roca. ?s'um relance ficou agarrado por peões que
lho fiiav.im fi gorja, emquanto outros com varadas
A ILIASTUE CASA DE RAMIRES 181
de asciima lhe vergavam as pernas retesadas. Tom-
bou por fim direito como um madeiro; — o nas cordas
com que logo o amarraram, jazeu hirto, sem elmo,
sem cervilheira, os olhos duramente cerrados, os
cabellos presos n'uma pasta de poeira e de sangue.
Eis pois captivo Lourenço Ramires! E, deante
das andas íeitas de ramos e franças de faias em que
o estenderam, depois do o borrifarem á pressa com
a agua fresca do riacho, — o Bastardo, limpando ás
costas da mão o suor que lhe escorria pela face íor-
mosa, pelas barbas douradas, murmurava, com-
movido :
— Ah! Lourenço, Lourenço, grande dor. que bem
poderamos ser irmãos e amigos!
Assim, ajudado pelo tio Duarte, por Walter Scott,
por noticias do Panara nut, compozera Gonçalo a mal-
venturada lide de Canta-Pedra. E com este desabafo
de Lopo, onde perpassava a magua do amor vedado,
fechou o Cap. íí, sobre que labutara três dias— tão
embrenhadamente que em torno o Mundo como que
se calara e se fundira em penumbra.
Uma girandola de foguetes estoirou ao longe, para
o lado dos Bravaes, onde no Domingo se fazia a ro-
maria celebrada da Senhora das Candeias. Depois
182 A ILLISTRE C-\S\ DE RAMIRES
da chuva rVaquelles três dias, uma frescura descia
do ceu amaciado e lavado sobre os canlpos mais
verdes. E como ainda restava meia hora farta antes
de jantar, o Fidalgo agarrou o chapéu, e mesmo na
sua velha quinzena de trabalho, oorn uma bengalinha
de canna, desceu á estrada, tomou pelo caminho
que s*estreita entre o muro da Torre e as terras de
centeio onde assentavam no século xii as barbacans
da Honra de Santa Ireneia.
Pela silenciosa vereda, ainda húmida, Gonçalo
pensava nos seus avós formidáveis. Como elles re-
surgiam, na sua Novella, sólidos e resoantes! E
realmente uma comprehensâo tão segura d'aquel-
las almas AfTonsinas mostrava que a sua alma
conservava o mesmo quilate e sahira do mesmo rico
bloco d'ouro. Porque um coração molle. ou degene-
rado, não saberia narrar corações tão fortes, d*eras
tão íortes: — e nunca o bom Manoel Duarte ou o
Barrôlo excellente entenderiam, bastante para lhes
reconstruir os altos espíritos, ^lariim áe Freitas ou
Affonso do Albuquerque... ]N'esta fina verdade de-
sejaria elie que os Criticos insistissem ao estudar
depois a Torre de D. fíamires — pois ([ue o Cas-
tanheiro lhe assegurara artigos consideráveis nas
Novidades c na Manhã. Sim ! eis o que convinha
marcar com relevo (e elle o lembraria ao Castanhei-
ro!)— que os liicos Homens de Santa-lrcneia revi-
A ILÍASTIUí; casa DH RAMIRES ' 183
viam no seu neto, senão pela continuação heróica
das mesmas façanhas, pela mesma alevantada com-
prehensão do heroísmo... Que diabo! sob o reinado
do horr-endo S. Fulgencio elle não podia desman-
telar o solar de Bayâo, desmantelado ha seiscentos
annos por seu avô Lionel Ramires — nem retomar
aos Mouros (^ssa torreada Monforte onde o Anto-
ninho Moreno era o languido Governador Civil ! Mas
sentia a grandeza e o préstimo histórico d'esse ar- 9
rojo que outr'ora impollia os seus a arrasar Solares
rivaes, a escalar Villas mouriscas: resuscitava pelo
Saber e pela Arte, arrojava. para â vida ambiente,
esses varões temerosos, com os seus corações, os seus
trajes, as suas immensas cutiladas, as suas bravatas
sublimes: dentro do espirito e das expressões do
seu Século era pois um bom Ramires — um Ra-
mires de nobres energias, não façanhudas, mas in-
tellectuaes, como competia n'umaEdade d"intellectual
descanço. E os jornaes, que tanto motejam a deca-
dência dos Fidalgos de Portugal, deveriam em jus- i
liça aífirmar (e elle o lembraria ao Castanheiro!):
— «Eis ahi um, e o maior, que, com as formas e
os modos do seu tempo, continua e honra a sua
raça ! »
Através d'estes pensamentos, que mais lhe enri-
javam as passadas sobre chão tão calcado pelos
seus — o Fidalgo da Torre chegara á esquina do muro
184 A ILUSTRE CASA DE RAMIRES
da quinta, ondo uma ladeirenta e apertada azinhaga a
divide do pinheiral e da matta. Do portão nobre, que
outr'ora se erguera n"esse recanto com hnores e bra-
zão d"armas, restam apenas os dois humbraes de gra-
nito, amareliados de musgo, cerrados contra o gado
por uma cancella de taboas mal pregadas, carcomi-
das da chuva e dos annos. E n'esse momento, da
azinhaga funda, apagada em sombra, subia chiando,
carregado de matto, um carro de bois, que uma lin-
da boeirinha guiava.
— Nosso Senhor lhe dè muito boas tardes!
— Boas tardes, florzinha!
O carro lento passou. E logo atraz surdio um
homem, esgrouviado e escuro, trazendo ao hom-
bro o cajado, d'onde pendia um molho de cordas.
O Fidalgo da Torre reconheceu o José Casco
dos Bravaes. E seguia, como dcsattento, pela orlado
pinheiral, assobiando, raspando com a bengalinha as
silvas 'floridas do vallado. O outro porém estugou o
passo esgalgado, lançou duramente, no silencio do ar-
voredo e da tarde, o nome do Fidalgo. Então, com
um pulo do coração, Gonçalo Mendes Ramires parou,
forçando um sorriso affavel:
— Olá! E \oss(\ José! Então que temos?
O Casco engavSgára, com as costellas a ar-
far sob a encardida camisa de trabalho. Por !im.
I
A ILLLSTP.E CASA DE BAMIliES .185
(leseníiando das cordas o marmelleiro que cravou no
chão pela choupa:
— Temos que eu íallei sempre claro com o Fidal-
go, e não era para que depois me faltasse á palavra!
Gonçalo Ramires levantou a caheça com uma
dignidade lenta e custosa — como se levantasse uma
massa de ferro:
— Que está vossè a dizer, Casco? Faltar d pala-
vra! em que lhe faltei eu á palavra?... Por causa
do arrendamento da Torre? Essa é nova! Então hou-
ve por acaso escriptura assignada entre nós? Você
não voltou, não appareceu...
O Casco emmudecera. assombrado. Depois, com
uma cólera em que lho tremiam os beiços brancos,
lhe tremiam as seccas mãos cabelludas, fincadas ao
cabo do varapau :
— Se houvesse papel assignado o Fidalgo não
podia recuar!... Mas era como se houvesse, para
gente de bem!... Até V. S." disse, quando eu ac-
ceitei: «viva! está tratado!...» O fidalgo deu a sua
palavra !
Gonçalo, enfiado, apparentou a paciência d'um
senhor benev"olo :
— Escute, José Casco. Aqui não é logar. na estra-
da. Se quer conversar commigo appareça na Torre.
Eu lá estou sempre, como vossè sabe, de manhã...
Vá amanhã, não me encommóda.
180 A ILUSTRE CASA DE RA.MIlíES
E endireitava para o pinhal, com as pernas mol-
les, um suor arripiado na espinha — quando o Casco,
n'um rodeio, n'um salto leve, atrevidamente se lhe
plantou diantt>, atravessando o cajado:
— O Fidalgo ha-de dizer aqui mesmo! O Fidalgo
deu a sua palavra!... A mim não se me fazem d'es-
sas desfeitas... O Fidalgo deu a sua palavra!
Gonçalo relanceou esgaseadamente em redor, na
anciã d'um soccorro. Só o cercava solidão, arvoredo
cerrado. Na estrada, apenas clara sob ura resto de tar-
de, o carro de lenha, ao longe., chiava, mais vago.
As ramas altas dos pinheiros gemiam com um
gemer dormente e remoto. Entre os troncos já se
adensava sombra e névoa. Então, estarrecido, Gon-
çalo tentou um refugio na ideia de .Justiça e de Lei.
que aterra os homens do campo. E como amigo
que aconselha um amigo, com l)randura. os beiços
resequidos e trémulos:
— Escute, Casco, escute, homem! As coisas não
se arranjam assim, a gritar. Pôde ha\'er desgosto,
apparecer o regedor. Depois é o tribunal, é a ca-
deia. E vocr tem mulher, tem filhos pequenos... Es-
cute! Se descobriu motivo para se queixar, vá á
Torre, conversamos. Pacatamente tudo se esclarece,
homem... Com berros, não! Vem o cabo. vem a en-
xovia . . .
Então de repente o Casco cresceu todo, no soli-
A ILLLSTRK CASA DE RAMIUES 187
tario caminho, negro e alto como um pinheiro, n'um
furor (jue lhe esbugalhava os olhos esbraseados, quasi
sangrentos :
— Pois o Fidalgo ainda me ameaça com a justi-
ça!... Pois ainda por cima de me fazer a maroteira
me ameaça com a cadeia!... Então, com os diabos!
primeiro que entre na cadeia lhe hei-de eu esmiga-
lhar esses ossos!...
Erguera o cajado... — Mas, n"um lampejo de ra-
zão e respeito, ainda gritou, com a cabeça a tremer
para traz, atravez dos dentes cerrados:
— Fuja, fidalgo, que me perco!... Fuja que o
mato e me perco!
Gonçalo Mendes Ramires correu á cancolla enta-
lada nos velhos humbraes de granito, pulou por sobre
as taboas mal pregadas, enfiou pela latada que orla.
o muro, n'uma carreira furiosa de lebre acossa-
da! Ao fim da vinha, junto aos milheiraes, uma fi-
gueira brava, densa em folha, alastrara dentro d'um
espigueiro de granito destelhado e desusado. N'esse
esconderijo de rama e pedra se alapou o Fidal- |
go da Torre, arquejando. O crepúsculo descera so-
bre os campos — e com elle uma serenidade em que
adormeciam frondes e relvas. Aííoutado pelo si-
lencio, pelo socego, Gonçalo abandonou o cerrado
abrigo, recomeçou a correr, n'um correr manso, na
ponta das botas brancas, sobre o chão molle das
188 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
chuvadas, até ao muro da -Mãe d" Agua. De novo esta-
cou, esfalfado. E julgando entrever, longe, á orla do
arvoredo, uma mancha clara, algum jornaleiro em
mangas de camisa, atirou um berro ancioso: — «Oh!
Ricardo ! Oh ! Alanoel.! Eh lá ! alguém ! Vai ahi al-
guém?...» -A mancha indecisa fundira na indecisa io-
Ihagem. Uma rã pinchou n'um regueiro. Estremecen-
do, Gonçalo retomou a carreira até ao canto do po-
mar— onde encontrou fechada uma porta, velha porta
mal segura, que abanava nos gonzos ferrugentos. Fu-
rioso, atirou contra ella os hombros que o terror enri-
jara como trancas. Duas taboas cederam, elle íurou
atravez, esgaçando a quinzena n'um prego. — E res-
pirou emfnn no agazalho do pomar murado, deante
das varandas da casa abertas á írescura da tarde,
junto da Torre, da sua Torre, negra e de mil annos,
mais negra e como mais carregada d'annos contra a
macia claridade da lua-nova que subia.
Com o chapéu na mão, enxugando o suor, en-
trou na horta, costeou o feijoal. E agora subitamente
sentia uma cólera amarga pelo desamparo em que
se encontr;íra, n"uma quinta tão povoada, exameando
de gentes e dependentes! Nem um caseiro, nem um
jornaleiro, quando elle gritara, tão aíílicto, da borda
da Mãe d"Agua! De cinco creados nenhum acudira,
— e elle perdido, alli, a uma pedrada da eira e da abe-
goaria! Pois que dois homens corressem com paus
A ILLUSTUE CASA DE RAMIRES 180
OU enxadas — e ainda colhiam o Casco na estrada, o
malhavam como uma espiga.
Ao pé do gallinheiro, sentindo uma risada fina do
rapariga, atravessou o pateo para a porta alumiada da
cosinha. Dois moços da horta, a filha da Crispola, a Rosa,
tagarellavam, regaladamente sentados n'um banco de
pedra, sob a fresca escuridão da latada. Dentro o lu-
me estrallejava— e a panella do caldo, fervendo, res-
cendia. Toda a cólera do Fidalgo rompeu :
— Então, que sarau ó este? Vocês não me ou-
viram chamar?... Pois encontrei lá em baixo, ao pé
do pinheiral, um bêbedo, que me não conheceu, veiu
para mim com uma foice.!... Felizmente levava a
bengala. E chamo, grito... Qual! Tudo aqui de pa-
lestra, e a ceia a cozer! (Jue desaforo! Outra vez
que succeda, todos para a rua... E quem resmun-
gar, a cacete!
A sua face chammejava, alta e valente. A pe-
quena da Crispola logo se escapulira, encolhida, para
o recanto da cosinha, para traz da maceira. Os dois mo-
ços, erguidos, vergavam como duas espigas sob um
grande vento. E emquanto a Rosa, aterrada, se benzia,
se derretia em lamentações sobre «desgraças que
assim s'armam!» — Gonçalo, deleitado pela submis-
são dos dois homens, ambos tão rijos, com tão gros-
sos varapaus encostados á parede, amansava:
— Realmente! sois todos surdos, n'esta pobre casa!...
190 A ILUSTRE CASA UK UA.VIIRES
Além (l'isso a porta do pomar fechada ! Tive de lhe
aUrar um empurrão. Ficou em pedaços.
Então um dos moços, o mais alentado, ruivo.,
com um queixo de cavallo, pensando que o Fidalgo
censurava a frouxidão da porta pouco cuidada, co-
çou a cabeça, n'uma desculpa:
— Pois, com perdão do fidalgo!. .. ^las já depois
da saida do Pielho se lhe pòz uma travessa e fecha-
dura nova... E valente!
— Qual fechadura! gritou o Fidalgo soberba-
mente. Despedacei a fechadura, despedacei a traves-
sa... Tudo em estilhas!
O outro moço, mais desembaraçado e esperto,
riu, para agradar:
— Santo nome de Deus!... Então, c que o li-
dalgo lhe atirou com força!
E o companheiro, convencido, espetando o queixo
enorme :
— Mas que íorça! a matar! Oue a porta era
rija... E fechadura nova, já depois do llelho!
A certeza da sua força, louvada por aquelles
fortes, reconfortou inteiramente o fidalgo da Torre,
já brando, quasi paternal:
— Graças a Deus, para arrombar uma porta,
mesmo nova, não me íalta íorça. O que eu não podia,
por decência, era arrastar ahi por essas estradas
um bêbedo com uma foice até casa do Ilegedor...
A ILUSTRE CASA DE líAMUiES 191
Fui para isso que ciianiei, que irritei. Para que vos-
sès o agarrassoui, o le\ assem ao Regedor!... Bem,
acabou. ()li! Rosa, dr a estes rapazes, para a ceia,
mais uma caneca de vinho... A vêr se para outra
vez se affoutam, se appareceni. ..
Era agora como um antigo senhor, um Ramires
d"outros séculos, justo e avisado, que reprehende
uma íraqueza dos seus solarengos — e logo perdoa
por conta e amor das façanhas próximas. Depois com
a bengala ao hombVo, como uma lança, subio pela
lobrega escada da cozinha. E em cima no quarto,
apenas o Bento entrara para o vestir, recomeçou
a sua epopeia, mais carregada, mais terrifica — assom-
brando o sensível homem, estacado rente da com-
moda, sem mesmo pousar a enfusa d*agoa quente,
as botas envernisadas, a braçada de toalhas que o
ajoujavam... O Casco! O José Casco dos Bravaes,
bêbedo, rompendo para elle, sem o conhecer, com
uma foice enorme, a berrar — «Morra, que é mar-
rão!...» E elle na estrada, deante do bruto, de ben-
galinha! -Mas atira um salto, a íoiçada resvala sobre
um tronco de pinheiro . . . Então arremette desabala-
damente, brandindo a bengala, gritando pelo Ricardo
e pelo ?.íanoe[ como se ambos o escoltassem — e ata-
ranta o Casco, que recua, se some pela azinhaga, a
cambalear, a grunhir...
— Hein. que te parece? Se não é a minha au-
192 A ILLUSTRE CASA DE R\M[BES
dacia, o homem positivamente me ferra um t/ro de
espinijarda !
O Bento, que quasi se babava, com o jarro es-
quecido a pingar no tapete, pestanejou, confuso, mais
attonito :
— Mas o Snr. Dr. disse que era uma foice!
Gonçalo bateu o pé, impaciente :
— Correu para mTm com uma íoice. IMas vinha
atraz do carro... E no carro trazia uma espingarda.
O Casco é caçador, anda sempre d'espingarda.. . Em-
tim estou aqui vivo, na Torre, por mercê de Deus. E
também porque felizmente, n'estes casos, não me
falta decisão !
E apressou o Bento — porque com o abalo, o os-
lorço, positivamente lhe tremiam as pernas de can-
çasso e de fome... Além da sede!
— Sobretudo sede! Esse vinho que venha beni
fresco . . . ])o Verde e do Alvaralhâo, para misturar.
O Bento, com um tremulo suspiro da emoção
atravessada, enchera a bacia, estendia as toalhas.
Depois, gravemente :
— Pois, Snr. Dr., temos esse andaço nos sí-
tios! Foi o mesmo que succedeu ao Snr. San-
ches Lucena, na Feítosa . . .
— Como, ao Snr. Sanches Lucena?
() IVmtu desenrolou então uma tremenda historia
tra/Jda á Torre, durante a estada do Snr. Doutor em
A ILUSTHE CASA 1)K líA.MUlES 193
Oliveira, pelo cunhado da Crispola, o lUiy carpinteiro,
•que trabalhava nas obras da Feitosa. O Snr. San-
ches Lucena descera uma tarde, ao lusco fusco, á
porta do Mirante, quando passam na estrada dous
jornaleiros, bêbedos ou facínoras, que implicam com
o excellente senhor. E chufas, risinhos, momices — O
Snr. Sanches, com paciência, aconselhou os homens
que seguissem, não se desmandassem. De repente
um d"elles. um rapazola, sacode a jaqueta do hom-
bro, ergue o cajado! Felizmente o companheiro, que
se afíirmára, ainda gritou: — «Ai! rapaz, que elle é
o nosso deputado !n O rapazola abalou, espavorido.
O outro até se atirou de joelhos deante do Snr. San-
ches Lucena... Mas o pobre senhor, com o abalo, re-
colheu á cama!
Gonçalo acompanhara a historia, seccando va-
garosamente as nitãos á toalha, impressionado :
— Quando foi isso?
— Pois disse ao Snr. Dr Quando o Snr. Dr.
estava em Oliveira. Um dia antes ou um dia depois
dos annos da Snr." D. Graça.
O Fidalgo arremessou a toalha, limpou pensati-
vamente as unhas. Depois com um risinho incerto e
leve :
— Emfim, sempre serviu d'alguma coisa ao San-
ches Lucena ser deputado por Villa-Clara. . .
E já víístido. abastecendo a charuteira (porque
13
19i A ILLLSTUE CASA DE RAMIRES
resolvera passar a noite na Villa, a desabatar com o
Gouveia) — de novo se voltou para Bent(), que arru-
mava a roupa:
— Então o bêbedo, quando o outro lhe gritou
«Ai, que é o nosso deputado,» cahiu em si, íugiu.
hein?... Ora vé tu! Ainda vale sor deputado! Ainda
inspira respeito, homem! Pelo menos inspira mais
respeito que descender dos reis de Leão ! . . . Paciên-
cia, toca a jantar.
Durante o jantar, misturando copiosamente o
Verde e o Alvaralhâo, Gonçalo não cessou de rumi-
nar a ousadia do Casco. Pela vez primeira, na his-
toria de Santa írcneia, um lavrador d"aquellas al-
deãs, crescidas á sombra da Casa illustre, por tantos
^ séculos senhora em monte c valle, ultrajava um Ra-
» mires ! K brutamente, alçando o cajado, deaníe dos
muros da quinta liistorica! .. . Contava seu pae que,
em vida do bisa\ 6 Ignacio, ainda desde Ramilde até
Corinde os homens dobravam o joelho nos cami-
nhos quando passava o Seniior da Torre. E agora
levantavam a foice!... E porqu(!? Por que elle não
se desfalcara submissamente das suas rendas em pro-
veito d'um íaçanhudo! — Em tempos do avô Tructo-
síndo, villâo de tal attentado assaria, como porco
A ILLUSTRE CASA I)K RAMIRES 19o
montez, n'iima ruidosa íosíiieira, deante das barba-
cans da Honra. Ainda em dias do bisavô , ígnacio
apodreceria n'uma masmorra. E o. Casco não podia
escapar sem castigo. A impunidade só lhe incha-
ria a audácia: e assomado, rancoroso, n'outro en-
contro, sem mais falias, desfechava a caçadeira. Oh!
não lhe desejava um mal durável, coitado, com dois
lilhos pequeninos — um que mamava. Aias que o ar-
rastassem á Administração, algemado, entre dois ca-
bos do policia — e que na triste saleta, d'onde se avis-
tam as grades da cadeia, apanhasse uma reprehensâo
tremenda do Gouveia, do Gouveia muito secco, muito
esticado na sobrecasaca negra . . . Assim se devia res-
guardar, por meios tortuosos — pois que não era depu-
tado, e que, com o seu talento, o seu nome, essa es-
pantosa linhagem d'avós que edificara o Reino, care-
cia o prestigio d'um Sanches Lucena, o precioso pres-
tigio que suspende no ar os varapaus atrevidos!
Apenas findou o café, mandou pelo Bento avisar
os dous moços da horta, o Ricardo e o outro de
queixo de cavallo, que o esperassem no pateo, ar-
mados. Porque na Torre ainda sobrevivia uma «Sala
d"armas» — cacifro tenebroso, junto ao Archivo, onde
se amontoavam peças aboladas d'armaduras, um lo-
rigâo de malha, um l>roquel mourisco, alabardas, es-
padões, polvarinhos, bacamartes de 1820, e entre esta
poeirenta ferralhagem negra ires espingardas limpas
lOG A ILUSTRE CASA DE UAMIKES
com que os moços da quinta, ua romaria de S. Gon-
çalo, atiravam descargas em louvor do Santo.
Depois, ellr, enoafuou o revólver na algibeira,
desenterrou do armário do corredor um velho ben-
galão de cabo de chumbo entrançado, agarrou um api-
to. E assim precavido, aqus^cido pelo Verde e pelo Al-
varalhão, com os dous creados de caçadeira ao iiom-
bro. importantes e tesos, partiu para Villa-Clara, pro-
curar o Snr. Administrador do Concelho. A noite en-
volvia os campos em socego e frescura. A lua nova.
que alimpara o tempo, roçava a crista dos outeiros de
Valverde como a roda lustrosa d"um carro de ouro.
No silencio os rijos sapatões pregueados dos dous jor-
naleiros resoavam em cadencia. E Oonçalo adiantu,
de charuto flauimante, gosava aquella marcha, era
<[ue de novo um Ramires trilhava os caminhos de
Santa Ireneia com homens da sua mercê e solaren-
gos armados.
Ao começo da villa, porem, recolheu disereta-
mente a escolta na taverna da Serena: e elle cor-
tou para o M Tcado da Herva, para a Tabacaria do
SinuKis, ondo o (Jouveia, áqucUa hora. antes da par-
tida da Assembléa, costumava pousar, comprar uma
caixa de phosphoros, considerar pensativamente na
N idraça as cautelas da Loteria. .Mas n"(issa noite o
Snr. Administrador faltara ao Simões costumado.
Largou então i)ara a Assembléa: e logo cm baixo,
A ILLLSTlíE CASA DE RAMIRES 19/
no bilhar, ura sujeitu calvo, que contemplava as
carambolas solitárias do marcador, espapado na ban-
cada, de collete desabotoado, mascando um palito —
iiiforuiou o Fidalgo da doença do amigo Gouveia:
— Cousa leve, inílammação de garganta... V. Ex."^
de certo o encontra em casa. Não arreda do quarto
desde Domingo.
Outro cavalheiro porém, quo remexia o seu café
á esquina d'uma mesa atulhada de garrafas de licor,
affiançou que o Snr. Administrador já espairecera
n"essa tarde. x\inda pelas cinco horas elle o encon-
trara na Amoreira, com o pescoço atabafado n'uma
manta de la.
Gonçalo, impaciente, abalou para a Calçadinha.
E atravessava o Largo do Chafariz quando descorti-
nou o desejado Gouveia, á porta muito alumiada da
loja de pannos do Ramos, conversando com um ho-
memzarrâo de forte barba retinta e de guarda-pó
alvadio.
E foi o (j0u\eia. que. de dedo espetado, inves-
tiu para Gonçalo:
— Então, já sabe?
— O quê?
— Pois não sabe, homem?... O Sanches Lucena !.
— O qué?
— Morreu!
O fidalgo emba.sbacou para o Administrador, de—
198 .A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
pois para o outro cavalheiro, que repuxava na mão
enorme, com um esforço inchado, uma luva preta
apertada e curta.
— Santo Deus!.,. Quando?
— Esta madrugada. De repente. «Angina pec-
toris, » não sei què no coração... De repente, na
cama.
E ambos se consideraram, em silencio, no espanto
renovado d'aquella morte que impressionava ViJla-
Clara. Por fim Gonçalo:
— E eu ainda ha bocado, na Torro, a fallar d*el-
le! E, coitado, como sempre, com pouca admira-
ção ...
— E eu! exclamou o Gouveia. Eu, que aindu
hontem lhe escrevi!... E uma carta comprida, por
causa d"um empenho do Manoel Duarte.. . Foi o ca-
dáver que recebeu a carta.
— Boa piada! rosnou o sujeito obeso, que se de-
batia ferrenhamente contra a luva. O cadáver rece-
beu a carta . . . Boa piada !
O Fidalgo torcia o bigode, pensativo :
— Ora, ora... E que edadc tinha elk;?
O Gouveia sempre o imaginara um completo ve-
lho, de setenta invernos. Pois não! apenas sessenta,
em Dezembro. Mas consumido, arrasado. Casara tar-
de, com fêmea forte . . .
— E ahi temos a bolla D. Anna, viuva aos vinte
A ILLUSTRK CASA DE UAMIRES 191»
« oito aiinos, sem tilhus, naturalmente herdeira,
com o seu mealheiro de duzentos contos . . . Talvez
mais !
— Boa maquia! roncou de novo o oupado homem
que eníiára a luva, f agora gemia, com as veias
túmidas, para lhe apertar o colchete.
Aquelle cavalheiro constrangia o Fidalgo — an-
cioso por desafogar com o Gouveia sobre «a vaca-
tura politica.» assim inesperadamente aberta, no
circulo de Villa-Clara, pela brusca desappariçâo do
Cheíe tradicional. E não se conteve, puchou o
Administrador pelo botão da sobrecasaca para a som-
bra íavoravel da parede:
— Ohl Gouveia! então agora, hein?... Temos
eleição supplementar . . . (Juem virá pelo circulo?
E o Administrador, muito simplesmente, sem
se resguardar do homemzarrâo de guarda-pó, que,
emfim enluvado, accendera o charuto, se acercava
com familiaridade — deduziu os factos:
— Agora, meu amigo, com o tio do Cavalleiro
ministro da Justiça- e o José Ernesto ministro do
Pieino, vae deputado pelo circulo quem o André Ca-
valleiro mandar. É claro... O Sanches Lucena man-
teve sempre o seu lugar em S. Bento por uma in-
dicação natural do partido. Era aqui o primeiro ho-
mem, o grande homem dos Históricos. .. Bem! Hoje,
para decidir o Governo, como falta a indicação na-
200 A ILLISTIIE CASA DE RAMIUES
tural do partido, que resta ? O desejo pessoal do Ca-
valleiro. Você sabe como o Cavalleiro é regionalista.
Pelo circulo pois, logicamente, sahe quem se apre-
sente ao Cavalleiro como um bom continuador do
Lucena, pela iníluencia c pela estabilidade territorial . . .
N'outro circulo ainda se podia encaixar ú pressa um
deputado fabricado em Lisboa, nas Secretarias. Aqui
não! O deputado tem de ser local e Cavalleirista.
E o próprio Cavalleiro, acredite você, está a esta hora
embaraçado.
O gordalhufo murmurou com importância, atra-
vez do immenso charuto que mamava:
— Amanhã já estou com elle, já sei...
Mas o Administrador emmudecera, coçava o quei-
xo, cravando em (jonçalo os olhos espertos, que re-
brilhavam, como se uma ditosa idéa, quasi uma ins-
piração, o illuminasse. E de repente, para o outro,
que cofiava a barba retinta:
— Pois, meu caro senhor, até além d'ámanha.
Ficamos entendidos. Eu remetto o cestinho dos quei-
jos directamente ao Snr. Conselheiro.
Tt)mou o braço de Gonçalo, ([ue apertou com
impaciência. E sem attender mais ao homemzarrâo.
que saudava rasgadamente, arrastou o Fidalgo para a
Calçadinha silenciosa:
— Oh, (Jonçalo, ouça lá . . . Vossé agora tinha
A ILLUSTUE CASA DE RAMIRES 201
uma occasião soberba! Vuct-, se qaizesse, dentro de
poucos dias, estava deputado por Villa-Clara !
O Fidalgo da Torre estacara— como se uma es-
trella de repente se despenhasse na rua mal allumiada.
— Ora escute! exclamou o Administrador, lar-
gando o braço de Gonçalo, para desenrolar mais li-
vremente a sua idéa. Voc(^ não tem compromissos
sérios com os Regeneradores. Você deixou Coimbra
ha um anno, tenta agora a vida publica, nunca tez
acto definitivo de partidário. Lú uma ou outra cor-
respondência para os jornaes, historias!...
— Mas...
— Escute, homem! Você quer entrar na Poli- ^
tica? Quer. Então, pdos Históricos ou pelos Regene-
radores, pouco importa. Ambos são constitucionaes,
ambos são christãos... A questão é entrar, é furar.
Ora você, agora, inesperadamente, encontra uma
porta aberta. O que o pôde embaraçar? As suas
inimisades particulai^es com o Cavalleiro? Tolices!
Atirou um gesto, largo e secco, como se var-
resse essas puerilidades:
— Tolices! Entre vocês não ha morte d'horaem.
Nem vocês, no fundo, são inimigos. O Cavalleiro é
rapaz do talento, rapaz de gosto... Não vejo outro. ^
aqui no districto, com quíuii você tenha mais con-
formidade de espirito, de educação, de maneiras, de
tradições... N"uma terra p;'quona, mais dia menos
^Oá A ILLISTRE CASA DE RAMIRES
dia, fatalmente, se impunha a reconciliação. Euiâo
seja agora, quando a reconciliação o leva ás Cama-
rás!... E repito. Pelo circulo de Villa-Clara sahe de-
putado quem o Cavalleiro mandar!
O Fidalgo da Torre respirou, com esforço, na
emoção que o suíTocava. E depois d" um silencio em
que tirara o chapéo. abanara com elle, pensativa-
mente, a face-descahida:
— Mas o Cavalleiro, como você disse, é todo lo-
cal,todo regional.. . Não quererá impor senão um ho-
mem como o Lucena, com fortuna, com influencia...
O outro parou, alargou os braços:
— E então, você?... Que diabo! Você tem aqui
propriedade. Tem a Torre, tem Treixedo. Sua ir-
mã hoje é rica, mais rica que o Lucena. E depois o
nome, a íamilia... Vocês, os Ramires, estão estabe-
lecidos, com solar em Santa Ireneia. ha mais de du-
zentos annos.
O fidalgo da Torre ergueu com viveza a cabeça :
A — Duzentos?... Ha mil, ha quasi mil!
— Ora ahi tem! Ha inil annos. Uma casa ante-
rior á monarchia. Pelo menos coeva! Você é por-
tanto mais fidalgo que o Rei! E então, isso não é
uma situação muito superior á do Lucena? Sem con-
tar a intelligencia... Oh! diabo!
— Oue foi?
A ILLISTRK CAS.V DK 1ÍA.M1HES 203
— A garganta... Uma picadita na garganta. Ainda
não estou consolidado.
E decidiu logo recolher, gargarejar, porque
o Dr. Macedo prohibira as noitadas festivas. Mas
Gonçalo acompanhava até á porta o amigo Gou-
veia. E, conchegando o abafo de lâ, o Administrador
resumiu a sua idéa:
— Pelo circulo de Yilla-Clara. Gonçalinho, sahe
quem o Cavalleiro mandar. Õra o Cavalleiro, creia
você, tem immenso empenho de o eleger, de o lançar
na Politica. Se você portanto estender a mão ao Ca-
valeiro, o circulo é seu. O Cavalleiro tem o maior,
o maiorissimo empenho, Gonçalinho!
— Isso é que eu não sei. João Gouveia...
— Sei eu !
E em confidencia, na solidão da Calçadinha, João
Gouveia revelou ao Fidalgo (jue o Cavalleiro an-
elava pela occasião de reatar a velha fraterni-
dade com o seu velho Gonçalo! Ainda na semana
passada o Cavalleiro lhe aífirmára (palavras tex-
tuaes): — «Entre os rapazes d*esta geração nenhum
com mais seguro e mais largo futuro na Politica
que o Gonçalo. Tem tudo ! grande nome, grande ta-
lento, a seducçâo, a eloquência... Tem tudo! E eu,
que conservo pelo Gonçalo todo o carinho antigo,
gostava ardentemente, ardentissimamentc, de o levar
;is Camarás. »
'20Í A IIXLSTCE CASA I)K UAMIUr;S
— Palavras textuaes, meu ainiiro!... Ainda ha
seis ou sete dias, em Oliveira, depois do jantar, a
tomarmos ambos café no quintal.
A íace de Gonçalo ardia na sombra, devorando
as revelações do Administrador. Depois, com lenti-
dão, como descobrindo candidamente todos os re-
cantos da sua alma :
— Fai, na realidade, também conservo a antiga
sympathia pelo Cavalleiro. E certas questões intimas
adeus !... Envelheceram, caducaram, tão obsoletas hoje
como os aggravos dos Horacios e dos Curiacios. . . Como
você lembrou ha pouco, com razão, nunca se ergueu
entre nós morte de homem. Que diabo! Eu fui educa-
do com o Cavalleiro, éramos como irmãos... E acre-
dite você, Gouveia! Sempre que o vejo, sinto um
appetite doido, mas doido, de correr para elle, de
lhe gritar: «Oh! André! nuvens passadas não vol-
tam, atira para cá esses ossos!» Creia você, não o
faço por timid(íz... E timidez... Oh! não, lá por
mim, estou proinpto á reconciliação, todo o coração
m"a pede! Mas elle?... Porque, emfim, Gouveia, eu.
nas minhas Correspondências para a Gaze/a do Por-
to, tenho sido feroz com o Cavalleiro !
João Gouveia parou, de bengala ao hombro,
considerando o íidal.Lro com um sorriso divertido:
— Nas Correspondências? One lhe tem você
dito nas Correspondências? Oue o Snr. Governador
A II.LLSTlíI'; CASA UK líAMllUíS 20.")
Civil é um déspota e uui D. Juan?... Moa caro amigo,
todo o homem gosta que, por opposição politica, lhe
chamem déspota e 1). Juan. Você imagina que elle
sa alíligiu? Ficou simplesmente babado!
O fidalgo murmurou, inquieto:
— Sim! Mas as allusões á bigodeira, á guede-
lha . . .
— Oh! Gonçalinho! Bellos cabellos annellados,
bellos bigodes torcidos, não são defeitos de que um
macho se envergonhe... Pelo contrario! Todas as
mulheres admiram. Você pensa que ridicuiarisou o
Cavalleiro? Não! annunciou simplesmente ás mada-
mas e meninas, que lêem a Gazela do Porto, a exis-
tência d" um mocetão esplendido que é Governador
Civil dTJliveira.
E parando de novo (por que defronte, na es-
<[uina, luziam as duas janellas abertas da sua casa),
o Administrador estendeu o dedo firme para um
conselho supnniio :
— Gonçalo IMendos Tiamires. ^■()cè amanhã manda
buscar a parelha do Torto, salta para a sua caleche,
corre á cidade, entra pelo Governo Civil de braços
abertos, e grita sem outro prologo: — «André, o que
lá vae, lá vae, venham essas costellas! E como o
circulo está vago, venha também esse circulo!» — E
você, dentro de cinco ou seis semanas, é o Snr. De-
206 A ILUSTRE CASA DE RAMIRES
piitado pur ViUa-Clara, com todos os sinos a repi-
car... Quer tomar chá?
— Não, obrigado.
— Bem, então viva! Tipóia amanhã e Governo
Civil. Está claro, c necessário arranjar um pretexto...
O fidalgo. acudiu, com alvoroço:
— Eu tenho ura pretexto! Não!... Quero dizer, te-
nho necessidade real, absoluta, de íallar com o Ca-
valleiro ou com o Secretario Geral. É uma questão
de caseiro . . . Até por causa d'essa infeliz trapalhada
o procurava eu hoje a você, Gouveia!
E aldravou a aventura do Casco, cora traços mais
pesados que a ennegreciam. Durante semanas, affer-
radamente, esse fatal Casco o torturara para lhe ar-
rendar a Torre. ]Mas elle tratara com o Pereira, o Pe-
reira Brazileiro, por uma renda explendidamente
superior á que o Casco ofterecia a gemer. Desde
então o Casco rugia, ameaçava, por todas as ta-
bernas da Freguczia. E, n"essa tarde, surde d'uma
azinhaga, rompe para elle, de varapau erguido! Mero*"'
de Deus, lá se defendera, lá sacudira o bruto, com a
bengala. Mas agora, sobre o seu socego. sobre a sua
vida, pairava a affronta d'aquelle cajado. E, se o as-
salto se renovasse, elle varava o Casco cora uma
bala, como um bicho montez... Urgia pois que o
amigo Gouveia chamasse o homem, o reprehendesse
A ILIASTRE CASA DE IIAMIUES 207
rijamente, o cntaipasse mesmo por algumas horas
na cadeia . . .
O Administrador, que escutara palpando a írar-
ganta, atalhou logo, com a mão espalmada:
— Governo Civil, caro amigo, Ooverno Civil !
Esses casos de prisão preventiva pertencem ao Go-
verno Civil. Reprchensão não basta, com talíéra!...
Só cadeia, um dia de cadeia, a meia ração... O Go-
verno Civil que me mande um otticio ou telegrammti.
Você realmente corre perigo. Nem um instante a per-
der!... Amanliã tipóia e Governo Civil. Mesmo por
amor da Ordem Publica !
E Gonçalo, compenetrado, com os hombros ver-
gados, cedeu ante esta soberana razão da Ordem Pu-
blica:
— Bem, .loâo Gouveia, bem!... Com effeito é
uma questão de Ordem Pul)lica. Vou amanhã ao
Governo Civil. •
— Perfeitamente, concluiu o Administrador pu-
vando o cordão da campainha. l)(' recados meus ao
Cavalleiro. E só lhe digo que havemos de arranjar
uma votação tremenda, e foguetorio, e vi^as, e ceia
magna no Gago... Você não quer tomar chá, não?
Então, boas noites . . . E olhe ! D"aqui a dous annos,
quando você íór ministro, Gonçalo IMendes Ramires,
recorde esta nossa conversa, á noite, na Calçadinha^
de Villa-Clara !
208 A ILLLSTRE CASA DK RAJIIIÍES
Gonçalo se.iruia pensativamente por defronte do
Correio; torneou a branca escadaria da Egreja de S.
Bento; inetteu, alheado e sem reparar, pela estrada
plantada de acácias que conduz ao Cemitério. E.
n'aquelle alto da ^'illa, d'onde, ao desembocar da
Calçadinha, se abrange a largueza rica dos campos
desde Valverde a Craquêde — sentiu que também na
sua vida, apertada e solitária como a Calçadinha, se
alargara um arejado espaço cheio d'interessante bu-
lício e de abundância. Era o muro, em que sempre
se imaginara irreparavelmente cerrado, que de re-
pente rachava. Eis a fenda facilitadora! Para além re-
luziam todas as bellas realidades que desde Coimbra
appetecera! Mas... — Mas no atravessar da fenda fra-
gosa de certo se rasgaria a sua dignidade ou se raíjga-
ria o seu orgulho. Oue fazer?...
Sim! seguramente! Estendendo os braços ao ani-
mal do Cavalieiro conquistava a sua Eleição. O cir-
culo, infeudado aos Históricos, elegeria submissa-
mente o Deputado que o chefe Histórico ordenasse
com indolente aceno. Mas essa reconciliação impor-
tava-a entrada triumphal do Cavalieiro na quieta
casa do Barrôlo... Elle vendia pois o socego da irmã \
por uma cadeira em S. Bento! Não! não |)odia por
amor de (iracinha ! — E Gonçalo suspirou, com rui-
doso suspiro, no luminoso silencio da estrada.
Agora porém, durante tros, quatro annos, os r»e-
A ILLLSTRE CASA DK RAMIRES 209
generadores não trepavam ao Governo. E elle, alli,
atravez d'esses aimos, no buraco rural, jogando vol-
taretes somnolentos na Assembléa da Villa, íumando
cigarros calaceiros nas varandas dos Ciinhaes, sem
carreira, parado e mudo na vida, a ganhar musgo,
como a sua caduca, inútil Torre ! Caramba ! era
faltar cobardemente a deveres muito santos para
comsigo e para com o seu nome!... Em breve os
seus camaradas de Coimbra penetrariam nos altos
Empregos, nas ricas Companhias: muitos nas Cama-
rás por vacaturas abençoadas como a do Sanches;
um ou outro mesmo, mais audaz ou servil, no Mi-
nistério. S(S elle, com talentos superiores, um tal
brilho histórico, jazeria esquecido e resmungando
como um coxo n'uma estrada quando passa a roma-
ria. E por quê ? Pelo receio pueril de pôr a bigodeira
atrevida do Cavalleiro muito perto dos fracos lábios
de Gracinha... E por fim esse receio constituía uma
injuria, uma nojenta injuria, á seriedade da irmã.
Porque Portugal não se honrava com mulher mais
rigidamente seria, de mais grave e puro pensar !
Aquelle corpinho ligeiro, que o vento levava, con-
tinha .uma alma heróica. O Cavalleiro?... Podia
sua exc.*^ sacudir a guedelha com graça fatal, jor-
rar dos olhos pestanudos a languidez ás ondas — que
Gracinha permaneceria tão inaccessivel e solida na
sua virtude como se fosse insexual e de mármore.
210 A ILLLSTRE CASA DE RAMIRES
Oh, realmente, por Gracinha, elle abriria ao Caval-
leiro todas as portas dos Cunhaes — mesmo a porta
do quarto d'ella, e bem larga, com mna solidão bem
preparada!... E depois não se cuidava de uma don-
zelIa, nem d' uma viuva. Na casa do Largo d'El-Rei
governava, mercê de Deus, marido brioso, marido
rijo. A esse. só a esse, competia escolher as intimi-
dades do seu lar— e n'elle manter quietação e re-
cato. Não ! esse receio de uma imaginável íragilidade
de Gracinha, da sua honrada, altiva Gracinha — esse
receio, perverso e louco, certamente o devia varrer,
com o coração desafogado e sorrindo. — E, na clara
solidão da estrada, Gonçalo Mendes Ramires atirou
um gesto decidido e terminante que varria.
Restava porém a sua própria humilhação. Desde
annos, ruidosamente, conversando e escrevendo, em i
Coimbra, em Villa-Clara, em Oliveira, na Gazeta
do Porto — elle demolira o Cavalleiro ! E subiria
agora, de espinhaço vergado, as escadarias do Go-
verno Civil, murmurando o seu — peccavi, mea cul-
pa, mea inaxima culpa? ... Que escândalo na cidade!
— «O Fidalgo da Torre lá precisou e lú veio...»
Era o transbordante triumpho do Cavalleiro. O único
homem que no Districto se conservava erguido, pe-
lejando, trovejando as verdades — desarmava, em-
mudecia, e encolhidamente se enfdeirava no séquito
louvaminheiro de Sua Exc." ! Bem duro ! . . . Mas,
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 21 í
que diabo, havia superiormente o interesse do paiz!
— E, tão admirável lhe appareceu esta razão, que
a bradou com ardor na mudez da estrada: — «Ha
o paiz!...»
Sim, o paiz! Ôuantas reformas a proclamar, a
realisar! Em Coimbra, no quinto anno, já se occu-
pára da Instrucçáo Publica — d'uma remodelação do
Ensino, todo industrial, todo colonial, sem latim, sem
ociosas bellas-lettras, creando um povo formigueiro de
Productores e d'Esploradores... E os camaradas, nos
sonhos ondeantes de Futuro, quando repartiam os Mi-
nistérios, concordavam sempre:— «O Gonçalo para
a Instrucçáo Publica!» Por essas ideas poderosas, pelo
saber accumulado, todo elle se devia á Nação — como
outr'ora, pela força, os grandes Ramires armados. E
pela Nação cumpria que o seu orgulho de homem
cedesse ante a sua tarefa de cidadão . . .
Depois, quem sabe? Entre o Cavalleiro e elle
afogadamente se enroscava todo um passado de ca-
maradagem, apenas entorpecido — que talvez revi-
vesse n'esse encontro, os enlaçasse logo n'um abraço
penetrante, onde os antigos aggravos se sumiriam
como um pó sacudido . . . Mas para que imaginar,
remoer? Uma necessidade se sobrepunha, inilludi-
vel — a de comparecer logo de manhã em Oliveira,
no Governo Civil, requerendo a suppressâo do Cas-
co. D'essa pressa dependia o seu socego de vida
212 A ILLUSTRE C.VSA DE RAMIRES
e dMntelligencia. Nunca elle lograria trabalhar na
Novella, trilhar folgadamente a estrada de Yilla-
Clara, sabendo que em torno o outro, pelas quelhas
e sombras, rondava com a espingarda. E para não
regressar aos costumes bravios dos seus avós, cir-
culando atravez do Concelho entre as carabinas dos
creados, necessitava o Casco domado, immobilisado.
Era pois inadiável correr ao Governo Civil, para bem
da Ordem. E depois, quando elle se encontrasse no
gabinete do Cavalleiro, deante da mesa do Cavalleiro
— a Providencia decidiria... — «A Providencia deci-
dirá ! »
E ancorado n'esta resolução, o Fidalgo da Torre
parou, olhou. Levado pela quente rajada do pensa-
mentos, chegara á grade do cemitério da Villa que
o luar branqueava como um lençol estendido. Ao
fundo da alameda que o divide, clara na claridade
triste, o escarnado Christo chagado e livido, sobre a
sua alta cruz negra, pendia, mais dolorido e livido
no silencio e na solidão, com uma tristíssima lâm-
pada aos pés esmorecendo. Em torno eram cypres-
tes, sombras de cyprestes, brancuras de lapides, as
cruzes rasteiras das campas pobres, uma paz morta
pesando sobre os mortos: e no alto a lua amarella
e parada. Então o Fidalgo sentiu um arripiado mi'do
do Christo, das lousas, dos defuntos, da lua, da so-
lidão. E despodio n'uma carreira até avistar as casas
A ILLUSTRE CASA DE RAMIUES 213
da Calçadinha, por onde descambou como uma pe-
dra solta. Ouando se deteve no Largo do Chafariz,
um mocho piava na torre da Camará, melancolisan-
do o repouso de Villa-Clara apagada e adormecida;
Mais impressionado, Gonçalo correu á taberna da
Serena, recolheu os creados que esperavam jogando
a bisca lambida. E com elles atravessou de novo a
\'illa até á cocheira do Torto — para recommendar
([ue lhe mandassem á Torre, ás nove horas da ma-
nhã, a parelha russa.
Atravez do postigo, que se abrira com cautella
no portão chapeado, a mulher do Torto gemeu, in-
decisa :
— Ai, meu Deus, não sei se poderá... Elle ás
nove tem um serviço . . . Pois não faria mais conta ao
Fidalgo ahi pela volta das onze?
— Ás nove! berrou Gonçalo.
Desejava apear cedo ao portão do Governo Civil
para evitar a curiosidade d'aquelles cavalheiros de
Oliveira — que, depois do meio dia, se juntavam na
Praça, vadiando por debaixo da Arcada.
Mas ás nove e meia Gonçalo, que até ao luzir da
madrugada se agitara pelo quarto n"um tumulto d'es-
peranças e receios — ainda se barbeava, em camisa,
deante do vasto espelho de columnas douradas. De-
214 A ILLUSTRE CASA DE RAMIKES
pois aproveitou a caleche para deixar na Feltosa os
seus bilhetes de pezames á bella viuva, á D. Anna.
Ao meio dia, esfaimado, almoçou na Vendinha em-
quanto a parelha resfolgava. E batia a meia depois das
duas quando emfim se apeou em Oliveira deante do
portão do antigo convento de S. Domingos, ao íundo
da Praça, onde seu pae, quando Chefe do Districto,
installára faustosamente as repartições do Governo
CivU.
Áquella hora, já na frescura e som.bra da Arcada
que orla um lado da Praça (outr'ora Praça da Pra-
taria, hoje Praça da Liberdade) os cavalheiros d'01i-
veira mais desoccupados, os «rapazes», preguiçavam,
em cadeiras de verga, á porta da Tabacaria Elegan-
te e da loja do Leão. Gonçalo, cautelosamente, bai-
xara as cortinas verdes da caleche. Mas no pateo do
Governo Civil, ainda guarnecido de bancos monumen-
taes do tempo dos frades, esbarrou com o primo José
Mendonça, que descia a escadaria, fardado. Foi um
assombro para o alegre capitão, moço esvelto, de
bigode curto, picado levemente de bexigas.
— Tu por aqui, Gonçalinho! E de chapéu alto!
Caramba, deve ser coisa gorda!
O Fidalgo da Torre confessou, corajosamente.
Chegava n'esse instante de Santa Ireneia para fallar
ao André Cavalleiro ...
— Está elle cá, esse illustre senhor?
A ILLUSTRE CASA DE HAMIRES ãlo
O outro recuou, quasi aterrado:
— Ao Cavalleiro?! É ao Cavalleiro que vens fal-
lar?!... Santíssima Virgem! Então desabou Tróia!
Gonçalo gracejou, corando. Não! não se passara
desgraça épica como a de Tróia. . . De resto podia re-
velar ao amigo Mendonça o caso que o arrastava á
presença augusta de Sua Exc.'' o Snr. Governador
Civil. Era um homem dos Bravaes, um Casco, que,
furioso por não conseguir o arrendamento da Torre,
o ameaçara, rondava agora a estrada de Villa-Clara
de noite, á espreita, com uma espingarda. E elle, não
ousando «fazer alta e boa justiça» pelas mãos dos
seus creados, como os Ramires feudaes — reclamava
modestamente da Auctoridade Superior uma ordem
para que o Gouveia mantivesse dentro da legalidade
e dos Mandamentos de Deus o íaçanhudo dos Bra-
vaes . . .
— Só isto, uma pequenina questão de paz pu-
blica... E então o grande homem está lá em cima?
Bem, até logo, Zézinho... A prima, de saúde? Eu na-
turalmente janto nos Cunhaes. Apparece!
Mas o capitão não despegava do degrau de pe-
dra, abrindo pachorrentamente a cigarreira de couro:
— E que me dizes tu á novidade? O pobre San-
ches Lucena?. . .
Sim, Gonçalo soubera na Assembleia. Um ata-
que, hein? — Mendonça accendeu, chupou o cigarro:
216 A ILLLSTRE CASA DE RAMIRES
— De repente, com um aneurisma, a ler o Noii-
cias ! ... Pois ainda ha três dias a Maricas e eu janta-
mos na Fe í tosa. Até eu toquei a duas mãos, com a
D. Anna, o quarteto do Rigolcto. E elle bem, conver-
sando, tomando a sua aguardentesinha de canna . . >
Gonçalo esboçou um gesto de piedade e tristeza:
— Coitado . . . Também ha semanas o encontrei
na Bica-Santa. Bom homem, bem educado... E ahi
temos agora a bella D. Anna vaga.
— E o circulo!
— Oh, o circulo! murmurou o Fidalgo da Torre
com risonho desdém. A mim antes me convinha a
viuva. E Vénus com duzentos contos! Infelizmente
tem uma voz medonha . . .
O primo Mendonça accudiu, com interesse, uma
convicção dedicada:
— Não! não! na intimidade, perde aquelle tom
empapado... Não imaginas! até um timbre natural,
agradável . . . E depois, menino, que corpo ! que pelle 1
— Deve íicar explendida agora com o luto! con-
cluiu Gonçalo. Bem, adeusinho! Apparece nos Ca-
nhaes... Eu corro ao Cavalleiro para que Sua Exc.'"*^
me salve com o seu braço íorte!
Sacudiu a mão do Mendonça, galgou a escada-
ria de pedra.
Mas o capitão, que mettera para a travessa de
S. Domingos, desconfiou d'aquella historia d'amea-
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 217
ças, d'espingardas... «(Jual! Aqui anda Politica!»
E quando, passada uma hora lenta, repenetrou na
Praça e avistou a caleche da Torre ainda encalhada
á porta do Governo Civil — correu á Arcada, desa-
bafou logo com os dois Villa- Velhas, ambos pensati-
vamente encostados aos dois humbraes da Tabaca-
ria Elegante:
— Vocês sabem quem está no Governo Civil?...
O Gonçalo Ramires!... Com o Cavalleiro!
Todos em roda se mexeram, como acordando,
nas gastas cadeiras de verga— onde os estendera
somnolen^amente o silencio e a ociosidade da arras-
tada tarde de verão. E o Mendonça, excitado, contou
que desde as duas horas e meia Gonçalo Mendes Ra-
mires, «em carne e osso», se conservava fechado com
o Cavalleiro, no Governo Civil, n'uma coníerencia
magna! O espanto e a curiosidade íoram tão ar-
dentes que todos se ergueram, se arremessaram para
fora dos Arcos, a espiar a bojuda varanda do convento,
sobre o portão — que era a do gabinete de Sua Ex-
cellencia.
Precisamente, n'esse momento, José Rarrôlo, a
cavallo, de calça branca, do rosa branca na quinzena
d'alpaca, dobrava a esquina da rua das Vendas. E o
interesse todo d'aquelles cavalheiros se precipitou
para elle, na esperança d'uma revelação:
— Oh Barròlol
218 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
— Oh Barrolinho. chega cá!
— Depressa, homem, que é caso rijo!
Barrôlo, ladeando, abeirou da Arcada: e os ami-
gos immediatamente lhe atiraram a nova formidável,
apertados em volta da egoa. O Gonçalo e o Caval-
leiro cochichando secretamente toda a manhã! A ca-
leche da Torre á espera, com a parelha adormecida 1
E já começavam a repicar os sinos da Sé!
Barrôlo, n'um pulo, desmontou. E emquanto um
garoto lhe passeava a egoa — estacou entre os ami-
gos, com o chicote detraz das costas, pasm^ando tam-
bém para a varanda de pedra do Governo Civil.
— Pois eu não sei nada! O Gonçalo a mim não
me disse nada! affirmava elle, assombrado. Tam-
bém já ha dias não vem á cidade . . . Mas não me
disse nada! E da ultima vez que cá esteve, nos an-
íaos da Graça, ainda destemperou contra o Cavalleiro!
A todos o caso parecia « d'estrondo ! » E subita-
mente um silencio esmagou a Arcada, trespassada
d'emoçâo. Na varanda, entre as vidraças abertas
vagarosamente, apparecera o Cavalleiro com o Fi-
dalgo da Torre, conversando, risonhos, de charutos
accesos. Os largos olhos do Cavalleiro pousaram
logo, com malícia, sobre os «rapazes» apinhados em
pasmo á borda dos Arcos. Mas foi um lampejar de
visão. S. Ex.' remergulhára no gabinete — o Fidal-
go também, depois de se debruçar da varanda, es-
A ILLUSTRP: casa de RAMIRES 219
preitar a caleche da Torre. Entre os amigos rompeu
um clamor:
— Viva! •Reconciliação!
— Acabou a guerra das Rosas!
— E as correspondências da Gazela do Porto? . . .
— É que houve peripécia tremenda!
— Temos o Gonçalinho administrador d*01iveira!
— Upa, Ex.'"° Snr., upa!
Mas de novo emmudeceram. O Cavalleiro e o Fi-
dalgo reappareciam, n'uma enfronhada conversa,
que os deteve um momento esquecidos, na eviden-
cia da varanda escancarada. Depois o Cavalleiro,
com uma familiaridade carinhosa, bateu nas costas
do Gonçalo — como se publicasse a sua reconciliação
diante da Praça maravilhada. E outra vez se sumi-
ram, n'esse passear conversado e intimo, que os tra-
zia da sombra do gabinete para a claridade da ja-
nella, roçando as mangas, misturando o fumo leve
dos charutos. Em baixo o bando crescia, mais exci-
tado. Passara o Mello Alboim, o Rarâo das Marges, o
Dr. Delegado: e, chamados com anciã, cada um cor-
rera, devorara esgazeadamente a novidade, embas-
bacara para o velho balcão de pedra que o sol dou-
rava. Os grossos ponteiros do relógio do Governo
Civil já se acercavam das quatro horas. Os dous Vil-
la-Velhas, outros a rapazes», estafados, retrocederam
ás cadeiras de verga da Tabacaria. O Dr. Dele-
220 A ILLLSTRE CASA DE RAMIRES
gado, que jantava ás quatro e soffria do estômago,
despegou desconsoladamente dos Arcos, supplicando
ao Pestana seu visinho «que apparecesse ao café,
para contar o resto ...» Mello Alboim, esse, enfiara
para casa, defronte do Governo Civil, na esquina do
Largo: e da janella, disfarçado por traz da mulher e
da cunhada, ambas de chambres brancos e de pape-
lotes, sondava o gabinete de S. Ex.*^ com um binó-
culo. Por fim bateram, com estendida pancada, as
quatro horas. Então o Barão das Marges, na sua im-
paciência borbulhante, decidiu subir ao Governo Ci-
vil, « para farejar ! . . . »
MaS n'esse momento André Cavalleiro assomava
de novo á varanda — sozinho, com as mãos enterra-
das no jaquetão de flanella azul. E quasi immediata-
mente a caleche da Torre largou da porta do Go-
verno Civil, atravessou a Praça, com os stores ver-
des meio corridos, descobrindo apenas, aquelles ca-
valheiros ávidos, as calças claras do Fidalgo.
— Vae para os Cunhaes!
Lá o apanhava pois o Barrôlo! E todos apressa-
ram o bom Barrôlo a que iiiontasse, recolhesse, para
ouvir do cunhado os motivos e os lances d'aquella
paz histórica! O Barão das MaríJ::es até lhe segurou
o estribo. Barrôlo, alvoroçadamente, trotou para o
Largo d'El-Rei.
A ILLUSTnE CASA DE HAMIRES 221
iMas Gonçalo Mendes Ramires, sem parar nos Cu-
nhaes, seguia para a Vendinha, onde decidira jan-
tar, dando um descanço á parelha esfalfada. E logo
depois das ultimas casas da cidade subiu as stores,
respirou deliciosamente, com o chapeo sobre os joe-
lhos, a luminosa frescura da tarde — mais fresca e de
uma claridade mais consoladora que todas as tardes
da sua vida... Voltava d"01iveira vencedor! Furara
emfim atravez da fenda, atravez do muro! E sem
que a sua honra ou o seu orgulho se esgaçassem nas
asperezas estreitas da lenda!... Abençoado Gouveia,
esperto Gouveia! E abençoada a esperta conversa,
na véspera, pela calçadinha de Villa-Clara ! . . .
Sim, de certo, fora custoso aquelle mudo mo-
mento em que se sentara seccamente, hirtamente,
á borda da poltrona, junto da pesada meza admi-
nistrativa de S. Ex.". Mas mantivera muita digni-
dade e muita simplicidade... — «Sou forçado (dis-
sera) a dirigir-me ao Governador Civil, á Auctori-
dade, por um motivo de ordem publica. . . » E a pri-
meira avença partira logo do Cavalleiro, que torcia
a bigodeira, pallido: — «Sinto profundamente que não
seja ao homem, ao velho amigo, que Gonçalo Men-
des Ramires se dirija...» EUe ainda se conservara
retrahido, resistente, murmurando com uma frieza
triste: — «As culpas não são decerto minhas. . . » E en-
tão o Cavalleiro, depois de um silencio em que lhe
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
tremera o beiço: — «Ao cabo de tantos annos, Gon-
çalo, seria mais caridoso não alludir a culpas, lem-
brar somente a antiga amizade, que, pelo menos
em mim, se conservou a mesma, leal e séria.»
A esta sensibilisada invocação, elle volvera, com
doçura, com indulgência: — «Se o meu antigo amigo
André recorda a nossa antiga amizade, eu não posso
negar que em mim também ella nunca inteiramente
se apagou.. .» Ambos balbuciaram ainda alguns con-
fusos lamentos sobre os desaccordos da vida. E
quasi insensivelmente se trataram por tu ! Elle con-
tou ao Cavalleiro a torpe ousadia do Casco. E o Ca-
valleiro, indignado como amigo, mais como Aucto-
ridade, telegraphára logo ao Gouveia um mandado
forte para inutilisar o valentão dos Bravaes. . . De-
pois conversaram da morte do Sanches Lucena, que
impressionava o Districto. Ambos louvaram a belleza
da viuva, os seus duzentos contos. O Cavalleiro
recordou a manhã, na Feitosa, em que entrando pela
porta pequena do jardim, a surprehendera, dentro
d'um caramanchão de rosas, a apertar a liga. Uma
perna divina! Ambos se recusaram, rindo, a casar
com a D. Anna, apezar dos duzentos contos e da di-
vina perna. . . — Já entre elles se restabelecera a antiga
familiaridade de Coimbra. Era «tu Gonçalo, tu An-
dré, oh menino, oh filho !»
E fora André, naturalmente, que alludira á des-
A ILLLSTRE CASA DE RAMIRES 223
appariçâo do Deputado do Governo, á surpreza do
circulo vago. . . Elle então, com indifferença, estirado
na poltrona, ruíando com os dedos na borda da me-
sa, murmurara :
— Sim, com effeito... Vocês agora devem estar
embaraçados, assim de repente. . .
Mais nada! apenas estas indolentes palavras, mur-
muradas através do rufo. E o Cavalleiro, logo, sem
preparação, apressadamente, empenhadamente, lhe
offerecera o Circulo! — Pousara os olhos n'elle com
lentidão, como para o penetrar, o escutar... Depois,
insinuante e grave:
— Se tu quizesses, Gonçalo, não estávamos em-
baraçados. . .
Elle ainda exclamara, com surpreza e riso:
— Como, se eu quizesse?
E o André, sempre com os olhos n'elle cravados,
os largos olhos lustrosos, tão persuasivos:
— Se tu quizesses servir o Paiz, ser deputado
por Villa-Clara, já não estávamos embaraçados, Gon-
çalo!
Se tu quizesses. . . E perante esta insistência que
rogava, tão sincera e commovida, em nome do Paiz,
elle consentira, vergara os hombros:
— Se te posso ser útil, e ao Paiz, estou ás vossas
ordens.
E eis a fenda transposta, a áspera fenda, sem ras-
A ILLLSTRE CASA DE RAMIRES
gâo no seu orgulho ou na sua dignidade! Depois con-
versaram desafogadamente, passeando pelo gabinete,
desde a estante carregada de papeis até á varanda
— que André abrira, por causa d'um cheiro persis-
tente de petróleo entornado na véspera. André ten-
cionava partir n'essa noite para Lisboa — para con-
íerenciar com o Governo, depois d"aquella inespe-
rada desappariçâo do Lucena. E, agora em Lisboa,
imporia o querido Gonçalo como o único Deputado,
depois do Sanches de Lucena, seguro e substancial
— pelo nome, pelo talento, pela influencia, pela leal-
dade. E eis a eleição consummada! De resto (decla-
rara o Cavalleiro, rindo) aquelle Circulo de Villa-
Clara constituía uma propriedade sua — tão sua como
Corinde. Livremente, poderia eleger o servente da
Repartição que era gago e bêbado. Prestava pois um
serviço esplendido ao Governo, á Nação, apresen^
tando um moço de tão alta origem e de tão fina in-
teiligencia. . . Depois accrescentára :
— Não tens a pensar mais na eleição. Vaes para
a Torre. Não contas a ninguém, a não ser ao Gou-
veia. Esperas lá, muito quietinho, telegramraa meu
de Lisboa. E. recebido elle, estás Deputado por Viila-
Clara, annuncias a teu cunhado, aos amigos. . . De-
pois, no domingo, vens almoçar comigo a Corinde,
ás onze.
Então am])Os se apertaram n'um abraço que fun-
A ILIASTOE C^SA DF, RAMIUES 225
diu de novo, e para sempre, as duas almas apartadas.
Depois, ao cimo da escadaria de pedra onde o acom-
panhara, André, repenetrando timidamente no Pas-
sado, murmurou com um riso pensativo: — «Que
tens tu íeito ultimamente, nessa querida Torre?» E,
ao saber da Novella para os Annaes, suspirou com
saudade dos tempos de Imaginação e d'Arte em
Coimbra, quando elle amorosamente lapidava o pri-
meiro canto d'um poema heróico, o Fronteiro de
Ceuta. Emfim outro abraço — e alli voltava depu-
tado por Villa-Clara.
Todos esses campos, esses povoados que avis-
tava da portinhola da caleche, era elle que os re-
presentava em Cortes, elle, Gonçalo INIendes Rami-
res. . . E superiormente os representaria, mercê de
Deus! Porque já as idéas o invadiam, viçosas e fér-
teis. Na Vendinha, emquanto esperava que lhe fri-
gissem um chouriço com ovos e duas postas de sável,
meditou, para a Resposta ao Discurso da Coroa, um
esboço sombrio e áspero da nossa Administração
na Africa. E lançaria então um brado á Nação, que a
despertasse, lhe arrastasse as energias para essa
Aírica portentosa, onde cumpria, como gloria su-
prema e suprema riqueza, edificar de costa a costa
um Portugal maior!... A noite cerrara, ainda ou-
tras idéas o revolviam, vastas e vagas — quando o
15
226 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
trote esfalfado da parelha estacou no portão da
Torre.
Ao outro dia (terça feira) ás dez horas, o Bento
entrou no quarto do Fidalgo com um telegramma,.
que chegara á Villa de madrugada. Gonçalo pensou
com um deslumbrado pulo do coração: — «É do Go-
verno!»— Era do Pinheiro, gritando pela Novella.
Gonçalo amarrotou o telegramma. A Novella! Co-
mo poderia labutar na Novella, agora, todo na impa-
ciência e no esforço da sua Eleição ? . . . Nem almo-
çou socegadamente — retendo, atravez dos pratos que
arredava, um desejo desesperado de «contar ao
Bento.» E, sorvido o café n"um sorvo impaciente.,
atirou para Villa-Clara, a desafogar com o Gouveia.
O pobre administrador jazia de novo no camapé de
palhinha, com papas na garganta. E toda a tarde,
na estreita sala forrada de papel verde-gaio, Gon-
çalo exaltou os talentos do André, «homem de go-
verno e de idéas, Gouveia!» — celebrou o [Ministé-
rio Histórico, «o único capaz de salvar esta chol-
dra, Gouveia ! » — desenrolou vistosos Projectos de
Lei que meditava sobre a Africa, «a nossa esperança
magnifica, Gouveia!» — Emquanto o Gouveia, esti-
rado, só rompia a mudez o a immobilidade, para
murmurar chòchamente, apalpando o calor das
papas :
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 227
— E a quem deve vossé tudo isso, Gonçali-
nho?. . . Cá ao meço !»
Na quarta-feira, ao accordar, tarde, o seu pensa-
mento saltou logo soffregamente para o André Ca-
valleiro, que a essa hora, em Lisboa, almoçava no
Hotel Central (sempre, desde rapaz, André se conser-
vara fiel ao Hotel Central). E todo o dia, fumando
cigarros insaciavelmente atravez do silencio da casa
e da quinta, seguiu o Cavalleiro nos seus giros de
Chefe de Districto, pela Baixa, pela Arcada, pelos Mi-
nistérios. . . Naturalmente jantaria com o tio Reis Go-
mes, Ministro da Justiça. Outro convidado certa-
mente seria o José Ernesto, Ministro do Pieino, coii-
discipulo do Cavalleiro, seu confidente politico. . .
N'essa noite, pois, tudo se decidia !
— Amanhã, pelas dez horas, tenho cá telegramiua
do André.
Nenhuma noticia chegou á Torre: — e o FidaL-^o
passou a lenta quinta íeira á janella, vigiando a ís-
trada poeirenta por onde surdiria o moço do teii*.-
grapho, um rapaz gordo que elle conhecia pelo bonné
d'oleado e pela perna manca. Á noitinha, intoler;;-
velmente inquieto, mandou um moço a Villa-Clau!.
Talvez o telegramma arrastasse, esquecido, pt-la
mesa d'aquella «besta do Nunes do Telegrapho •>
Não havia telegramma para o Fidalgo. Então fv-d
certo de surgirem em Lisboa diíficuldades ! E tod a
228 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
noite, sem socego, n'Lima indignação que rolava e
crescia, imaginou o Cavalleiro cedendo mollemente
a outras exigências do IMinistro — acceitando com
servilismo para Villa-Clara a candidatura d'algum
imbecil da Arcada, d'algum chulo escrevinhador do
Partido !
Pela manhã injuriou o Bento por lhe trazer tão
tarde os jornaes e o chá:
— E não ha íelegramma, nem carta?
— Não ha nada.
Bem, fora trahido ! Pois nunca, nunca, aquelle in-
fame Cavalleiro transporia a porta dos Cunhaes! De
resto, que lhe importava a burlesca Eleição? Mercê
de Deus que lhe sobravam outros meios de provar
soberbamente o seu valor — e bem superiores a uma
ensebada cadeira em S. Bento! Que miséria, na ver-
dade, curvar o seu espirito e o seu nome ao rasteiro
serviço do S. Fulgencio, o obeso e horrendo careca!
E resolveu logo regressar aos cimos puros da Arte,
occupar altivamente todo o dia no nobre e elegante
trabalho da sua Xovella.
Depois de almoço ainda abancou, com esforço,
remexeu nervosamente as tiras de papel. E de re-
pente agarrou o chapéo, abalou para Villa-Clara,
para o telegrapho. O Nunes não recebera nada para
sua exc." ! — Correu, coberto de suor e pó, á Admi-
nistração do Concelho. O snr. Aministrador par-
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 229
tira para Oliveira!... Positivamente vencera outra
combinação — eis a sua confiança burlada! E reco-
lheu á Torre, decidido a tomar um desforço tre-
mendo do Cavalleiro por tanta injuria amontoada
sobre o seu nome, sobre a sua dignidade! Toda a
abafada e enevoada Sexta-feira a consumio amarga-
mente meditando esta vingança, que queria bem pu-
blica e bem sangrenta. A mais saborosa, mais sim-
ples, seria rasgar a bigodeira do infame com chico-
tadas, na escadaria da Sé, um domingo, á sabida da
missa! Ao escurecer, depois do jantar que mal de-
bicara, n"aquelle despeito e humilhação que o pun-
giam, envergou o casaco para voltar a Villa-Clara.
Não entraria no Telegrapho — já com vergonha do
Nunes. Mas gastaria a noite na Assembléa, jogando
o bilhar, tomando um alegre chá, lendo risonha-
mente os Jornaes Regeneradores, para que todos re-
cordassem a sua indifferença — se por acaso, mais
tarde, conhecessem a trama em que resvalara.
Desceu ao páteo, onde as arvores adensavam a
sombra do crepúsculo carregado de íuscas nuvens.
E abria o portão, quando esbarrou com um rapaz
que s'esbaforia sobre a perna manca e gritava : — « É
um telegramma!» Com que voracidade lh'o arran-
cou das mãos! Correu á cozinha, ralhou desabrida-
mente á Rosa pela falta da luz tardia! E, com um
phosphoro a arder nos dedos, devorou, n'um Iam-
230 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
pejo, as linhas bemditas: — a Ministro acceita, tudo
arranjado ...» O resto era o Cavalleiro lembrando
qae no domingo o esperava em Corinde, ás onze, para
almoçarem e conversarem. . .
Gonçalo Mendes Ramires deu cinco tostões ao
moço do telegrapho — galgou as escadas. Na livraria,
á claridade mais segura do candieiro, releu o tele-
gramma delicioso. Ministro acceita, tudo arranja-
do!.., Na sua transbordante gratidão polo Cavalleiro,
ideou logo um jantar soberbo, oíferecido nos Cu-
nhaes pelo Barrôlo, cimentando para sempre a re-
conciliação das duas Casas. E recommendaria a Gra-
cinha que, para mais honrar a doce festa, se deco-
tasse, pozesse o seu coilar magnifico de brilhantes,
a derradeira jóia histórica dos Ramires.
— Aquelle André! que flor, que rapaz!
O relógio de charão, no corredor, rouquejou as
nove horas. . E só então Gonçalo percebeu a densa
chuva que alagava a quinta, e a que elle, embebido
na sua gloria, passeando pela livraria n'um lumi-
noso rolo de imaginações, não sentira o rumor sobre
a pedra da varanda, nem sobre a folhagem dos li-
moeiros.
Para se calmar, occupar a noite encerrada, deli-
berou trabalhar na Novella. E realmente agora con-
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 231
vinha que terminasse essa Torre de D. Ramires antes
do afan da Eleição — para que em Janeiro, ao abrir
das Cortes, surgisse na Politica com o seu velho no-
me aureolado pela Erudição e pela Arte. Envergou o
roupão de flanella. E á banca, com o costumado bule
de chá inspirador, repassou lentamente o começo do
Capitulo II — que o não contentava.
Era no castello de Santa Ireneia, n'aquelle dia de
Agosto em que Lourenço Ramires cahira no valle
de Canta-Pedra, mal íerido e captivo do Bastardo de
Bayão. Pelo Almocadem dos peões, qae, com o braço
varado por uma chuçada, voltara em desesperada
carreira ao Castello, já Tructezindo Ramires conhe-
cia o desventuroso desíecho da lide. — E n'este
lance o tio Duarte, no seu poemeto do Bardo, com
um lyrismo molle, mostrava o enorme Rico-Homem
gemendo derramadamente atra vez da sala-d'armas,
na saudade d'esse filho, flor dos Cavalleiros de Riba-
Cavado, derrubado, amarrado n'umas andas, á mercê
da gente de Bayão . . .
Lagrimas irrepresas lhe rebentam,
Arfa o arnez c'o soluçar ardente ! . . .
Ora, levado no harmonioso sulco do tio Duarte,
também elle, nas linhas primeiras do Capitulo, esbo-
çara o velho abatido sobre um escanho, com lagri-
232 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
mas relusentes sobre as barbas brancas, as duras
mãos descabidas como as de languida Dona — em
quanto que nas lages, batendo a cauda, os seus dois-
lebreus o contemplam n'uma sympathia anciada e
quasi humana. Mas, agora, este choroso desalento não
lhe parecia coherente com a alma tão indomavelmente
violenta do avô Tructezindo. O tio Duarte, da casa das
Balsas, não era um Ramires, não sentia hereditaria-
mente a fortaleza da raça: — e, romântico plangente
de 1848, inundara logo de prantos românticos a face
férrea de um lidador do século xii, d'um companheiro
de Sancho I ! Elle porém devia restabelecer os espí-
ritos do Senhor de Santa Ireneia dentro da realidade
épica. E, riscando logo esse descorado e íalso começo
de Capitulo, retomou o lance mais vigorosamente,
enchendo todo o castello de Santa-lreneia d'uma irada
c rija alarma. Na sua lealdade sublime e simples
Tructezindo não cuida do lilho — adia a desíorra do
amargo ultraje. E o seu estorço todo se commette a
apressar os aprestos da mesnada, para correr elle so-
bre Montemor, e levar ás Senhoras Infantas os soc-
corros de que as privara a embuscada de Canta-Pe-
dra! Mas quando o impetuoso Rico-Homem com o
Adail, na sala-d'armas, regia a ordem da arrancada
— eis que os esculcas, abrigados do calor d' Agosto
nos miradouros, enxergam ao longe, para além do ar-
voredo da Ribeira, coriscos d'armas, uma cavalgada
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 233
subindo para Santa-Ireneia. O Villico, o gordo e aza-
famado Ordenho, galga arquejando aos eirados da
torre albarrâ — e reconhece o pendão de Lopo de
Bayâo, o seu toque de trompas á mourisca, arrastado
e triste no silencio dos campos. Então arqueia as ca-
belludas mãos na boca, atira o alarido:
— Armas, armas! que é gente deBayáo!... Bes-
teiros, ás quadrellas! Homens em chusma ás lavadi-
ças da carcova!
E Gonçalo, coçando a testa com a rama da pen-
na, rebuscava ainda outros veridicos brados, de bravo
som Afíonsino — quando a porta da livraria abriu cau-
tellosamente, atravez d'aquelle perro rangido que o
desesperava. Era o Bento, em mangas de camisa :
— O Snr. Dr. não poderia descer cá baixo á co-
zinha ?
Gonçalo embasbacou para o Bento, pestanejando,
sem comprehender:
— Á cozinha?. . .
— E que está lá a mulher do Casco a levantar uma
celeuma. Parece que lhe prenderam o homem esta
tarde. . , Appareceu ahi por baixo de agoa, com os
pequenos, até um de mama. Quer por força fallar
com o Snr. Dr. E não se calla, lavada em lagrimas,
de joelhos com os filhos, que é mesmo uma Ignez
de Castro!
Gonçalo murmurou — « que massada ! » E que
234 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
contrariedade! A mulher, n'ama agonia, entre gritos,
arrastando os filhos supplicantes até ao portão da
Torre! E elle, nas vésperas da sua Eleição, appare-
cendo a todas as freguezias enternecidas como um
fidalgo deshumano! . . . — Atirou a penna furiosa-
mente :
— Que massada! Dize á creatura que me deixe,
que se não afílija. . . O Snr. Am.inistrador amanhã
manda soltar o Casco. Eu mesmo vou a Villa-Clara,
antes d'almoço, para pedir. Que se não afílija, que
não aterre os pequenos... Corre, dize, homem!
Mas o Bento não despegava da porta:
— Pois a Rosa e eu já lhe dissemos. . . Mas a mu-
lherzinha não acredita, quer pedir ao Snr. Dr. ! V^eio
por baixo d'agoa. Até um dos pequenitos está bem
doentinho, ainda não fez senão tremer, . .
Então Gonçalo, sensibilisado, atirou á meza um
murro que tresmalhou as tiras da Novella:
— Ora se uma cousa d'estas se atura! Um homem
que me quiz matar ! E agora, por cima, é sobre mim
que desabam as lagrimas, e as scenas, e a creança
doente! Não se pode viver n'esta terra! Um dia vendo
casa e quinta, emigro para Moçambique, para o Trans-
vaal, para onde não haja massadas . . . Bem, dize á
mulher que já desço.
O Bento appro\ou, com effusão :
— Pois se o Snr. Dr. lhe não custa... E como
A ILUSTRE CASA DE RAMIRES 235
é para dar uma boa nova. . . Sempre consola a pobre
mulherzinha ! . . .
— Lá vou, homem, lá vou! Não me masses tam-
bém... Impossível trabalhar n'esta casa! Outra noite
perdida !
Enfiou violentamente para o quarto, atirando as
portas — com a ideia de metter na algibeira do rou-
pão duas notas de dez tostões que consolariam os
pequenos. Mas, deante da gaveta, recuou, vexado.
Que brutalidade, compensar com dinheiro creanci-
nhas — a quem elle arrancara o pae, algemado, para
o trancar n'uma enxovia! Agarrou' simplesmente
n'uma boceta de alperces seccos — dos famosos alper-
ces do Convento de Santa-Brigida de Oliveira, que na
véspera lhe mandara Gracinha. E, cerrando lenta-
mente o quarto, já se arrependia da sua severidade,
tão estouvada, que assim desmanchava a quietação
de um casal. Depois no corredor, ante a chuva cla-
morosa que dos telhados se despenhava nas lages do
pateo, ainda mais doridamente se impressionou, com
a imagem da pobre mulher, tresloucada pela negra
estrada, puxando os filhinhos encharcados, moídos,
contra a tormenta solta. E ao penetrar no corredor
da cozinha — tremia como um culpado.
Atravez da porta envidraçada sentiu logo a Rosa
e o Bento consolando a mulher, com palradora con-
fiança, quasi risonhos. ^Nlas os «ais» d'ella, os ruido-
236 A ILLLSTRE CASA DE RAMIRES
SOS lamentos pelo «seu rico homem», resoavara, mais
agudos, como a rebater e a abafar toda a consolação.
E apenas Gonçalo empurrou timidamente a porta —
quasi acuou no espanto e medo d'aquella afflicçào
estridente que se arremessava para elle e para a sua
misericórdia! De rojos nas lages, torcendo as ma-
gras mãos sobre a cabeça, toda de negro, parecendo
mais negra e dolorosa contra a vermelhidão do len-
çol estendido que seccava ao lume forte da lareira
— a creatura estalara n'um tumulto de supplicas e
gritos :
— Ai, meu rico Senhor, tenha compaixão! Ai, que
me prenderam o meu homem, que m'o vão mandar
para a Africa degredado ! Jesus, meus filhinhos da
minha alma que ficam sem pae! Ai, pelas suas al-
mas, meu senhor, e por toda a sua felicidade! ... Eu
sei que elle teve culpa! Aquillo foi perdição que lhe
deu! Mas tenha piedade d'estas creancinhas! Ai, o
meu pobre homem que está a ferros ! Ai, meu rico
Senhor, por quem é!
Com as pálpebras humedecidas, agarrando deses-
peradamente, a boceta d'alperces, Gonçalo balbuciava,
atravez da emoção que o estrangulara:
— Oh mulher, socegue, já o vão soltar! Socegue!
Já dei ordem! Já o vão soltar!
E d'um lado a Rosa, debruçada sobre a escu-
ra creatura que gemia, recomeçava docemente: —
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 237
«Pois íoi O que lhe dissemos, tia Maria! Logo pela
manhã, o vão soltar!» — E do outro o Bento, hatendo
na coxa, com impaciência: — «Oh mulher, acabe com
esse escarcéu! Pois se o Snr. Dr. prometteu! Logo
pela manhã o vão soltar!»
Mas ella não se calmava, com o lenço da cabeça
desmanchado, uma trança desprendida, soluçando e
clamando atravez dos soluços:
— Ai que eu morro, se o não vejo solto! Ai per-
dão, meu rico Senhor da minha alma!...
Então Gonçalo, que aquelle infindável e obtuso
queixume torturava, como um íerro cravado e re-
cravado, bateu o chinello nas lages, berrou:
— Escute, mulher! E olhe para mim! Mas de pé,
de pé!.. . E olhe bem, olhe direita!
Hirtamente erguida, atirando as mãos para as cos-
tas como a escapar d'algemas que também a amea-
çassem— ella arregalou para o Fidalgo os olhos es-
pavoridos, fundos olhos pretos, de fundas olheiras
tristes, que lhe enchiam a face rechupada e morena.
— Bem, perfeitamente! exclamava Gonçalo. E ago-
ra diga! Acha que tenho bojo de lhe mentir, quan-
do vocemecè está n"essa afflicçâo? Pois então soce-
gue, acabe com os gritos, que, sob minha palavra,
amanhã cedo, o seu homem está solto!
E a Rosa e o Bento, ambos triumphando :
— Pois que lhe dizia a gente, creatura de Deus?
238 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
Se O Snr. Dr. tinha promettido. . . Amanhã lá tem o
homem!
Lentamente ella limpava as lagrimas, já silen-
ciosas, á ponta do avental negro. Mas ainda descon-
fiada, com os tenebrosos olhos mais arregalados, de-
vorando Gonçalo. E o Fidalgo mandava com certeza
a ordem, cedinho, de madrugada?... — Foi o Bento
que a convenceu, com violência;
— Oh mulher, vossê até parece atrevida ! Ora es-
sa ! Pois duvida da palavra do Snr. Dr. ?
Ella soltou o avental, baixou a cabeça, suspirou
simplesmente :
— Ai, então muito obrigada, seja pela felicidade
de todos. . .
E agora a curiosidade de Gonçalo procuraNa os
pequenos que ella acarretara desde os Bravaes atra-
vez da chuva cerrada. A pequenina de mama dormia
com beatitude sobre a tampa de uma arca, onde a
boa Rosa a aconchegara entre mantas e fronhas. Mas
o pequeno, de sete annos, encolhido n'uraa cadeira
deante do lume, rente ao lençol que seccava, seccando
também, com a carinha afogueada de lebre, tossia
despedaçadamente, n'um cabecear de somno e can-
çasso, a arquejar, a gemer contra a tosse que o es-
falfava. Gonçalo pousou a boceta de alperces na arca,
palpou a mâó com que elle, sem cessar, raspava pela
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 239
abertura da camisa encardida o peito ainda mais en-
cardido.
— Mas esta creança tem íebre!... E vossè, com
uma noite d'estas, traz o pequeno assim desde os
Bravaes, mulher?
Da cadeirinha baixa, onde se sentara prostrada,
ella murmurou, sem erguer a magra face, torcendo
a ponta do avental:
— Ai! era para que elles também pedissem, que
estavam sem pae, coitadinhos!
— Vocemecé é doida, mulher! E pretende talvez
voltar para os Bravaes, debaixo d"agoa, com as crean-
ças?
Ella suspirou:
— Ai! volto, volto... Não posso deixar sozinha a
mãe do meu homem, que tem oitenta annos e está
entrevada. . .
Então o Fidalgo cruzou descorçoadamente os bra-
ços — no embaraço d'aquella aventura, em que, por
culpa da sua ferocidade, se arriscavam duas crean-
ças. Mas a Piosa entendia que a pequenina, a de ma-
ma, não sofíreria com a caminhada, bem achegadi-
nha ao collo da mãe, debaixo de uma manta grossa..
Agora o outro, com a tosse, com a febre. . .
— Esse íica cá! exclamou logo Gonçalo, decidido..
Como se chama elle? Manoel... Bem! O Manoel fica
cá. E vá descançada, que a Sr.*^ Rosa toma cuidado.
240 A ILLISTRE CASA DE RAMIRES
Precisa uma boa gemada, depois um bom suadoiro.
Um d"esles dias lá lhe apparece nos Bravaos, curado
e mais gordo... Vá socegada!
De novo a mulher suspirou, no cançasso immenso
que a invadira, a amollecia. E sem. resistir, no seu
longo e abatido habito de submissão:
— Pois sim senhor, se o Fidalgo manda, está mui-
to bem. . .
O Bento, entreabrindo a porta do pateo, annun-
ciava uma «aberta», o negrume a levantar. Gon-
çalo immediatamente apressou a volta aos Bravaes:
— E não tenha medo, mulher. Vae um moço da
quinta com uma lanterna, e um guarda chuva para
abrigar a pequena. . . Escute ! Vocemecê até podia
levar uma capa de borracha!... Oh Bento, corre,
desce a minha capa de borracha. A nova, a que com-
prei em Lisboa. . .
E quando o Bento trouxe o «impermeável» de
longa romeira, o lançou por sobre os hombros da
mulher, que o estofo rico intimidava, com o seu
ruge-ruge de seda — foi na cozinha uma divertida
risada. O pranto passara, como a chuva. Agora era
uma visita amoravel, findando n'um arranjo alegre
d' agasalhos. A Rosa apertava as mãos, banhada de
gosto :
— Assim é que vocemecê fica uma bonita Mada-
A ILUSTRE CASA DE RAMIRES 211
ma, hein!... Se fosse de dia, olhe que se juntava
gente !
A mulher sorria emfim, descoradamente, sem in-
teresse :
— Ai! nem sei que pareço... Oue avantesma!
Atravez do pateo, onde as acácias gottejavam
docemente, Gonçalo acompanhou o rancho até á
porta do pomar, gritando ainda— «Agasalhem bem a
pequena!» — quando já a lanterna do moço se fun-
dia na húmida espessura da noite acalmada. Depois,
na cozinha, batendo contra as lages as solas dos chi-
nellos molhados, apalpou novamente o ^íanoelsinho,
que adormecera n'um somno rouquejado, torcido so-
bre as costas da cadeira.
— Tem pouca tebre. . . Mas precisa um suadoiro
forte. E, antes de o cobrirem bem, um leite quente,
quasi a ferver, com cognac. . . O que elle precisava tam-
bém era esfregado a coco. . . Que porcaria de gente!
Einíim fica para mais tarde, quando se curar. . . E
agora, oh Rosa, mande acima alguma cousa para eu
cear, cousa solida, que não jantei, e o sarau foi tre-
mendo !
Na livraria, depois de mudar os chinellos, descan-
çar, Gonçalo escreveu ao Gouveia uma carta re-
clamando com commovida urgência a liberdade do
Casco. E accrescentava : — «É o primeiro pedido que
«lhe faz o deputado por Villa-Clara (comprimente !),
16
2Í2 A ILLLSTUE CASA DE RAMIUES
«porque acabo de receber telegramma do nosso An-
«dré, annunciundo que a tudo feito, ministro con-
(í corda, etc.» De sorte que precisamos communicar 1
«Queira pois vossa mercê vir jantar amanhã a esta
«sua Torre, á sombra do Tito e com acompanha-
« mento de Videirinha. Estes dous beneméritos são
«indispensáveis para que haja appetite e harmo-
«nia. E rogo, Gouveia amigo, que os avise do
«festim, para me evitar a remessa de circulares
«eloquentes. . .»
Lacrada a carta, retomou languidamente o ma-
nuscripto da isovella. E, trincando a rama da penna.
ainda procurou vozes, de bom sabor medieval, para
aquelle lance em que o Villico e as roídas enxergavam
a cavalgada do Bastardo, pela encosta da ilibei ra,
com refulgidos d'armas, sob o rijo sol d'Agosto. . .
Mas a sua imaginação, desde a carta escripta ao
Gouveia pelo «Deputado de Villa-Clara» escapava
desassocegadamente da velha Honra de Santa Ire-
neia — esvoaçava teimosamente para os lados de
Lisboa, da Lisboa do S. Fulgencio. E o eirado da
torre albarrau, onde o gordo Ordonho gritava esba-
forido—incessantemente se desfazia como névoa molle,
para sobre elle surgir, appetitoso e mais interessante,
um quarto do Hotel Bragança com varanda sobre o Te-
jo. . . Foi um allivio quando o Bento o apressou para
a ceia. E á mesa espalhou livremente a imaginação
A ILU STRE CASA DE RAMIRES 243
por Lisboa, pelos corredores de S. Carlos, por sob as
arvores da Avenida, atravez dos antiquados palácios
dos seus parentes em S. Vicente e na Graça, atra-
vez das salas mais modernas de cultos e alegres
amigos — parando ús vezes deante de visões que con-
siderava com um riso deleitado e mudo. Alugaria
aos mezes, certamente, uma carruagem da Com-
panhia. E para as sessões de S. Bento sempre luvas
côr de pérola, uma flor no peito. Por commodidade
levava o Bento, bem apurado, com casaca nova...
O Bento entrou com a garrafa do cognac n'twT)a
salva. Dera a carta ao Joaquim da Horta com a re-
commendação de correr logo ás seis horas a casa do
Snr. Administrador, de se demorar na Villa por
deante da Cadeia até soltarem o Casco.
— E já deitamos o pequeno no quarto verde.
Fica perto de mim, que tenho o somno leve, se elle
berrar. . . Mas já dorme regaladamente.
— Está socegado, hein? acudiu Gonçalo, sorvendo
á pressa o cálice de cognac. Vamos vèr esse cava-
lheiro !
E tomou um castiçal, subiu ao quarto verde com
o Bento, ' sorrindo, abalando os passos pela estreita
escada. No corredor, junto da porta, n'um desbo-
tado camapé de damasco verde, a Rosa dobrara
carinhosamente a roupa trapalhona do pequeno, o
collete esgaçado, as calças enormes, só com um bo-
A ILÍXSTRE CASA DE RAMIKES
tão. Dentro o leito de pau preto, vasto leito de ce-
remonia, atravancava a parede forrada d' um velho
papel avelludado de ramagens verdes. Ao lado dos
dous postes torneados, á cabeceira, pendiam dous
painéis, retratos de antigos Ramires, um Bispo
obeso folheando um folio, um formoso Cavallei-
ro de Malta, de barba ruiva, appoiado á espada,
com um laçarote de rendas sobre a couraça polida.
E nos altos colchões o Manoelzinho resonava, sem
tosse, quieto, abafado pela grossura dos cobertores,
humedecido por um suor fresco e sereno.
Gonçalo, caminhando sempre de leve, repuxou
cuidadosamente a dobra do lençol. Desconfiado das
janellas decrépitas, experimentou que nâo entras-
se traiçoeiro ar pelas gretas. Mandou pelo Bento
buscar uma lamparina, que arranjou sobre o lava-
tório, com a luz esbatida por traz d' uma vazilha.
Ainda attentamente relanceou os olhos lentos pelo
quarto, para se assegurar do socego, do silencio, da
penumbra, do conforto. E sahiu, sempre na ponta
dos pés, sorrindo, deixando o filho do Casco velado
pelos dous nobres Ramires — o Bispo com o seu Tra-
tado, o Cavalleiro de Malta com a sua pura espada.
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
Recolhendo do Tanque- Velho, do fundo da quin-
ta, onde passara a calma, depois do almoço, na fres-
cura do arvoredo, entre susurros de agoas correntes,
a folhear um volume do Panorama — Gonçalo en-
controu sobre a mesa da livraria, com o correio de
Oliveira, uma carta que o sarprehendeu, enorme,
t-m papel almaço, fechada por uma obreia. E den-
tro a assignatura, desenhada a tinta azul, era um
coração chammejante.
N'um relance devorou as linhas, pautadas a lá-
pis, d' uma lettra gorda, arredondada com esmero:
— «Caro e Ex."'° Snr. Gonçalo Ramires. O galante
«Governador civil do Districto, o nosso atiradiço An-
«drc Cavallciro, passeiava agora constantemente por
«deante dos Cunhaes, olhando com ternura para as
«janellas e para o honrado brazão dos Barròlos. Co-
« mo não era natural que andasse a estudar a archi-
«tetura do Palacete (que nada tem do notável), con-
«cluiu a gente seria que o digno Cheíe do Districto
«esperava que V. Ex.*' apparecessc a alguma das ja-
«nellas do Largo, ou das que deitam para a rua das
«Tecedeiras, ou sobretudo yio in/ranle do jardim.
«para reatar com V. Ex/'' a antiga e quebrada ami-
«zade. Por isso muito acertadamente procedeu V.
«Ex." em correr pessoalmente ao Governo Civil, e
«propor a reconciliação, e abrir os braços generosos
Í4tí • A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
«ao velho amigo, evitando assim que a primeira An-
«ctoridade do Districto continuasse a esbanjar um
«tempo precioso n'aquelles passeios, de olhos prega-
«dos no Palacete dos fidalguissimos Barrôlos. En-
« víamos portanto a V. Ex.'' os nossos sinceros para -
«bens por esse acertado passo que deve calmar as
«impaciências do fogoso Cavalleiro e redondar em
«beneficio dos serviços públicos!»
Revirando o papel nas mãos, Gonçalo pensou:
— É das Louzadas!
Ainda estudou a lettra, ars expressões, descorti-
nando que redundar fora escripto com um O, archi-
tectura sem C. E rasgou furiosamente a grossa fo-
lha, rosnando no silencio da livraria:
— Aquellas bêbadas!
Sim, era d'ellas, das odiosas Louzadas! E essa ori-
gem mais o aterrava — porque maledicência, lançada
por tão ardentes espalhadoras de maledicências, já
certamente penetrara em todas as casas d'01iveira,
mesmo na Cadeia, mesmo no Hospital ! E agora a ci-
dade divertida, lambendo o escândalo, relacionava
perfidamente os rodeios do André pelos Cunhaes com
essa sua visita ao Governo Civil que assombrara a
Arcada. Na ideia pois d'01iveira, e sob a inspiração
das Louzadas — fora elle, elle. Gonçalo Mendes Rami-
res, que arrancara o Cavalleiro á sua Repartição,
o conduzira serviçalmente ao Largo d'El-Rei, lhe
A ILLUSTRE CASA DE P.AMIRES 2'l7
escancarara as portas do Palacete até ahi rondadas
e miradas sem proveito, e com sereno descaro alco-
vitara os amores da irmã! Se taes desavergonhadas
não mereciam que lhes arregaçassem as sujas saias no
meio da Praça, em manhã de Missa, e lhes fustigas-
sem as nádegas melladas, furiosamente, até que o
sangue ensopasse as lages! , . .
E, para maior damno, as apparencias todas se
combinavam contra elle, traidoramente! Essa insis-
tência de André, cocando Gracinha, estrondeando a
calçada em torno do Palacete, crescera, impressio-
nava, justamente agora, n*este Agosto, nas vésperas
d'essa sua apparição á janella do Governo Civil, que
Oliveira com menta va como um mistério histórico.
Oue inopportunamente morrera o animal do Sanches
de Lucena! Mezes antes, nem mesmo a malicia das
Louzadas ligaria a sua reconciliação com André a
um cerco amoroso que não começara, ou não andava
tão murmurado. Três ou quatro mezes depois, An-
dré, sem esperança ante o Palacete inaccessivel, cer-
tamente findaria os seus giros pelo Largo, de rosa
ao peito! Mas não! infelizmente quando esse André,
com maior estrépito, ronda a porta almejada — é que
elle acode, e abraça o rondador, e lhe facilita a porta!
E assim a maledicência das Louzadas encontrava uma
base, a que todos na cidade podiam palpar a subs-
tancia e a solidez, e sobre ella se erigia como Ver-
dade Publica! Infames Louzadas!
248 A ILLLSTHE CASA DE RAJIIllES
Mas agora? O que? manter rigidamente as suas
relações com o Cavalleiro dentro da Politica, evi-
tando escorregadias intimidades qu.e o tornassem lo-
go nos Cunhaes, como outr'ora na Torre, o conviva
desejado? Como poderia? Desde que elle se re-
conciliava com André, logo e tão naturalmente co-
mo a sombra segue a inclinação do ramo, se re-
conciliava também o Barròlo, seu cunhado e sua
sombra... Mas como impor ao Earrôlo que a sua
renovada familiaridade com o Cavalleiro se reali-
sasse unicamente dentro da Politica como dentro
d"um Lazareto? — «Eu sou outra vez o velho ami-
go do André, tu, Barròlo, também — mas nunca o
convides para a tua mesa, nem lhe abras a tua por-
ta!»— Imposição desconcertada, de dura impertinên-
cia— e que, na pequena Oliveira, logo os fáceis
encontros, a simplicidade hospitaleira do Barròlo,
quebrariam como um barbante poido... E depois
que grotesca attitude a sua, hirto deante do por-
tão do Palacete, como um Archaujo S. Miguel, de
bengala de fogo na mão, para sustar a intrusão
de Satanaz, Chefe do Districto! Mas também que
toda a cidade largasse a cochichar pelos cantos o no-
me de Gracinha embrulhado ao nome de André, com
o nome d'elle, (jonçalo, einmaranhado atravez como
o íio favorável que os atara — era horrível.
E na impaciência d"esta difíiculdade, de malhas
A ILUSTRE CASA UE HA.MIRES 249
tão ásperas, que tanto o feriam, terminou por es-
murrar a meza, revoltado:
— Irra, que massada! São tudo massadas, n'estas
terras pequenas e coscovilheiras. . .
Em Lisboa quem se importaria que o Snr. Go-
vernador civil passeasse n"um certo Largo — e que
certo Fidalgo da Torro se reconciliasse com o Snr.
Governador Civil ? . . . Pois acabou ! Romperia sober-
bamente para diante, como so habitasse Lisboa,
desafogado de mexericos e de malignos olhinhos a
cocar. Era Gonçalo Mendes Ramires, da casa de Ra-
mires! Mil annos do nome e de solar! Dominava bem
acima de Oliveira, de todas as suas Louzadas. E não
só pelo nome, louvado Deus, mas pelo espirito. . . O
André era seu amigo, entrava em casa de sua irmã
— e Oliveira que estoirasse!
E nem consentiu que a suja carta das Louzadas
desmanchasse a quieta manhã do trabalho para que
se preparara desde o almoço, relendo trechos do
Poemeto do Tio Duarte, folheando artigos do Pano-
rama sobre as guerras de muralhas no século xii.
Com um estorço d'attenção erudita abancou, mergu-
lhou a penna no tinteiro de latão que servira a trez
gerações do Ramires. E emquanto repassava as tiras
trabalhadas, nunca o Castello de Santa Ireneia lhe
parecera tão heróico, de tão soberana estatura, so-
bre tamanha collina d*Historia, sobranceando o Reino.
250 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
que em torno d'elle se alargava, se cobria de villas
e messes, pelo esforço dos seus castellões !
Temerosa, com efíeito, se erguia a antiga Honra
de Santa Ireneia, n'essa Aííonsina manhã d'Agosto e
rijo sol, em que o pendão do Bastardo surgira, entre
fulgidos d'armas, para além dos arvoredos da Ribei-
ra! Já por todas as ameias se apinhavam os bestei-
ros, espiando, encurvadas as bestas. Das torres e
adarves subia o fumo grosso do breu, fervendo nas
cubas, para despejar sobre os homens de Bayão que
tentassem a escalada. O Adail corria pelas quadrei-
las, relembrando as traças de defeza, revistando os
íeixes de virotões, os pedregulhos d'arremesso. E no
immenso terreiro, por entre os alpendres colmados,
surdiam velhos solarengos, servos do lorno, ser-
vos da abegoaria, que se benziam com terror, pucha-
vara pelo saião d'algum apressado homem de roída,
para saberem da hoste que avançava. No cmtanto a
cavalgada passara a Ribeira sobre a rude ponte de
pau — já, por entre os alamos, serenamente se acer-
cava do Cruzeiro de granito, outr'ora erguido nos
coníins da Honra por Gonçalo Ramires, o Cortador.
E, no socego da manhã abrazada, mais fundamente
resoaram as buzinas do Bastardo, e o seu toque lento
e triste á mourisca. . .
Mas quando Gonçalo, enlevado no trabalho, ten-
tava reproduzir, com termos bom sonoros, ávida-
A ILIASTRE CASA DE RAMIRES 2Õ1
mente rebuscados no Diccionarío de Synonimos. o
toar arrastado das buzinas de Bayâo— sentiu real-
mente, do lado da Torre, um gemer de sons graves
que crescia atravez dos limoeiros. Deteve a penna —
e eis que o Fado dos Ramires s'eleva offertadamente
da horta, em serenada, para a varanda florida de ma-
dresilva :
Ora, quem te vi' solitária,
Torre de Santa Ireneia. . .
O Videirinha! — Correu alvoroçadamente á janel-
la. Um chapéu coco tremulou entre os ramos, um
brado estrugio, acclamador:
— Viva o deputado por Villa-Clara ! Viva o illns-
tre deputado Gonçalo Ramires!
No violão rompera triumphalmente o Hymno da
Carta. Videirinha, alçado na biqueira das botas gas-
peadas de verniz, gritava — «Viva a illustre casa de
Ramires!» E por baixo do chapéu coco, sacudido
com delirio, João Gouveia, sem poupar a garganta,
urrava — «Viva o illustre deputado por Villa-Clara!
Viva ! B
Magestosamente, Gonçalo, alagado de riso, esten-
deu da varanda o braço eloquente:
— Obrigado, meus queridos concidadãos! Obriga-
do!... A honra que me fazeis, vindo assim, n*esse
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
lormoso grupo, o chefe glorioso da Administração, o
inspirado Pharmaceutico, o. . .
Mas reparou... E o Tito?
— O Tito não veio?... Oh João Gouveia, vof>'
não avisou o Tito?
Repondo sobre a orelha o chapéu coco, o Admi-
nistrador, que arvorara uma gravata do setim escar-
late, declarou o Tito «um animal»:
— Estava combinado virmos todos trez. Até elle
devia trazer uma dúzia de foguetes, para estalar aqui
com o Hymno. . . A reunião era ao pé da Ponte. . .
Mas o animal não appareceu. Em todo o caso ficou
avisado, avisadíssimo. . . E se não vier, é traidor.
— Bem, subam vocês! gritou Gonçalo. Eu n'um
instante me visto. E, para aguçar o appetite, propo-
nho um vermouth, depois uma volta pela quinta até
ao pinhal!. . .
Immediatamente Videirinha, teso, empinando o
violão, metteu pela rua larga da horta, recoberta de
parreira; e atraz .João Gouveia atirava os passos em
cadencia nobre, alçando o guarda-sol como um pen-
dão. Quando Gonçalo entrou no quarto, berrando
pelo Bento e por agoa quente — o Fado dos Ramires
soava, em trinados heróicos, atravez do feijoal, por
sob a janella aberta onde seccava o lençol do banho.
E eram as quadras preferidas do F^idalgo, as quadras
em que o grande avô Ruy Ramires, sulcando os ma-
A ILLLSTUE CASA UE UAMIUES 2o3
res de Mascate n'ama urca, encontra trez fortes naus
inizlezas, e, do alto do seu castello de proa, vestido de
gran-vermelha, com a mão no cinto d'anta tauxeado
d'ouro e pedras, soberbamente as intima a que se
rendam . . .
Todo alegre, e a mão no cinto,
Junto da Signa Real,
Gritando ás naus — " Amainae
Por El-Rei de Portugal !...••
Gonçalo abotoava á pressa os suspensórios, reto-
mara o canto glorificador — Todo ale<jre, a mão no
cinto... Junto da Signa Real... — E, atra vez do es-
forço esganiçado, pensava que cora tal linha d'avós,
bem podia desprezar Oliveira e as suas Louzadas hor-
rendas. Mas o trovão lento de Tito retumbou no cor-
redor :
— Então esse deputado de Villa-Clara ? . . . Já está
a vestir a larda?
Gonçalo correu á porta do quarto, radiante:
— Entra, Tito ! Os deputados já não usam farda,
homem! Mas se a tivesse, c'os diabos, ia hoje farda,
e espadim e chapéu armado, para honrar hospedes
tão illustres!
O outro avançara vagarosamente, com as mãos
nas algibeiras da rabona de velludo côr d'azeitona, o
A ILUSTRE CASA DE RAMIRES
vasto chapéu braguez atirado para a nuca, desafogan-
do a honesta íace barl)uda, vermelha de saúde e sol:
— Eu, por farda, queria dizer libré... Libré de
lacaio.
— Ora essa!?
E o outro mais retumbante:
— Pois o que vaes tu ser, homem, senão um su-
jeito ás ordens do S. Fulgencio, do horrendo care-
ca? Não lhe serves o chá, quando elle te mandar; mas,
quando elle te mandar votar, votas! Alli, direitinho, ás
ordens! «Oh Ramires, vote lá!» E Piamires, zás, vo-
ta... É de escudeiro, homem, é de escudeiro de li-
bré . . .
Gonçalo sacudiu os hombros, impaciente:
— Tu és uma creatura das selvas, lacustre, quasi
prehistorica. . . Não entendes nada das realidades so-
ciaes! . .. Na sociedade não ha princípios absolutos ! . . .
Mas o Tito, imperturbável:
— E esse Cavalleiro? Também já é rapaz de ta-
lento? Também já governa bem o Districto?
Então Gonçalo protestou, picado, com uma roseta
forte na face. E quando negara elle ao André talento
.ou geito de governar? Nunca! Só rira, gracejando,
da sua pompa, da bigodeira lustrosa ... E de resto,
o serviço do Paiz exigia que por vezes se alliassem
homens que nem partilhavam os mesmos gostos, nem
procuravam os mesmos interesses!
A ILUSTRE CASA 1)K UAMIKKS 255
— E eiiifiQi O Snr. António Villalobos vem hoje
um moralista muito terrível, um Catão com quem se
não pode jantar!... Ora íoi sempre o costume dos
Philosophos muito ríspidos fugir da sala do banque-
te onde triumpha o devasso, e protestar comendo na
cosinha !
Tito, serenamente, virou as costas magestosas.
— Onde vaes, ó Tito?
— Para a cosinha!
E, como Gonçalo ria, Tito, junto da porta, girando
como uma torre que gira, encarou o seu amigo:
— Sério, sério, Gonçalo! Eleição, reconciliação,
submissão, e tu em Lisboa ás cortezias ao S. Ful-
gencio, e em Oliveira de braço dado com o André,
tudo isso me parece que destoa . . . Mas emfim se a
Rosa hoje se apurou, não alludamos mais a cousas
tristes !
E Gonçalo bracejava, de novo protestava — quando
u violão resoou no corredor, com as patadas bem
marchadas do Gouveia, e o Fado recomeçou, mais
meigo, mais glorificador :
— Velha casa de Ramires,
Honra e flor de Portugal!
VI
A casa do Cavalleiro em Corinde era uma edifi-
cação dos fins do século xvm, sem elegância e sem
arte, pintada d"amarelIo, lisa e vasta, com quatorze
janellas de frente, quasi ao meio d'uma quinta chã,
toda de terras lavradas. Mas uma avenida de casta-
nheiros conduzia, com alinhada nobreza, ao pateo da
frente, ornado por dois tanques de mármore. Os
jardins conservavam a abundância esplendida de
rosas que os tornara famosos — e lhes merecera em
tempos do avô de André, o Desembargador Mar-
tinho, uma visita da Snr.* D. Maria II. E dentro to-
das as salas reluziam d*asseio e ordem, pelos cuidados
da velha governanta, uma parenta pobre do Caval-
leiro, a Snr.* D. Jesuina Rollim.
Quando Gonçalo, que viera da Torre na egoa,
atravessou a ante-sala, ainda reconheceu um dos pai-
néis da parede, fumarento combate de galiões, que
258 A ILLUSTHE CASA DE RAMIRES
elle uma tarde rasgara jogando o espadão com An-
dré. Sob esse painel, á borda do canapé de palhinha,
esperava melancolicamente um amanuense do Go-
verno Civil, com a sua pasta vermelha sobre os joe-
lhos. E d" uma porta remota, ao fundo do corredor,
André, avisado pelo creado, o fiel INIatheus, gritou
alegremente :
— Oh Gonçalo, entra para cá, para o quarto! Sahi
da tina... Ainda estou em ceroulas!
E em ceroulas o abraçou, n'um generoso abraço
de parabéns. Depois, em quanto se vestia, por entre
as cadeiras atravancadas cora o recheio das malas
— gravatas, peúgas de seda, garrafas de perfumes —
conversaram do calor, da jornada enfadonha, de Lis-
boa despovoada . . .
— Um horror! exclamava o Cavalleiro aquecendo
um ferro de frisar á lâmpada d'alcool. Todas as ruas
da Baixa em obras, cobertas de caliça, de poeirada.
O Central enfestado de mosquitos. Muito mulato.
Uma Tunis, Lisboa!... Mas emfim, lá combatemos
bravamente o bom combate!
Gonçalo sorria, do canto do divan onde se accom-
modára, entre uma pilha de camisas de còr e outra
de ceroulas com monogramma flammante:
— E então, Andrésinho, tudo arranjado, hein?
O Cavalleiro, deante do toucador, frisava com en-
levado esmero as pontas grossas do bigode. E só de-
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 239
pois de o ensopar em brilhantina, d'acamar as ondas
da cabelleira rebelde, de se mirar, de se requebrar,
assegurou a Gonçalo, já inquieto, que a eleição fi-
cara solida . . .
— Mas imagina tu! Quando appareci em Lisboa,
no Ministério do Reino, encontrei o circulo promet-
tido ao Pitta, ao Theotonio Pitta, o grande homem
(la Verdade . . .
O Fidalgo pulou, despenhando a ruma de camisas:
— E então?...
E então elle mostrara muito asperamente ao José
Ernesto a inconveniência de dispor do Circulo como
d'um charuto, sem o consultar, a elle. Governador
Civil — e dono do circulo... E como o José Ernesto se
arrebitava, alludia á conveniência superior do Go-
verno, elle logo, estendendo o dedo firme: — «Pois
Zésinho, flor, ou trago o Piamires por Villa-Clara, ou
me demitto, e arde Tróia!...» Espantos, escarcéus,
berreiros — mas o José Ernesto cedera, e tudo findou
jantando ambos em Algés com o tio Reis Gomes, on-
de á noite, ao «bluff», as senhoras lhe arrancaram
quatorze mil reis.
— Era resumo, Gonçalinho, precisamos conservar
os olhos attentos. O José Ernesto é rapaz leal, meu
velho amigo. E depois conhece o meu génio . . . Mas
lia os compromissos, as pressões... E agora a novi-
2G0 A ILLUSTRE CASA. DE RAMIRES
dade pittoresca. Sabes quem se propõe contra ti, pe-
los Regeneradores?... Adivinha... O Julinho!
— Que Julinho?... O Júlio das photographias?
— O Júlio das photographias.
— Diabo!
O Cavalleiro encolheu os hombros, com piedade:
— Arranja dez votos á porta da quinta, tira o re-
trato a todos os taverneiros do circulo em mangas
de camisa, e continua a ser o Julinho... Não! só Lis-
boa me inquieta, a canalha politica de Lisboa!
Gonçalo torcia o bigode, desconsolado:
— Imaginei tudo mais solido, mais inabalável...
Assim com todas essas intrigas, ainda surde trapa-
lhada... Ainda lá não vou!
O Cavalleiro, ao espelho, esticava o fraque — que
experimentara abotoado, depois repuxadamente aber-
to sobre o collete de íustâo côr de azeitona onde,
no trespasse largo, tufava a gravata de sedinha cla-
ra, prendida por uma saphira. Por fim, encharcando o
lenço com essência de feno:
— Nós estamos bem alliados, bem consagrados,
não é verdade? Então, meu caro Gonçalo, socega, e
almocemos regaladamente ! . . . Creio que este fraque
do nosso Amieiro assenta com certa graça, hein?
— Magnifico! affirmou Gonçalo.
— Bem. Então agora descemos ao jardim, para tu
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES ÍGl
reveres os velhos poisos e te florires com uma rosa
de Corinde.
E logo no corredor, ornado de jarrões da índia,
de arcas de charão, enlaçando o braço de Gonçalo,
do seu recuperado Gonçalo:
— Pois, meu filho, aqui pisamos ambos de novo
os nobres soalhos de Corinde, como ha cinco annos . . .
E nada mudou, nem um creado, nem uma cortina!
Agora, um d'estes dias, preciso visitar a Torre.
Gonçalo accudiu ingenuamente:
— Oh! a Torre está muito mudada... Muito mu-
dada !
E um embaraçado silencio pesou — como se entre
elles surgisse a imagem entristecida da antiga quinta,
no tempo dos amores e das esperanças, quando An-
dré e Gracinha procuravam as ultimas violetas d'Abril,
sob o sorriso tutelar de Miss Rhodes, rente aos húmi-
dos muros da Mãe d'Agoa. Ainda em silencio desce-
ram a escada de caracol — por onde ambos outr'ora
se despenhavam cavalgando o corrimão. E em baixo,
n*uma sala abobadada, rodeada de bancos de ma-
deira com as armas dos Cavalleiros nas espaldas,
André quedou deante da porta envidraçada do jar-
dim, ondeou um gesto desconsolado e languido :
— Eu também, agora, pouco appareço em Corin-
de. E, comprehendes bem que não me reteem em
Oliveira os cuidados da Administração . . . Mas este
262 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
casarão arrefeceu, alargou, desde a morte da ma-
mã. Ando aqui como perdido. E acredita,, quando
cá me demoro, são uns passeios tristonhos por esses
jardins, pela Rua Grande . . . Ainda te lembras da Rua,
Grande?... Vou envelhecendo muito solitariamente,
meu Gonçalo !
Gonçalo murmurou, por concordância, syrapathia
renovada :
— Eu também m'aborreço na Torre...
— Mas tens outro génio!... E eu realmente sou
um elegíaco.
Correu, com um estorço, o fecho perro da porta en-
vidraçada. E limpando os dedos ao lenço perfumado:
— Eu creio que Corinde, agora, só me encantava
com grandes cerros escalvados, grandes rochedos
agrestes... Ás vezes, cá dentro d'alraa, necessito o
ermo de S. Bruno...
Gonçalo sorria d'aquelle appetite ascético, mur-
murado com preciosidade, atravez da bigodeira tor-
cida a ferro, resplandecente de brilhantina. E no ter-
raço, junto á balaustrada de pedra enramada d"hera,
galhofou, louvando o areado alinho, o relusente viço
do jardim:
— Com efteito, para um discípulo de S. Bruno,
que escândalo, todo este asseio! IMas para um pecca-
dor como eu, que delicia! ... O jardim da Torre anda
um chavascal.
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 263
— A prima Jesuina gosta de flores. Tu não co-
nheces a prima Jesuina? Uma velha parenta da
mamã, que governa agora a casa. Coitada! e com
um escrúpulo, com um amor ... Se não fosse a santa
creatura, os porcos fossavam nos canteiros... Meu
filho, onde não ha saia, não ha ordem 1
Desceram a escadaria redonda, por entre os vasos
de louça azul que trasl)ordavam de gerânios, de
secias, de canas da índia. Gonçalo recordou a vés-
pera de S. João em que rolara por aquelles degraus,
n'ura trambulhão tremendo, com os braços carre-
gados de foguetes. E lentamente, atravez do jardim,
evocavam memorias da camaradagem antiga. Lá se
conservava o trapézio, dos tempos em que ambos
cultivavam a religião heróica da força, da gymnastica,
do banho frio... N'aquelle banco, sob a magnólia,
lera uma tarde André o primeiro canto do seu Poe-
ma, o Fronteiro d'Arzilla. E o alvo? O alvo onde
se exerciam á pistola, para os futuros duellos, ine-
vitáveis na campanha que ambos meditavam contra
o velho Syndicato Constitucional?... — Oh! toda essa
parte do muro, que pegava com o lavadoiro, fora
derrubada depois da morte da mamã, para alargar
a estufa ...
— De resto o alvo era inútil! accrescentou o Ca-
valleiro. Eu logo por esse tempo entrei também no
264 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
Syndicato . . . E agora entras tu, pela porta que eu te
abro!
Então Gonçalo, que colhera e esmagava entre os
dedos, para lhe sorver o perfume, folhas de lucia-
lima — acudiu com uma franqueza, que aquelle des-
enterrar de recordações tornava mais penetrante e
sentida:
— E eu desejo entrar, e ardentemente, bem sa-
bes. ]Mas tu afianças a eleição, com segurança? Não
surgirá diíficuldade, Andrésinho? . . . Esse Pitta é um
hábil!
O Cavalleiro murmurou apenas, mergulhando os
dedos nas cavas do coUete:
— Da habilidade dos Pittas se ri a força dos Ca-
valleiros . . .
Por trez degraus de tijolo baixaram ao outro jar-
dim, desafogado de arvoredo e sombra, onde desabro-
chava desde Maio, com explendor, o tão celebrado
bosque de roseiras, orgulho da quinta de Corinde,
que deleitara uma Rainha. Aquelle íacil desdém pelo
Pitta confirmava a segurança da Eleição. Gonçalo,
caminhando respeitosamente como n um Museu, re-
gou de louvores deslumbrados as rosas do Caval-
leiro :
— Uma belleza, André, uma maravilha! Tens aqui
rosas sublimes . . . Aquellas repolhudas, além, que
luxo ! E estas amarellas ? deliciosas ! . . . Olha este en-
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 265
canto! o ruborsinho a surdir, a raiar, do íundo das
pétalas brancas . . . Oh, que escarlate! Oh, que divino
escarlate!
O Cavalleiro cruzara os braços, com gracejadora
melancolia :
— Pois vê tu ! Tal é a minha solidão social e sen-
timental que, com todas estas rosas abertas, não te-
nho a quem mandar um ramo!... Estou reduzido a
llorir as Louzadas!
Um escarlate, mais %ivo do que as rosas que ga-
bava, cobriu as laces do Fidalgo:
— As Louzadas! Oh que desavergonhadas!
André atirou ao seu amigo os lustrosos olhos,
n'um inquieto reparo de curiosidade:
— Por quê?... Desavergonhadas, por que?
— Por quê ? Por que o são ! Pela sua natureza,
e pela vontade de Deus ! . . . São desavergonhadas
como estas rosas são vermelhas.
E o Cavalleiro, tranquillisado :
— Ah, genericamente . . . Com effeito têm immensa
peçonha. Por isso eu as cubro de rosas. E em Oli-
veira, todas as semanas, meu filho, tomo com ellas
um chá respeitoso!
— Pois não as amansas, rosnou o Fidalgo.
^las o Matheus apparecêra nos degraus de tijolo
com o guardanapo na mão, a calva rebrilhando ao
sol. Era o almoço. O Cavalleiro colheu para Gon-
266 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
çalo uma «rosa triumphal» — e para si um a botão
innocente ...» E, enflorados, subiam para o terraço
entre o brilho e o perfume de outras roseiras — quan-
do o Cavalleiro parou com uma ideia:
— A que horas vaes ta para Oliveira, Gonçalinho?
O Fidalgo hesitou. Para Oliveira?... Não tencio-
nava apparecer em Oliveira, toda essa semana . . .
— Por quê? É urgente que vá a Oliveira?
— Pois certamente, filho ! Áraanhâ mesmo preci-
samos conversar com o Barrôlo, combinarmos, por
causa dos votos da Murtosa!... Meu querido Gon-
çalo, não podemos adormecer. Não é pelo JuIio, c
pelo Pitta !
— Bem! bem! acudio logo Gonçalo, assustado.
Parto para Oliveira.
— Por que então, continuava André, vamos am-
bos logo, a cavallo. É um bonito passeio pelos Frei-
xos, sempre com sombra... Tens talvez de mandar
á Torre, por causa de roupa...
Não! Gonçalo, para evitar a importunidade de
malas, conservava nos Cunhaes um bragal inteiro,
desde a chinella até á casaca. E entrava em Oli-
veira como o Philosopho Bias em Athenas — com uma
simples bengala e paciência infinita . . .
— Delicioso ! declarou André. Fazemos então logo
a nossa entrada official em Oliveira. É o começo da
campanha.
A ILLLSTRE CASA DE RAMIRES 267
O Fidalgo torcia o bigode, consternado, pensan-
do nos risinhos perversos das Louzadas, de toda a
cidade, perante uma entrada tão apparatosamente
íraternal. E, quando o Cavalleiro recommendou ao
Matheus que mandasse apromptar o Rossilho e a
egoa do Fidalgo para as quatro horas e meia, Gonçalo
exagerou o seu receio do calor, da poeira. Antes
partissem ás sete, pela íresca ! (Assim esperava pene-
trar em Oliveira desapercebidamente, esbatido no
crepúsculo). Mas André protestou:
— Não, é uma secca, chegamos á noite. Precisa-
mos entrar com solemnidade, á hora da musica no
Terreiro... Ás cinco, hein?
E Gonçalo, vergando os hombros sob a Fatali-
dade:
— Pois sim, ás cinco.
Na sala de jantar, esteirada, com denegridos
painéis de flores e fructas sobre um papel verme-
lho imitando damasco, André occupou a veneranda
cadeira de braços do avô Martinho. O brilho das
pratas, a frescura das rosas numa floreira de Saxe,
revelavam os desvelos da prima Jesuina — que, com
dòr d' entranhas n'essa manhã, não se vestira, almo-
çava no quarto. Gonçalo louvou aquella elegante
ordem, tão rara n*uma casa de solteirão, lamentando
a falta de uma prima Jesuina na Torre . . . E André
sorria deliciadamente, desdobrando, o guardanapo.
268 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
com a esperança que Gonçalo contasse aos Barrô-
los o confortável luxo de Corinde. Depois, picando
com o garfo uma azeitona:
— Pois é verdade, meu querido Gonçalo, lá es-
tive n"essa grande Capital, depois um dia em
Cintra.. .
O Matheus entre-abriu a porta para recordar a
S. Ex." o amanuense do Governo Civil, que esperava.
— Pois que espere! gritou S. Ex.*.
Gonçalo lembrou que talvez o digno homem se
impacientasse, com fome...
— Pois que almoce! gritou S. Ex.'
Aquelle secco desprezo de André pelo pobre em-
pregado, esquecido no banco d'entrada, com a sua
pasta sobre os joelhos — constrangia o Fidalgo. E
espetando também uma azeitona:
— Dizias então, Cintra...
— Semsabor, resumiu André. Poeirada horrenda,
lemeaço medíocre... E já me esquecia. Sabes quem
lá encontrei, na estrada de Collares? O Castanheiro,
o nosso Castanheiro, o dos Annaes, de chapéo alto.
Ergueu logo os braços ao céo, desolado : — « E então
esse Gonçalo Mendes Ramires não me manda o ro-
mance ? » Parece que o primeiro numero da Re-
vista sae em Dezembro, e elle precisa o original em
começos d'Outubro... Lá me supplicou que te sac-
cudisse, que te recordasse a gloria dos Ramires. E tu
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 269
devias acabar a Novella... Até convém que, antes
d'entrares na Camará, appareça um trabalho teu,
um trabalho serio, d'erudiçâo forte, bera portu-
guez . . .
— Pois convém! concordou vivamente Gonçalo.
E á Novella só falta o Capitulo quarto. Mas esse jus-
tamente demanda mais preparação, mais pesquizas...
Para o acabar precisava o espirito bem socegado, a
certeza d'esta infernal eleição . . . Não é o animal do
Júlio que me inquieta. Mas a canalha intrigante de
Lisboa... Que te parece?
Cavalleiro riu, estendendo de novo o garfo para
as azeitonas:
— Que me parece, Gonçalinho? Que estás como
uma creança pequena, aí flicta, com medo que te não
chegue o prato de arroz doce. Socega, menino, apa-
nhas o teu arroz doce!... Mas com eííeito, encontrei o
José Ernesto muito teimoso. Já existiam compromis-
sos antigos com o Pitta. A Verdade tem sido furio-
samente ministerial . . . E esse Pitta, agora quando
souber que lhe tapei Villa-Clara, arde em furor con-
tra mim. O que me é soberanamente indiíferente;
colerasinhas ou piadinhas do Pitta não me tiram o
appetite... Mas o José Ernesto admira o Pitta, ne-
cessita do Pitta, está empenhado em pagar ao Pitta
com um circulo . . . Ainda no ultimo dia me disse na
Secretaria, até lhe achei graça: — «Eu vejo que os
270 A ILLLSTRE CASA DE RAMIRES
deputados por Villa-Clara morrem; ora se, por esse
bom costume, o teu Ramires morrer em breve, então
entra o Pitta. »
Gonçalo recuou a cadeira:
— Se eu morrer!... Que animal!
— Oh, se morreres para o Circulo! atalhou o Ca-
valleiro rindo. Por exemplo, se nos zangássemos, se
amanhã entre nós surgisse uma dissidência . . . Em-
fim o impossível!
O Matheus entrava com a terrina de caldo de
gallinha, que rescendia.
— A elle! exclamou André. E não se falle mais
de Círculos, nem de Pittas, nem de Julios, nem da
negregada Politica!... Conta antes o enredo da tua
Novella... Histórica, hein?... Meia-idade? D. João V?...
Eu, se tentasse agora um Romance, escolhia uma
opocha deliciosa, Portugal sob os Philippes ...
Os três quartos, depois das seis, batiam no reló-
gio sempre adeantado da Egreja de S. Christovâo, era
Oliveira, quando André Cavalleiro e Gonçalo, descen-
do da rua Velha, penetraram no Terreiro da Louça
(agora Largo do Conselheiro Costa Barroso).
Todos os Domingos, tocando n'um coreto que
o Conselheiro, quando Presidente da Camará, man-
dara construir sobre o velho Pelourinho demolido.
A ILLUSTRE CASA DE BAMIRES 271
a charanga do Regimento ou a philarnionica Leal-
dade tornavam aquelle Largo o centro mais sociá-
vel da quieta e caseira cidade. N'essa tarde, po-
rém, como começara no Convento de Santa Eri-
gida o bazar patrocinado pelo Bispo, as senhoras
rareavam nos bancos de pedra e nas cadeiras do
4sylo espalhadas por sob as acácias. As Louzadas
faltavam no seu pouso reservado, superiormente es-
colhido para espiarem todo o Terreiro, as casas que
o cerram do lado de S, Christovão e do lado das Tri-
nas, a rua Velha e a rua das Vellas, a barraca
da limonada, e até outro retiro pudicamente dis-
farçado por uma canniçada de heras. E o único
rancho conhecido, D. alaria Mendonça, a Baroneza
das Marges, as duas Alboins, conversavam com as
costas para o Terreiro, junto da grade de ferro que
o limita sobre a antiga muralha — d'onde se domi-
nam campos, a cerca do Seminário Novo, todo o pi-
nhal da Estevinha e as voltas lustrosas da ribeira de
Crede.
Mas entre os cavalheiros que trilhavam vagaro-
samente a alêa do Largo denominada o «Picadeiro»,
gosando a Marcha do Proplteta, o espanto reviveu
(apezar de todos conhecerem a reconciliação famo-
sa do Governo Civil) quando os dous amigos appa-
receram, ambos de chapéos de palha, ambos de po-
lainas altas, ao passo solemne das duas egoas — a de
A ILLISTRE CASA DE RA^riRES
Gonçalo airosa e baia de cauda curta á ingleza. a
do Cavalleiro pesada e preta, de pescoço arqueado,
a cauda farta rojando as lages. Mello Alboim, o
Barão das Marges, o Dr. Delegado, pararam n'uma
fila pasmada, a que se juntou ura dos Villa- Velhas,
depois o morgado Pestana, depois o gordo major
Piibas com a farda desabotoada, rebolando e galhofan-
do sobre «aquella amigação...» O tabellíão Guedes,
o Guedes popa, derrubou a cadeira no alvoroço com
que se ergueu, indignado mas respeitoso, descobrin-
do a calva n'uma cortesia immensa em que o cha-
péu branco lhe tremia. E o velho Cerqueira, o advo-
gado, que sabia do retiro encanniçado d'hera e se
abotoava, embasbacou, com os óculos na ponta do
nariz alçado, os dedos esquecidos nos botões das
calças.
No emtanto os dous amigos, gravemente, seguiam
pela correnteza de casas que o palacete de D. Ar-
minda Villegas domina, com o pesado brazão dos
Villegas na cimalha, as suas dez nobres varandas de
ferro opulentadas por cortinas de damasco amarello.
Na varanda d'esquina, o Barrôlo e José Mendonça
íumavam, sentados em mochos de palhinha. E ao sen-
tir as patas lentas das egoas, ao avistar tão ines-
peradamente o cunhado — o bom Barrôlo quasi se
despenhou da varanda:
A ILI.USTnE CASA DE RAMIRES 273
— Oh Gonçalo! Oh Gonçalo!... Vaes lá para
■casa ?
E nem esperou uma certeza, berrou de novo,
bracejando:
— Nós já vamos! Jantámos cá esta tarde... A
Gracinha está lá em cima, com a tia Arminda.
Vamos já também! E um momento!
O Cavalleiro acenou risonhamente ao capitão
Mendonça. Já Barrôlo mergulhara com enthusiasmo
para dentro dos damascos amarellos. E os dois ami-
gos, deixando peJo Terreiro aquelle sulcft de espanto,
penetraram na rua das Vellas onde um Policia se
perfilou com a mão no bonet — o que foi agradá-
vel ao Fidalgo da Torre.
O Cavalleiro acompanhou Gonçalo ao Largo d'El-
Rei. Deante do Palacete um homem de boina ver-
melha remoía no seu realejo o coro nupcial da Lú-
cia, espiando as janellas desertas. O Joaquim da Porta
correu do pateo a segurar a egoa do Fidalgo. Com um
mudo sorriso o tocador estendera a boina. E depois
de lhe atirar um punhado de cobre — Gonçalo hesi-
tou, murmurou emfim, com embaraço e corando:
— Não queres entrar e descançar, André?...
— Não, obrigado... Então amanhã ás duas, no
Governo Civil, com o Barrôlo, para combinarmos
sobre os votos da Murtosa . . . Adeus, minha ílòr !
J3ómos um bello passeio e espantamos os povos !
18
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
E S. Ex.^ envolvendo o Palacete n"um demorado
olhar, desceu pela rua das Tecedeiras.
No seu quarto (sempre preparado, com a cama
feita) Gonçalo acabava de se lavar, de se escovar,
quando Barrôlo se precipitou pelo corredor, esbo-
lado, sofírego — e atraz d'elle Gracinha, oílegante
também, desapertando nervosamente as fitas es-
carlates do chapéu. Desde a tarde em que Bar-
roto « presenceára com os olhos bem acordados i »
a palestra de Gonçalo e de André na varanda do
Governo Civil — íervera n'elle e em Gracinha uma
impaciência desesperada por penetrar os motivos, a
encoberta historia d'aquella reconciliação surprehen-
dente. Depois a fuga de Gonçalo na caleche para a
Torre, sem parar nos Cunhaes; a repentina jornada
do Cavalleiro a Lisboa; o silencio que sobre aquelle
caso se abatera mais pesado que uma tampa de íerro
— quasi os aterrou. Gracinha ú noite, no Oratório,
murmurava atravez das resas distrahidas: — «Oh,
minha rica Nossa Senhora, que será?»j — Barrôlo não
ousara correr á Torre; mas até sonhava com a va-
randa do Governo Civil, que lhe apparecia enorme,
crescendo, atravancando Oliveira, roçando já as ja-
nellas dos Cunhaes d"onde elle a repellia cora o ca-
ito (fuma vassoura... E eis agora Gonçalo e André
que entram na cidade a cavallo, muito serenamente.
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 2/ O
ambos de chapéus de palha, como compaQheh'Os cons-
tantes recolhendo d*um passeio!
Logo á porta do quarto, Barrôlo atirou os braços,
rompeu aos brados :
— Então que tem sido tudo isto?... Não se falia
n'outra coisa ! . . . Tu cora o André !
Gracinha, arfando, tão vermelha como as fitas
do chapéu, só balbuciava:
— E nem vens, nem escreves... Nós com tanto
cuidado . . .
E mesmo rente da porta aberta, sem se senta-
rem, o Fidalgo aclarou o « Mysterio », com a toalha
ainda nas m.ãos :
— Uma cousa muito inesperada, mas muito
natural. O Sanches Lucena morreu, como vocês
sabem. Ficou vago o circulo de Yilla-CIara. É um
circulo por onde só pôde sahir um homem da terra,
com propriedade, com influencia. O governo im-
mediatamente me mandou perguntar, pelo telegra-
pho, se eu me desejava propor . . . Ora eu, no fundo,
estou de bem com os Históricos, sou amigo do José
Fa-nesto . . . Estimava entrar na Gamara . . . Acceitei.
O Barrôlo esmagou a coxa com uma palmada
triumphal:
— Então era certo, caramba !
O Fidalgo continuava, enxugando interminavel-
mente as mãos :
276 A ILLUSTUE CASA UE RAMIRES
— Acceitoi, está claro, com condições; e muito
íortes. Mas acceitei . . . N'este caso, como vocês
sabem, convém que o candidato se entenda com o
Governador Civil. Eu, ao principio, não queria reno-
var relações. Instado porém, muito instado de Lis-
boa, e por considerações superiores de Politica, con-
senti n'esse sacrifício. Nas diíficuídades em que se
encontra o paiz todos devem fazer sacrifícios. Eu
íiz esse... O André, de resto, íoi muito amável,
muito aftectuoso. De sorte que estamos outra vez
amigos. Amigos politicos: mas muito bem, muito
lealmente . . . Almocei hoje com elle era Corinde,
viemos juntos pelos Freixos. Uma tarde linda!...
Emfim renasceu a antiga harmonia. E a eleição está
segura.
— Venham de lá esses ossos! berrou o Barròlo,
transportado.
Gracinha terminara por se sentar á borda do
leito, com o chapéu no regaço, enlevada para o ir-
mão, n'um silencioso enternecimento em que os seus
doces olhos se humedeciam e riam. O Fidalgo, que
se desprendera do abraço do Barròlo, dobrava a toa-
lha com um vagar distrahido:
— A eleição está segura, mas precisamos tra-
balhar. Tu, Barròlo, tens de conversar também com
o Cavalleiro. Já combinei. Amanhã no Governo Ci-
A ILUSTRE CASA DE RAMIRES
^"il, ás duas horas. E necessário que vocês se enten-
dam por causa dos votos da Murtosa...
— Prompto, menino! o que vocês quizerem ! Vo-
tos, dinheiro...
E Gonçalo, borrifando vagamente o jaquetão com
agua de Colónia que pingava no soalho:
' — Desde o momento em que eu me reconciliei
com o André, tudo acabou. Tu, Barròlo, immediata-
mente te reconcilias também . . .
Barrôlo quasi pulou, no seu deslumbramento:
— Pois está claro ! E ainda bem, que eu gosto
immensamente do Cavalleiro ! Até sempre teimava
com Gracinha... a Oh senhores, esta tolice, por causa
da Politica ! . . . »
— Bem! concluiu o Fidalgo. A Politica nos se-
parou, a Politica nos reúne. .. É o que se chama a
inconstância dos Tempos e dos Impérios.
E agarrou Gracinha pelos hombros, com um
beijo brincalhão, estalado em cada face:
— A tia Arminda ? Boa, da escaldadella ? Já vol-
tou ás façanhas de Leandro o Bello ?
Gracinha resplandecia, com o lento sorriso que se
não desfizera, a envolvia toda em claridade e doçura :
— A tia Arminda está melhor, já anda. Per-
LTuntou por ti . . . !Mas, oh Gonçalo, tu de certo que-
res jantar!
— Não, almocei tremendamente em Corinde...
278 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
Vocês, como jantaram á hora antiga da tia Arminda,
ceiam, hein? Então logo ceio... Agora apenas uma
chávena de chá, muito forte!
Gracinha correu, no alvoroço de servir o heroe
querido. E pela escada, descendo com Barròlo que o
contemplava, o Fidalgo da Torre lamentou os seus
sacrifícios:
— É verdade, menino, é uma raassada... Mas
que diabo! todos devemos concorrer para tirar o
paiz do atoleiro!
Barròlo, maravilhado, murmurava:
— E sem dizeres nada... Assim á capucha! As-
sim á capucha! . ..
— E agora outra cousa, Barròlo. Amanhã, no Go-
verno Civil, deves convidar o André a jantar...
— Com certeza! gritou o Barròlo. Jantar d'es-
trondo?
— Não, homem! Jantar muito quieto, muito in-
timo. Unicamente o André e o João Gouveia. Tele-
graphas ao João Gouveia. Também podes convidar
os Mendonças . . . Mas jantar muito discreto, só para
conversarmos, para tirmar a reconciliação d'um
modo mais sociável, mais elegante.
Ao outro dia, no Governo Civil, Barròlo e o Ca-
valleiro apertaram as mãos com tanta singelleza, co-
mo se ambos, ainda na véspera, andassem jogando
o bilhar e caturrando no club da rua das Pegas.
A ILLISTRE CASA DE RAMIRES 279
])e resto conversaram siimmariamente sobre a Elei-
ção. Apenas o Cavalleiro alludira com indolência aos
votos de Murtosa — o bom Barrôlo quasi se engasgou,
na anciã de os offerecer:
— E o que vocês quizerem . . . Votos, dinheiro,
o que vocês quizerem! . . . Vocês digam 1 Eu vou para
a Murtosa, e é comezaina, e pipa de vinho aberta, e
a freguezia inteira a votar no meio de foguetorio . . .
O Cavalleiro, rindo, amansou aquelle fervor faus-
toso:
— Não. meu caro Barrôlo, não! Nós preparamos
uma eleição muito sóbria, muito socegada. Villa Clara
elege Gonçalo Mendes Ramires deputado, natural-
mente, como o seu melhor homem. Não ha combate,
o Julinho é uma sombra. Portanto...
O Barrôlo persistia, radiante, gingando :
— Perdão, André, perdão! Lá isso vinhaça, e vi-
vorio, e foguetorio, e festança magna...
Mas Gonçalo, embaraçado, ancioso por suster a
garrulice do Barrôlo, as palmadas carinhosas com
que elle se atufava na intimidade do Cavalleiro,
apontou para a mesa de S. Ex.":
— Tu tens que fazer, André. Vejo ahi uma pa-
pelada pavorosa . . . Não roubemos mais tempo ao
chefe illustre do Districto! Ao trabalho!
Trabalhar, meu irmão, que o trabalho
E André, é virtude, é valor I . . .
280 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
Agarrara o chapéu, acenando ao cunhado. En-
tão Barrôlo, com as bochechas a estalar de gosto,
balbuciou o convite que firmaria a reconciliação
d*um modo sociável e elegante :
— Cavalleiro, para conversarmos melhor, se
você nos quizer dar o gosto de vir jantar... Quinta
feira, ás seis e meia . . . Mós, quando cá está o Gon-
çalo, jantámos sempre mais tarde.
. O Cavalleiro, que corara, agradeceu com dis-
creta ceremonia:
— É para mim um immenso prazer, uma im-
mensa honra . . .
E á porta da antesala onde os acompanhara, se-
gurando o pesado reposteiro de baeta escarlate com
as Armas Reaes bordadas — supplicou ao Barròlo que
pozesse os seus respeitos aos pés da snr.'^ D. Gra-
Çã...
Barrôlo, descendo a larga escadaria de pedra,
limpava a testa, o pescoço, humedecidos pela emo-
ção. E no páteo desabafou :
— Muito sympathico este André! Rapaz franco,
de quem sempre gostei . . . Piealmente estava morto
que acabassem estas historias . . . E mesmo lá para
os Cunhaes, para a companhia, para o cavaco, que
bella acquisição!
A ILLLSTOE CASA DE RAMIRES 281
Quinta íeiru de manhã depois do almoço, no ter-
raço do jardim onde tomavam cate, Gonçalo re-
commendoLi ao Barròlo que «para accentuar mais
completamente a intimidade simples do jantar não
pozesse casaca ...»
— E tu, Gracinha, vestido afogado. Mas vestidi-
nho claro, alegre...
Gracinha sorriu, indecisamente, continuando a
lolhear um Almanach de Lembranças estendida
n'uma cadeira de verga, com um gatinho hranco
no regaço.
Depois do alvoroço e pasmo de Domingo, ella
apparentava agora um desinteresse silencioso pela re-
conciliação que ainda abalava Oliveira, pela Eleição,
pelo jantar. Mas n'esses dias não socegára — tão im-
paciente e sensível que o bom Barròlo incessante-
mente lhe aconselhava o grande remédio da Ma-
mã contra os nervos, «flores d'alecrira, cosidas em
vinho branco.»
Gonçalo percebia claramente a perturbação em
que a lançava aquella entrada triumphal de André,
do antigo André, na sua casa de casada, nos Cu-
nhaes. E para se tranquillisar evocava (como na es-
trada do cemitério em Villa-Clara) a seriedade de
Gracinha, o seu rigido e puro pensar, a altivez da
sua alm asinha heróica. ]N"essa manhã mesmo, todo
282 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
no fresco e soffrego cuidado da sua Eleição, só re-
ceava que Gracinha, por embaraço ou cautella, aco-
lhesse seccamente o Cavalleiro, o esfriasse no seu
renovado íervor pela casa de Ramires, no seu pa-
trocinato Politico. E insistiu, gracejando :
— Ouviste, Gracinha? Um vestido branco. Um
vestidinho alegre, que sorria aos hospedes . . .
EUa murmurou, mergulhada no sen Al/nanac/i :
— Sim, realmente, com este calor . . .
Mas Barrôlo bateu uma palmada na coxa. Que
pena! que pena não ter em Oliveira, «para o brinde
de reconciliação», um famoso vinho do Porto, da gar-
rafeira da Mamã, preciosissimo, velhíssimo, do tempo
de D. João lí . . .
— D. João II? rosnou Gonçalo. Está estragado!
Barrôlo hesitou:
— D. João II ou D. João VI... Um d'esses Reis.
Emfim um vinho único, do século passado! Só restam
á mamã oito ou dez garrafas... E hoje, era dia para
uma, hein?
O Fidalgo deu um sorvo lento ao café:
— O André, antigamente, também gostava muito
d'bvos queimados . . .
Bruscamente Gracinha fechou o Al/ticoiach — e,
com uma fuga (^ um silencio que emmudeceram
Gonçalo, sacudiu do collo o gato dorminhoco, atra-
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 283
vessoii O terraço, desappareceu entre os teixos altos
do jardim.
Mas á tarde, quando o Fidalgo occupou o seu
logar na mesa oval, junto da prima Maria Mendon-
ça— logo notou, entre duas compoteiras, uma tra-
vessa d'ovos queimados. Apesar de jantar tão intimo
■"serviam, com a louça da China, os famosos talheres
dourados da baixella do tio Melchior. E duas jarras
de Saxe transbordavam de cravos brancos e ama-
rellos, cores heráldicas dos Ramires.
D. Maria, que não encontrara o querido primo
desde os annos de Gracinha, murmurou com um
sorriso, uma grave cortezia, n"aquelle cerimonioso
silencio em que se desdobravam os guardanapos:
— Ainda lhe não dei os parabéns, primo Gon-
çalo . . .
Elle acudiu, mechendo nervosamente nos copos:
— Chut! prima, chut! Hoje aqui, já está decidi-
do, não se allude sequer a Politica. . . Está muito ca-
lor para Politica.
Ella suspirou de leve, como desíallecida : Ai, o
calor... Que horrível calor! Desde que entrara nos
Cunhaes com aquelle vestido preto que «era o seu
pallio rico» — ainda não cessara de invejar a íres-
cura do vestido branco de Gracinha . . .
— Que bem que lhe fica! Está hoje linda!
Era um vestido liso de crepon branco, que
28i A ILLLSTP.E CASA DE RAMIRES
aclarava, remoçava a sua graça quasi virginal. E
nunca realmente tanto prendera, assim clara e fina,
com os verdes olhos refulgindo como esmeraldas la-
vadas, uma ondulação mais lustrosa nos pesados ca-
bellos, um macio rubor transparente, todo mu fresco
brilho de ílôr regada, de ílôr revivida, apesar do aca-
nhamento que lhe immobilisava os dedos ao erguer a
colher de prata dourada. E ao lado, superiormente
robusto e largo, com o peitilho arqueado como uma
couraça e cravejado de duas saphiras, uma rosa bran-
ca desabrochada na lapella, André Cavalleiro, que re-
cusara a sopa (oh, no verão nunca comia sopa 1) do-
minava a mesa, levemente commovido também, pas-
sando sobre o reluzente bigode um lenço tão perfu-
mado que afogava o perfume dos cravos. Mas foi elle
que encadeou a animação com risonhos queixumes
sobre o calor — o escandaloso calor d'01iveira.. . Ahl
que Purgatório abrasado —depois dos seus dois dias
de Paraiso, na frescura deliciosa de Cintra!
D. Maria Mendonça adoçou os espertos olhos
para o Snr. Governador Civil. — E então Cintra?
Animada? Muitos ranchos á tarde, em Setiaes? En-
contrara a Condessa de Chellas - a prima Chel-
las?...
Sim, na Pena, na sua visita á Rainha, Caval-
leiro conversara durante um momento com a Snr."
Condessa de Chellas...
A ILLISTRE CASA DK RAMIRES 285
— Ah! e a Rainha ? . . .
— Oh, sempre encantadora . . .
A Snr." Condessa de Chellas, essa, um pouco
magra. Mas tão amável, tão intelligente, tão verda-
deiramente grande dame — não é verdade? E, como
se inclinara para Gracinha, com uma doçura infinita
no simples mover da cabeça — ella, perturbada, mais
vermelha, balbuciou que não conhecia a Condessa
de Chellas... — D. Maria Mendonça accusou logo a
inércia dos primos Barrôlos, sempre encafurnados
nos Cunhaes, sem nunca se aventurarem a Lisboa
no inverno, para conviver, para conhecer os paren-
tes.. .
— E a culpa é do primo José, que detesta Lis-
boa...
Oh não 1 Barròlo não detestava Lisboa ! Se po-
desse acarretar para Lisboa as suas commodidades,
o seu quarto, a sua cocheira, a boa agua do po-
mar, a rica varanda sobre o jardim — até se rega-
lava !
— Mas entalado n"aquelles quartinhos do Bra-
gança... E depois a má comida, o barulho... A Gra-
cinha em Lisboa nunca dorme . . . E a massada das
manhãs?... Não ha nada que fazer em Lisboa, de
manhã !
O Cavalleiro sorria para o Barròlo, como enle-
286 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
vado na sua graça e razão. Depois confessou que
ello, apesar de habitar também (mercê do Estado!) um
palacete confortável, e gozar também uma agua ex-
cellente, a finíssima agua do Poço de S. Domingos,
lamentava que os deveres de Politica, a disciplina
de Partido o amarrassem a Oliveira. E toda a sua es-
perança era a queda do }.Iinisterio, para se liber-
tar, passar três mezés divinos em Itália . . .
Do outro lado de Gracinha, João Gouveia (sem-
pre acanhado e mudo deante de senhoras) excla-
mou, num impulso d'amisade, de convicção:
— Pois, Andrésinho, vae perdendo a esperan-
ça! O S. Fulgencio não arreia ! Ainda cá te apa-
nhamos uns três ou quatro annos!
E insistiu, debruçado sobre Gracinha, n'um es-
forço d'amabilidade que o esbraseava:
— OS. Fulgencio não arreia. Ainda cá temos
o nosso André mais três ou quatro annos.
André protestava, com um requebro, as espessas
pestanas quasi cerradas :
— Oh meu João! não me queiras mal, não me
queiras mal !. . .
E teimava. Ah, com certeza! ainda que deser-
tasse o seu partido (e que importa em hoste pode-
rosa uma lança ferrugenta?) esses niezes d'Italia
no in\erno já os sonhara, já os preparava... — E a
A ILLLSTRE CASA DE RAMIRES
Snr.'^ D. Graça não permittia que elle a servisse
d'Lim pouco de vinho branco?
Barròlo estendeu o braço, com effusão:
— Oh Cavalleiro ! eu tenho empenho em que
você prove esse vinho com cuidado ... É da minha
propriedade do Corvello... Faço muito gosto n"elle.
Mas prove com attençâo!
S. Ex.'"' provou com devoção, como se commun-
gasse. E com uma cortezia compenetrada para Bar-
ròlo que reluzia de gosto :
— Uma delicia! uma verdadeira delicia!
— Hein? Não é verdade? Eu, para mim, pre-
tiro este vinho do Corvello a todos os vinhos fran-
cezes, os mais finos . . . Até alli o nosso amigo Padre
Sueiro, que é um Santo, o aprecia!
Silencioso, esbatido por traz d'uma das altas jar-
ras de cravos, Padre Sueiro corou, sorriu:
— Com muita agua, infelizmente, Snr. José Bar-
roto... O gosto pede, mas o rheumatismo não con-
sente .
Pois José Mendonça, que não temia rheumatis-
mos, atacava sempre bravamente aquelle bemdito
Corvello ...
- Que lhe parece a você, João Gouveia ?
Oh! João Gouveia já o conhecia, louvado Deus!
E certamente nunca encontrara em Portugal, como
:288 A iLLi:sTRE casa de ramiues
vinho branco, nenhum comparável pela frescura.
pelo aroma, pela seiva . . .
— E cá lhe vou atiçando com íervor, Barròlo
amigo! Esta bella garrafa de crystal vae de ven-
cida!
Barròlo exultava. O seu desgosto era que Gon-
çalo nunca honrasse «aquelle néctar.» — Não! Gon-
çalo não tolerava vinhos brancos . . .
— E então hoje estou com uma d*estas sedes
que só me satisfaz vinho verde, assim um pouco
espumante, e com gelo... Que este de Vidainhos
também é do Barròlo. Oh, eu não desprezo os vi-
nhos da familia . . . Este Vidainhos sinceramente o
considero sublime.
Então Cavalleiro desejou provar esse sublime
vinho verde da quinta de Vidainhos, em Amarante.
() escudeiro, a um aceno enthusiasmado do Barròlo.
apresentou a Sua Ex.'' um copo esguio, especial
para aquelle vinho que espumava. Mas o Cavalleiro,
acariciando o íresco copo sem o erguer, repisou a
idéa de lerias, de viagens, como accentuando o seu
cançasso e fastio d'01iveira.— E sabia a Snr." D. Graça ,
para onde elle seguiria, depois da Itália, nesse in-
verno, se por caridade de Deus o Ministério ca-
hisse ? . . . Para a Ásia Menor.
— E era uma viagem para que eu, com certesa,
tentava o nosso (ioncalo... Tão íacil, agora, com os
A irXUSTllE CAS.V DE IIAMIUES 289
caminhos de ferro ! . . . De Veneza a Constantinopla um
mero passeio. Depois, de Constantinopla a Smyr-
na, um dia, dous dias, n'um vapor excellente. E
d'ahi n'uma bôa caravana, por Tripoli, pela antiga
Sidónia, penetrávamos em Galiléa... Galiléa! Hein
Gonçalo? Que bclleza!
Padre Sueiro, suspendendo o garfo, lembrou ti-
midamente— que em Galiléa o Snr. Gonçalo Rami-
res pisaria terra que outr'ora, por pouco, pertencera
á sua Casa:
— Um dos antepassados de V. Ex.^ Gutierres
Ramires, companheiro de Tancredo na primeira Cru-
zada, recuzou o ducado de Galiléa e de Além-Jordâo...
— Fez pessimamente! gritou Gonçalo, rindo. Oh,
esse avô Gutierres andou pessimamente ! Por que não
existia agora, n'este mundo, disparate mais diver-
tido do que eu Duque de Galiléa! O Snr. Gon-
çalo Mendes Ramires, Duque de Galiléa e d'Além-
•Tordão!... Era simplesmente de rebentar 1
Cavalleiro protestou, com sympathia:
— Ora essa! Por que?
— Nâo acredite! acudiu, com os olhos coruscan-
tes, D. Maria Mendonça. O primo Gonçalo, com to-
das estas graças, no íundo, é rauitissimo aristocra-
ta.. . Mas terrivelmente aristocrata !
O Fidalgo da Torre pousou o copo de Vidainhos,
depois d'um trago saboreado e fundo:
19
290 A ILLLSTRE CASA DE RAMIRES
— Aristocrata... Está claro que sou aristocrata.
Sentiria com effeito certo desgosto em ter nascido,
como ama herva, d'outras hervas vagas. Gosto de
saber que nasci de meu pae Vicente, que nasceu de
seu pae Damião, que nasceu de seu pae Ignacio, e
assim sempre até não sei que Rei Suevo . . .
— Recesvinto ! informou respeitosamente Padre
Sueiro.
— Pois até esse Recesvinto. O peor é que o
sangue de todos esses pães não differe realmente do
sangue dos pães do Joaquim da Porta. E que depois
do Recesvinto, para traz, até Adão, não tenho mais
pães!
E, emquanto todos riam, D. Maria Mendonça,
debruçada para elle, por traz do leque largamente
aberto, murmurou:
— O Primo está com esses deprezos... Pois eu
sei d' uma senhora que tem a maior admiração pela
casa de Ramires e pelo seu representante.
Gonçalo enchia de novo o copo, com amor, at-
tento á espuma:
— Bravo! Mas «convém distinguir», como diz o
Manoel Duarte. Por quem tem ella a verdadeira
admiração, por mim ou pelo Suevo, pelo Reces-
vinto?
— Por ambos.
— Diabo !
A ILLLSTRE CASA DE RAMIRES 291
Depois, pousando a garrafa, mais sério:
— Quem é?
Oh! ella não podia confessar. Não era ainda
bastante velha para andar com recadinhos de senti-
mento. Mas Gonçalo dispensava o nome — só dese-
java as qualidades... Nova? Bonita?
— Bonita? exclamou D. Maria. É uma das mu-
lheres mais formosas de Portugal!
Espantado, Gonçalo lançou o nome :
— A D. Anna Lucena!
— Por quê?
— Por que mulher assim tão formosa, e vivendo
n'estes sitios, e tão conhecida da prima que lhe faz
confidencias, só a D. Anna.
D. Maria, ageitando as duas rosas que lhe ale-
gravam o corpete de seda preta, sorria:
— Talvez seja, talvez seja . . .
— Pois estou immensamente lisongeado. Mas
ainda distingo, como o Manoel Duarte. Se, da parte
d'ella, essa sympathia toda é para o bom fim, não!
Xão, santo Deus, não!... Mas se é para o mau fim,
então, prima, cumprirei honradamente o meu dever
dentro das minhas forças . . .
D. Maria escondeu a face no leque, escandali-
sada. Depois, espreitando, com os agudos olhos a
faiscar :
— Oh primo, mas o bom fim é que convinha.
Í\)Í A ILLUSTKE CASA UE HA.MIUES
por que a cousa é a mesma e são duzentos contos
a mais!
Gonçalo gritou d'admiraçâo :
— Oh! esta prima Maria! Não ha em toda a Eu-
ropa ninguém mais esperto!
Todos curiosamente anciaram por saber a nova
graça da Snr,*^ D. Maria. Mas Gonçalo deteve as cu-
riosidades :
— Não se pôde contar. É casamento.
Então José Mendonça recordou a novidade pi-
cante que desde a véspera remexia Oliveira:
— Por casamento ! . . . Que me dizem ao casa-
mento da D. Rosa Alcoforado?
Barrôlo, depois o Gouveia, até Gracinha, todos
o proclamaram «um horror.» Aquella perfeita rapa-
riga, de pelle tão còr de rosa, de cabello tão còr d'ou-
rO, amarrada ao Teixeira de Carredes, um patriarcha
carregado de netos... Que desastre!
Pois ao Cavalleiro o casamento não parecia as-
sim «desastrado.» O Teixeira de Carredes, além de
muito fino, de muito intelligente, era uni velho ver-
dejante, quasi sem rugas — até bonito com aquelle
contraste do bigode escuro e da grenha riçada e bran-
ca. E na Snr." D. Rosa, com todas as rosas da sua
pelle e todo o ouro dos seus cabellos, dominava «um
não sei què» de amollentado e de sorvado... Depois
A ILUSTRE CASA DE RAMIRES 293
pouco esperta. E pouco cuidadosa — sempre mal pen-
teada, sempre mal pregada . . .
— Euifim, V. Ex.**' perdoem .. . Mas quem faz um
casamento muito desenxabido é o pobre Teixeira de
Carredes.
D. Maria Mendonça considerava o Governador
Civil com um espanto amável:
— Pois se o Snr. Cavalleiro nâo admira a Rosi-
nha Alcoforado, não sei então que rapariga admire
dentro do seu Districto . . .
EUe, logo, com galante rasgo :
— Mas, além de V. Ex.''", não admiro ninguém!
Realmente eu governo, em Portugal, o Districto mais
daprovido de belleza . . .
Todos protestaram. E a Maria Marges? E a pe-
quena Reriz, da Riosa? E a Mellosinho Alboim,
com aquelles olhos?... Mas o Cavalleiro nâo con-
sentia, a todas demolia com um sarcasmo leve, ou
pela pelle sem frescura, ou pelo pisar desairoso, ou
pelo provincianismo de gosto e modos, sempre pela
carência das bellezas e graças que ornavam Gra-
cinha— lançando assim disfarçadamente, aos pés de
Gracinha, ura rolo de senhoras vencidas e amarfa-
nhadas. Ella percebera a subtil adulação, os seus
olhos allumiaram com um íulgor mais enternecido
o rubor que a afogueava. Desejou repartir incenso
29i A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
tâo accumulado — lembrou timidamente outra belleza
de que se orgulhava o Districto :
— A filha do Visconde de Pvio-Manso, a Rosinha
Rio-Mauso . . . É linda!
O Cavalleiro triumphou com facilidade:
— Mas tem doze annos, minha senhora! Nem é
rosinha, é botâosinho de rosa!...
Quasi humildemente, Gracinha recordou a Luiza
Moreira, filha d" um lojista, muito admirada aos do-
juingos na missa da Sé e no Terreiro da Louça:
— É uma bella rapariga. . . Sobretudo a figura . . .
Cavalleiro triumphou ainda, com requebrada
segurança :
— Sim, mas os dentes tortos, Sur.*^ D. Graça! Os
dentes acavallados! Y. Ex." nunca reparou... Oh! uma
boca muito desagradável! E, além dos dentes, o ir-
mão, o Evaristo, com aquella cara mais chala que a
alma, e a caspa, e a porcaria, e o jacobinismo... Não
ha mulher bonita com irmão tão feio!
Mendonça estendera o braço, com outra curiosi-
dade que occupava Oliveira :
— E por Evaristo!... Ello sempre funda o novo
jornal republicano, o Rebfde?
O Snr. Governador Civil encolheu «s hombros
com uma ignorância superior e risonha. Mas João
Gouveia, vermelho e luzidio depois da sua garrafa
de Corvello e da sua garrafa de Douro, affiancou
A ILLISTRE CASA PE RAMIRES 295
que. o Rebate apparecia em Novembro. Até elle co-
nhecia o patriota que esportulava a «massa.» E a
campanha do Rebate começava com cinco artigos
esmagadores sobre a Tomada da Bastilha.
O espanto de Gonçalo era como o Republicanis-
mo alastrara em Portugal — até na velhota, na de-
vota Oliveira . . .
— Quando eu andava em preparatórios existiam
simplesmente dois republicanos em Oliveira, o velho
Salema, lente de Rhetorica, e eu. Agora ha partido,
ha comité, ha dous jornaes... E ha mesmo o Barão
das Marges com a Voz Publica na mão, debaixo da
Arcada , . .
Mendonça não receava a Republica, gracejava:
— Ainda vem longe, muito longe... Ainda nos
dá tempo de comermos estes bellos ovos queimados.
— Deliciosos, murmurou o Cavalleiro.
— Sim, concordou Gonçalo, ainda temos tempo
para os ovos... Mas que rebente uma revolução em
Hespanha, ou que morra o Reisinho na sua menori-
dade, que naturalmente morre...
— Credo! Coitadinho! Pobre mãe! murmurou
Gracinha sensibilisada.
Immediatamente o Cavalleiro a tranquillisou.
Porquê, morrer o Reisinho d'Hespanha? Os republi-
canos espalhavam boatos sombrios sobre os males da
excellente creanca. INIas elle conhecia a realidade —
296 A ILUSTRE CASA DE RAMIRES
assegurava á Snr." D. Graça que, felizmente para
a Hespanha, ainda reinaria um Aftonso XIII e mes-
mo um Affonso XIV. Em quanto aos nossos republi-
canos, esses... Meu Deus! mera questão de guarda
municipal ! Portugal, nas suas massas profundas, per-
manecia monarchico, de raiz. Apenas ao de cima, na
burguezia e nas escolas, íluctuava uma escuma li-
geira, e bastante suja, que se limpava facilmente
com um sabre . . .
— V. Ex.", Snr.*^ D. Graça, que é uma dona de
casa perfeita, conhece esta operação que se faz á
panella do caldo... Escumar a panella. É com uma
colher. Aqui é com um sabre. Pois assim, com toda
a simplicidade, se clarifica Portugal. E foi isto que
ainda ultimamente eu declarei a El-rei.
Alteara a cabeça— o seu peitilho resplandecia,
mais largo, como couraça bastante rija para defen-
der toda a Monarchia. E, no compenetrado silencio
que se alargou, duas rolhas de Champagne estalaram,
por traz do biombo, na copa. •
Apenas o escudeiro, apressado, enchera as taças
— o Fidalgo da Torre com uma gravidade que o sor-
riso adoçava :
— André, á tua saúde. Não é ao Governador Ci-
vil, é ao amigo!
Todos os copos se ergueram n'um susuro aca-
riciador. João Gouveia agitou o seu, com especial
A ILLUSTHE CASA DE RAMIRES 297
effiisâo, gritando : — « Andrésinho, meu velho ! »
S. Ex.'^ apenas tocou de leve no cálice de Gracinha.
Padre Sueiro murmurou as «graças.» E Barròlo,
atirando o guardanapo:
— Caíé aqui ou na sala?... Na sala estamos
mais frescos.
Na sala grande, a sala dos velludos vermelhos,
o lustre rebrilhava solitariamente ; pelas três janellas
abertas penetrava a serenidade da noite quente, o re-
colhido silencio d'01iveira; e em baixo, no Largo, al-
guns sujeitos, mesmo duas senhoras de manta de lã
branca pela cabeça, pasmavam para aquella claridade
de festa que jorrava dos Cunhaes. O Cavalleiro e Gon-
çalo accenderam os charutos na varanda, respirando
a frescura escassa. E o Cavalleiro, com beatitude:
— Pois sempre te digo, Gonçalinho, que se janta
sublimemente em casa de teu cunhado!...
Gonçalo desejou que, no domingo, elle jantasse
na Torre. Ainda restavam umas garrafas de Ma-
deira do tempo do avô Damião — a que se daria, com
soccorro do Gouveia e do Tito, um assalto heróico.
O Cavalleiro prometteu, já deliciado — tomando
da pesada bandeja de prata, que derreava o escudei-
ro, a sua chávena de café, sem assucar.
— E tu, com effeito, Gonçalo, agora não deves
arredar da Torre. O teu papel é todo de presença
na localidade. O Fidalgo da Torre está no meio das
298 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
suas terras, por onde vae ser eleito para as Cortes.
É o teu papel . . .
O Barrôlo com um riso enlevado, surdiu entre
os dous amigos que enlaçou ternamente pela cinta:
— E nós cá ficamos, ambos a trabalhar, o Ca-
valleiro e eu ! . . .
Mas D. Maria, do canapé onde se enterrara, re-
clamou o primo Gonçalo « para negócios. » .Tunto
d'uma console, João Gouveia e Padre Sueiro, re-
mexendo o seu caíé. concordavam na necessidade
d"um Governo forte. E Gracinha, com o primo Men-
donça, revolvia as musicas sobre a tampa do piano,
procurando o Fado dos Ramires. Mendonça tocava
com corredio brilho, composera valsas, um hymno
ao Coronel Trancoso, o heroe de Machumba — e mes-
mo o primeiro acto d"uma opera, A Pegureiro. E
como não doscortinavam o Fado com as quadras
do Videirinha — foi justamente uma das suas valsas,
a Pérola, d'uma cadencia amorosa e cançada lem-
brando a valsa do Fausto, que elle atacou, sem lar-
gar o charuto.
Então André Cavalleiro, que repenetrára vaga-
rosamente na sala, repuxou o coUete, afagou o bigo-
de, e avançando para Gracinha, com um modo meio
grave, meio lolgazâo:
— Se V. Ex." me quer dar a grande honra?...
Offerecia, abria os braços. E Gracinha, toda es-
A ILLISTRE CASA DE RAMIRES 299
carlate, cedeu, levada logo nos largos passos desli-
sados que o Cavalleiro lançou sobre o tapete.
Barròlo e João Gouveia correram a afastar as pol-
tronas, clareando um espaço, onde a valsa se des-
enrolou com o suave sulco branco do vestido de Gra-
cinha. Pequenina e leve, toda elia se perdia, como se
fundia, na força máscula do Cavalleiro, que a arre-
batava em giros lentos, com a face pendida, respi-
rando os seus cabellos magníficos.
Da borda do canapé, com os finos olhos a fu-
silar, D. Maria Mendonça pasmava:
— Mas que bem que valsa, que bem que valsa
o Snr. Governador Civil ! . . .
Ao lado Gonçalo torcia nervosamente o bigode,
na surpreza d'aquella íamiliaridade, assim renovada
pelo Cavalleiro com tão serena confiança, por Graci-
nha com tanto abandono... Elles torneavam, enlaça-
dos. Dos lábios do Cavalleiro escorregava um sorriso,
um murmúrio. Gracinha arfava, os seus sapatos de
verniz reluziam sob a saia que se enrolava nas cal-
ças do Cavalleiro. E Barrôlo, em extasi, quando elles
o roçavam, atirava palmas carinhosas, bradava:
— Bravo! Bravo! Lindamente!... Bravíssimo!
VII
Gonçalo recolhia para o almoço depois d'uni pas-
seio no pomar percorrendo a Gazeta do Porto, quan-
do avistou no banco de pedra, rente á porta da co-
sinha, onde a Rosa mudava o painço na gaiola do
seu canário, o Casco, o José Casco dos Bravaes, que
esperava, pensativo e abatido, com o chapéu sobre os
joelhos. Vivamente, para se esquivar, remergulhou
no jornal. Mas percebeu a esgalgada magreza do ho-
mem, que surdia da sombra da latada, avançava na
claridade faiscante do pateo, hesitando, como assus-
tada... E, animado pela visinhança da Piosa, parou,
forçando um sorriso— em quanto o Casco enrolava
nas mãos tremulas a aba dura do chapéu, balbu-
ciava :
— Se o Fidalgo me fizesse a esmola de uma pa-
lavra ...
302 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
— Ah! é vossê, Casco! Homem, não o conheci...
E então?
Dobrou o jornal, tranquillisado — gozando mes-
mo a submissão d'aquelle valente que tanto o apa-
vorara, erguido e negro como um pinheiro, na soli-
dão do pinheiral. E o Casco, engasgado, repuchava,
esticava o pescoço de dentro dos grossos collarinhos
bordados — até que atirou toda a alma n'uma sup-
plica soluçada, retendo as lagrimas que marejavam:
— Ai, meu Fidalgo, perdoe por quem é! Perdoe,
que eu nem lhe sei pedir perdão ! . . .
Gonçalo atalhou o homem, com generosidade
e doçura. Elle bem o avisara! Nada se emenda, a
gritar, com o pau alçado . . .
— E olhe. Casco ! Quando vossè me sahiu ao pi-
nhal eu levava um revólver na algibeira... Trago
sempre um revólver. Desde que uma noite em
Coimbra, no Choupal, dous bêbados me assaltaram,
ando sempre á cautella com o revólver... Pense você
agora que desgraça se tiro o revólver, se desfe-
cho! ... Que desgraça, hein?... Felizmente, n um re-
lance, pensei que me perdia, que o matava, e fugi.
Foi por isso que íugi, para não desfechar o revól-
ver... Emfim tudo passou. E eu não sou homem
de rancores, já esqueci. Coratanto que vossè, agora
socegado e no seu juizo, esqueça também.
O Casco amassava as abas do chapéu, com a ca-
A ILUSTRE CASA DK RAMIRES 303
beça derrubada. E sem a erguer, sem ousar, rouco
dos soluços que o entalavam:
— Pois agora é que eu me lembro, meu Fidal-
go! Agora é que me ralo por aquella doidice! Ago-
ra! depois do que o Fidalgo íez pela mulher e pelo pe-
queno!. . .
Gonçalo sorriu, encolheu os hombros:
— Que tolice. Casco!... Pois a sua mulher appa-
rece ahi n'uma noite d'agua. .. E o pequenito doente,
coitadito, com febre... Como vae elle, o Manelsinho?"
O Casco murmurou do fundo da sua humildade :
— Louvado seja Deus, meu senhor, muito são-
sinho, muito rijinho.
— Ainda bem . . . Ponha o chapéu. Ponha o cha-
péu, homem ! E adeus ! . . . Vossè não tem que agra-
decer, Casco . . . E olhe ! Traga cá um dia o pequeno.
Eu gostei do pequeno. É espertinho.
Mas o Casco não se arredava, pregado ás lages.
Por íira, n'um soluço que rebentou:
— E que eu não sei como hei-de dizer, meu Fi-
dalgo... Lá o dia de cadeia, acabou! Tenho génio,
íiz a asneira, com o corpo a paguei. E pouco paguei,
graças ao Fidalgo . . . ilas depois quando sahi, quando
soube que a mulher viera de noite á Torre, e que o
Fidalgo até a embrulhara n'uma capa, e que não dei-
xara sahir o pequeno ...
Estacou, afogado pela emoção. E como Gonçalo,
304 A ILLUSTRE CASA DE RA.MIRES
também commovido, lhe batia risonhamente no hom-
bro, «para acabar, não se tallar mais n"essas baga-
tellas. ..»~o Casco rompeu, n'Lima grande voz do-
lorosa e quebrada:
— Mas é que o Fidalgo não sabe o que é para
mim aquelle pequeno!... Desde que Deus m'o man-
dou tem sido uma paixão cá por dentro que até pa-
rece mentira!... Olhe que na noite que passei na
cadeia da villa não dormi... E Deus me perdoe, não
pensei na mulher, nem na pobre da velha, nem na
pouquita terra que amanho, tudo ao desamparo.
Toda a noite se foi a gemer:— «ai o meu querido
filhinho! ai o meu querido filhinho!. . .» Depois quando
a mulher, logo pela estrada, me diz que o Fidalgo
ficara com elle na Torre, e o deitara na melhor ca-
ma, e mandara recado ao medico.. . E depois quando
soube pelo snr. Bento que o Fidalgo de noite subia
a vêr se elle estava bem coberto, e lhe entalava a
roupa, coitadinho...
E arrebatadamente, n'um choro solto, gritan-
do:— «Ai meu Fidalgo! meu Fidalgo!...» — o Casco
agarrou as mãos de Gonçalo, que beijava, rebeijava,
alagava de grossas lagrimas.
— Então, Casco! Que tolice!... Deixe homem!
Pallido, Gonçalo saccudia aquella gratidão fu-
riosa—até que ambos se encararam, o Fidalgo com
as pestanas molhadas e tremulas, o lavrador dos Bra-
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 305
vaes soluçando, n'uma confusão. E íoi elle por fim que,
recalcando um derradeiro soluço, se recobrou, des-
afogou da idéa que o trouxera, que de certo funda-
mente o trabalhara, e que agora lhe enrijava a face
C! o gesto n'uma determinação que nunca vergaria:
— Meu Fidalgo, eu não sei fallar, não sei dizer...
Mas se d'hoje em deante, seja para que fôr, o Fidalgo
necessitar da vida d'um homem, tem aqui a minha!
Gonçalo estendeu a mão ao lavrador, muito sim-
plesmente— como um Ramires d'outr'ora recebendo
a preitezia d' um vassallo:
— Obrigado, José Casco.
— Entendido, meu Fidalgo, e que Deus nosso
Senhor o abençoe!
Gonçalo, perturbado, galgou pela escadinha da
varanda — emquanto o Casco atravessava o páteo
vagarosamente, com a cabeça bem erguida, como
homem que devera e que pagara.
E em cima, na livraria, Gonçalo pensava com
espanto : — « Ahi está como n'este mundo sentimen-
tal se ganham dedicações gratuitamente!...» Por que
emfim ! quem não impediria que uma criancinha com
febre aíírontasse de noite uma estrada negra, sob a
chuva e o vendaval? Quem a não deitaria, não lhe
adoçaria um grog, não lhe entalaria os cobertores
para a conservar bem abafada? E por esse grog e
por essa cama — corre o pae, tremendo e chorando,
306 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
a oííerecer a sua vida! Ah! como era fácil ser Rei —
e ser Rei popular!
E esta certeza mais o animava a obedecer ás
recommendações do Cavalleiro ~ a começar imme-
diatamente as suas visitas aos Influentes eleitoraes,
essas aduladoras visitas que assegurariam á Elei-
ção uma unanimidade arrogante. Logo ao fim do
almoço, mesmo sobre a toalha, arredando os pra-
tos, copiou a lista d'esses Magnates — por um rascu-
nho annotado que lhe fornecera o João Gouveia.
Era o Dr. Alexandrino; o velho Gramilde, de Ra-
milde; o Padre José Vicente, da Finta; outros me-
nores:— e o Gouveia marcara com uma cruz, como
o mais poderoso e mais difficil, o Visconde de Rio-
Manso, que dispunha da immensa freguezia de Can-
ta-Pedra. Gonçalo conhecia esses senhores, homens
de propriedade e de dinheiro (com todos outr'ora o
papá andara endividado)— mas nunca encontrara o
Visconde de Rio-Manso, ura velho brazileiro, dono
da quinta da Varandínha, onde vivia solitariamente
com uma neta de onze annos, essa linda Rosinha que
chamavam «o botão de Rosa», a herdeira mais rica
de toda a Província. E logo n'essa tarde, em Villa-
Clara, reclamou ao João Gouveia uma carta d"apre-
sentaçâo para o Rio-Manso :
O Administrador hesitou :
— Vossê não precisa carta... Que diabo! Vossè
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 307
é O Fidalgo da Torre ! Chega, entra, conversa. . . Além
d'isso na Eleição passada o Rio-Manso ajudou os Re-
generadores; de modo que estamos um pouco sêc-
cos. O Rio-Manso é um casmurro... Mas com effeito,
Gonçalinho, convém começar essa caça á populari-
dade!
N'essa noite, na Assembleia, o Fidalgo, ence-
tando a a caça á popularidade», acceitou um convite
do Commendador Romão Barros (do massador, do
burlesco Barros ) para o bródio íaustoso com que elle
celebrava, na sua quinta da Roqueira, a festa de S. Ro-
mão. E essa semana inteira, depois outra, as gastou
assim por Villa-Clara, amimando eleitores — a ponto
de comprar horrendas camisas de chita na loja do
Ramos, de encommendar um sacco de café na mer-
cearia do Tello, de offerecer o braço no largo do
Chafariz á nojenta mulher do bebedissirao Marques
Rosendo, e de frequentar, de chapéu para a nuca,
o bilhar da rua das Pretas. João Gouveia não ap-
provava estes excessos — aconselhando antes «boas
visitas, com todo o chie, aos influentes sérios. » Mas
Gonçalo bocejava, adiava, na insuperável preguiça
de afírontar a maledicência rabujenta do velho Gra-
milde ou a solemnidade forense do Dr. Alexandrino.
Agosto findava: — e por vezes, na livraria, Gon-
çalo, coçando desconsoladamente a cabeça, conside-
rava as brancas tiras d'almaço, o Capitulo III da Tor-
308 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
re de D. Ramires encalhado . . . Mas quê ! não podia,
com aquelle calor, com o afan da Eleição, remergu-
Ihar nas eras Affonsinas!
Quando refrescavam as tardes lentas montava,
alongava o passeio pelas freguezias, não se descui-
dando das recommendações do Cavalleiro — enchendo
sempre o bolso de rebuçados d'avenca para atirar ás
creanças. Mas, n'uma carta ao querido André, já con-
fessara que « a sua popularidade não crescia, não en-
funava...»— «Nãot positivamente, velho amigo, não
«tenho o dom! Sei apenas palestrar familiarmente
«com os homens, comprimentar pelo seu nome as ve-
«Ihas ás soleiras das portas, gracejar com a peque-
«nada, e se encontro uma boeirinha de saiasita rota
«dar cinco tostões á boeirinha para uma saiasita nova...
«Ora todas estas cousas tão naturaes sempre as fiz
«naturalmente, desde rapaz, sem que me conquisías-
«sem influencia sensível... Necessito portanto que
essa querida Authoridade m'empurre com o seu
braço possante e destro ...»
Todavia já uma tarde, encontrando junto da
Torre o velho Cosme de Nacejas, e depois, n'um do-
mingo, crusando ás Ave-Marias na Bica-Santa o
Adrião Pinto do logar da Levada, ambos lavradores
considerados e remexedores d'eleições — lhes pedira
os votos, desprendidamentc e rindo. E quasi se as-
sombrara da promptidão, do fervor, com que ambos se
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 309
offereceram. — «Para o Fidalgo? Pois isso está en-
tendido! Ainda que se votasse contra o Governo, que
é pae!» — E em Villa-Clara, com o Gouveia, Gonçalo
deduzia d'estas offertas tâo acaloradas «a intelligen-
cia politica da gente do campo»:
— Está claro que não é pelos meus lindos olhos!
Mas sabem que eu sou homem para fallar, para lu-
ctar pelos interesses da terra... O Sanches Lucena
não passava d'um Conselheiro muito rico e muito
mudo! Esta gente quer deputado que grite, que lide,
que imponha . . . Votam por mim por que sou uma
intelligencia.
E o Gouveia volvia, contemplando pensativa-
mente o Fidalgo :
— Homem! quem sabe? Vossê nunca experimen-
tou, Gonçalo Mendes Ramires. Talvez seja realmente
pelos seus lindos olhos!
N'um d'esses passeios, n'uma abrazada sexta-
feira, com o sol ainda alto, Gonçalo atravessava o lo-
garejo da Velleda, no caminho de Canta-Pedra. Ao
fim dos casebres que se apertam á orla da estrada
alveja, muito caiada, n'um terreiro defronte da Egre-
a, a taverna famosa «do Pintainho», onde os cara-
manchões do quintal e a nomeada do coelho gui-
zado attrahem vasto povo nos dias da feira da
310 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
Velleda. N'essa manhã o Tito, depois d' uma madru-
gada ás perdizes, em Valverde, apparecera na Torre
para almoçar, urrando, d'esíomeado. Era sexta-íeira
— a Rosa preparara uma pescada com tomates, depois
um bacalhau assado, formidáveis. E Gonçalo, toda a
tarde torturado com sede, mais resequido pela poeira
da estrada, parou avidamente deante do portão da
venda, gritou pelo Pintainho.
— Oh meu Fidalgo ! . . .
— Oh Pintainho! depressa! Uma sangria! Uma
grande sangria bem fresca, que morro . . .
O Pintainho, velhote roliço de cabello amarello,
não tardou com o copo appetitoso e fundo onde boia-
va, na espumasinha do assucar, uma rodella de li-
mão. E Gonçalo saboreava a sangria com ineffavel
delicia — quando da janella térrea da venda partiu
um assobio lento, fino e trinado, como os dos arriei-
ros que animam as bestas a beber nos riachos. Gon-
çalo deteve o copo, varado. A janella assomara um
latagão airoso, de face clara e suissas louras, que,
com os punhos sobre o peitoril e a cabeça levantada,
n'um descarado modo de pimponico e desafio, o fita-
va atrevidamente. E n'ura lampejo o Fidalgo reco-
nheceu aquelle caçador que já uma tarde, no logar
de Nacejas, ao pé da Fabrica de vidros, o mirara
com arrogância, lhe raspara a espingarda pela per-
na, e ainda depois, parado sob a varanda d'uma ra-
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 311
pariga de jaqué azul, lhe acenara chasqueando em-
quanto elle descia a ladeira . . . Era esse ! Como se
não percebesse o ultraje — Gonçalo bebeu apressada-
mente a sangria, atirou uma placa ao pobre Pintai-
nho enfiado, e picou a fina egoa. Mas então da ja-
nella rolou uma risadinha, cacarejada e troçante,
que o colheu pelas costas como o estalo d'uma ver-
gasta. Gonçalo soltou a galope. E adiante, sopeando
a egoa no refugio d'uma azinhaga, pensava, ainda
tremulo: — a Quem será o desavergonhado?... E que
lhe fiz eu. Santo Deus? que lhe fiz eu?...» Ao mesmo
tempo todo o seu ser se desesperava contra aquelle
desgraçado medo, encolhimento da carne, arrepio da
pelle, que sempre, ante um perigo, uma ameaça, ura
vulto surdindo d' uma sombra, o estonteava, o impel-
lia furiosamente a abalar, a escapar! Por que á sua
alma, Deus louvado, não faltava arrojo! Mas era o
corpo, o traiçoeiro corpo, que n'um arrepio, n'um
espanto, fugia, se safava, arrastando a alma — em-
quanto dentro a alma bravejava!
Entrou na Torre, mortificado, invejando a afou-
teza dos seus moços da quinta, remoendo um ran-
cor soturno contra aquelle bruto de suissas lou-
ras, que certamente denunciaria ao Cavalleiro e
enterraria n'uma enxovia! — Mas, logo no corre-
dor, o Bento lhe debandou os pensamentos, ap-
312 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
parecendo com uma carta «que trouxera um moça
da Feitosa ...»
— Da Feitosa?
— Sim senhor, da quinta do snr. Sanciíes Lu-
cena, que Deus haja. Diz que vinha de mandado
das senhoras...
— Das senhoras!... Que senhoras?
Sem tarja de luto, a carta nâo era da bella
D. Anna... Mas era de D. Maria Mendonça, que
assignava — «prima muito amiga, Maria Severim.»
N'um relance a leu, colhido logo por esta surpreza
nova, distrahido da venda do Pintainho e da aííron-
ta: — «Meu querido Primo. Estou ha três dias aqui
«com a minha amiga Annica, e como passou o mez
«inteiro do nojo e ella já pôde sahir (e até precisa
«porque tem andado fraca) eu aproveito a occasiâo
«para percorrer estes arredores que dizem tão boni-
«tos, e pouco conheço. Tencionamos no Domingo
« visitar Santa Maria de Craquêde, onde estão os tu-
« mulos dos antigos tios Ramires. Que impressão me
« vae fazer ! . . . Mas, ao que parece, além dos tumu-
«los do claustro, ha outros, ainda mais antigos, que
«foram arrombados no tempo dos Francezes, e que
«ficam n'um subterrâneo, onde se nâo pôde entrar
«sem licença e sem que tragam a chave. Peço pois.
«querido Primo, que dè as suas ordens para que
«no Domingo possamos descer ao subterrâneo, que
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 3i3
«todos affiançam muito interessante, por que ainda
«lá restam ossos e armas. Se na Torre houvesse
«uma senhora, eu mesma iria, para lhe fazer este
«pedido... Mas não se pôde visitar um solteirão tão
«perigoso. Case depressa!... D'01iveira boas noti-
«cias. Creia-me sempre, etc. »
Gonçalo encarou o Bento — que esperava, inte-
ressado com aquelle assombro do Snr. Doutor:
— Tu sabes se era Santa Maria de Craquêde ha
outros túmulos, n'um subterrâneo?
O assombro então saltou para o Bento:
— N'ura subterrâneo?... Túmulos?
— Sim, homem! Além dos que estão no claustro
parece que ha outros, mais antigos, debaixo da ter-
ra... Eu nunca vi, não me lembro. Também ha
que annos não entro em Santa Maria de Craquêde!
Desde pequeno!... Tu não sabes?
O Bento encolheu os hombros.
— -E a Rosa não saberá?
O Bento abanou a cabeça, duvidando.
— Também, vossés nunca sabem nada! Bem!
Amanhã cedo corre a Santa Maria de Craquêde e
pergunta na Egreja, ao sachristão, se existe esse
subterrâneo. Se existir que o mostre no Domingo a
umas senhoras, á snr." D. Anna Lucena, e á snr.*'
D. Maria Mendonça, minha prima Maria... E que
tenha tudo varrido, tudo decente!
314 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
Mas, repassando a carta, reparou n'um Post-
Scripiuni em lettra mais miudinha, ao canto da fo-
lha:—«No Domingo, não se esqueça, a visita será
« entre as cinco e cinco e meia da tarde ! »
Gonçalo pensou: —«Será uma entrevista?» E
na livraria, atirando para uma cadeira o chapéu e o
chicote, assentou que era uma entrevista, hem clara,
bem marcada! E talvez nem existisse esse subterrâ-
neo— e Maria Mendonça, com a sua tortuosa esper-
teza, o inventasse, como natural motivo de lhe es-
crever, de lhe annunciar que no Domingo, ás cinco
e meia, a bella D. Anna e os seus duzentos contos
o esperavam em Santa Maria de Craquêde. Mas en-
tão a prima Maria não gracejara, em Oliveira? Gos-
tava d'e]le, realmente, essa D. Anna?... E uma emo-
ção, uma curiosidade voluptuosa atravessaram Gon-
çalo á idéa de que tão formosa mulher o desejava.
— Ah! mas certamente o desejava para marido, por
que se o appetecesse para amante não se soccorria
dos serviços da D. Maria Mendonça — nem a prima
Maria, apesar de tão sabuja com as amigas ricas, os
prestaria assim descaradamente como uma alcovi-
teira de Comedia! E caramba! casar com a D. Anna
— não !
E subitamente anciou por conhecer a vida da
D. Anna ! Aturara ella tantos annos, em severa fideli-
dade, o velho Sanches? Sim, talvez, na Feitosa, na so-
A ILLUSTUE CASA DE RAMIRES 313
lidâo dos grandes muros da Feitosa — por que nunca
sobre ella esvoaçara um rumor, em terriolas tão gu-
losas de rumores malignos. Mas em Lisboa?... Es-
ses «amigos estimabilissimos» de que se ufanava o
pobre Sanches, o D. João não sei quê, o pomposo
Arronches Manrique, o Philippe Lourençal com o
seu cornetim?... Algum de certo a attacára — tal-
vez o D. João, por dever tradicional do nome. E
ella?... Quem o informaria sobre a historia senti-
mental da D. Anna?
Depois, ao jantar, de repente pensou no Gou-
veia. Uma irmã do Gouveia, casada em Lisboa com
certo Cerqueira (arranjador de Magicas e empre-
gado na Misericórdia) costumava mandar ao mano
Administrador relatórios Íntimos sobre todas as pes-
soas conhecidas d'Oliveira, de Villa-Clara, que se de-
moravam em Lisboa — e que interessavam o mano
ou por Politica, ou por mexeriquice. E de certo,
pela irmã Cerqueira, o querido Gouveia conhecia
miudamente os annaes da D. Anna, durante os seus
invernos de Lisboa, nas delicias da sua «roda fina.»
N'essa noite, porém, o Administrador não appa-
recera na Assembleia. E Gonçalo, desconsolado, re-
colhia á Torre — quando no Largo do Chafariz o en-
controu com o Videirinha, ambos sentados n'um ban-
co, sob as olaias escuras.
— Chegou lindamente! exclamou o Gouveia. Es-
316 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
tavamos mesmo a marchar para minha casa, tomar
chá. Quer vossê, também?... Vossê costuma gostar
das minhas torradinhas.
O Fidalgo acceitou — apezar de cançado. E logo
pela Calçadinha, enlaçando o braço do Administrador,
contou que recebera uma carta de Lisboa, d'um
amigo, com uma nova estupenda... O que? — O ca-
samento da D. Anna Lucena.
O Gouveia parou, assombrado, atirando o coco
para a nuca:
— Com quem?l
Gonçalo que inventara a carta — inventou o
noivo :
— Com um vago parente meu, ao que parece,.
um D. João Pedroso- ou da Pedrosa. ^Muitas vezes
o Sanches Lucena me íallou n'elle . . . Conviviam
muito em Lisboa . . .
Gouveia bateu com a ponta da bengala nas
pedras :
— Não pôde ser!... Oue disparate! A D. Anna
não ajustava casamento sete semanas depois de lhe
morrer o marido . . . Olho que o Lucena morreu no
meado do Julho, homem! Ainda nem teve tempo de
se acostumar á sepultura!
— Sim, com efíeito! murmurou Gonçalo.
E sorria, sob uma doce baforada de vaidade —
pensando que, sete semanas depois de viuva, ella,
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 317
sem resistir, calcando decência e luto, lhe offerecia a
elle uma entrevista nas ruinas de Craquède.
A mentira de resto, apesar de disparatada, apro-
veitara— porque, depois de subirem á saleta verde
do Administrador, o espanto recomeçou. Videirinha
esfregava as mãos, divertido:
— Oh snr. Dr., olhe que tinha graça!... Se a snr.*
D. Anna, depois d'apanhar os duzentos contos do
velhote, logo passadas semanas, zás, se engancha
com um rapazote novo...
Não, não ! . . . Gonçalo agora, reparando, também
considerava despropositada a noticia do casamento,
assim com o pobre Sanches ainda morno...
— Naturalmente entre ella e esse D. João havia
namorico, olhadella... Por isso imaginaram. Com
efíeito, alguém me contou, ha tempos, que o tal
D. João se atirava valentemente, como cumpre a
um D. João, e que ella...
— Mentira! atalhou o Administrador, debruçado
sobre a chaminé do candieiro para accender o cigar-
ro. Mentira! Sei perfeitamente, e por excellente canal...
Emfim, sei por minha irmã! Nunca, em Lisboa, a
D. Anna deu azo a que se rosnasse. Muito séria,
muitíssimo séria. Está claro, não faltou por lá ma-
ganão que lhe arrastasse a aza languida . . . Talvez
esse D. João, ou outro amigo do marido, segundo a
boa lei natural. Mas ella, nada! Nem olho de lado!
318 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
Esposa romana, meu amigo, e dos bons tempos ro-
manos !
Gonçalo, enterrado no camapé, torcia lentamente
o bigode, regalado, recolhendo as revelações. E o
Gouveia, no meio da sala, com um gesto conven-
cido e superior:
— Nem admira! Estas mulheres muito formosas
são insensíveis. Bellos mármores, mas frios marmo-
res... jNão, Gonçalinho, lá para o sentimento, e para
a alma, e mesmo para o resto, venham as mulheres
pequeninas, magrinhas, escurinhas ! Essas sim ! . . .
Mas os grandes mulherões brancos, do género Vé-
nus, só para vista, só para museo.
Videirinha arriscou uma duvida:
— Uma senhora tâo bonita como a snr.^ D. Anna,
e com aquelle sangue, assim casada com um ve-
lhote ...
— Ha mulheres que gostam de velhotes por que
ellas mesmas teem sentimentos velhotes! — declarou
o Gouveia, de dedo erguido, com immensa auctori-
dade e immensa philosophia.
Mas a curiosidade de Gonçalo não se contentava.
E na Feitosa ? Nunca se rosnara d'alguraa aventura
escondida? Parece que com o Dr. Júlio...
De novo o Fidalgo inventava. De novo Gouveia,
repelliu a «mentira»:
— Nem na Feitosa^ nem em Oliveira, nem em
A ILLUSTRE CASA DE RAMIUES 319
Lisboa... De resto, é o que lhe digo, Gonçalo Men-
des. Mulher de mármore!
Depois, saudando, em submissa admiração:
— Mas, como mármore... Yossês, meninos, não
imaginam a belleza d'aquella mulher decotada!
Gonçalo pasmou:
— E onde a viu vossè decotada?
— Onde a vi decotada? Em Lisboa, n*um baile
do Paço . . . Até foi justamente o Lucena que me ar-
ranjou o convite para o Paço. Lá me espanejei, de
calção . . . Uma serasaboria. E mesmo uma vergonha,
toda aquella turba acavallada por cima dos buffe-
tes, aos berros, a agarrar furiosamente pedaços de
peru . . .
— }.Ias então, a D. Anna?
— Pois a D. Anna uma belleza! Yossês não
imaginam ! . . . Santo nome de Deus ! que hombros 1
que braços! que peito! E a brancura, a perfeição...
De endoidecer! Ao principio, como havia muita gente,
e ella estava para um canto, acanhadota, não íez sen-
sação. Mas depois lá a descobriram. E eram corre-
rias, magotes embasbacados... E «quem será?» E
«que encanto!» Todo o mundo perdidinho, até o Reil
E um momento os três homens emmudeceram
na impressão do formoso corpo evocado, que entre
elles surgia, quasi despido, inundando com o ex-
plendor da sua brancura a modesta sala mal alu-
320 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
miada. Por fim Videiriuha acercou a cadeira, em
confidencia, para íornecer também a sua informa-
ção :
— Pois, por mim, o que posso affirmar é que a
snr." D. Anna é uma mulher muito aceada, muito
lavada . . .
E como os outros s"espantavam, rindo, de uma
certeza tão intima — Videirinha contou que todas as
semanas apparecia um moço da Feitosa, na botica
do Pires, a comprar três e quatro garrafas de agua
de Colónia portugueza, da receita do Pires.
— Até o Pires dizia sempre, a esfregar as mãos,
que na Feitosa regavam as terras com agua de Co-
lónia. Depois é que soubemos pela creada ... A
snr.* D. Anna toma todos os dias um grande banho,
que não é só para lavar, mas para prazer. Fica uma
hora dentro da tina. Até lê o jornal dentro da tina.
E em cada banho, zás, meia garrafa d*agua de Coló-
nia... Já é luxo!
Então Gonçalo sentiu como um aborrecimento de
todas aquellas revelações do Administrador, do aju-
dante da Pharmacia, sobre os decotes e as lavagens
da linda mulher que o esperava entre os túmulos
dos Ramires seculares. Saccudiu o jornal com que
se abanava, exclamou:
— Bem! E passando a cantiga mais séria... Oh
A ILUSTRE CASA DE RA>fIRES 321
Gouveia, vossè que tem sabido do Dr. Júlio? O ho-
mem trabalha na eleição?
A creada entrara com a bandeja do chá. E em
torno da mesa, trincando as torradas famosas, con-
versaram sobre a Eleição, sobre os informes dos Pie-
gedores, sobre a reserva do Rio-Manso — e sobre o
Dr. Júlio, que Videirinha encontrara nos Bravaes
pedinchando votos pelas portas, acompanhado por
um moço com a machina photographica ás costas.
Depois do chá Gonçalo, cançado e já provido
«de revelações», accendeu o charuto para recolher
á Torre.
— Vossè não acompanha, Videirinha?
— Hoje, Snr. Dr., não posso. Parto de madrugada
para Oliveira, na diligencia.
— Que diabo vae vossè fazer a Oliveira?
— Por causa d' uns sapatos de praia e d' um íato
de banho lá da minha patroa, da D. Josepha Pires . . .
Tenho de os trocar nos Emilios, levar as medidas.
Gonçalo ergueu os braços, desolado:
— Ora vejam este paiz! Um grande artista, como
o Videirinha, a carregar para Oliveira com os sapa-
tos de banho da patroa Pires! ... Oh Gouveia! quan-
do eu fôr deputado precisamos arranjar um bom
legar para o Videirinha, no Governo Civil. Um lo-
gar íacil e com vagares, para elle não esquecer o
violão !
322 A- ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
Videirinha corou de gosto e de esperança — cor-
rendo a despendurar do cabide o chapéo do Fidalgo.
Pela estrada da Torre, os pensamentos de Gon-
çalo esvoaçaram logo, com irresistida tentação, para
D. Anna — para os seus decotes, para os languidos ba-
nhos em que se esquecia lendo o jornal. Por lim, que
diabo!... Essa D. Anna assim tão honesta, tão per-
fumada, tão oxplendidamente bella, só apresentava,
mesmo como esposa, um feio senão — o papá carni-
ceiro. E a voz também — a voz que tanto o arri-
piára na Bica-Santa. . . Mas o Mendonça assegurava
que aquelle timbre rolante e gordo, na intimidade,
se abatia, liso e quasi doce... Depois, mezes de con-
vivência habituam ás vozes mais desagradáveis —
e elle mesmo, agora, nem percebia quanto o Manoel
Duarte era fanhoso! Não! mancha teimosa, real-
mente, só o pae carniceiro. Mas n'esta Humanidade
nascida toda d' um só homem, quem, entre os seus mi-
lhares d'avós até Adão, não tem algum avô carniceiro?
Elle, bom fidalgo, d' uma casa de Reis d'onde Dynas-
tias irradiavam, certamente, escarafunchando o Pas-
sado, toparia com o Ramires carniceiro. E que o car-
niceiro avultasse logo na primeira geração, n'nm ta-
lho ainda aíreguezado, ou que apenas s'estumasse,
atravez d'espessos séculos, entre os trigésimos avós
— lá estava, com a faca, e o cepo, e as postas de car-
ne, e as nódoas do sangue no braço suado ! . . .
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 323
E este pensamento não o abandonou até á Tor-
re—nem ainda depois, á janella do quarto, acabando
o charuto, escutando o cantar dos ralos. Já mesmo
se deitara, e as pestanas lhe adormeciam, e ainda
sentia que os seus passos impacientes se embrenha-
vam para traz, para o escuro passado da sua Casa, por
entre a emmaranhada Historia, procurando o carni-
ceiro. . . Era já para além dos confins do Império Vi-
sigodo, onde reinava com um globo d'ouro na mão
o seu barbudo avô Recesvinto. Esfalfado, arquejando,
transpozera as cidades cultas, povoadas de homens
cultos — penetrara nas florestas que o mastodonte
ainda sulcava. Entre a húmida espessura já cru-
sára vagos Ramires, que carregavam, grunhindo, re-
zes mortas, molhos de lenha. Outros surdiam de to-
cas fumarentas, arreganhando agudos dentes esver-
deados para sorrir ao neto que passava. Depois por
tristes ermos, sob tristes silêncios, chegara a uma
lagoa ennevoada. E á beira da agoa limosa, entre os
canaviaes, um homem monstruoso, pelludo como uma
fera, agachado no lodo, partia a rijos golpes, com
um machado de pedra, postas de carne humana.
Era um Ramires. No ceu cinzento voava o Açor ne-
gro. E logo, d'entre a neblina da lagoa, elle acenava
para Santa Maria de Craquêde, para a formosa e
perfumada D. Anna, bradando por cima dos Impé-
rios e dos Tempos:— «Achei o meu avô carniceiro!»
324 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
No Domingo, Gonçalo acordou com uma a esper-
ta ideia!» Não correria a Santa Maria de Craquêde
com uma pontualidade sôfrega, ás cinco horas (as
cinco horas marcadas no Post-Scnptum da prima
Maria) — mostrando o seu alvoroço em encontrar a
tão bella e tão rica D, Anna Lucena! Mas ás seis
horas, quando findasse a romaria das senhoras aos
túmulos, appareceria elle indolentemente, como se,
recolhendo d' um passeio pelas frescas cercanias, se
recordasse, parasse nas ruinas para conversar com a
prima Maria.
Logo ás quatro horas porém se começou a ves-
tir com tantos esmeros, que o Bento, cançado das
gravatas que o Snr. Dr, experimentava e arremes-
sava amarfanhadas para o divan, não se conteve:
— Ponha a de sedinha branca, Snr. Dr. ! Ponha
a branca, que lhe fica melhor! E refresca mais, com
este calor.
jXa escolha d' um ramo para o casaco ainda re-
quintou, juntando as cores heráldicas dos Rami-
res, ura cravo amarello com um cravo branco. Ao
portão, apenas montara na egoa, temeu qile as se-
nhoras (não o encontrando no Claustro) encurtas-
sem a visita, estugou o trote pelo atalho da Portella.
Depois adiante, ao desembocar na antiga estrada real,
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES oÍÕ
soltou n'am galopo impaciente que o branqueou de
poeira.
Só retomou um passo indifíerente, ao acercar da
linha do Caminho de Ferro, onde ura carro de le-
nha e dois homens esperavam deante da cancella,
que se fechara para a lenta passagem d' um trem car-
regado de pipas. Um d'esses homens, d'alíorge aos
hombros, era o Mendigo — o vistoso Mendigo que
passeava por aquellas aldeias a rendosa magestade
das suas barbaças de Deus fluvial. Erguendo grave-
mente o chapéo de vastas abas, desejou ao Fidalgo
a companhia de Nosso Senhor.
— Então hoje a ganhar a rica vida por Craquê-
de ? . . .
— Cá me arrasto ás vezes para a passagem do
comboio d'01iveira, meu Fidalgo. Os passageiros
gostam de mo vêr de pé no talude, correm sempre
ás janellas . . .
Gonçalo, rindo, recordou que o encontro d'aquelle
ancião precedia sempre um encontro seu com a bella
D. Anna. — «Quem sabe? pensou. E' talvez o Des-
tino ! Os antigos pintavam assim o Destino, com lon-
gas barbas e longas guedelhas, e o alforge ás costas
contendo as sortes humanas...» — E com effeito ao
cabo do pinheiral silencioso, que estiradas resteas de
sol docemente douravam — avistou a caleche da
326 A ILLLSTRE CASA DE RAMIRES
Feitosa, parada sob uma carvalha, com o cocheiro
fardado de negro dormitando na ahnofada. A estrada
real de Oliveira costeia ahi o antigo adro do mosteiro
de Craquêde, queimado pelo fogo do céo, n'aquella
irada tempestade que chamam de S. Sebastião, e que
aterrou Portugal em 1616. Uma herva agora alíom-
bra o chão, crescida e verde, entre os poderosos tron-
cos dos castanheiros velhíssimos. A Egrejinha nova
alveja, bem caiada, ao fundo da ramaria: e, ligada a
ella por um muro esbrechado que densa hera veste,
tomando todo o lado nascente do Terreiro — sobe, en-
che ainda magnificamente o céo lustroso, a tachada
da Egreja do vetusto Mosteiro, suavemente amarelle-
cida e brunida pelos tempos, com o seu immenso por-
tal sem portas, a rosácea desmantelada, e esvasiados
os nichos d'enterramento onde outr'ora se estiraça-
vam as imagens dos fundadores, Froylas Ramires e
sua mulher Estevaninha, condessa d"Orgaz, por al-
cunha a Queixa-perra. Duas casas térreas povoam o
lado fronteiro do adro— uma limpa, com as hom-
breiras das janellas pintadas d'azul estridente, a ou-
tra deserta, quasi sem telhado, afogada na verdura
d' um quinteiro bravo ondo gira-soes resplandecem.
Um pensativo silencio envolvia o arvoredo, as altivas
ruinas. E nem o quebrava, antes serenamente o em-
ballava, o susurro d'uma íoníe, que a estiagem adel-
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 327
gaçára em fio lento, e mal enchia o seu tanque de
pedra, toldado pela pallida e rala folhagem d' um cho-
rão multo alto.
O trintanario da Feitosa, ao enxergar o Fidalgo,
saltou risonhamente da borda do tanque onde picava
tabaco, para segurar a egoa. E Gonçalo, que desde
pequeno não penetrava nas ruínas de Craquêde, se-
guia por um carreirinho cortado na relva, attenta-
mente, encantado com aquella romântica solidão de
lenda e verso, quando, sob o arco do portal, appare-
ceram as duas senhoras voltando do velho Claustro.
D. Maria Mendonça, com a sua sacudida vivacidade,
agitou logo o guarda-sol de xadrezinho, semelhante
ao vestido, cujas mangas, tufando desmedidamente
nos hombros, lhe vincavam mais a elegância esgal-
gada. E ao lado, na claridade, D. Anna era uma si-
lenciosa e esvelta íórma negra, de lã negra e d'es-
cumilha negra, onde apenas transparecia, suavisada
sob o véo negro, a brancura explendida da sua face
sensual e séria.
Gonçalo correra, erguendo o chapéo de palha,
balbuciando o seu «prazer por aquelle encontro...»
Mas já D. iMaria o reprehendia, sem lhe consentir a
fabula do «encontro»:
— O primo não c nada amável, nada amável...
— Oh prima! . . .
-T-Pois sabia que vínhamos, pela minha carta!
328 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
E nem está á hora aprazada, para fazer as honras,
como devia. . .
Elle, rindo, com o seu desembaraço airoso, ne-
gou esse dever! Aquella casa não era sua, mas do
Bom Deus! Ao Bom Deus competia «fazer as hon-
ras»— acolher tão doces romeiras com algum mila-
gre amável . . .
— E então, gostaram? V. Ex.^ Snr.'^ D. Anna, gos-
tou das ruinas ? . . . Muito interessantes, não é ver-
dade?
Através do véo, com uma lentidão que a espessa
renda negra tornava mais grave, ella murmurou :
— Eu já conhecia... Vim cá uma tarde, com o
pobre Sanches que Deus haja.
— Ah...
Áquella evocação do pobre morto, Gonçalo su-
mira todo o sorriso, com polida tristeza. Mas D. Maria
Mendonça acudio, atirando um dos seus magros ges-
tos, como para arredar a sombra importuna:
— Ai! não imagina o que gostei, primo! É d'ap-
petite todo o claustro.. . Logo aquella espada enfer-
rujada, chumbada por cima do tumulo. . . Não ha
nada que impressione como estas cousas antigas. . .
Oh primo, e pensar que estão alli antepassados nossos 1
O sorriso de Gonçalo de novo lampejou, alegre e
acolhedor, como sempre que D. ]\Iaria se empurrava
com desesperada gula para dentro da Casa de Ra-
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 329
mires. E gracejou, affavelmente. Oh, antepassados...
Simples punhados de cinsa vã! — Pois não era ver-
dade, Snr.'^ D. Anna?... Realmente! quem conce-
beria que a prima Maria, tão viva, tão sociável, tão
engraçada, descendesse d'uma poeira tristonha guar-
dada dentro d'uma pia de pedra? Não! nâo se podia
ligar tanto ser a tanto não-ser. . . — E como D. Anna
sorria, n'uma vaga concordância, encostando as duas
mãos íortes e muito apertadas na pellica negra ao
alto cabo d'aljofar da sombrinha, elle atalhou com
interesse :
— V. Ex.*^ está talvez cançada, Snr.^ D. iVnna ?
— Nâo, nâo estou cançada. . . Ainda vamos mes-
mo entrar na capella, um bocadinho. . . Eu nunca me
canço.
E pareceu a Gonçalo que a voz da formosa crea-
tura nâo rolava do papo, tão grossa e gorda — mas
que se afinara, adoçada e velada pelo luto d'escomi-
Iha e lã, como esses grossos e rolantes rumores que a
noite e o arvoredo adelgaçam. Mas D. Maria confes-
sou o seu immenso cançasso ! Nada a esfalfava como
visitar curiosidades. . . E além d'isso a emoção, a ideia
de heroes tâo antigos!
— Se nos sentássemos n'aquelle banco, hein? E'
muito cedo para recolhermos, nâo é verdade, Anni-
ca? E está tâo agradável n'este socego, n"esta fres-
cura. . .
330 A ILLUSTRE CASA DE «AMIRES
Era um banco de pedra, rente ao muro esbre-
cbado que a hera afogava. Em torno a relva crescia,
mais silvestre e florida com os derradeiros malmeque-
res e botões d'ouro que o sol d'Agosto poupara. Um
aromasinho fino, d'algum jasmineiro emmaranhado na
hera, errava, adocicava a serena tarde. E na rama
d'um álamo, defronte do portão da Capella, duas ve-
zes um melro cantara. Gonçalo sacudiu todo o banco
cuidadosamente, com o lenço. E sentado na ponta,
junto de D. Maria, louvou também a írescura, o re-
colhimento d'aque]le cantinho de Craquéde. . . E elle
que nunca se aproveitara de refugio tão santo, e quasi
seu, nem mesmo para um almoço bucólico! Pois
agora certamente voltaria fumar um charuto, revol-
ver ideias de paz sob a paz das carvalheiras, na vi-
sinhança dos vovós mortos. . . Depois, com uma cu-
riosidade:
— É verdade, prima! E o subterrâneo?
Oh! não existia subterrâneo!... Sim, existia —
mas entulhado, sem sepulturas, sem antiguidades. E
o sachristâo logo lhes affiançára que anão valia a
pena sujarem as saias. . .»
— É verdade, oh Annica, deste alguma cousa ao
sachristâo ?
— Oh filha, dei cinco tostões... Não sei se foi
bastante.
Gonçalo assegurou que se pagara sumptuosa-
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 331
mente ao sachristâo. E, se prevesso tamanha gene-
rosidade da Snr.'' D. Anna, agarrava elle um molho
de chaves, até enfiava uma opa preta, para mostrar
— e para embolsar. . .
— Pois é o que devia ter feito! exclamou D. Ma-
ria, com um corisco nos espertos olhos. E decerto se
lhe davam os cinco tostões ! Porque sempre seria
mais instructivo que o homerasinho, que mascava,
nâo sabia nada!... Semelhante morcão ! E eu com
tanta curiosidade por aquelle tumulo aberto, com
a tampa rachada... O mono só soube resmungar
que «eram historias muito antigas lá do Fidalgo da
Torre. . . »
Gonçalo ria:
— Pois essa historia por acaso sei eu, prima Ma-
ria! Sei agora pelo Fado dos Ramires ^ o fado do
Videirinha. . .
D. Maria Mendonça levantou as compridas mãos
aos céos, revoltada com aquella indifferença pelas
tradições heróicas da Casa. Conhecer somente os seus
Annaes doede que elles andavam repicados n'um
íado!. . . O primo Gonçalo nâo se envergonhava?
— Mas por quê, prima, porquê? O íado do Vi-
deirinha está fundado em documentos authenticos
que o Padre Sueiro estudou. Todo o recheio histó-
rico foi fornecido pelo Padre Sueiro. O Videirinha
só poz as rimas. Além d'isso antigamente, prima, a
332 A ILLCSTRE CASA DE RAMIRES
Historia era perpetuada em verso e cantada ao som da
lyra. . . Era fim quer saber esse caso do tumulo aber-
to, segundo as quadras do Videirinha? Eu sempre
conto! Mas só para a Snr.* D. Anna, que não soffre
d'esses escrúpulos. . .
— Não! acudiu D. Maria. Se o Videirinha tem
essa auctoridade histórica então conte tam.bem para
mim, que sou da Casa!
Gonçalo, por gracejo, tossio, passou o lenço pe-
los beiços:
— Pois eis o caso! N'esse tumulo habitava, na-
turalmente morto, um dos meus avós. . . Não me
lembro o nome, Guticrres ou Lopo. Creio que Gu-
tierres. . . Emfira, lá jazia quando íoi da batalha das
Navas de Tolosa. . . A prima Maria conhece a bata-
lha das Navas, os cinco reis mouros, etc. . . Como o
tal Guticrres soube da batalha não contam os versos
do Videirinha. Mas, apenas lá dentro lhe cheirou a
carnificina, arromba o tumulo, sahe por este pateo
como um desesperado, desenterra o seu cavallo que
fora enterrado no adro onde agora crescem estes
carvalhos, monta n'elle todo armado, e, Cavalleiro
morto sobre cavallo morto, larga a galope através
da Hespanha, chega ás Navas, arranca a espada,
e destroça os mouros . . . Oue lhe parece, Snr.*^
D. Anna?
Dedicara a historia a D. Anna, procurando nos
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 333
seus bellos olhos a attençâo e o interesse. E ella,
que a furto, através do decoro melancólico a que
se esforçava, adoçara o sorriso, attrahida e levada,
murmurou apenas: — a Tem graça!» — D. Maria, po-
rém, quasi esvoaçou sobre o banco de pedra, n'ura
extasis: — «Lindo! Lindo! Que poesia!... Oh! uma
lenda de todo o appetite!» — E, para que Gonçalo
desenrolasse ainda a graça do seu dizer, outras ma-
ravilhas da sua Chronica :
— Conte, primo, conte. . . E voltou para Craquè-
de esse tio Ramires?
— Ouem, prima, o Gutierres ? . . . Ou fosse elle
tolo! Apenas se apanhou livre da massada da sepul-
tura não appareceu mais em Santa Maria de Cra-
quêde. O tumulo vasio, como está, e elle por Hespa-
nha n'uma pandega heróica!... Imagine! um de-
funto que por milagre se safa do seu jazigo, d'aquella
postura eterna, tão apertada, tão esticada ! . . .
Subitamente emmudeceu, lembrando o Sanches
Lucena, também esticado no seu caixote do chumbo,
sob o seu vistoso jazigo d'01iveira. . . — D. Anna
baixara a íace, mais sumida no véo, esfuracando
a herva com a ponta da sombrinha. E a esperta
D. Maria, para desfazer a sombra impertinente que
de novo os roçara, rompeu n'outra curiosidade, que
ainda se encadeava na nobreza dos Ramires:
— E' verdade! Sempre me esquece de lhe per-
331 A ILLLSTRE CASA DE RAMIRES
guntar. O primo ainda tem muitos parentes em
França. . . Talvez também não saiba ?
Sim! Gonçalo, casualmente, conhecia essa histo-
ria dos seus parentes de França — apezar de que o
Videirinha os não cantara no Fado !
— Então conte! Mas que seja historia alegre!
Oh, não era prodigiosamente divertida! Um avô
Ramires, Garcia Ramires, acompanhara nas suas fa-
mosas jornadas o Infante D. Pedro, o filho d"Ei-Rei
D. João I... A Prima Maria sabia — o Infante D. Pe-
dro, o que correu as Sete Partidas do mundo... Pois o
Infante D. Pedro e os seus fidalgos, de volta da Pales-
tina, pousaram um anno inteiro na Flandres, com o
Duque de Borgonha. Até se celebraram então testas
maravilhosas, com um banquete que durou sete dias, e
que anda nos compêndios da Historia de França. Onde
ha danças ha amores. A avô Ramires sobejava ima-
ginação e arrojo . . . Fora elle que deante de Je-
rusalém, no Valle de Josaphat, lembrara que se er-
guesse um sigtial para que o Infante e os seus com-
panheiros de romagem se reconhecessem no grande
Dia de Juízo. Depois, naturalmente, bello mocetão,
de barba negra e cerrada á Portugueza . . . Emfim
casara com uma irmã do Duque de Clèves, uma
tremenda Senhora, sobrinha do Duque de Borgo-
nha e Brabante. Mais tarde, através d'essas ligações,
uma avó Ramires, já viuva, casou também em França
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 335
com O conde de Tancarville. Esses Tancarvilles, Gran-
Mestres de Franca, possuíam o mais íormidavel cas-
tello da Europa, e. . .
D. Maria bateu as palmas, rindo:
— Bravo! lindamente! Sim, senhor!... Então o
primo que se gaba de não saber nada do fidalguias. , .
Olho como conhece pelo miúdo a historia d'esses
grandes casamentos! Hein, Annica? . . . É uma Chro-
nica viva!
Gonçalo vergou os hombros, confessou que se
occupára de toda essa heráldica historia por um
motivo bem rasteiro — por miséria! .. .
— Por miséria?
— Sim, prima Maria, por penúria de moeda, de
cobres. . .
— Conte! conte! Olhe, a Annica está anciosa. . .
— Quer saber, Snr.'*^ D. Anna? . .. Pois foi em
Coimbra, no meu segundo anno de Coimbra. Os com-
panheiros e eu chegamos a não juntar entre todos
um vintém. Nem para cigarros ! Nem para o sagrado
decilitro de carrascâo e as três azeitonas do dever...
Um d'elles então, rapaz muito engraçado, de Mel-
gaço, surdiu com a idéa estupenda de que eu escre-
vesse aos meus parentes de França, a esses Clcves,
a esses Tancarvilles, senhores de certo immensa-
mente ricos, e sollicitasse, com desembaraço, um
emprestimosinho de trezentos trancos.
336 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
D. Anna não conteve um riso, sinceramente di-
vertido :
— Ai! tem muita graça!
— Mas nâo teve resultado, minha senhora . , .
Já não existem Clòves, nem Tancarvilles ! Todas
essas grandes familias feudaes findaram, se íundi-
ram n'outras casas, até na Casa de França. E o
meu padre Sueiro, apezar de todo o seu saber ge-
nealógico, nunca conseguiu descobrir quem as re-
presentava com bastante affmidade para me empres-
tar, a mim parente pobre de Portugal, esses trezen-
tos francos.
Aquella penúria de Gonçalo, de tamanho fidalgo,
quasi enternecera D. Anua:
— Ora estarem assim sem vintém ! Quem sou-
besse . . . Mas tem graça ! Essas historias do Coimbra
teem sempre muita graça. O D. João de Pedrosa,
em Lisboa, também contava muitas...
D. Maria iVIendonça, porém, através d'essa fa-
cécia d'estudantes, descortinara outra prova inespe-
rada da grandeza dos Ramires. E immediatamente a
estendeu deante de D. Anna com habilidade:
— Ora vejam! . . . Todas essas grandes casas de
França, tão ricas, tão poderosas, acabaram, desappa-
receram. E cá no nosso Portugalsinho ainda dura a
casa de Ramires!
Gonçalo acudiu:
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 337
— Acaba agora, prima! . . . Não olhe para mim
assim espantada. Acaba agora. . . Pois se eu não caso !
Então D. Maria recuou o magro peito — como
se esse casamento do primo dependesse de doces in-
fluencias, que convinha se trocassem bem chegada-
mente, sem Marias Mendonças de permeio no estreito
banco com grandes mangas bufantes tolhendo as
correntes de eífluvio. E sorria, quasi languida-
mente :
— Ora não casa. . . Mas por quê, primo, por quê?
— Por que não tenho geito, prima. O casamento
é uma arte m.uito delicada que necessita vocação,
génio especial. As Fadas não me concederam esse
génio. E se me dedicasse a semelhante obra, ai de
mim! com certeza a estragava.
D. Anna, como se outra idéa a occupasse, puxara
lentamente do cinto o relógio preso por uma fita de
cabello. E D. Maria insistia, recusava os motivos do
Fidalgo :
— São tolices. O primo que gosta tanto de
creanças. . .
— Gosto, gosto muito de creanças, até de crean-
€inhas de mama. As creanças são os únicos seres di-
vinos que a nossa pobre humanidade conhece. Os
outros anjos, os d'azas, nunca apparecem. Os san-
tos, depois de santos, ficam na Bemaventurança a
338 A ILLUSTRE CASA DE U-\MIRES
preguiçar, ninguém mais os enxerga. E, para con-
cebermos uma ideia das cousas do céo, só temos
realmente as creancinhas. . . Sim, com eííeito, prima,
gosto muito de creanças. Mas também gosto de flo-
res, e não sou jardineiro, nem tenho geito para a
jardinagem.
E D. Maria com uma faísca no olhar promettedor :
— Socegue, que ainda vem a aprender!
Depois, para D. Anna que se esquecera na con-
templação do relógio:
— Achas que vão sendo horas? Então, se queres,
entramos na Capella. . . Oh primo, veja se está aberta.
Gonçalo correu, empurrou a porta da Capella.
Depois acompanhou as duas senhoras pela pequenina
nave soalhada, entre delgados pilares recobertos
de uma cal áspera e crua — que recamava também
as paredes lisas, apenas guarnecidas, na sua rigida
nudez, por lithographias de Santos dentro de caixilhos
de pinho. Deante do altar as senhoras ajoelharam
— a prima Maria enterrando a face nas mãos jan-
tas como n'um vaso de Piedade. Gonçalo dobrou o
joelho de leve, engrolou uma Ave-Maria.
Depois voltou para o adro, accendeu um cigarro.
E, pisando lentamente a relva, considerava quanto a
viuvez melhorara D. Anna. Sob o negrume do luto.
como n"uma penumbra que esfuma a grosseira des-
I
A ILLUSXnE CASA DE «VMiUES 339
elegância das cousas, todos os seus defeitos se íun-
diam — os defeitos que tanto o horripilavam na tarde
da Bica Santa, o rolar gordo da voz, o peito empi-
nado, a ostentação de burgaeza ricassa pingueraente
repimpada na vida. Até já nem dizia — «o cavalhei-
ro!» E alli, no adro melancólico de Craquède, cer-
tamente parecia interessante e desejável.
As senhoras desciam os dois degraus da Capella.
Um melro esvoaçou na ramagem dos alamos. E Gon-
çalo encontrou o lampejo dos olhos sérios de D. An-
na que o procuravam.
— Peço perdão de não lhes ter offerecido agua
benta á sabida, mas a concha está secca. . .
— Jesus, primo, que Egreja tão íeia!
D. Anna arriscou, com timidez:
— Depois das ruinas e dos túmulos, até parece
pouco religiosa.
A observação impressionou Gonçalo, como muito
fma. E junto d'ella, demorando os passos com agra-
do, sentia, esparzido pelos seus movimentos, pelo ro-
çar do vestido, um aroma também fino, que não era
o da horrenda agua de Colónia da botica do Pires.
Em silencio, sob a ramagem das carvalhas, cami-
nharam para a caleche, onde o cocheiro se apruma-
ra, bem estilado, tirando o chapéu. Gonçalo notou
que elle rapara o bigode. E a parelha reluzia, atre-
lada com esmero.
3i0 A ILLUSTRE CASA DE RAMIKES
— E então, prima Maria, ainda se demora pelos
nossos sitios?
— Sim, primo, mais uns quinze dias. . . A An-
nica é tão amável, quiz que eu trouxesse os peque-
nos. O que elles se têm divertido na quinta, não
imagina !
D. Anna murmurou, sempre séria :
— São muito engraçados, íazem muita compa-
nhia. . . Eu também gosto muito de creanças.
— Ai, a Annica adora creanças! accudiu D. Ma-
ria com fervor. O que ella atura os pequenos! Até
joga com elles o maíarrico.
Perto da caleche, Gonçalo pensou que outra volta
pelo adro, mais lenta, com a D. Anna e o seu fino
aroma, seria doce, u'aquelle socego da tarde que fin-
dava, tingida de tão lindas cores de rosa sobre os
pinhciraes escurecidos. INIas já o trintanario se acer-
cava segurando a sua egoa. E D. Maria, depois de
admirar e acariciar a egoa, chamou o primo discre-
tamente— para saber a distancia da Feitosa a Trei-
xedo, a outra quinta histórica, dos Ramires.
— A Treixedo, prima?... Cinco legoas fartas,
com maus caminhos.
E immediatamente se arrependeu, antevendo um
passeio, um novo encontro:
— Mas na estrada ultimamente andaram obras.
E c muito bonito sitio, n'um alto, com um resto
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 3il
de muralhas.. . Treixedo era um castello enorme...
Na quinta ha uma lagoa entre arvoredo antigo... Oh!
sitio delicioso para um pic-nic!
D. Maria hesitou :
— É um pouco longe, veremos, talvez.
E como D. Anna esperava em silencio — Gonçalo
abriu a portinhola, tomou ao trintanario as rédeas
da egoa. D. Maria Mendonça, no seu contentamento
por tão proveitosa tarde, sacudiu ardentemente a
mão do primo jurando «que ia apaixonada por Cra-
qutíde!» D. Anna mal roçou os dedos de Gonçalo,
acanhada e corando.
Sozinho, com a rédea da egoa enfiada no braço,
Gonçalo sorria. Na verdade, n'essa tarde, D, Anna
não lhe desagradara. Outros modos, outra singeleza
grave, outra doçura na sua possante belleza de Vé-
nus rural . . . E aquella observação sobre a Capella,
«pouco religiosa» depois das ruinas seculares do
claustro, era uma observação fina. Ouem sabe? Tal-
vez sob carne tão sensual se escondesse uma natu-
reza delicada. Talvez a influencia d'outro homem,
que não o estupidissimo Sanches, desenvolvesse na
fdha explendida do carniceiro qualidades de muito
encanto . . . Oh, evidentemente, a observação sobre
os túmulos e a sua religiosidade emanando da Lenda
e da Historia — era fina.
312 A ILLUSTUE CASA DE RAMIRES
E então também o tomou a curiosidade de visi-
tar esse claustro onde não entrara desde pequeno
— quando ainda a Torre conservava as suas car-
ruagens montadas e a romântica Miss Rhodes esco-
lhia sempre o passeio de Craquêde para as tardes
pensativas d'outomno. Puxou a egoa, transpoz o por-
tal, atravessou o espaço descoberto que fora a nave —
atulhado de caliça, de cacos, de pedras despegadas
da abobada e afogadas nas hervas bravas. E pela
brecha d'um muro a que ainda se amparava um pe-
daço d'altar — penetrou na silenciosa crasta Affonsina.
Só d'ella restam daas arcadas em anguio, atarraca-
das sobre rudes pilares, lageadas de poderosas lages
poidas que n'essa manhã o sachristâo cuidadosa-
mente varrera. E contra o muro, onde rijas nervu-
ras desenham outros arcos, avultam os sete iraraen-
sos túmulos dos antiquíssimos Ramires, denegridos,
lisos, sem um lavor, como toscas arcas de granito,
alguns pesadamente encravados no lagodo, outros
pousando sobre bolas que os séculos lascaram. Gon-
çalo seguia um carreiro de tijolo, rente aos arcos,
recordando quando elle outr'ora e Gracinha pulavam
ruidosamente por sobre essas campas, em quanto no
pateo do claustro, entre as pilastras tombadas e a
verdura das ruinas, a boa Miss Rhodes agachada
procurava florinhas silvestres. Na abobada, sobre o
A ILLUSTr.E CASA DE RAMIRES 3i3
mais vasto tumulo, lá negrejava chumbada a espada,
a famosa espada, com a sua corrente de ferro pen-
dendo do punho, a folha roída pela ferrugem das lon-
gas idades. Sobre outro lá ardia a lâmpada, a estra-
nha lâmpada mourisca, que não se apagara desde a
tarde remota em que algum monge, cora uma tocha
de sahimento, silenciosamente a accendera. . . Quan-
do se accendera ella, a eterna lâmpada? Que Ramires
jazeriam n'esses cofres de granito, a que o tempo
raspara as inscripções o as datas, para que n"ellas
toda a Historia se sumisse, e mais escuramente se
volvessem em leve pó sem nome aquelles homens de
orgulho e de força ? . . . Depois na ponta do claustro
era o tumulo aberto, e ao lado, derrubada em dous
pedaços, a tampa que o esqueleto de Lopo Ramires
arrombara para correr ás Navas de Tolosa e bater
os cinco Reis mouros. Gonçalo espreitou para dentro,
curiosamente. A um canto da funda arca alvejava
um montão d'ossos, limpos e bem arrumados! Es-
íjuecera o velho Lopo, na sua pressa heróica, esses
poucos ossos, já despegados do seu esqueleto?... O
crepúsculo cerrara, e com elle uma melancólica som-
bra que se adensava sob as abobadas da crasta, co-
bria de tristeza morta aquella jazida de mortos. En-
tão Gonçalo sentiu a desolada solidão que o envolvia,
o separava da vida, alli desgarrado, e sem soccorro
344 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
entre a poeira e a alma errante dos seus avós te-
merosos ! E de repente estremeceu, no arripiado me-
do de que outra tampa estalasse com fragor e atra-
vez da fenda surdissem lividos dedos sem carne! Re-
puxou desesperadamente a egoa pelo muro desman-
telado, nas ruinas da nave pulou para o selim, e
varou n'um trote o portal, galgou o adro com anciã
— só socegou ao avistar, ao fim do pinhal, a cancella
do Caminho de Ferro aberta, e uma velha que a
passava tangendo o seu burro carregado d'herva.
VÍIÍ
Ao fim da semana Gonçalo, que desde a visita
a Santa IMaria de Craquêde arrastava o remorso in-
commodo da sua preguiça, do tão longo abandono
da Novella — recebeu de manbâ, ao sahir do banho,
uma carta do Castanheiro. Era curta:— e declarava
ao amigo Gonçalo que, se era meado de Outubro
não chegassem a Lisboa três Capítulos do original,
elle, com pezar seu e da Arte, publicaria no primeiro
numero dos Annaes, em vez da Torre de D. Rami-
res j, um drama do Nuno Carreira n'um acto, intitu-
lado Em Casa do Temerário... «Apezar de drama
«e de phantasia (accrescentava) convém á Índole eru-
« dita dos Annaes por que este Temerário é Carlos o
«Temerário, e a acção toda, íortemente tecida, se
«passa no Castello de Peronne, onde se encontram
«nada menos que Luiz XI de França, e o nosso po-
3i6 A iLLLSrr.E casa dk ra.mires
«bre Afíonso V, e Pêro da Covilhan que o acompa-
«nhava, e outros figurões de rija estatura histórica,
a Imagine!... Está claro, o chie supremo ^<?x\ò.Tructe-
« zindo Mendes Ramires contado pelo nosso Gonçalo
«Mendes Ramires! Mas, pelo que vejo, esse chie su-
« premo está impedido por uma indolência suprema.
« Su)it Lacnjmce Reoistarum ! »
Gonçalo atirou a carta, gritou pelo Bento :
— Leva para a livraria chá verde, íorte, com tor-
radas. Hoje só almoço tarde, ás duas. . . Talvez nem
almoce !
E, enfiando o roupão de trabalho, decidiu amar-
rar á banca, como um captivo ao remo, até que re-
matasse esse difficil Capitulo III, onde resaltava o bár-
baro e sublime rasgo do avô Tructezindo. Não, que
diabo ! não lhe convinha perder a appariçâo da Novel-
la em tão proveitoso momento, nas vésperas da sua
chegada a Lisboa, quando para a inlluencia Politica e
para o prestigio social necessitava d'esse brilho que,
segundo o velho Vigny, «uma penna de aço accres-
centa a um elmo dourado de Fidalgo...» Felizmente,
n"ossa luminosa manhã em que as agoas da horta far-
tamente cantavam, elle sentia também a veia borbu-
lhando, contente em se soltar e correr. Depois da vi-
sita á crasta de Craquêde a sua imaginação conce-
bia monos ennevoadamente os seus avós Afíonsinos: —
e como que os palpava emfim no seu viver e pensar
A ILLfSTllIÍ CASA DE UAMIUES 347
desde que contemplara os grandes túmulos onde se
desfaziam as suas grandes ossadas.
Na Livraria retomou com appetite, depois de lhes
sacudir a poeira, as tiras da Novella sobre que em-
perrara, n'aquelle atarantado lance dft susto e alar-
me— quando o Villico, o velho Ordonho, reconhecia
o pendão do Bastardo surgindo á borda da Ribeira
do Coice entre o coriscar de lanças empinadas, pas-
sando a antiga ponte de madeira, e, um momento
sumido na verdura dos alamos, de novo avançando,
alto e tendido, até ao rude Cruzeiro de pedra de Gon-
çalo Ramires o Cortador. . . O gordo Ordonho então,
atirando o brado de — aPrestes, prestes! que é gente
de Bayão!» — descambava pelo escalão da maralha
como um íardo que rola.
No emtanto Tructezindo Ramires, no empenho
d'aprestar a sua mesnada e abalar sobre IMonte-
mór, regera já com o Adail a ordem da arrancada,
mandando que as buzinas soassem mal o sol batesse
na margella do Poço grande. E agora, na sala alta
da Alcáçova, conversava com o seu primo de Riba-
Cav^ado e costumado camarada d'armas, D. Garcia
Viegas — ambos sentados nos poiaes de pedra d'uma
funda janella, onde uma bilha d'agoa cora o seu pú-
caro refrescava entre vasos de manjaricão. D. Garcia
Viegas era um velho esgalgado e ágil, d'escuro ca-
3'i8 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
râo rapado, com uns miados olhos coruscantes —
que merecera a alcunha de Sabedor pela viveza e
succLilencia do seu dizer, as suas infinitas manhas de
guerra, e a prenda de fallar latim mais doutamente
que um Clerig© da Cúria. Convocado por Tructczindo,
como os outros parentes de solar, para engrossar a
mesnada dos Ramires em serviço das Infantas, correra
logo a Santa Ireneia fielmente com o seu pequeno
poder de dez lanças — começando por saquear no
caminho a herdade de Palha-Câ, dos de Severosa,
que andavam com pendão alto na Hoste Real con-
tra as Donas opprimidas. Tão rijamente se apressara
que, desde a madrugada, apenas comera sobre a sella,
em Palha-Cã, duas rodelas dos chouriços roubados.
E com a sede da afogueada correria, ainda na emo-
ção de tão amarga nova, a derrota de Lourenço Ra-
mires seu afilhado, novamente enchia d'agoa o pú-
caro de barro —quando pela porta da sala de armas,
que três cabeças de javali dominavam, rompeu o ve-
lho Ordonho esbaforido:
— Snr. Tructezindo ! Snr. Tructezindo Ramires !
o Bastardo de Bayâo passou a Ribeira, vem sobre nós
com grande troço de lanças !
O velho Rico-Homem saltou do poial. E arremes-
sando a mão cabelluda, cerrada com sanha, como se
já pela gorja empolgasse o Bastardo:
A ILIAISTUE CASA DE RAMIRES 349
— Pelo Sangue de Christo ! em boa hora vem
que nos poupa caminho! Hein, Garcia Viegas? A ca-
vallo e sobre elle . . . ?
Mas, rente aos trôpegos calcanhares de Ordonho,
correra iim Coudel de Besteiros, que gritou dos hum-
braes, saccudindo o capello de couro :
— Senhor! Senhor! A gente de Bayâo parou ao
Cruzeiro! E um cavalleiro moço, com um ramo ver-
de, está deante das barbacans, como trazendo men-
sagem . . .
Tructesindo bateu o sapato de ferro sobre as la-
ges, indignado com tal embaixada mandada por tal
villâo . . . — Mas Garcia Viegas, que d'um sorvo en-
xugara o púcaro, recordou serenamente e lealmente
os preceitos:
— Tende, tende, primo e amigo! Que, por uso e
lei d'aquem e d'além serras, sempre mensageiro com
ramo se deve escutar . . .
— Seja pois! bradou Tructesindo. Ide vós fora ás
barreiras com duas lanças, Ordonho, e sabei do re-
cado !
O Villico rebolou pela denegrida escada de ca-
racol até ao patim da Alcáçova. Dous accostados, de
lança ao hombro, recolhendo d'alguma roída, con-
versavam com o armeiro, que sarapintara de ama-
rello e escarlate cabos d'ascumas novas e as enfdei-
rava contra o muro para seccarem.
3o0 A ILLUSTKE CASA DE n.VMlRES
— Por ordem do Senhor! gritou Ordonho. Lança
direita, e commigo ás barbacans, a receber mensa-
gem ! . . .
Ladeado pelos dous homens que se aprumaram,
atravessou as barreiras; e pelo postigo da barbacan,
que uma quadrilha de besteiros guardava, sahiu ao
terreiro da Honra, largueza de terra calcada, sem
relva ou arvore, onde se erguiam ainda as traves
carcomidas d'uma antiga forca, e se amontoavam
agora, para os concertos da Alcáçova, ripas de ma-
deira, e grossas cantarias lavradas. Depois, sem arre-
dar do humbral, empinando o ventre entre os dous
accostados, bradou ao moço Cavalleiro, que espera-
va sob o rijo sol, sacudindo os moscardos com o seu
ramo d'amoreira:
— Dizei de que gente sois! e a que vindes! e
que credencia trazeis ! . . .
E como arqueara logo a mão inquieta sobre a
orelha — o Cavalleiro, serenamente, entalando o ra-
mo entre o coxoto e o arção, arqueou também os
dous guantes relusentes d'escamas na abertura do
casco, bradou:
— Cavalleiro do solar de Bayâo ! . . . Credencia
não trago que não trago embaixada... Mas o Snr.
D. Lopo ficou além ao Cruzeiro, e deseja que o no-
bre senhor da Honra, o Snr. Tructezindo Ramires, o
escute do eirado da barbacan . . .
A IIXLSTRE CASA DE RAMIRES 3oI
O Villico saudou — recolheu pela poterna aboba-
dada da torre albarran, murmurando para os dous
accostados :
— O Bastardo vem a tratar o resgate do Snr. Lou-
renço Ramires. ..
Ambos rosnaram:
— Feio íeito.
Mas, quando Ordonho oífegante se apressava
para a Alcáçova, encontrou no pateo Tructezindo
Ramires — que, na irada impaciência d*aquel!as de-
longas do Bastardo, descera, todo armado. Sobre o
comprido brial de lá verde-negra, que recobria a
vestidura de malha, as suas barbas rebrilhavam, mais
brancas, atadas n"um grosso nó como a cauda d'um
corcel. Do cinturão tauxeado de prata pendia a um
lado o punhal recurvo, a bozina de marfim — ao ou-
tro uma espada goda, de íolha larga, com alto pu-
nho dourado onde scintillava uma pedra rara tra-
zida outr'ora da Pelestina por Gutierres Piamires, o
d'Ultramar. Um sergente conduzia sobre uma almo-
íada de couro os seus guantes, o seu capello redondo,
de vizeira gradada, como usara El-Rei D. Sancho:
outro carregava o immenso broquel, da forma d'um
coração, revestido de couro escarlate, com o Açor
negro rudemente pintado, esgalhando as garras fu-
riosas. E o Alferes, Afíonso Gomes, seguia com o guião
enrolado na funda de lona.
3.j2 a illustre casa de ramires
Com o velho Rico-Homem descera D. Garcia
Viegas, e os outros parentes do Solar — o decrépito
Ramiro Ramires, um veterano da tomada de Santa-
rém, torcido pelos rheumatismos como a raiz de um
roble, e arrimando os passos trémulos, não a um
bastão, mas a um chusso; o formoso Leonel, o mais
moço dos Samoras do Cendufe, o que matara os dois
ursos nos brejos de Cachamúz e que tão bem tro-
vava; Mendo de Briteiros, o das barbas vermelhas,
grande queimador de bruxas, ledo arranjador de fol-
gares e danças; e o agigantado Senhor dos Paços de
Avellim, todo coberto, como um peixe fabuloso, de
-escamas que reluziam. Como o sol se acercava da
margella do Poço grande, marcando a hora da ar-
rancada sobre Monte-mór — já, dos fundos alpendres
que escondiam os campos do tavolado, os cavallari-
ços puxavam os ginetes de guerra, com as suas altas
sellas pregueadas de prata, as ancas e os peitos
resguardados por coberturas de couro franjado que
rojavam nas lagens. Por todo o Castello se espalhara
que o Bastardo, depois da lide fatal aos Ramires,
correra de Canta-Pedra, ameaçava a Honra: — e de-
bruçados dos passadiços que ligavam a muralha aos
contrafortes da Alcáçova, ou mettidos por entre os
engenhos d'arremesso que atulhavam as corredoiras,
os moços da ucharia, os servos das hortas, os villões
acolhidos para dentro das barbacans, espreitavam o
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 3o3
Senhor de Santa Ireneia e aquelles Cavalleiros fortes,
cora anciedade, tremendo do assalto dos de Bayâo e
d'essa8 horrendas bolas de ferro, cheias de fogo, que
agora as mesnadas Christâs arrojavam tão destra-
mente como as hordas Sarracenas. — No emtanto
com a sua gorra esmagada contra o peito, Ordonho,
arfando, apresentava a Tructesindo o recado do Bas-
tardo :
— É cavalleiro moço, não traz credencia... O
Snr. Bastardo espera ao Cruzeiro . . . E pede que o
attendaes da quadrella das barbacans . . .
— Oue se acerque pois! gritou o velho. E com
quantos queira dos villões que o seguem!
Mas Garcia Viegas, o Sabedor, sempre avisado,
€om a sua esperta mansidão:
— Tende, primo e amigo, tende! Não subaes vós
á tranqueira antes que eu me assegure se Bayão nos
vem com arteirice ou falsura.
E entregando a sua pesada lança de faia a um
douzel, enfiou peia escada soturna da Torre albar-
ran. Em cima no eirado, sussurrando um chuta!
chuta t á fila de besteiros que guarnecia as ameias,
attenta e com a besta encurvada —penetrou no mi-
radouro, espiou pela setteira. O arauto de Bayâo galo-
para para o Cruzeiro, que uma selva movediça de lan-
ças rodeava coriscando. E curto recado lançou — por-
que logo, no seu fouveiro acobertado por uma rede
23
3o4 A ILLl'STUE CASA DE RAMIRES
de malha acairellada d'ouro, Lopo de Bayâo despe-
gou do denso troço de cavalleiros, com a viseira er-
guida, sem lança ou ascuraa de monte, e ociosas so-
bre o arção da sella mourisca as mãos onde se en-
rodilhavam as bridas de couro escarlate. Depois, a
um toque arrastado de buzina, avançou para as bar-
bacans da Honra, vagarosamente, como se acompa-
nhasse um sahimento. Não movera o seu pendão
amarello é negro. Apenas seis infanções o escolta-
vam, também sem lança ou broquel, com sob reves-
tes de panno roxo sobre os saios de malha. Atraz
quatro alentados besteiros carregavam aos hombros
umas andas, toscamente armadas com troncos de ar-
vores, onde um homem jazia estirado, como morto,
coberto, contra o calor e os moscardos, por leves fo-
lhagens de acácia. E um monge seguia n'uma mula
branca, segurando misturadamente com as rédeas um
crucifixo de ferro, sobre que pendia a orla do seu ca-
puz e uma ponta de barba negra.
Da settoira, mesmo sem descortinar por entre
a camada de ramagens a face do homem estendida
nas andas, o Sabedor adivinhou Lourenço Ramires,
o doce afilhado que tanto amara, que tão bem ensi-
nara a terçar lanças e a treinar falcões. E cerrando
os punhos, gritando surdamente — «Bem prestos!
besteiros, bem prestos!» — desceu a escura escada-
ria, tão arremessado pela cólera e pela magoa que
A ILIXSTRE CASA DE RAJIIRES 3o5
O seu elmo cavamente bateu contra o arco da por-
ta, onde o esperava Tructesindo com os Cavalleiros
parentes.
— Senhor primo! bradou. Vosso filho Lourenço
está deante das barreiras da Honra deitado sobre
umas andas!
Com um rosnar d'espanto, um atropelo dos sa-
patos de ferro sobre as lages sonoras, todos segui-
ram pela poterna da albarran o Rico Homem — até
ao escadâo de madeira que se empurrava contra a
quadrella das barbacans. E, quando o enorme velho
surdio no eirado, um silencio pesou, tão ancioso, que
se sentia para além do vergel o chiar triste e lento
da nora e o latir dos mastins.
No terreiro, em frente á cancella gateada, o Bas-
tardo esperava, immovel sobre o seu ginete, com a
formosa face bem levantada, a face de Claro-soJ,
onde as barbas anelladas, cahindo nas solhas do ar-
nez, rebrilhavam como ouro novo. Vergando o ca-
pello d'ouropel, saudou Tructesindo com gravidade e
preito. Depois alçou a mão, que descalçara do guan-
te. E n'um considerado e sereno fallar:
— Senhor Tructesindo Ramires, n'estas andas
vos trago vosso filho Lourenço, que em lide leal, no
valle de Canta-Pedra, colhi pristoneiro e me per-
tence pelo foro dos Ricos-Homens d'Hespanha. E
de Canta-Pedra caminhei com elle para vos pedir que
356 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
entre nós findem estes homizios e estas feias brigas
que malbaratam sangue de bons Christâos . . . Senhor
Tructesindo Ramires, como vós venho de Pveis. De
D. Affonso de Portugal recebi a pranchada de Ca-
valleiro. Toda a nobre raça de Rayão se honra em
mim... Consenti em me dar a mão de vossa filha
D. Violante, que eu quero e que me quer, e mandae
erguer a levadiça para que Lourenço ferido entre no
seu solar e eu vos beije a mão de pae.
Das andas, que estremeceram sobre os hombros
dos besteiros, um desesperado brado partio:
— Não, meu pae!
E hirto na borda do eirado, sem descrusar os
braços, o velho Tructesindo retomou o brado — que
por todo o terreiro da Honra rolou, mais arrogante
e mais cavo :
— Meu filho, antes de mim, te respondeu, villão!
Como se uma pontoada de lança lhe topasse o
peito, o Bastardo vacillou na alta sella : e, colhido pelo
repuKâo das rédeas, o seu fouveiro recuou alteando a
testeira dourada. Mas, a um novo arremesso, repu-
lou contra a oancella. E Lopo de Bayâo erguido so-
bre os estribos, gritava com anciã, com íuror:
— Snr. Tructesindo Ramires, não me tenteis!...
— Arreda, villâo e filho de villóa, arreda! — cla-
mou soberbamente o velho, sem desprender os bra-
ços de sobre o levantado peito, na sua rija immobilidade
A ILLUSTRE C.VS.V DE RAMIRES 3o7
e teima, como se todo o corpo e alma fossem de rijo
íerro.
Então o Bastardo, arrojando o guante con-
tra o muro da barbacan, rugio, chammejante e
rouco :
— Pois pelo sangue de Christo e pela alma de
todos os meus te juro, que se me não dás n'este ins-
tante essa mulher que eu quero e que me quer,
sem filho ficas, que por minhas mãos, deante de ti e
nem que todo o Céo accuda, lhe acabo o resto da
vida !
Já na mão lhe lampejava um punhal. Jlas n'um
Ímpeto de sublime orgulho, um Ímpeto sobrehumano,
em que cresceu como outra escura torre entre as tor-
res da Honra, Tructesindo arrancara a espada:
— Com esta, covarde! com esta! Para que seja
puro, não vil como o teu, o ferro que atravessar o
coração de meu filho!
Furiosamente, com as duas possantes mãos, ar-
remessou a espada, que rodopiou silvando e fais-
cando, se cravou no duro chão, onde tremia, ainda
faiscava, como se uma cólera heróica também a ani-
masse. E no mesmo relance, com um urro, um salto
do ginete, o Bastardo, debruçado do arção, enterrara
o punhal na garganta de Lourenço — em golpe tão
cravado que o esguicho do sangue lhe salpicou a
clara íace, as barbas d'ouro.
358 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
Depois foi uma bruta abalada. Os quatro bestei-
ros sacudiram para o chão as andas, o corpo morto
enrodilhado nos ramos — e atiraram pelo terreiro,
como lebres em clareira, atraz do monge que se
agachava agarrado ás crinas da mula. N'uma curta
desfdada o Bastardo, os seis cavalleiros, gritando o
alarme, mergulharam no arraial que estacara ao ,
Cruzeiro. Ura tumulto remoinhou em torno ao de- '
voto pilar. E em rodilhado tropel a mesnada desen-
freou para a Ribeira, varou a velha ponte, logo en-
nublada em pó e sumida para além do arvoredo.
n"um íugidio coriscar de capellinas e de lanças api-
nhadas.
Uma alta grita, no emtanto, atroara as muralhas í
de Santa Ireneia! Virotes, llechas, balas de fundas as-
sobiavam, despedidas no mesmo furioso repente, sobre ^
o bando de Bayâo: — mas apenas um dos besteiros
que carregara as andas tombou, estrebuchando, com
uma flecha na ilharga. Pela cancella das barreiras já
Cavalleiros e donzeis d'armas se empurravam deses-
peradamente para recolher o corpo de Lourenço Ra-
mires. E Garcia Viegas, os outros parentes, galgaram
ao eirado da barbacan, d"onde Tructesindo se não ar-
redara, rigido e mudo, fitando as andas e seu filho
estatelado com ellas sobre o terreiro da sua Honra.
Quando, ao rumor, elle pesadamente se voltou — to-
dos emmudeceram ante a serenidade da sua face,
A ILLUSTRE CASA DE HAMIRES 359
mais branca que as brancas barbas, d'unia morta
brancura de lapide, com os olhos resequidos e côr
de braza, a latejar, a refulgir, como os dous bura-
cos d' um íorno. Com a mesma sinistra serenidade, to-
cou no hombro do velho Ramiro, que tremia arrima-
do ao seu chusso. E n'uma vagarosa e vasta voz:
— Amigo! cuida tu do corpo de meu filho, que a
alma ainda hoje, por Ucus! lh'a vou eu socegar! . . .
Afastou aquelles senhores emmudecidos d'as-
sombro e d'emoção — e baixou pela gasta escada de
madeira, que rangia sob o peso do enorme Rico-
Homem carregado de ira e dor.
N'esse momento, entre besteiros e serviçaes que
se atropellavam— o corpo de Lourenço Ramires trans-
punha o portello das barbacans, segurado pelo for-
moso Leonel e por Mendo de Briteiros, ambos affo-
gueados de lagrimas e rouquejando ameaças furiosas
contra a raça de Bayâo. Atraz o trôpego Ordonho
gemia, abraçado á espada de Tructesindo, que apa-
nhara no chão do Terreiro e que beijava como para
a consolar. Á borda do fosso uma aveleira espalhava
a sombra leve n'um bronco taboão pregado sobre
toros — d'onde, aos domingos, com o adanel dos
besteiros, Lourenço dirigia os jogos de besta e fre-
cha, distribuindo fartamente as recompensas de bo-
los de mel e de vinho em picheis. Sobre essas ta-
boas o estiraram — recuando todos depois, em quan-
360 A ILLLSTRE CASA DE RAMIRES
to aterradamente se benziam. Um cavalleiro de Bri-
teiros, temendo por aquella alma desamparada e sem
confissão, correra á capella da Alcáçova procurar
Frei Muncio. Outros, rodeando toda a muralha até
ao Baluarte-Velho, gritavam, com desesperados ace-
nos, para o torreão escalavrado, onde, como um
mocho, habitava o Physico, INIas o certeiro punhal
do Bastardo acabara o denodado Lourenço, flor e re-
gra de cavalleiros por toda a terra de Riba-Cavado...
E que lastimoso e desíeito — com suja terra na íace,
a garganta empastada de sangue negro, as malhas do
saio rotas sobre os hombros e embebidas nas carnes
retalhadas, e nua, sem grêva, toda inchada e roxa,
a perna ferida em Canta-Pedra, onde mais sangue
e lama se empastavam!
Tructesindo descia, lento e rigido. E as seccas
brazas dos seus olhos mais se incendiam, em quanto,
atravez do dorido silencio, se acercava do corpo de
seu filho. Deante do banco ajoelhou, agarrou a ar-
refecida mão que pendia; e, junto á face manchada
de sangue e terra, segredou, de alma para alma, n'um
abalado murmúrio, que não era de despedida mas
d'alguma suprema promessa, e que findou n'um beijo
demorado sobre a testa, onde uma restea de sol rebri-
lhou, dardejada d'entre as folhas da aveleira. Depois
erguido n'um arrebate, atirando o braço como para
n'elle recolher toda a força da sua raça, gritou:
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 361
— E agora, senhores, a cavallo, e vingança
brava !
Já pelos páteos, em torno da Alcáçova, corria
um precipitado fragor d'armas. Aos ásperos comraan-
dos dos almocadens as tilas de besteiros, d'archeiros, de
fundibularios, rolavam dos adarves dos mm'0s para
cerrar as quadrilhas. Rapidamente, os cavallariços
da carga amarravam sobre o dorso das mulas os
caixotes do almazem, os alforges da trebalha. Pelas
portas baixas da cosinha, peões e sergentes, antes
de largar, bebiam á pressa uma conca de cerveja. E
no campo das barreiras os cavalleiros, chapeados de
ferro, carregadamente se içavam, com a ajuda dos
donzeis, para as altas sellas dos ginetes — logo ladea-
dos pelos seus infanções e acostados, que aprumavam
a lança sobre o coxote assobiando aos lebreus.
Emfim o Alferes, Affonso Gomes, saccou da funda
e desfraldou o pendão n'um embala nço largo em que
as azas do Açor negrejaram, abertas, como soltando
o vôo enfurecido. O grito agudo do Adail resoára por
toda a cerca — ala! ala! De cima de um marco de
pedra, junto ao postigo do barbacan, Frei Muncio es-
tendia as magras mãos ainda tremulas, abençoava a
hoste. Então Tructèsindo, sobre o seu murzello, rece-
beu do velho Ordonho a espada, de que tão terrivel-
mente se apartara. E estendendo a reluzente folha para
as torres da sua Honra como para um altar, bradou:
362 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
— Muros de Santa Ireneia, não vos torne eu a
vâr, se em três dias, de sol a sol, ainda restar san-
gue maldito nas veias do traidor de Bayâo!
E, escancaradas as barreiras, a cavalgada tro-
peou em torno ao pendão solto, — em quanto, na
torre d'Almenara, sob o parado explendor da sesta
d' Agosto, o sino grande começava a tanger a finados.
Quando Gonçalo á tarde, enterrado na poltrona
á varanda, releu este Capitulo de sangue e furor so-
bre que se esfalfara durante a seaiana, pensou «que
o lance impressionaria.»
Sentiu então o appetite de recolher sem demora
os louvores merecidos — e de mostrar a Gracinha e
ao Padre Sueiro os três Capítulos completos antes
de remetter o manuscripto para os AniiRes. E
mesmo lhe convinha — porque a erudição archeolo-
gica do Padre Sueiro íorneceria talvez algum traço
novo, bem Afíonsino, que mais. avivasse aquella re-
surreição da Honra de Santa-íreneia e dos seus se-
nhores formidáveis. Immediatamente resolveu par-
tir de manhã para Oliveira com o seu trabalho — que,
depois de esmiuçado pelo Padre Sueiro, confiaria ao
procurador de D. Arminda Viegas para elle o copiar
n'aquella sua formosa lettra, tão celebrada em todo o
A ILLUSTIIE CASA DE RAMIRES 363
Districto, e apenas egualada (nas maiúsculas) pela
do Escrivão da Camará Ecciesiastica.
Sacudia já da poeira uma antiga pasta de mar-
roquim para transportar a Obra amada — quando o
Bento empurrou a porta, ajoujado com uma cesta de
vime que uma toalha de rendas cobria.
— Um presente,
— Um presente... De quem?
— Da Feitosa, das senhoras.
— Bravo !
— E com uma carta, que vem pregada na toa-
lha.
Com que curiosidade Gonçalo despedaçou o so-
brescripto! Mas, apezar de lacrado com um' pom-
poso sello d'Armas, apenas continha linhas a lápis
n'um bilhete de visita da prima Maria Mendonça:
— «Hontera ao jantar contei quanto o primo Gon-
«çalo gosta de pécegos sobretudo aboborados em
avinho, e a Annica toma por isso a liberdade de
«lhe mandar esse cestinho de pêcegos da Feitosa,
«que como sabe são fallados em todo o Portugal...
«Mil saudades.» — Gonçalo imaginou logo no fundo
da cesta, debaixo dos pècegos, docemente escondida,
uma cartinha da D. Anna !
— Bemi São pècegos.. . Deixa ahi sobre uma ca-
deira. . .
364 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
— Era melhor que os levasse já para a copa, Snr.
Dr., para os arrumar na prateleira. . .
— Deixa sobre a cadeira!
Apenas o Bento cerrara a porta, estendeu no chão
a toalha, entornou cuidadosamente por cima os pé-
cegos formosos que perfumavam a livraria. No fundo
da cesta encontrou apenas folhas de parra. Leve-
mente desconsolado, cheirou um pêcego. Depois con-
siderou que os pécegos, arranjados por ella, com
parra que ella apanhara na latada, sob toalha que
ella escolhera no armário, formavam na sua mudez
cheirosa um recadinho sentimental. Ainda agachado
na esteira, comeu o pêcego: — e recollocou os outros
na cesta para os levar a Gracinha.
Mas, ao outro dia, ás duas horas, já com a pa-
relha do Torto engatada á caleche, já com as luvas
calçadas para a jornada d'01iveira, recebeu uma ines-
perada visita — a visita do Snr. Visconde de Rio-Man-
so. Descalçando as luvas o Fidalgo pensava: — «O
Rio-Manso! Que me quererá esse casmurro?» — Na
sala, pousado á beira do canapé de velludo verde e
esfregando os joelhos, o Visconde contou que de
volta de Villa Clara e deante do portão da Torre
vencera o seu teimoso acanhamento para apresen-
tar os seus respeitos ao Snr. Gonçalo Ramires. E não
só para esse gostoso dever— mas também (como
A ILLISTUE CASA DE UAMIRES 365
soubera que S. Ex.*^ se propunha Deputado pelo Cir-
culo) para lhe offerecer na freguezia de Canta-Pedra
o seu préstimo e os seus votos. . .
Gonçalo, risonho e pasmado, saudava, torcia em-
baraçadamente o bigode. E o Visconde de Rio-Manso
nâo estranhava aquelle pasmo por que de certo
o Snr. Gonçalo Ramires o conhecera sempre como
ferrenho Regenerador . . . Mas então ! Elle pertencia
á geração, agora bem rareada, que antepunha aos
deveres da Politica os deveres da gratidão: — e
além da sympathia que lhe merecia o Snr. Gonçalo
Ramires (pelo que constava em todo o Districto do
seu talento, da sua affabil idade, da sua caridade)
também conservava para com S. Ex.''' uma divida
de gratidão, ainda aberta, não por indiííerença, mas
por timidez , . .
— V. Ex.*^ não adivinha, Snr. Gonçalo Mendes
Ramires?... Nâo se lembra?
— Nâo, realmente, Snr. Visconde, não me...
Pois uma tarde o Snr. Gonçalo Mendes Rami-
res passava a cavallo pela quinta da VarancUnlia,
quando a sua neta, brincando no terraço (aquelle
terraço gradeado d'onde se curva uma magnólia),
deixou escapar uma péla para a estrada. O Snr. Gon-
çalo Mendes Ramires, rindo, apeou immediatamente,
apanhou a péla, e, para a restituir á menina debru-
366 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
cada da grade, abeirou a egoa do muro depois de
montar — e com que ligeiresa e garbo!...
— V. Ex.^ não se lembrava?
— Sim, sim, agora. . .
Pois no ladrilho do terraço, rente da grade, pou-
sava um jarro cheio de cravos. O Snr. Gonçalo Men-
des, depois de gracejar com a menina (que, louvado
Deus, não era acanhada!) pediu um cravo^ que ella
escolheu — e que lhe deu, toda séria, como uma se-
nhora. E elle, que observara da janella do seu quar-
to, pensava: — «Ora ahi está! Este Fidalgo da Tor-
re, um tão grande Fidalgo, que amável ! » — Oh
S. Ex.* não tinha que rir e corar. . . A gentileza fora
grande — e a elle, avò, parecera immensa ! Mas não
ficara somente na péla apanhada . . .
— O Snr. Gonçalo Mendes Ramires não se re-
corda?...
— Sim, Snr. Visconde, com effeito, agora...
Pois, logo no outro dia, o Snr. Gonçalo Men-
des Ramires mandara da Torro um precioso cesto de
rosas, com o seu bilhete, e n'uma linha este grace-
jo:— «Em agradecimento d'um cravo, rosas á Snr.''
D. Rosa.»
Gonçalo quasi pulou na cadeira, divertido:
— Sim, sim, Snr. Visconde, perfeitamente!..
Asjora me recordo!
A ILLUSTRK CAS.V DE RAMIRES 367
Pois desdo essa tarde elle sempre almejara por
uma opportunidade de mostrar ao Sm\ Gonçalo Men-
des Ramires o seu reconhecimento, a sua sympathia.
Alas que! era tímido, vivia muito retirado... N'essa
manhã porém, em Villa Clara, soubera pelo Gouveia
que S. Ex.* se apresentava deputado pelo Circulo.
Apezar de ser eleição tão segura, já pela influencia
do Snr. Piam ires, já pela influencia do Governo, logo
pensara — «Bem, ahi está a occasiâo!» E, agora oí-
ferecia a S. Ex.^ na treguezia de Canta-Pedra, o seu
préstimo e os seus votos.
Gonçalo murmurou, enternecido:
— Realmente, Snr. Visconde, nada me podia sen-
sibilisar mais do que uma oííerta tão espontânea,
tão. . .
— Sou eu que me sensibiliso por V. Ex.*^ accei-
tar. E agora não fallemos mais n'esse meu pobre
préstimo e n'esses meus pobres votos. . . Pois V. Ex.*"
tem aqui uma venerável vivenda.
E como o Visconde alludia ao desejo, já n'elle
antigo, de admirar de perto a famosa torre, mais ve-
lha que Portugal — ambos desceram ao pomar. O
Visconde, com o guarda-sol ao hombro, pasmou em
silencio para a torre; reconheceu (apezar de libe-
ral) o prestigio que resulta d"uma tão alta linhagem
como a dos Piamires; e gabou sinceramente o laranjal.
Depois, sabendo que o Pereira da Riosa arrendara a
368 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
quinta, invejou ao Snr. Ramires tão cuidadoso e hon-
rado rendeiro... — Deante do portão, o char-à-hancs
do Visconde esperava, atrelado de duas mulas lus-
trosas e nédias. Gonçalo admirou as mulas. E, abrin-
do a portinliola, supplicou ao Snr. Visconde que bei-
jasse por elle a mâosinha da Snr.'' D. Rosa. Commo-
vido, o Visconde confessou uma ousadia, uma espe-
rança— e era que S. Ex." um dia, á sua escolha, pa-
rasse em Canta-Pedra, jantasse na quinta, para conhe-
cer mais intimamente a menina da péla e do cravo...
— Mas com immensa honra!... E desde já me
proponho a ensinar á Snr.'' D. Rosa, se ella o não
sabe, o jogo da péla á antiga portugueza.
O Snr. Visconde saudou, banhado de gosto e
riso, com a mão sobre o coração.
Gonçalo, trepando as escadas, murmurava: —
«Oh senhores, que sympathico homem! E que ge-
neroso homem, que paga rosas com votos! Ora ve-
jam como ás vezes, por uma pequenina attençâo, se '
ganha ura amigo! Com certeza, para a semana vou
a Canta-Pedra jantar!... Homem encantador!»
E foi n'um ditoso estado d'alma que accommodou
na caleche a pasta de marroquim, com o manuscri-
pto, o cesto sentimental dos pécegos da D. Anna —
e accendeu um charuto, e saltou á almofada, e to-
mou as rédeas para lançar, n"um troto alegre até
Oliveira, a parelha branca do Russo.
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 360
No largo cFEl-Piey, antes d'apear, perguntou logo
ao Joaquim da Porta noticias dos senhores. Os se-
nhores todos muito bem, graças a Deus... O Snr. José
Barrôlo partira de manhã a cavallo para a quinta do
Snr. Barão das Marges, só recolhia á noite...
— E o Snr. Padre Sueiro?
— O Snr. Padre Saeiro, creio que está para casa
da Snr.** D. Arminda...
— E a Snr.''' D. Graça?
— A Snr.'^ D. Graça desceu ha um bocadinho
grande para o Mirante, de chapéu... Naturalmente ia
á Egreja das Monicas.
— Bem. Leva esse cesto de pêcegos e dize ao
Joaquim da Copa que o ponha na mesa, assim mes-
mo no cesto, com as folhas... E que me subam ao
quarto agoa quente.
O relógio de parede, na sala de espera, gemia
preguiçosamente as cinco horas. O palacete repou-
sava n'ura claro silencio. E depois da poeira e dos
solavancos da estrada, pareceu mais doce a Gonçalo
a frescura do seu quarto com as quatro janellas
abertas sobre o jardim rcigado e sobre a cerca das
Monicas. Cuidadosamente, guardou logo n'uma ga-
veta da commoda a pasta preciosa de marroquim.
Uma creada de olhos repolhudos entrara com o jar-
rão d'agua quente : — e o Fidalgo, como sempre,
24
370 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
chasqueoLi a moça sobre os lindos sargentos de Ca-
vallaria, cujo quartel tentador dominava o lavadou-
ro da quinta, e retinha as raparigas da casa ensa-
boando todo o dia com paixão. Depois ainda se de-
morou, mudando o lato empoeirado, assobiando va-
gamente, encostado á varanda sobre a callada rua
das Tecedeiras. O sino das Monicas lançou um lindo
repique... E Gonçalo, enfastiado da sua solidão, de-
cidiu descer pelo terraço do jardim, e surprehender
Gracinha nas suas devoções, na Egrejinha.
Em baixo, no corredor, crusou o Joaquim da
Copa :
— Então o Snr. Barrôlo hoje não janta?
— O Snr. Barrôlo foi jantar com o Snr. Barão
das Marges, na quinta . . . São os annos da menina.
Naturalmente só recolhe á noite.
Gonçalo, no jardim, ainda tardou por entre os
alegretes, compondo para o casaco um ramo de flo-
res ligeiras. Depois rodeou a estufa, sorrindo da
porta com que o Barrôlo a enriquecera, uma porta
envidraçada, arqueada em ferradura, com um mo-
nogramma de cores rutilantes: e metteu pela rua
que conduzia ao repuxo, coberta de silencio e pe-
numbra pela rama enlaçada dos seus altos loureiros.
Adiante, circumdado de bancos de pedra, d'arvores
de aroma e flor, cantava dormentemente o fino re-
puxo n'uni tanque redondo, de borda larga, onde
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 371
s'espaçavam grossos vasos de louça branca com o
brazâo ramalhudo dos Sás. Certamente na véspera
ou de manhã se lavara o tanque, por que na agoa
muito transparente, sobre as lages muito claras, na-
davam com redobrada vivacidade, em lampejos ro-
sados, os peixes que Gonçalo assustou mergulhan-
do e agitando a bengala. E d'aquella borda do tan-
que já elle avistava ao íundo de outra rua, debrua-
da de dhalias abertas, o Mirante — uma construcçâo
do século XVIII, simulando um Templosinho grego,
côr de rosa desbotada, com um gordo Cupido sobre
a cúpula, e janellinhas de rocalha entre o meio re-
levo das columnas caneiladas por onde trepavam
jasmineiros.
Gonçalo arrancou, como costumava, folhas d' um
ramo de lucia-liraa, para esmagar e perfumar as
mãos: e continuou para o Mirante, vagarosamente,
por entre as dhalias apinhadas. Na allea, novamente
ensaibrada, os sapatos finos de verniz que calçara
pousavam sem rumor no saibro molle. E assim,
n"um silencio de sombra indolente, se acercou do
Mirante — e d'uma das janellinhas que, mal cerrada,
conservava corrida por dentro a persiana de taboi-
nhas verdes. Rente d'essa janella era a escada de
pedra, que, do elevado e comprido terraço sobre que
se estendia o jardim, communicava com a encova-
da rua das Tecedeiras, quasi em írente á Capella
372 A ILLUSTBE CASA DE RAMIRES
das ^Nlonicas. E Gonçalo, sem pressa, descia — quan-
do, atravez da persiana rala, sentiu dentro do Mi-
rante um su surro, um cochichar perturbado. Sor-
rindo, pensou que alguma das creadas da casa se
refugiara n'es5e Templosinho de Amor com ura dos
sargentos terríveis de Cavallaria... Mas, não! impos-
sível ! Pois se, momentos antes. Gracinha roçara
aquella janella e pisara aquella escada, no seu ca-
minho para as Monicas! E então outra idéa o va-
rou como uma espada — e tão dolorosa que recuou
com terror da beira do Mirante d'onde ella perver-
samente o assaltara. Já porém uma desesperada cu-
riosidade a agarrara, o empurrava — e collou a face
á persiana com a cautella d'um espião. O ÒMirante
recahira em silencio -^ Gonçalo temia que o trahis-
sem as pancadas do seu coração... Santo Deus! De
novo o murmúrio recomeçara, mais apressado, mais
turbado. Alguém supplicava, balbuciava : — a Não,
não, que loucura!» — Alguém urgia, impaciente e
ardente: — «Sim, meu amor! sim, meu amori» E
a ambos os reconheceu — tão .claramente como se a
persiana se erguesse e por ella entrasse toda a vasta
claridade do jardim. Era Gracinha! Era o Caval-
lcn'o
Colhido por uma immensa vergonha, no ataran-
tado pavor de que o surprchendessem junto do Mi-
rante e da torpeza escondida — enfiou pela rua das
A ILUSTRE CASA DE RAMIRES 373
dhalias. encolhido, com os sapatos leves no saibro
molle, costeou o repuxo por sob a raraaria dos ar-
bustos, remergulhou na escuridão dos loureiros, des-
lisou surra teiramente por traz da estufa — penetrou
no socego do Palacete. Mas o murmúrio do Mirante
ainda o envolvia, mais desfallecido, mais rendido —
«Não, não, que loucura!... Sim, sim, meu amor!...»
Abalou atravez das salas desertas como uma
sombra acossada; escorregou abafadamente pela es-
cadaria de pedra, varou o portão n'uma carreira, es-
preitando, com medo do Joaquim da Porta. No Lar-
go parou, deante da grade do relógio do sol. Mas o
susiiro do Mirante errava por todo o Largo como
um vento enroscado, raspando as lages, batendo as
barbas dos Santos sobre o portal da Egreja de S. Ma-
theus, redomoinhando nos telhados musgosos da Cor-
doaria...— «Não, não, que loucura! Sim, sim! meu
amor!» Então Gonçalo sentiu a anciedade desespe-
rada d"escapar para longe, para immensamente lon-
ge do Largo, do Palacete, da cidade, de toda aquella
vergonha que o trespassava. Mas uma carruagem?...
Pensou na alquilaria do Maciel, a mais retirada, para
além das ultimas casas, na estrada do Seminário. E
cosido com os muros baixos d'essas ruas pobres, cor-
reu, mandou engatar uma caleche fechada.
Emquanto esperava á porta, n'um banco, passou
pela estrada uma lenta carroça com moveis, panellas
374 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
de cosinha, um grande colxâo onde se alastrava uma
nódoa. Bruscamente Gonçalo recordou o divan que
guarnecia o Mirante. Era enorme, de mogno, lodo
coberto de riscadinho, com mollas lassas que ran-
giam. E de repente o murmúrio recomeçou, cresceu,
rolando com fragor de trovão por sobre os casebres
visinhos, por sobre a cerca do Seminário, por sobre
Oliveira espantada: — a Não, não, que loucura! Sim,
sim, meu amor!»
Com um salto, Gonçalo gritou para dentro, para
a çavallariça escura:
— Então, que inferno! não acaba, essa carroa-
gem?
— Já a largar, meu Fidalgo.
No relógio da Piedade sete horas batiam — quando
elle se atirou para a caleche, e fechou as stores per-
ras, e se enterrou no fundo, bem sumido, esmagado,
com a sensação que o Mundo tremera, e as mais for-
tes almas se abatiam, e a sua Torre, velha como o
Reino, rachava, mostrando dentro um montão igno-
rado de lixo e de saias sujas.
ÍX
Á porta da cosinha, saccudindo um sobrescripto
já amarrotado, Gonçalo ralhava com a Rosa cosi-
nheira :
— Oh Piosa! pois tanto lhe recommendei que não
escrevesse á mana Graça?.. . Que teimosa! Então não
arranjávamos a pequena, sem essas lamurias para
Oliveira? Graças a Deus, a Torre é larga bastante
para mais uma creancinha!
É que morrera a Crispola — a desgraçada viuva,
visinha da Torre, que com um rancho miúdo de dous
pequenos, três raparigas, definhava no catre desde a
Paschoa. E agora Gonçalo, que mantivera o casebre
em fartura, andava accommodando as pobres crean-
ças — já por cuidado d'elle muito aceadamente ves-
tidas de luto. A rapariga mais velha (também Cris-
pola), sempre encaíuada na cosinha da Torre, pas-
376 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
sava regularmente a «ajudanta da Rosa», com sol-
dada. Um dos rapazes, de doze annos, espigado e es-
perto, também Gonçalo o empregava na Torre como
andarilho, para os recados, cora fardeta de botões
amarellos. O outro, moUe e ranhoso, mas com o
geito e o amor de carpinteirar, já Gonçalo, sob o
patrocínio da tia Louredo, o collocára em Lisboa,
na Officina de S. José. D'uma das outras raparigas
se encarregava a mãe de Manoel Duarte, amora-
vel senhora que habitava uma quinta formosa junto
a Treixedo, e adorava Gonçalo de quem se consi-
derava avassallayy. Mas para a mais novinha e a
mais íraquinha não se arranjava amparo solido. A
Rosa lembrara então — « que certamente a Snr.''
D. Maria da Graça recolheria a creaturinha...» Gon-
çalo rosnara com seccura: — «Oh! por uma côdea
mais de pão não se necessita encommodar a cidade
d'Oliueira!» Rosa, porém, enlevada na obra, dese-
jando para pequerrucha tão franzina e loira o aga-
salho d"uma senhora, escrevera a Gracinha, pela es-
merada lettra do Bento, uma verbosa carta com o
pedido, e toda a historia lamentosa da Crispola, e
louvores devotos ú caridade do Snr. Doutor. E era
a resposta de Gracinha, demorada mas enternecida,
com a recommendaçâo « de lhe mandarem logo a po-
bre creança» — que impacientava o Fidalgo.
Por que, desde a tarde abominável do Mirante,
A ILLUSTIIE CASA DE RAMIRES 377
estranhamente se apoderara d'ello uma repugnância
quasi pudica em communicar com os Cunhaes! Era
como se esse ^íirante e a torpeza abrigada dentro
das suas paredes còr de rosa empestassem o jardim,
o palacete, o Largo d'El-Rei, toda a cidade d'01i-
veira, e elle agora, por aceio moral, recuasse ante
essa região empestada onde o seu coração e o seu
orgulho suílocavam... Logo depois da sua fuga rece-
bera do bum Barròlo uma carta espantada: — aQue
«telha foi essa? Porque não esperaste? Eu, quando
«voltei á noite da quinta do Marges, até fiquei com
«cuidado. E não imaginas como a Gracinha anda ner-
«vosa! Soubemos da partida, por acaso, por um co-
« cheiro do Maciel. Já hoje comemos os pécegos, mas
«não comprehendemos ! . . . » — Gonçalo respondeu
seccamente n'um bilhete: — «Negócios». Depois re-
cordou que deixara na gaveta do seu quarto o ma-
nuscripto da Novella: e mandou um moço da quinta,
de madrugada, com um recado quasi secreto ao Pa-
dre Sueiro, « para que entregasse a pasta ao portador,
bem embrulhada, sem contar aos senhores...» Entre a
Torre e os Cunhaes só desejava separação e silencio.
E nos encerrados dias que passou na Torre
(sem se arriscar a Villa-Clara, no terror de que a
vergonha do seu nome já andasse rosnada pelo es-
tanco do Simões ou pelo armazém do Ramos) não
cessou de vibrar n"uma cólera espalhada que a todos
378 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
varava... Cólera contra a irmã que, calcando pudor,
altivez de raça, receio dos escarneos d'01iveira, tão
fácil e estouvadamente como se calcam as flores des-
botadas d'um tapete, correra ao Mirante, ao macho
da bigodeira, apenas elle lhe acenara com o lenço
almiscarado! Cólera contra o Barrôlo, o bochechudo
bacoco, que empregava os seus bacocos dias cele-
brando o Cavalleiro, arrastando o Cavalleiro para o
Largo d'El-Rei, escolhendo na adega os vinhos mais
finos para que o Cavalleiro aquecesse o sangue, agei-
tando as almofadas de todos os camapés para que o
Cavalleiro saboreasse estiradamente o seu charuto e
a graça presente de Gracinha! Emfim cólera contra
si, que, pela baixa cubica de uma cadeira em S. Ben-
to, abatera a única muralha segura entre a irmã e o
homem da marrafa lusente — que era a sua inimi-
zade, aquella escarpada inimizade, sempre, desde
Coimbra, tão rijamente reforçada e recaiada!... Ah!
todos três horrendamente culpados!
Depois uma tarde, enfastiado da solidão, ou-
sou um passeio por Villa-Clara. E reconheceu que
na Assembleia, no estanco do Simões, na loja do Ra-
mos, os amores de Gracinha eram certamente tão
ignorados como se passassem nas profundidades da
Tartaria. Immediatamente a sua alma doce, agora
socegada, se abandonou á doçura de tecer des-
culpas subtis para todos os culpados d'aquella queda
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 379
triste... Gracinha, coitada, sem filhos, com tâo mol-
lengo e ensosso marido, alheia a todos os interesses
da intelligencia, indolente mesmo para uma costura
ou bordado — cedera, que mulher não cederia? á cré-
dula e primitiva paixão que lhe brotara na alma,
n'ella se enraizara, lhe dera as suas únicas alegrias
do mundo e (infiuencia ainda mais poderosa!) lhe
arrancara as suas únicas lagrimas! O Barròlo, coi-
tado, era o Bacoco — e como o apilriteiro» da can-
tiga, incapaz de mais nobres fructos, só produzia os
«pilritos» da sua Bacoquice. E elle, coitado d'elle, po-
bre, ignorado, irresistivelmente se rendera á íatal Lei
d'Accrescentamento, que o levara, como a iodos leva
na anciã de fama e fortuna, a furar precipitadamente
pela porta casual que se abre, sem reparar na es-
truraeira que atravanca os humbraes... x\h realmente
todos bem pouco culpados deante de Deus que nos
creou tâo variáveis, tâo frágeis, tâo dependentes de
forças por nós ainda menos governadas do que o
Vento ou do que o Sol!
Não, irremissivelmente culpado, — só o outro, o
malandro da grenha ondeada! Esse, em toda a sua
conducta com Gracinha, desde estudante, mostrara
sempre um egoísmo atrevido, só punivel como puniam
os antigos Ramires, com a morte depois dos tormen-
tos, e a carcassa posta aos corvos. Em quanto lhe
agradou, na ociosidade dos longos estios, um namoro
380 A ILLUSTRE CASA DE UAMIBES
bocolico sob OS arvoredos da Torre — namorara.
Quando considerou que uma mulher e filhos lhe
atravancariam a vida ligeira — trahira. Logo que a
antiga bem amada pertenceu a outro homem — re-
começara o cerco languido para colher, sem os en-
cargos da paternidade, as emoções do sentimento. E
apenas esse marido lhe entreabre a sua porta— não
se demora, íende brutamente sobre a prezai Ah co-
mo o avô Tructesindo trataria villâo de tal vilianial
Certamente o assava n'uma rugidora fogueira dean-
te das barbacans— ou, nas masmoras da Alcáçova,
lhe entupia as guellas falsas com bom chumbo der-
retido . . .
Pois elle, neto de Tructesindo, nem sequer podia,
quando encontrasse o Cavalleiro nas ruas d'01iveira,
carregar o chapéu sobre a testa e passar! A menor
diminuição n'essa intimidade tão desastradamente
reatada — seria como a revelação da torpeza ainda
abafada nas paredes do Mirante ! Toda Oliveira co-
chicharia, riria. — a Olha o Fidalgo da Torre! Mette
o Cavalleiro nos Cunhaes com. a irmã, e logo, pas-
sadas semanas, rompe de novo com o Cavalleiro!
Houve escândalo, e gordo !»^ — Que delicia para as
Lousadas! Não, ao contrario! agora devia ostentar
pelo Cavalleiro uma fraternidade tâo- larga e tão rui-
dosa — que, pela sua largueza e o seu ruido, intei-
ramente tapasse e abafasse o sujo enredo que por
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 381
traz latejava. Fingimento torturante — e imposto pela
honra do nome! O sujo enredo bem guardado en-
tre os mais densos arvoredos do jardim, na mais cer-
rada penumbra do ^lirante!— e por íóra, ao sol, nas
praças d'01iveira elle sempre com o braço carinho-
samente enlaçado no braço do Cavalleiro!
Os dias rolavam — e no espirito de Gonçalo não
se estabelecia serenidade. E sobretudo o amargurava
sentir que era forçado a essa intimidade vistosa
com o Cavalleiro — tanto pelo cuidado do sen nome,
como pela conveniência da sua Eleição. Toda a sua
altivez por vezes se revoltava: — «Que me importa
a Eleição! Oue valor tem uma encardida cadeira
em S. Bento?...» Mas logo a secca Piealidade o
emmudecia. A Eleição era a única íenda por onde
elle lograria escapar do seu buraco rural; e, se rom-
pesse com o Cavalleiro, esse villâo, vezeiro a villa-
nias, immediatameníe, com o appoio da horda intri-
gante de Lisboa, improvisaria outro Candidato por
Villa-Clara... Desgraçadamente elle era um d"esses
seres vergados que dependem. E a triste dependên-
cia d'onde provinha? Da pobreza — d"essa escassa
renda de duas quintas, abastança para um simples,
mas pobreza para elle, com a sua educação, os seus
gostos, os seus deveres de fidalguia, o seu espirito
de sociabilidade.
E estes pensamentos lenta e capciosamente o
382 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
empurraram a outro pensamento — á D. Anna Lu-
cena, aos seus duzentos contos... Até que uma manhã
encarou corajosamente uma possibilidade perturba-
dora:— casar com a D. Anna! — Por que não? Elia
claramente lhe mostrara inclinação, quasi consenti-
mento... Por que não casaria com a D. Anna?
Sim! o pae carniceiro, o irmão assassino... Mas
também elle, entre tantos avós até aos Suevos fero-
zes, descortinaria algum avô carniceiro; e a occu-
pação dos Ramires, atravez dos séculos heróicos,
consistira realmente em assassinar. De resto o car-
niceiro e o assassino, ambos mortos, sombras re-
motas, pertenciam a uma Lenda que se apagava.
D. Anna, pelo casamento, subira da Populaça para a
Burguesia. Elle não a encontrava no talho do pae,
nem no velhacouto do irmão — mas na quinta da
Feitosa, já Piica-Uona, com procurador, com capel-
lão, com lacaios, como uma antiga Fiamires. Ah ! sin-
ceramente, toda a hesitação era pueril— desde que
esses duzentos contos, de dinheiro muito limpo, de
bom dinheiro rural, os trazia com o seu corpo, mu-
lher tão formosa e séria. Com esse puro ouro, e o seu
nome, e o seu talento, não necessitaria para dominar
na Politica a refalsada mão do Cavalleiro ... E de-
pois que vida nobre e completa! A sua velha Torre
restituída ao explendor sóbrio d'outras eras; uma
lavoura de luxo no histórico torrão de Treixedo; as
A ÍLLUSTRE CASA DE RAMIRES 383
viagens fecundas ás terras que educam!.,. E a mu-
lher quo fornecia estes regalos não lhes amargava
o goso, como em tantos casamentos ricos, com a
sua fealdade, os seus agudos ossos, ou a sua pelle
relentada... Não! Depois do brilho social do dia não
o esperava na alcova um mostrengo — mas Vénus.
E assim, lentamente trabalhado por estas tenta-
ções, mandou uma tarde um bilhete á prima Maria,
á Feitosa, pedindo — «para se encontrarem, sós,
« n'algum passeio dos arredores, por que desejava ter
«com ella uma conversasinha séria e intima...» Mas
três immensos dias se arrastaram — e não appareceu
a almejada carta da Feitosa. Gonçalo concluiu que a
prima Maria, tão esperta, farejando a natureza da
conoerífcis/nha e sem uma certeza para o alegrar,
retardava, se recusava. Atravessou então uma deso-
lada semana, remoendo a melancolia d' uma vida que
sentia òca e toda feita dMncertezas. O orgulho, um
pudor complicado, não lhe consentiam voltar a Oli-
veira, ao quarto d'onde implacavelmente avistaria,
por sobre o arvoredo, a cúpula do Mirante cora o
seu gordo Cupido: — e quasi o arrepiava a idéa de
beijar a irmã na face que o outro babujára! Sobre
a Eleição descera um silencio de abobada — e outra
repugnância, mais acerba, lhe vedava escrever ao
Cavalleiro. João Gouveia gozava as suas férias na
Costa, de sapatos brancos, apanhando conchinhas
:58't A ILLUSTRE CASA DE P.AMIRES
na praia. E Villa-Clara não se tolerava n'esse meado
ardente de Septembro — cora o Tito no Alemtejo
onde o levara uma doença do velho Morgado de
Cidadelhe, o Manoel Duarte na quinta da mãe di-
rigindo as vindimas, e a Assembleia deserta e ador-
mecida sob o innumeravel susurro das moscas...
Para se occupar e atulhar as horas, mais que
por dever ou gosto d'Arte, retomou a sua Novel-
la. Mas sem fervor, sem veia ágil. Agora era a sa-
nhuda arrancada de Tructesindo e dos seus caval-
leiros, correndo sobre o Bastardo de Bayâo. Lance
ditticultoso — reclamando fragor, um rebrilhante co-
lorido Medieval. E elle tão molle e tão apagado!...
Felizmente, no seu Poemeto, o Tio Duarte recheara
esse violento trecho de bem apinceladas paisagens,
d'interessantes rasgos de guerra.
Logo na Ribeira do Coice, Tructesindo encon-
trava cortada a machado a decrépita ponte, cujos
rotos barrotes e taboões carcomidos entulhavam no
fundo a corrente escassa. Na sua fuga o Bastardo
acautelladamente a desmantelara para deter a ca-
valgada vingadora. Então a pesada hoste de Santa
Ireneia avançou pela esguia ourela, ladeando os
renques de choupos em demanda do vau do Espi-
gai... Mas que tardança! (juando as derradeiras
A ILLISTRE CASA DE RAMIRES 380
malas de carga choutaraiií na terra d'além- ribeira
já a tarde se adoçava, e nas poças d"agua, entre as
poldras, o brilho esmorecia, umas ainda d"ouro pal-
lido, outras apenas rosadas. Immediatamente Dom
Garcia Viegas, o Sabedor, aconselhou que a mes-
nada se dividisse: — a peonagem e a carga avan-
çando para Montemor, esgueirada e callada, para
esquivar recontros; os senhores de lança e os bes-
teiros de cavallo arrancando em dura carreira para
colher o Bastardo. Todos louvaram o ardil do Sa-
bedor: e a cavalgada, aligeirada das fdas tardas
de archeiros e íundibularios, largou, soltas as rédeas,
atravez de terras ermas, depois por entre barrocaes,
até aos Tres-CamhiJios, desolada chan onde se er-
gue solitariamente aquelle car\alho velhíssimo que
outr'ora, antes d'exorcisado por S. Froalengo, abri-
gava no sabbado mais negro de Janeiro, ao clarão
<i'archotes enxofrados, a Grande Ronda de todas as
bruchas de Portugal. Junto do carvalho Tructesindo
sopeou a arrancada: e, alçado nos estribos, farejava
as três sendas que se trifurcam e se encovam entre
ásperos, lobregos cerros de bravio e de tojo. Passara
ahi o Bastardo malvado?... Ah! por certo passara
e toda a sua maldade — porque no respaldo d'uma
fraga, junto a três cabras magras retouçando o
malto, jazia, com os braços abertos, um pobre pas-
torinho morto, varado por uma frecha! Para que o
386 A ILLLSTRE CASA DE RAMIRES
triste cabreiro não soprasse novas da gente de
Bayâo — uma bruta setta lhe atravessara o peito es-
carnado de íome, mal coberto de trapos. Mas por
qual das sendas se embrenhara o malvado ? Na terra
solta, raspada pelo vento suão que rolava d'en-
tre-montes, não appareciam pegadas revoltas de tro-
pel fugindo. E, em tal solidão, nem choça ou pa-
lhoça d'onde villâo ou velha alapada espreitassem a
levada do bando . . . Então, ao mando do Alferes Af-
fonso Gomes, três almogavres despediram pelos três
caminhos á descoberta — em quanto os Cavalleiros^
sem desmontar, desafivelavam os morriões para lim-
par nas íaces barbudas o suor que os alagava, ou
abeiravam os ginetes d'um sumido fio d'agua que á
orla da chan se arrastava entre ralo caniçal. Tru-
ctesindo não se arredou de sob a ramaria do car-
valho de S. Froalengo, immovel sobre o murzello
imraovel, todo cerrado no ferro da sua negra ar-
madura, as mãos juntas sobre a sella e o elmo pe-
sadamente inclinado como em magua e oração. E
ao lado, com as colleiras errissadas de pregos, as
sangrentas linguas penduradas, arquejavam, estira-
dos, os seus dous mastins.
Já no emtanto a espera se alongava, inquieta,
enfadonha — quando o almogavre que mettera pela
senda de Nascente reappareceu n'um rolo de poeira,
atirando logo o alarde de longe, com a ascuma
A ILLUSTRE CASA DE RAMIIíES 387
alta. A hora escassa de carreira avistara n'Qm ca-
beço uma hoste acampada, em arraial seguro, ro-
deado d'estaca e valia!...
— Que pendão?
— As treze arruellas.
— Deus louvado! gritou Tructesindo, que estre-
meceu como acordando. É D. Pedro de Castro, o Cas-
íellão, que entrou com os Leonezes e vem pelas se-
nhoras Infantas !
Por esse caminho pois não se atrevera o Bas-
tardo!... Mas já pela senda de Poente recolhia
outro almogavre contando que entre-cerros, n'um
pinhal, topara um bando de bufarinheiros genove-
zes, retardados desde alv^a, por que um d'elles es-
morecera com mal de íebres. E então?.., — Então,
pela borda do pinheiral apenas passara em todo o
dia (no jurar dos genovezes) uma companhia de
truões voltando da feira de Grajelos. Só restava pois
o trilho do Qieio, pedregoso e esbarrancado como 0
leito enxuto d'uma torrente. E por elle, a um bra-
do de Tructesindo, tropeou a cavalgada. Mas já o
crepúsculo tristíssimo descia — e sempre o cami-
nho se estirava, agreste, soturno, infindável, entre
os cerros de urze e rocha, sem uma cabana, um
muro, uma sebe, rasto de rez ou homem. Ao lon-
ge, mais ao longe, emfim, enchergaram a campi-
na árida, coberta de solidão e penumbra, dilatada
388 A ILLLSTRE CASA DE RAMIRES
na sua mudez até a um ceii remoto, onde já se
apagava uma derradeira tira de poente còr de cobre
e còr de sangue. Então Tructesindo deteve a aba-
lada, rente d'espinheiros que se torciam nas lufadas
mais rijas do suão:
— Por Deus, senhores, que corremos em pressa
vã e sem esperança!... Qi-ie pensaes, Garcia Viegas?
Todo o bando se apinhara : e uma fumarada
subia dos ginetes arquejantes sob as coberturas de
malha. O Sabedor estendeu o braço:
— Senhores! O Bastardo, antes de nós, galgou
d'escapada essa campina além, e metteu a Valle-Mur-
tinho para pernoitar na Honra de Agredel, que é
bem afortalezada e parenta de Bayâo ...
— E nós, pois, D. Garcia?
— Nós, senhores e amigos, só nos resta também
pernoitar. Voltemos aos Tres-Caminhos. E de lá, em
boa avença, ao arraial do Snr. D. Pedro de Castro, a
pedir agasalho ... A par de tamanho senhor encon-
traremos mais fartamente que nos nossos alforges
o que todos, christâos e brutos, vamos necessitando,
cevada, um naco de vianda, e de vinhos três golpes
rijos...
Todos bradaram com alvoroço: — «Bem traçado!
bem traçado ! . . . » — E de novo, pelo barranco pedre-
goso, a cavalgada trotou pezadamente para os Três-
Cam/nJios — onde já dous corvos se encarniçavam
sobre o corpo do pastorinho morto.
A ILLUSTHE CASA DE RAMIRES 389
Em breve, ao cabo do caminho do Nascente, no
cabeço alto, alvejaram, as tendas do arraial, ao cla-
rão das fogueiras que por todo elle fumegavam.
O Adail de Santa Ireneia arrancou da bosina três
sons lentos annunciando Filho-d'Algo. Logo de den-
tro da estacada outras businas soaram, claras e
acolhedoras. Então o Adail galopou até ao vallado, a
annunciar ás atalaias postadas nas barreiras, entre
luzentes fogos d'almenara, a mesnada amiga dos
Ramires. Tructcsindo parara no córrego escuro, que
o pinheiral cerrado mais escurecia movendo e ge-
mendo no vento. Dous cavalleiros, de sobreveste ne-
gra e capuz, logo correram pelo pendor do outeiro —
bradando que o Snr. D. Pedro de Castro esperava
o nobre senhor de Santa Ireneia e muito se prazia
para todo seu regalo e serviço ! Silenciosamente
Tructesindo desmontou; e com D. Garcia Viegas, e
Leonel de Camora e Mendo de Briteiros e outros
parentes de solar, todos sem lança ou broquel, des-
calçados os guantes, galgaram o cabeço até á esta-
cada, cujas cancellas se escancararam, mostrando
na claridade incerta dos íogareus sombrios magotes
de peões — onde, por entre os bassinetes de ferro,
surdiam toucas amarellas de mancebas e gorros
enguisalhados de jograes. Apenas o velho assomou
aos barrotes dous infanções, sacudindo a espada,
bradaram :
390 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
— Honra ! honra ! aos Ricos-Homens de Portugal !
As trompas misturavam o clangor ríspido aos
rufos lassos dos tambores. E por entre a turba, que
calladamente recuara em alas lentas, avançou, pre-
cedido por quatro cavalleiros que erguiam archotes
accesos, o velho D, Pedro de Castro, o Castellào, o
homem das longas guerras e dos vastos senhorios.
Um corselete d'anta com lavores de prata cinjia o
seu peito já curvado, como consumido por tama-
nhas fadigas de pelejar e tamanhas cubicas de rei-
nar. Sem elmo, sem armas, appoiava a mão cabel-
luda de rijas veias a um bastão de marfim. E os
olhos encovados faiscavam, com afiavel curiosidade,
na requeimada magreza da face, de nariz mais re-
curvo que o bico d'um falcão, repuxada a um lado
por um fundo gilvaz que se sumia na barba crespa,
aguda e quasi branca.
Deante do senhor de Santa Ireneia alargou vaga-
rosamente os braços. E com ura grave riso que mais
lhe recurvou, sobre a barba espetada, o nariz de ra-
pina :
— Viva Deus! Grande é a noite que vos traz,
primo e amigo! Oue não a esperava eu de tanta
honra, nem sequer de tanto gosto ! . . .
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 391
Ao rematar este daro Capitulo, depois de três
manhãs de trabalho, Gonçalo arrojou a penna com
um suspiro de cansaço. Ah! já lhe entrava a fartura
d'essa interminável Novella, desenrolada como um
novello solto— sem que elle lhe podesse encurtar
os fios, tão cerradamente os emmaranhára no seu
denso Poema o Tio Duarte que elle seguia gemendo l
E depois nem o consolava a certeza de construir
obra forte. Esses Tructesindos, esses Bastardos, es-
ses Castros, esses Sabedores, eram realmente varões
Aííonsinos, de solida substancia histórica?... Talvez
apenas oucos titeres, mal engonçados em erradas ar-
maduras, povoando inveridicos arraiaes e castellos,
sem um gesto ou dizer que datassem das velhas
edades !
E ao outro dia não reuniu em todo o seu ser
coragem para rotomar aquella soírega correria dos
de Santa Ireneia sobre o bando escapadiço de Bayâo.
De resto já remettera três Capitulos da Novella —
já calmara as anciãs do Castanheiro. Mas a ociosi-
dade mais lhe pesou n'essa semana, arrastada pelos
canapés ou por entre os buxos do jardim, íumando
e tristemente sentindo que a Vida lhe tugia em fu-
mo. Para o enervar accrescia um aborrecimento de
dinheiro — uma lettra de seiscentos mil réis, do der-
radeiro anno de Coimbra, sempre reformada, sempre
392 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
avolumada, e que agora o emprestador, um certo
Leite, d'01iveira, reclamava com dureza. O seu al-
íaiate de Lisboa também o importunava com uma
conta pavorosa, atulhando duas laudas. Mas sobre-
tudo o desolava a solidão da Torre. Todos os ale-
gres amigos dispersos pela beira-mar ou nas quintas.
A Eleição encalhada como uma barca no lodo. A ir-
mã de certo com o outro no Mirante. Até a prima
Maria desattendendo ingratamente o seu timido pe-
dido d'uma «conversasinha.» E elle no seu quente
casarão, sem energia, immobilisado n'uma inércia
crescente, como se cordas o travassem, cada dia mais
apertadas — e d'homem se volvesse em fardo.
Uma tarde no seu quarto, vagaroso e sombrio,
sem mesmo parolar cora o Bento, acabava de se ves-
tir para montar a cavallo, espairecer n'um galope
pelos caminhos de Valverde — quando o pequeno da
Crispola (já estabelecido na Torre como pagem, de
fardeta de botões amarellos) bateu esbaforidamente
á porta. — Era uma senhora que parara ao portão,
dentro d'uma carruagem, pedia, ao Fidalgo para des-
cer . . .
— Não disse o nome?
— Não, senhor. É uma senhora magra, puxada
a dous cavallos, com redes . . .
A prima Maria! Com que alvoroço correu, agar-
rando no cabide do corredor um velho chapéu de
A ILLUSTRE CASA DE KAMIRES 393
palha ! E em baixo foi como se contemplasse a
Deusa da Fortuna na sua roda ligeira.
— Oh prima Maria, que surpreza!... Que felici-
dade!
Debruçada da portinhola da carruagem (a ca-
leche azul da Fe/fosa), D. Maria Mendonça, com um
chapéu novo enramalhetado de lila*zes, desculpou
atrapalhadamente e rindo o seu silencio. Recebera a
carta do primo muito atrasada... Sempre o íatal
carteiro, trôpego e bêbedo . . . Depois uns dias muito
atarefados em Oliveira com a Annica, que preparava
para o inverno a casa da rua das Vellas.
— E finalmente, como devia uma visita em Vil-
la-Clara á pobre Venancia Rios, que tem estado
doente, achei mais simples e mais completo parar
na Torre. . . E então?
Gonçalo sorria, embaraçado :
— Então, nada de grave, mas... É que desejava
conversar comsigo... Por que não entra?
Abrira a portinhola. EUa preteria passear na es-
trada. E ambos s'encaminharam para o velho banco
de pedra que os alamos abrigavam em frente ao por-
tão da Torre. Gonçalo sacudiu com o lenço a ponta
do banco.
— Pois, prima Maria, eu desejava conversar...
^las é difficil, tão difíicil!... Talvez o melhor seja
atacar a questão brutalmente.
394 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
— Ataque.
— Então lá vae!... A prima acha que ou perco
o meu tempo se me dedicar á sua amiga D. Anna?
Pousada de leve á borda do banco, enrolando
attentamente a seda preta do guardasolinho, Maria
Mendonça tardou, murmurou:
— Não, acho que o primo não perde o seu tempo. . .
— Ah! acha?
Ella considerava Gonçalo, gozando a sua pertur-
bação e anciedade.
— Jesus, prima!... Diga alguma cousa mais!
— Mas que quer que lhe diga mais? Já lhe de-
clarei em Oliveira. Ainda sou muito nova para an-
dar com recadinhos de sentimento. Mas acho que a
Annica é bonita, é rica, é viuva . . .
Gonçalo arrancou do banco, erguendo os bra-
ços, em desolação. E, como D. Maria também se er-
guera, ambos seguiram pela tira de relva que orla
os alamos. Elle quasi gemia, desconsolado:
— Ora bonita, viuva, rica . . . Para conhecer es-
ses grandes segredos não a incommodava eu, pri-
ma!... Que diabo! seja boa rapariga, soja franca!
A prima sabe, de certo já ambas conversaram...
Seja tranca. Ella tem por mim alguma sympathia?
]). Maria parou, murmurou, riscando com a
ponta do guardasolinho o trilho amarellado da relva :
— Pois está claro que tem...
A ÍLLUSTRE CASA DE R.\MIRES 395
— Bravo! Então, se d'aqui a um tempo, passa-
dos estes primeiros mezes de luto, eu me decla-
rasse, me...
Elia dardejou a Gonçalo os espertos olhos:
— Santo Deus, como o primo por ahi vae, a
galope... Então é uma paixão?
Gonçalo tirou o seu velho chapéu de palha,
passou lentamente os dedos pelos cabellos. E n'um
immenso e triste desabafo :
— Olhe, prima! E' sobretudo a necessidade de
me accommodar na vida! Pois não lhe parece?
— Tanto me parece que lhe indiquei o bom
poizo. . . E agora adeus, passa das cinco horas. Não
me quero demorar por causa dos creados.
Gonçalo protestou, supplicou :
— Mais um bocadinho!... E' tão cedo! Só outra
cousa, com franqueza. Ella é boa rapariga?
D. Maria voltara, ao cabo do renque d'alamos,
recolhendo á caleche :
— Uma pontinha de génio, para animar a exis-
tência. Mas muito boa rapariga... E uma dona de
casa admirável! O primo não imagina como anda a
Feitosa. A ordem, o acceio, a regularidade, a disci-
plina... Ella olha por tudo, até pela adega, até pela
cocheira!
Gonçalo esfregou radiantemente as mãos:
— Pois se d'aqui a um anno se realisar o gran-
396 A ILLISTRE CASA DE RAMIRES
de acontecimento hei de gritar por toda a parte que
íoi a prima Maria que salvou a casa de Ramires!
— Por isso eu trabalho, para servir o brazáo e o
nome! exclamou ella, saltando ligeiramente para a
caleche, como se fugisse, arremessada aquella clara
confissão.
O trintanario trepara á almofada. E em quanto
os cavallos folgados largavam, aos corcovos, D. Ma-
ria ainda gritou:
— Sabe quem encontrei em Villa Clara? O Titót
— O Tito?...
— Chegou do x\lemtejo, vem jantar comslgo. Eu
não o trouxe na carruagem por decência, para o não
comprometter...
E a caleche rolou — entre os risos e os doces
acenos com que ambos se afagavam, n'aquella nova
concordância mais calorosa d' uma conspiração sen-
timental.
Gonçalo largou logo alegremente para Villa-
Clara, ao encontro do Tito. E já o alvoroçava a idéa
de colher do Tito, intimo da Feitora, informações so-
bre a D. Anna, o seu génio, os seus modos. A prima
Maria, por amor dos Ramires (sobretudo, coitada,
para proveito dos Mendonças!), idealisava a noiva.
Mas o Tito, o homem mais verídico do Reino, amando
a Verdade com a antiga devoção de Epaminondas,
apresentaria D. Anna sem um enteite nem um des-
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 39i
eníeitc. E o Tito ... Ah ! sob o seu vozeirão troante, a
sua indolência bovina, o Tito possuia um espirito
muito attento, muito penetrante.
Logo á Portella os dons amigos s'encontraram. E,
apesar de separação tão curta, o abraço íoi estron-
doso.
— Oh sô Gonçalâo!...
— Oh Titósinho querido! tens feito cá uma falta
enorme!... E teu h'mão?
O mano melhor, mas arrasado. Muito cartapa-
cio e muito fêmea para velho de sessenta annos.
E elle iá o avisara: — «Mano João, mano João! olhe
que assim sempre agarrado aos papeis velhos e ás
cachopas novas, o mano rebenta!»
— E por cá? Essa eleição?
— A eleição agora para outubro, nos começos
d'outubro... De resto, semsaboria universal. Gouveia
na Costa, Manoel Duarte na vindima... Eu secca-
dote, murchote, sem veia, até sem appetite.
— Olha que eu venho jantar e convidei o Vi-
deirinha.
— Bem sei, já me disse a prima Maria, que pa-
rou um bocado na Torre. . . Ella está na Fe/tosa
com a D. Anna.
Durante um momento repisou sobre a intimi-
dade da prima Maria na Feitosa, com a tentação de
desabafar, logo alli na estrada, sobre o inesperado
398 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
romance que desabrochara. Mas não ousou! Era
um angustiado acanhamento, como a vergonha de
cubicar assim todos os restos do pobre Lucena — o
Circulo e a viuva.
Então, conversando do Alemtejo e do mano João
(que contara muitas antigualhas massadoras sobre a
genealogia dos Piamires), desceram da Portella á
Torre, com tenção de estirar o passeio até aos Bra-
vaes. Mas, na Torre, Gonçalo desejou avisar a Rosa
dos dous convivas inesperados, senhores de tão po-
deroso garfo. Entraram pela porta do pomar onde
um fio lento d'agoa s'atardava nos regueiros. Aos
brados galhofeiros do Fidalgo a Rosa accudio, lim-
pando as mãos ao avental. O que! dous convidados!
Mesmo quatro, e mais valentes, que graças a Deus
nosso Senhor o jantarinho sobrava! Ainda de tarde
comprara a uma mulher da Costa um cesto de sardi-
nhas, graúdas e gordas que regalavam ! . . . O Tito
reclamou logo uma fritada tremenda de sardinha e
ovos. E os dois amigos atravessavam o pateo —
quando Gonçalo reparou no Bento, escarranchado no
banco da latada, deante d'uma tigella, e areando
com enthusiasmo um castão de prata lavrada, que
emergia de dentro d'uma toalha enrolada como d' uma
bainha.
— Que castão é esse, Bento? assim embrulhado?
O Bento lentamente saccou da toalha torcida
A ILLISTRE CASA DE RAMIRES 399
um chicote, escuro e comprido, com três arestas
afiadas como as d'um florete.
— Nem o Snr. Dr. sabia! Estava no sótão. Agora
de tarde andava lá a escaraíunchar por causa d'uma
ninhada de gatos, e detraz d'um bahu dou com
umas esporas de prateleira e com este arrocho...
Gonçalo estudou o macisso castão de prata, sa-
cudio a fina vara que zinia:
— Explendido chicote... Oh Tito, hein?... Afia-
do como um cutello. E antigo, muito antigo, com as
minhas armas... De que diabo é feito? baleia?
— De cavallo-marinho . . . Uma arma terrível.
Mata um homem... O mano João tem um, mas com
castão de metal... Mata um homem!
— Bem, rematou Gonçalo. Limpa e põe no meu
quarto. Bento! Passa a ser o meu chicote de guerra!
Á porta do pomar ainda encontraram o Pereira
da Piiosa, de quinzena de cutim deitada aos hombros.
Em breve, no dia de S. Miguel, o Pereira tomava
emfim a lavra da Torre. E Gonçalo gracejou, mos-
trando ao Tito o lavrador famoso. Eis o homem!
eis o grande homem que se preparava a tornar a
Torre luna íallada maravilha de ceara, vinha e
horta! O Pereira coçava a barba rala:
— E também a enterrar bom dinheiro! Emfim
um gosto sempre valeu mais que um vintém! E o
Fidalgo, como patrão, merece terra em que os olhos
se esqueçam de regalados!...
400 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
— Oh, Snr. Pereira! rebombou o Tito. Então não
se esqueça de cuidar dos melões. É uma vergonha!
Nunca na Torre se comeu um bom melão!
— Pois para o anno, assim Deus nos conserve,
já V. Ex." comerá na Torre um bom melão!
Gonçalo abraçou ainda o esperto lavrador — e
apressou para a estrada, decidido a desenrolar toda a
confidencia ao Tito, na solidão favorável do arvoredo
dos Bravaes. Mas, apenas recomeçaram a caminhada,
o mesmo enleio o travou — quasi temendo agora as
iníormaçòes do Tito, homem tão severo, de Moral tão
escarpada. E todo o demorado giro pelos Bravaes o
findaram sem que Gonçalo desafogasse. O crepúsculo
descera, molle e quente, quando recolheram — con-
versando sobre a pesca do sável no Guadiana.
Defronte do portão da Torre Videirinha espe-
rava, dedilhando o violão na penumbra dos alamos.
Como a noite se conservava abafada, scni uma ara-
gem, jantaram na varanda, com dous candieiros
accesos. Logo ao desdobrar o guardanapo o Tito,
vermelho e espraiado sobre a cadeira, declarou «que
graças ao Senhor da Saúde, a sede era boa!» Elle e
Gonçalo praticaram as usadas façanhas de garfo e
de copo. Quando o Bento sérvio o café uma im-
mensa e lustrosa lua nova surgia, ao íundo da
quinta escura, por traz dos outeiros de Valverde.
Gonçalo, enterrado n'uma cadeira de vime, accen-
A ILLISTHE CASA DE RAMIRES 401
<leu o charuto com beatitude. Todos os tédios e in-
certezas d'essas semanas se despegavam da sua alma
como cinza apagada, brevemente varrida. E íoi sen-
tindo menos a doçura da noite, que um sabor me-
lhor á vida desanuviada, que exclamou:
— Pois, senhores, agora, está uma delicia!...
Videirinha, depois d'um curto cigarro, retomara
o violão. Atravez da quinta, pedaços de muros caia-
dos, algum trilho de rua mais descoberto, a agua
do Tanque-Grande, rebrilhavam ao luar que resva-
lava dos cerros; e a quietação do arvoredo, da cla-
ridade, da noite, penetravam n'alma com adormece-
dora caricia. Tito e Gonçalo saboreavam o famoso
cognac de Moscatel, preciosa antigualha da Torre,
silenciosamente enlevados no Videirinha — que re-
cuara para o fundo da varanda, se envolvera em
sombra. Nunca o bom cantador ferira as cordas com
inspiração mais enternecida. Até os campos, o ceu
inclinado, a lua cheia sobre as collinas, escutavam
os queixumes do fado da Ariosa. E no escuro, sob
a varanda, o pigarro da Rosa, os passos abafados
dos creados, algum sumido riso de rapariga, o bater
das orelhas d'um perdigueiro — eram como a pre-
sença d'um povo suavemente attrahido pelo descante
formoso.
Assim a noite se alongou, a lua subio com soli-
26
402 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
tario fulgor. Tito, pesado do bródio, adormecera. E
como sempre, para lindar, Videirinha atacou arden-
temente o Fado dos Ramires:
Quem te verá sem que estremeça,
Torre de Santa Ireneia,
Assim tão negra e callada
Por noites de lua cheia . . .
E lançou então uma quadra nova, que traba-
lhara n'essa semana com amor sobre uma erudita
nota do bom Padre Sueiro. Era a gloria magnifica
de Paio Ramires, Mestre do Templo — a quem o
Papa Innocencio, e a Rainha Branca de Castella, e
todos os Príncipes da Christandade supplicam que se
arme, e corra em dura pressa, e liberte S. Luiz Pici
de França, captivo nas terras de Egypto...
Que só em Paio Ramires
Põe agora o mundo a esperança...
Que junte os seus Cavalleiros
E que salve o Rei de França!
E por este avô e tal façanha até Gonçalo se
interessou — acompanhando o canto, n'um tremulo
esganiçado, de braço erguido:
Ai, que junte os seus cavalleiros
E que salve o Rei de França ! . . .
A ILLUSTnE CASA DE RAMIRES 403
Ao rolar mais forte do coro Tito descerrou as
pálpebras, arrancou do canapé o corpansil iramenso
— e declarou que marchava para Villa Clara:
— Estou derreado! Sempre em jornada e sem
dormir, desde hontem ás quatro da manhã que lar-
guei de Cidadelhe . . . Caramba, dava agora, como
aquelle rei grego, um crusado por um burro !
Então Gonçalo, animado pelo cognac, também
se ergueu com uma resolução quasi alegre :
— Oh Tito, antes de sahires anda cá dentro que
quero fallar comtigo a respeito d'um caso!
Agarrara um dos candieiros, penetrou na sala
de jantar onde errava o cheiro de magnólias mor-
rendo n'um vaso. E ahi, sem preparação, com os olhos
bem decididos, bem cravados no Tito — que o seguira
arrastadamente, ainda se espreguiçava :
— Oh Tito, ouve lá e sé franco. Tu ias muito á
Fe/tosa... Oue te parece aquella D. Anna?
Tito, que despertara como ao rebentar d'um
morteiro, considerou Gonçalo com assombro :
— Ora essa! Mas a que propósito?...
Gonçalo atalhou, na pressa de colher rapidamente
uma certeza:
— Olha! Eu para ti não tenho segredos. rs"es-
tas ultimas semanas houveram ahi umas conversas,
uns encontros... Emfim, para resumir, se d'aqui a
4('4 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
tempos eu pensasse em casar com a D. Anna, creio
que ella, por seu lado, não recusava. Tu ias á
Feitosa. Tu sabes... Que tal rapariga é ella?,
Tito crusára os braços violentamente:
— Pois tu vaes casar com a D. Anna?
— Homem, não vou casar. IS'âo sigo esta noite
para a Egreja. Por ora quero só informações... E
de quem as posso ter, mais trancas e mais seguras,
do que de ti, que és meu amigo e que a conheces?
Tito nâo descrusára os braços — levantando para
o Fidalgo da Torre a lace honesta e severa:
— Pois tu pensas em casar com a D. Anna, tu,
Gonçalo Mendes Ramires?...
Gonçalo atirou um gesto de impaciência e far-
tura:
— Oh! se me vens com a fidalguia e com o
Paio Ramires.. .
O Tito quasi berrou, na sua indignação:
— Qual fidalguia! E' que um homem de bem,
como tu, nâo pensa em casar com uma creatura
como ella!... Fidalguia?... Sim! Mas fidalguia d'al-
ma e de coração!
Gonçalo emmudeceu, trespassado. Depois, com
uma serenidade a que se forçara, argumentou, de-
duzio:
— Bem! tu então sabes outras cousas... Eu por
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 405
mim sei que ella é bonita e rica: sei também que é
séria, por que nunca sobre ella se rosnou nem aqui
nem em Lisboa : são qualidades para se casar com
uma mulher... Tu agora affianças que se não pode
casar com ella. Portanto sabes outras cousas... Dize.
Foi então o Tito que emmudeceu, immovel
deante do Fidalgo como se o laço d' uma corda o
colhesse e o travasse. Por fim, soprando, com um
esforço enorme:
— Tu não me chamaste para eu depor como
testemunha... Em principio, sem explicações, per-
guntas se podes casar com essa mulher. E eu, sem
explicações, em principio, declaro que não... Que
diabo queres mais?
Gonçalo exclamou, revoltado:
— Que quero? Pelo amor de Deus, Tito!... Sup-
põe tu que estou doidamente apaixonado pela D. An-
na, ou que tenho um interesse immenso em casar
com ella... Que não estou, nem tenho: mas suppõe!
N'esse caso não se desvia um amigo d'um acto em
que elle está tão lundamente empenhado, sem lhe
apresentar uma razão, uma prova...
Assim apertado Tito baixou a cabeça, que coçou
com desespero. Depois acobardadamente, para esca-
par, adiou a contenda:
— Olha, Gonçalo, eu estou muito estafado. Tu não
406 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
vaes a esta hora para a Egreja: e ella menos, que
o outro marido ainda não arrefeceu na cova. Então
amanhã conversamos.
Atirou duas passadas enormes, empurrou a porta
da varanda, berrando pelo Videirinha:
— São que horas, Videira! Toca a abalar, que
não dormi desde Cidadelhe.
Videirinha, que preparava com esmero uni grog
frio, esvasiou atabalhoadamente o copo, recolheu o
violão precioso. E Gonçalo não os deteve, esfregando
silenciosamente as mãos, amuado com aquella re-
cusa do Tito tão desamiga e teimosa. Como sombras
atravessaram uma sala onde dormia, esquecida desde
os Ramires do século xviii, uma espineta de charão.
No patamar da escada que conduzia á portinha ver-
de, Gonçalo, para os allumiar, erguera um castiçal.
Tiíó accendeu um cigarro á vela. A sua mão cabel-
luda tremia.
— Então, entendido... Appareco amanhã, Gonçalo.
— Ouando quizeres, Tito.
E no secco assentimento do Fidalgo transpare-
cia tanto despeito — que Tito hesitou nos estreitos
degraus que atulhava. Por fim desceu pesadamente.
Videirinha, já na estrada, considerava o ceu, a
luminosa serenidade:
— Que linda noite, snr. Doutor!
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 407
— Linda, Videirinha... E obrigado. Vossè hoje
tocou divinamente!
Gonçalo entrara na sala dos retratos, pousara
apenas o castiçal — quando, por baixo da varanda
aberta, o vozeirão do Tito retumbou:
— Oh Gonçalo, desce cá abaixo.
O Fidalgo rolou pelos degraus com soffregui-
dâo. Para além dos alamos, no luar da estrada, Vi-
deirinha afinava o violão. E apenas a face do Fi-
dalgo surdio na claridade da porta o Tito, que es-
perava com o chapéo para a nuca, desabafou:
— Oh Gonçalo, tu ficaste amuado... E' tolice!
E entre nós não quero sombras. Então lá vael Tu
não podes casar com essa mulher por que ella teve
um amante. Não sei se antes ou depois d'esse teve
outro. Não ha creatura mais manhosa, nem mais
disfarçada. Não me venhas agora com perguntas.
Mas fica certo que ella teve um amante. Sou eu
que t'o affirmo: e tu sabes que eu nunca minto!
Bruscamente metteu á estrada, com os possan-
tes hombros vergados. Gonçalo não se movera de
sobre os degraus de pedra, deante dos mudos ala-
mos, como elle immoveis. Uma palavra passara,
irreparável, no macio silencio da noite e da lua
— e eis o alto sonho que elle construirá sobre a
D. Anna e a sua belleza e os seus duzentos contos
despenhado no lodo! Lentamente subio, repenetrou
408 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
na sala. Por cima da chamma alta da vela, n'um pai-
nel fusco, uma face acordara, uma secca, amareliada
face, de altivos bigodes negros, que se inclinava, at-
tenta como reparando. E longe, Videirinha espalhava
pelos campos adormecidos os ingénuos versos cele-
brando a gloria tamanha da Casa illustre:
Que só em Paio Ramires
Põe agora o mundo esperaiK^a . .
Que junte os seus cavalleiros
E que salve o Rei de Fran<,"a ! . . ,
X
Até noite alta Gonçalo, passeando pelo quarto,
reiTioeu a amarga certeza de que sempre, atravez de
toda a sua vida (quasi desde o collegio de S. Fiel!),
não cessara de padecer humilhações. E todas lhe
resultavam de intentos muito simples, tão seguros
para qualquer homem como o vôo para qualquer
ave — só para elle constantemente rematados por
dôr, vergonha ou perda! A' entrada da vida esco-
lhe com enthusiasmo um confidente, um irmão, que
traz para a quieta intimidade da Torre — e logo esse
homem se apodera ligeiramente do coração de Gra-
cinha e ultrajosamente a ahandona! Depois concebe
o desejo tão corrente de penetrar na Vida Politica
— e logo o Acaso o íórça a que se renda e se aco-
lha á influencia d'esse mesmo homem, agora Au-
ctoridade poderosa, por elle durante todos esses an-
nos de despeito tão detestada e chasqueada! Depois
abre ao amigo, agora restabelecido na sua convi-
410 A ILLLSTRE CASA DE RAMIRES
vencia, a porta dos Cunhaes, confiado na seriedade,
no rigido orgulho da irraâ — e logo a irmã s'aban-
dona ao antigo enganador, sem lucta, na primeira
tarde em que se encontra com elle na sombra fa-
vorável d'um caramanchão! Agora pensa era casar
com uma mulher que lhe oíTerecia com uma grande
belleza uma grande íortuna — e immediatamente
um companheiro de Villa-Clara passa e segreda :
— « A mulher que escolheste, Gonçalinho, é uma
maratona cheia d'amantes!» De certo essa mulher
não a amava com um amor nobre e forte! Mas de-
cidira accommodar nos íormosos braços d'ella, muito
confortavelmente, a sua sorte insegura — e eis que
logo desaba, com esmagadora pontualidade, a hu-
milhação costumada. Realmente o Destino malhava
sobre elle com rancor desmedido!
— E por quê? murmurava Gonçalo, despindo
melancolicamente o casaco. Em vida tão curta, tanta
decepção . . . Porquê ? Pobre de mim !
Cahio no vasto leito como n'uma sepultura —
enterrou a face no travesseiro com um suspiro, um
enternecido suspiro de piedade por aquella sua sorte
tão contrariada, tão sem soccorro. E recordava o
presumpçoso verso do Videirinha, ainda n'essa noite
proclamado ao violão:
"Selha casa de Ramires
Honra e flor de Portugal! •
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 411
Como a flor murchara! Que mesquinha hom-a!
E que contraste o do derradeh'o Gonçalo, encolhido
no seu buraco de Santa Ireneia, com esses grandes
avós Ramires cantados pelo Videirinha — todos elles,
se Historia e Lenda não mentiam, de vidas tão
triumphaes e sonoras! Não! nem sequer d'elles her-
dara a qualidade por todos herdada atravez dos
tempos — a valentia fácil. Seu pae ainda fora o bom
Ramires destemido — que na faltada desordem da
romaria da Riosa avançava com um guardasol con-
tra três clavinas engatilhadas. Mas elle... Alli, no
segredo do quarto apagado, bem o podia livremente
gemer — elle nascera com a falha, a falha de peor
desdouro, essa irremediável íraqueza da carne que,
irremediavelmente, deante de um perigo, uma amea-
ça, uma sombra, o forçava a recuar, a íugir... A
fugir d'um Casco. A fugir d'um malandro de suis-
sas louras que, n"uma estrada e depois n"uma venda
o insulta sem motivo, para meramente ostentar pim-
ponice e arreganho. Ah vergonhosa carne, tão es-
pantadiça !
E a Alma... Wessa calada treva do quarto bem
o podia reconhecer também, gemendo. A mesma íra-
queza lhe tolhia a Alma! Era essa fraqueza que o
abandonava a qualquer influencia, logo por ella le-
vado como folha secca por qualquer sopro. Por que
a prima Maria uma tarde adoça os espertos olhos
412 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
e lhe aconselha por traz do leque qae se interesse
pela D. Anna — logo elle, íumegando d'esperança,
ergue sobre o dinheh'o e a belleza de D. Anna uma
presumpçosa torre de ventura e luxo. E a Eleição?
essa desgraçada Eleição? Quem o empurrara para a
Eleição, e para a reconciliação indecente com o Ca-
valleiro, e para os desgostos d'ahi manados? O Gou-
veia, só com leves argucias, murmuradas por cima
do cache-nez desde a loja do Piamos até á esquina
do Correio! Mas qu^! mesmo dentro da sua Torre
era governado pelo Bento, que superiormente lhe
impunha gostos, dietas, passeios, e opiniões e gra-
vatas!— Homem de tal natureza, por mais bem do-
tado na Intelligencia, é massa inerte a que o Mun-
do constantemente imprime formas varias e contra-
rias. O João Gouveia fizera d'elle um candidato
servil. O Manuel Duarte poderia fazer d'elle um be-
berrão immundo. O Bento facilmente o levaria a
atar ao pescoço, em vez d'uma gravata de seda, uma
coUeira de couro! Que miséria! E todavia o Homem
só vale pela Vontade — só no exercício da Vontade
reside o goso da Vida. Por que se a Vontade bem
exercida encontra em torno submissão — então é a
delicia do domínio sereno : se encontra em torno re-
sistência — então é a delicia maior da lucta interes-
sante. Só não sahe goso forte e viril da inércia que
se deixa arrastar mudamente, n'um silencio e ma- ;
A ILLIISTUE CASA DE RAMIRES 413
cieza de cera . . . Mas elle, elle, descendendo de tan-
tos varões famosos pelo Querer — não conservaria,
escondida algures no seu Ser, dormente e quente
como uma braza sob cinza, uma parcella d'essa ener-
gia hereditária?... Talvez! nunca porém n'esse peco
€ encafuado viver de Santa Ireneia a fagulha des-
pertaria, resaltaria em chamma intensa e útil. Não!
pobre d'elle! Mesmo nos movimentos da Alma onde
todo o homem realisa a liberdade pura — elle soííre-
ria sempre a oppressão da Sorte inimiga!
Com outro suspiro mais se enterrou, s'escondeu
sob a roupa. Não adormecia, a noite findava — já o
relógio de charão, no corredor, batera cavamente as
quatro horas. E então, atravez das pálpebras cerra-
das, no confuso cançasso de tantas tristezas revol-
vidas, Gonçalo percebeu, atravez da treva do quarto,
destacando pallidamente da treva, faces lentas que
passavam . . .
Eram faces muito antigas, com desusadas barbas
ancestraes, com cicatrizes de ferozes ferros, umas
ainda flammejando como no fragor de uma batalha,
outras sorrindo magestosamente como na pompa
d" uma gala — todas dilatadas pelo uso soberbo do
mandar e vencer. E Gonçalo, espreitando por sobre
a borda do lençol, reconhecia n'essas faces as verí-
dicas feições de velhos Ramires, ou já assim com-
templadas em denegridos retratos, ou por elle assim
414 A ILLUSTRE CAS.V DE RAMIRES
concebidas, como concebera as 'de Tructesindo, era
concordância com a rijeza e explendor dos seus
íeitos.
Vagarosas, mais vivas, ellas cresciam d'entre
a sombra que latejava espessa e como povoada. E
agora os corpos emergiam também, robustissimos
corpos cobertos de saios de malha ferrugenta, aper-
tados por arnezes d'aço lampejante, embuçados em
fuscos mantos de revoltas pregas, cingidos por faus-
tosos gibões de brocado onde scintillavam as pedra-
rias de coUares e cintos ; — e armados todos, com as
armas todas da Historia, desde e clava goda de raiz
de roble errissada de puas, até ao espadim de sarau
enlaçarotado de seda e ouro.
Sem temor, erguido sobre o travesseiro, Gon-
çalo não duvidava da realidade maravilhosa! Sim!
eram os seus avós Ramires, os seus formidáveis avós
históricos, que, das suas tumbas dispersas corriam,
se juntavam na velha casa de Santa Ireneia nove
vezes secular — e íormavam em torno do seu leito,
do leito em que elle nascera, como a Assembleia ma-
gestosa da sua raça resurgida. E até mesmo reconhe-
cia alguns dos mais esforçados, que agora, com o
repassar constante do Poemeto do tio Duarte e o
Videirinha gemendo fielmente o seu «fado», lhe an-
davam sempre na imaginação...
Aquelle além, com o brial branco a que a cruz
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 41Õ
vermelha enchia o peitoral, era certamente Gutierres
ílamires o d' Ultramar, como quando corria da sua
tenda para a escalada de Jerusalém. No outro, tão
velho e formoso, que estendia o braço, elle adivi-
nhava Egas Ramires, negando acolhida no seu puro
solar a El-Rei D. Fernando e á adultera Leonor!
Esse, de crespa barba ruiva, que cantava sacudindo
o pendão real de Castella, quem, senão Diogo Rami-
res, o Trovador, ainda na alegria da radiosa manhã
d' Aljubarrota? Deante da incerta claridade do espe-
Uio tremiam as íôías plumas escarlates do morriâo
de Paio Ramires, que s'armava para salvar S. Luiz
Rei de França. Levemente balançado, como pelas on-
das humildes d* um mar vencido, Ruy Ramires sorria
ás naus inglezas que ante a proa da sua Capitanea
submissamente amainavam por Portugal. E, encos-
tado ao poste do leito, Paulo Ramires, pagem do Guião
d*El-Rey nos campos íataes de Alcácer, sem elmo,
rota a couraça, inclinava para elle a sua face de don-
zel, com a doçura grave d" um avó enternecido...
Então, por aquella ternura attenta do mais poé-
tico dos Ramires, Gonçalo sentio que a sua Ascen-
dência toda o amava — e da escuridão das tumbas
dispersas accudira para o velar e soccorrer na sua
fraqueza. Com um. longo gemido, arrojando a roupa,
desafogou, dolorosamente contou aos seus avós re-
surgidos a arrenegada Sorte que o combatia e que
41fi A ILLISTRE CASA DE RAMIRES
sobre a sua vida, sem descanço, amontoava tristeza,
vergonha e perda! E eis que subitamente um ferro
faiscou na treva, com um abafado brado: — «Neto,
doce neto, toma a minha lança nunca partida!...»
E logo o punho d'uma clara espada lhe roçou o peito,
com outra grave voz que o animava: —«Neto, doce
neto, toma espada pura que lidou em Ourique !... » E
depois uma acha de coriscante gume bateu no traves-
seiro, oftertada com altiva certeza: — «Que não der-
ribará essa acha, que derribou as portas d'Arzilla?...»
Como sombras levadas n'um vento transcendente
todos os avós formidáveis perpassavam — e arreba-
tadamente lhe estendiam as suas armas, rijas e pro-
vadas armas, todas, atravez de toda a Historia, enno-
brecidas nas arrancadas contra a Moirama, nos tra-
balhados cercos de Castellos e Villas, nas batalhas
formosas com o Castelhano soberbo . . . Era, em torno
do leito, um heróico reluzir e retinir do ferros. E to-
dos soberbamente gritavam : — « Oh neto, toma as
nossas armas e vence a Sorte inimiga!.. .y> Mas Gon-
çalo, espalhando os olhos tristes pelas sombras on-
deantes, volveu: — «Oh Avós, de que me servem as
vossas armas — se me falta a vossa alma?...»
Acordou, muito cedo, com a enredada lembrança
d'um pesadello em que fallára a mortos: — e, sem a t
preguiça, que sempre o amollecia nos colchões, en-
fiou um roupão, escancarou as vidraças. Oue for-
A ILLLSTRE CASA DE RAMIRES 417
raosa manhã! uma manhã dos fins de Septembro,
macia, lustrosa e fina; nem uma nuvem lhe des-
manchava o vasto, o immaculado azul ; e o sol já
pousava nos arvoredos, nos outeiros distantes, com
uma doçura outomnal. Alas, apesar de lhe respirar
allentamente o brilho e a pureza, Gonçalo permane-
ceu toldado de sombras, das sombras da véspera,
retardadas no seu espirito opprimido, como névoas
em valle muito fundo. E foi ainda com um suspiro,
arrastanílo tristonhamente as chinellas, que puxou
o cordão da campainha. O Bento não tardou com
a infusa da agoa quente para a barba. E acostumado
ao alegre acordar do Fidalgo tanto estranhou aquelle
silencioso e enrugado mover pelo quarto, que dese-
jou saber se o Snr. Doutor passara mal a noite...
— Pessimamente !
Bento declarou logo, com vivacidade e reprova-
ção— que certamente fizera mal ao Snr. Doutor tanto
cognac de moscatel. Cognac muito adocicado, muito
excitante... Bom para o Snr. D. António, homemzar-
rão pesado. Mas o Snr. Doutor, assim nervoso, nunca
devia tocar n'aquelle cognac. Ou então, meio cálice
escasso.
Gonçalo ergueu a cabeça, na surpreza de encon-
trar logo ao começo do seu dia e tão flagrante, aquelle
dominio que todos sobre elle se arrogavam — e de
que tanto se lastimava, atravez de toda a amarga noitei
27
418 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
Eis ahi o Bento mandando —marcando a sua ração
de cognac! E justamente o Bento insistia:
— O Snr. Doutor bebeu mais de três cálices.
Assim não convém ... Eu também tive culpa em
não tirar a garra ia . . .
Então, perante despotismo tão declarado, o Fi-
dalgo da Torro teve uma brusca revolta:
— Homem, não dês tantas leis. Bebo o cognac
que preciso e que quero!
Ao mesmo tempo, com a ponta dos dedos, expe-
rimentava a agua na iníusa:
— Esta agua está morna! exclamou logo. Já me
tenho fartado de dizer ! Para a barba, preciso sempre
agua a íerver.
O Bento, gravemente, mergulhou também o deda
na agua:
— Pois esta agua está quasi a ferver... Nem
para a barba se necessita agua mais quente.
Gonçalo encarou o Bento com furor. O quel
mais objecções, mais leis!
— Pois vá immediatamente buscar outra agua 1
Quando eu peço agua quentCj pretendo que venha
em cachão. Irra ! tanta sentença ! . . . Eu não quero
moral, quero obediência!
O Bento considerou Gonçalo atravez d" um es-
panto que lhe inchara a tace. Depois; lentamente,
com magoada dignidade, empurrou a porta, levando
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 419
a infusa. E já Gonçalo se arrependia da sua violên-
cia. Coitado, não era culpa do Bento se a vida lhe
andava a elle tâo estragada e sacudida! Depois, em
casa tâo antiga, não destoava a tradição dos antigos
aios. E o Bento com perfeito rigor lhes reproduzia a
rabugice e a lealdade ! Mas ascendência, e livre fal-
lar bem lhe cabiam — bem os merecia por tão lon-
ga, tâo provada dedicação . . .
O Bento, ainda vermelho e inchado, voltava com
a infusa fumegante. E Gonçalo logo docemente, para
o adoçar:
— Dia muito bonito, hein. Bento?
O velho rosnou, ainda amuado:
— Muito bonito.
Gonçalo ensaboava a face, rapidamente, na im-
paciência de reatar com o Bento, de lhe restabelecer
a supremacia amoravel. E por fim mais doce, quasi
humilde:
— Pois se achas o dia assim bonito, dou um
passeio a cavallo antes d'almoço. <Jue te parece?
Talvez me laça bem aos nervos . . . Com eífeito,
aquelle cognac não me convém . . . Então, Bento, fa-
ze o favor, grita ahi ao Joaquim que me tenha a egoa
prompta immediatamente. Com certeza me acalma,
ama galopada... E no banho agora a agua bem es-
perta, bem quente. Também me acalma a agua quen-
te. Por isso necessito sempre agua bem quente, a íer-
l20 A ILUJSTRE CASA DE RAMIRES
ver. Mas tu, com essas tuas velhas idéas... Pois to-
dos os médicos o declaram. Para a saúde agua quen-
te, bem quente, a sessenta graus!
E depois do rápido banho, em quanto se vestia.
al)riu mais familiarmente ao velho aio a intimidade
das suas tristezas:
— Ah! Bento, Bento, o que eu verdadeiramente
precisava para me calmar, nâo era um passeio, era
uma jornada... Trago a alma muito carregada, ho-
mem ! Depois estou farto d'esta eterna Villa-Clara, da
eterna Oliveira. Muito mexerico, muita deslealdade.
Precisava terra grande, distracção grande.
O Bento, já reconciliado, enternecido, lembrou
que o Snr. Doutor brevemente, em Lisboa, encon-
traria uma linda distracção, nas Cortes.
— Eu sei hl se vou ás Cortes, homem! Nâo sei
nada, tudo falha... Qual Lisboa!... O que eu neces-
sito é uma viagem immensa, á Hungria, á Rússia, a
terras onde haja aventuras.
O Bento sorriu superiormente d'aquella imagi-
nação. E apresentando ao Fidalgo o jaquetão de vel-
vetina cinzenta:
— Com efTeito, na Rússia parece que não faltam
aventuras. Anda tudo a chicote, diz o Século . . .
Mas aventuras, Snr. Doutor, até a gente as encon-
tra na estrada... Olho! o paesinho de V. Ex.", que
Deus haja, foi lá em baixo doante do portão que
A n.LUSTRE CASA DE RAMIRES 421
teve a bulha com o Dr. Avelino da Riosa, e que lhe
atirou a chicotada, e que levou com o punhal no
braço...
Gonçalo calçava as luvas d'anta, mirando o es-
pelho :
— Pobre papá, coitado, também teve pouca sor-
te.. . E por chicote, ó Bento, dá cá aquelle chicote
de cavallo marinho que tu hontem areaste. Parece
que é uma boa arma.
Ao sahir o portão, o Fidalgo da Torre metteu a
egoa, sem destino, n'um passo indolente, pela estra-
da costumada dos Bravaes. Mas no Casal Novo, onde
dous pequenos jogavam á bola debaixo das carva-
lheiras, pensou em visitar o Visconde de Rio-INIanso.
Certamente lhe concertaria os nervos a companhia
de tão sereno e generoso velho. E, se ellc o convi-
dasse a almoçar, gastaria os seus cuidados visitando
essa fallada quinta da Varaudinha e cortejando «o
botão de Piosa».
Gonçalo recordava apenas confusamente que o
terraço da Varandhiha dominava uma estrada plan-
tada de choupos, algures, entre o logar da Cerda e
a espalhada aldèa de Canta-Pedra. E tomou o cami-
nho velho que desce das carvalheiras do Casal No-
422 A ILLISTRE CASA DE RAMIRES
vo, e penetra no valle, entre o cabeço d'Avellan e
as ruínas do Mosteiro de Ribadaes, no solo histórico
onde Lopo de Bayão derrotara a mesnada de Lou-
renço Ramires . . . Ora enterrada entre vallados, ora
entre toscos muros de pedra solta, a vereda seguia
sem belleza, e cansativa : mas as madresilvas nas se-
bes, por entre as amoras maduras, rescendiam : o
fresco silencio recebia mais frescura e graça dos
frémitos d"aza que o roçavam; e tanto era o radiante
azul nos céus serenos que um pouco do seu rebrilho
e serenidade sMnstillava n'alma. Gonçalo, mais des-
annuviado, não se apressava : na Egreja dos Bra-
vaes, quando elle passara ao Casal Novo, batiam
apenas as nove horas: e depois de costear um la-
meiro d'herva magra parou a accender pachorrenta-
mente um charuto, rente da velha ponte de pedra
que galga o riacho das Donas, Quasi secca pela es-
tiagem, a agoa escura mal corria, sob as folhas lar-
gas dos nenúfares, por entre os juncaes que a atu-
lhavam. Adiante, á orla d'um hervaçal, no abrigo
d'uma moita d'alamos, relusiam as pedras d'um la-
vadouro. Na outra margem, dentro d'um velho bote
encalhado, um rapazito, uma rapariguinha conversa-
vam profundamente, com dous molhos d'alfazema
esquecidos nos regaços. Gonçalo sorriu do idyllio —
depois teve uma surpreza descobrindo, no cunhal da
ponte, rudemente entalhado, o seu Brazâõ-d*Armas,
A ILLLSTRE CASA DE RAMIRES 423
um Açor enorme, que alargava as garras ferozes.
Talvez aquellas terras outr'ora pertencessem á Casa:
— ou algum dos seus avós benéficos construirá a
ponte, sobre torrente então mais funda, para segu-
rança dos homens e dos gados. Quem sabe se o avô
Tructesindo, em memoria piedosa de Lourenço Ra-
mires, vencido e captivo nas margens d'aquella Ri-
beira !
O caminho, para além da ponte, alteava entre
campos ceifados. As medas lourejavam, pesadas e
cheias, por aquelle anno de fartura. Ao longe, dos te-
lhados baixos d"um logarejo, vagarosos fumos su-
biam, logo desfeitos no radiante ceu. E lentamente,
como aquelles fumos distantes, Gonçalo sentia que
todas as suas melancolias lhe escapavam da alma,
se perdiam também no azul lustroso... Uma revoa-
da de perdizes ergueu o vôo d'entre o restolho. Gon-
çalo galopou sobre ellas, gritando, sacudindo o seu
forte chicote de cavallo-marinho, que zenia como
uma fina lamina.
Em breve o caminho torceu, costeando um souto
de sobreiros, depois cavado entre silvados com largos
pedregulhos aflorando na poeira; — e ao fundo o sol
faiscava sobre a cal fresca d' uma parede. Era uma
casa térrea, com porta baixa entre duas janellas en-
vidraçadas, remendos novos no telhado e um quin-
teiro que uma escura e immensa figueira assojnbrea-
424 A ILLLSTHE CASA DE RAMIRES
va. N'uraa esquina pegava um muro baixo de pedra
solta, continuado por uma sebe, onde adiante uma
velha canceila abria para a sombra d'uma ramada.
Defronte, no vasto terreiro que se alargava, jaziam
cantarias, uma pilha de traves: passava uma estra-
da, lisa e cuidada, que pareceu a Gonçalo a de Ra-
milde. Para além, até a um distante pinheiral, des-
ciam chãs e lameiros.
Sentado n'um banco, junto da porta, com uma
espingarda encostada ao muro, um rapaz grosso, de
barrete de lâ verde, acariciava pensativamente o fo-
cinho d'um perdigueiro. Gonçalo parou:
— Tem a bondade... Sabe por acaso qual é o
bom caminho para a quinta do Snr. Visconde de
Rio-Manso, a Varandinha?
O rapasote ergueu a face morena, de buço leve,
remechendo vagamente no carapuço.
— Para a quinta do Rio-Manso... Siga pela es-
trada até á pedreira, depois á esquerda a seguir, sem-
pre rente da várzea . . .
Mas n'esse instante assomava ú porta um latagâo
de suissas louras em mangas de camisa, a cinta en-
faixada em seda. E Gonçalo, com um sobresalto,
reconheceu logo o caçador que o injuriara na es-
trada de Nacejas, o assobiara na venda do Pintainho.
O homem relanceou superiormente o Fidalgo. Depois,
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
com a mão encostada á humbreira, chasqueou o ra-
p aso te:
— Oh Manoel, que estás tu ahi a ensinar o ca-
minho, homem! Este caminho por aqui não é para
asnos!
Gonçalo sentiu a pallitlez que o cobriu — e todo
o sangue no coração, n"um tumulto confuso, que era
de medo e de raiva. Um novo ultrage, do mesmo ho-
mem, sem provocação! Apertou os joelhos no sellim
para galopar. E a tremer, n"um esforço que o engas-
gava:
— Vossê é muito atrevido! É já pela terceira vez!
Eu não sou homem para levantar desordens n'uma
estrada . . . Mas fique certo que o conheço, e que não
escapa sem lição.
Immediatamente, o outro agarrou a um cajado
curto e saltou á estrada, aíírontando a egoa, com as
suissas erguidas, um riso de immenso desafio:
— Então cá estou! Venha agora a lição... E
para diante é que Vossè já não passa, seu Ramires
de merd . . .
Uma névoa turvou os olhos esgaseados do Fi-
dalgo. E de repente, n'um inconsciente arranque,
como levado por uma furiosa rajada de orgulho e
força, que se desencadeava do fundo do seu ser, gri-
tou, atirou a fina egoa n'um galão terrivel! E nem
comprehendeu ! O cajado sarilhara! A egoa empina-
426 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
va, n'uma cabeçada furiosa! E Gonçalo entreviu a
mâo do homem, escura, immensa, que empolgava a
camba do freio.
Então, erguido nos estribos, por sobre a immensa
mão, despediu uma vergastada do chicote silvante de
cavallo-marinho, colhendo o latagâo na face, de lado.
n'um golpe tão vivo da aresta aguda que a orelha
pendeu, despegada, n'um borbutar de sangue. Com
um berro o homem recuou, cambaleando. Gonçalo
galgou sobre elle, n'outro arremesso, com outra ful-
gurante chicotada, que o apanhou pela boca, lhe ras-
gou a boca, decerto lhe espedaçou dentes, o atirou,
urrando, para o chão. As patas da egoa machucavam
as grossas coxas estendidas, — e, debruçado, Gon-
çalo ainda vergastou, cortou desesperadamente face.
pescoço, até que o corpo jazeu molle e como morto,
com jorros de sangue escuro ensopando a camisa.
Um tiro atroou o terreiro! E Gonçalo, com um
salto no selim, avistou o rapasote moreno ainda com
a espingarda erguida, a fumegar, mas já hesitando
aterrado.
— Ah, cão !
Lançou a egoa, com o chicote alto: — o rapaz,
espavorido, corria lentamente através do terreiro,
para saltar o vallado, escapar para as várzeas cei-
fadas !
— Ah cão, ah cão! berrava Gonçalo. Estontea-
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 425
do, O rapaz tropeçara n'uma viga solta. Mas já se
endireitava, largava, quando o Fidalgo o alcançou
com uma cutilada do chicote no pescoço, logo alaga-
do de sangue. Estendendo as mãos incertas, ainda
cambaleou, abateu, estalou contra a aresta d'um pi-
lar, a cabeça mais sangue jorrou. Então Gonçalo, a
arquejar, deteve a egoa. Ambos os homens jaziam
immoveis! Santo Deus! Mortos? D'ambos corria o
sangue sobre a terra secca. O Fidalgo da Torre sen-
tia uma alegria brutal. Mas um grito espantado soou
do lado do quinteiro.
— Ai que mataram o meu rapaz!
Era um velho que corria da cancella, n'uma
carreira agachada, rente com a sebe, para a porta
da casa. Tão certeiramente o Fidalgo arremessou a
egoa, para o deter — que o velho esbarrou contra o
peitoril que arfava coberto de suor e d'espuraa. E
ante o inquieto animal escarvando, e Gonçalo alçado
nos estribos, com a face chammejante, o chicote a
descer — o velho, n'um terror, desabou sobre os joe-
lhos, gritou anciadamente :
— Ai, não me faça mal, meu Fidalgo, por alma
de seu pae Ramires.
Gonçalo ainda o manteve assim um momento,
supplicante, a tremer, sob o justiceiro íaiscar dos
seus olhos: — e gosava soberbamente aquellas cal-
losas mãos que se erguiam para a sua misericórdia,
428 A ILLISTRE CASA DE RAMIRES
invocavam o nome de Ramires, de novo temido, re-
possuido do seu prestigio heróico. Depois, recuando
a egoa :
— Esse malandro do rapazola desfechou a caça-
deira ! . . . Vossé também não tem boa cara ! Que ia
vosso correndo para casa? Buscar outra espingarda?
O velho alargou desesperadamente os braços,
offerecia o peito, em testemunho da sua verdade:
— Oh meu Fidalgo, não tenho em casa nem um
cajado! . . . Assim Deus me ajude e me salve o ra-
paz!
Mas Gonçalo desconfiava, (juando descesse agora
pela estrada de Ramilde, bem poderia o velho cor-
rer ao casebre, agarrar outra caçadeira, desfechar
traiçoeiramente. E então com a presteza d'espirito
que a lucta afiara concebeu contra qualquer embos-
cada, um ardil seguro. E até n'um relance sorrio
recordando «traças do guerra», de D. Garcia Vie-
gas, o Sabedor.
— Marche lá deante de mim, sempre a direito,
pela estrada!
O velho tardou, sem se erguer, aterrado. E ba-
tia com as grossas mãos nas coxas, n"uma anciã que
o engasgava:
— Oh meu Fidalgo, oh meu fidalgo! mas deixar
assim o rapaz sem acordo ? . . .
A ILl.USTKE CASA DE RAMIRES 429
— O rapaz está só atordoado, já se mecheu. . . E
o outro malandro também.. .Marche vossè!
E ao irresistível mando de Gonçalo, o velho,
depois de sacudir demoradamente as joelheiras, co-
meçou a avançar pela estrada, vergado deante da
egoa, como um captivo, com os longos braços a bam-
bolear, rosnando, n'um rouco assombro: — Ai como
ellas se armam ! Ai Santo nome de Deus, que des-
graça! A espaços estacava, esgaseando para Gonçalo
um olhar torvo onde negrejava medo e ódio , . . Mas
logo o commando forte o empurrava: «Marche! . . .»
E marchava. Adiante, onde se erguia um cruseiro
em memoria do Abbade Paguim, assassinado, Gon-
çalo reconheceu um largo atalho para a estrada dos
Bravaes que chamavam o Caminho da Moleira. E
para ahi enfiou o velho, que no pavor d'aquella asi-
nhaga solitária, pensando que Gonçalo o afastava
de caminhos trilhados para o matar commodamente,
rompeu a gemer. «Ai que isto é o fim da minha vi-
da! Ai Nossa Senhora, que é o fim da minha vida!»
E não cessou de gemer, emmaranhando os passos trô-
pegos, até que desembocaram na estrada alta entre
taludes escarpados, revestidos de giesta brava. Então
de repente, com outro terror, o homem bruscamen-
te revirou, atirando as mãos ao barrete:
— Oh meu senhor, o Fidalgo não me leva pre-
so ?.. .
430 A ILLUSTlíE CASA DE RAMIUES
— Marche! Corra! Que agora a egoa trota!
A egoa trotou — o velho correu, desengonçado,
arquejando como um folie de forja. Uma milha gal-
gada, Gonçalo parou, farto do captivo, da lenta mar-
cha. De resto antes que o homem agora corresse a
casa, e agarrasse uma arma, e virasse para o alcan-
çar, se desforrar — entraria elle, n'um galope soito,
o portão da Torre ! Então bradou, com o sobr'olho
duro :
— Alto ! Agora pode voltar para traz . . . Mas,
antes: Como se chama aquelle seu logar?
— A Grainha, meu fidalgo.
— E vossè como se chama, e o rapaz?
O velho com a boca aberta, esperou, hesitou:
— Eu sou João, o meu rapaz Manoel . . . Manoel
Domingues, meu Fidalgo.
— Vossè naturalmente mente. E e outro malan-
dro, de suissas louras?
D'um fôlego, o velho gritou:
— Esse é o Ernesto de Nacejas, o valentão de
Nacejas, que chamam o Caç.a-abraços, e que tanto
me desencaminhou o rapaz...
— Bem! Pois diga lá a esses dous marotos que
me atacaram a pau e a tiro, que não ficam quites
somente com a sova, e que agora têm de se enten-
der com a Justiça . . . EUa lá irá ! Largue !
Do meio da estrada, Gonçalo ainda vigiou o ve-
A ILLrSTRE CASA DE P.AMillES 431
lho que abalara, forçando as passadas derreadas, lim-
pando o suor que lhe pingava. Depois, pela conhe-
cida estrada, galopou para a Torre.
E ia levado, galopando n'uma alegria tão fume-
gante, que o lançava em sonho e devaneio. Era co-
mo a sensação sublime de galopar pelas alturas,
n'um corcel de lenda, crescido magnificamente, ro-
çando as nuvens lustrosas . . . E por baixo, nas ci-
dades, os homens reconheciam n'elle um verdadeiro
Ramires, dos antigos na Historia, dos que derruba-
vam torres, dos que mudavam a configuração dos
Reinos, — e erguiam esse maravilhado murmúrio
que é o sulco dos fortes passando! Com razão! com
razão! Que ainda de manhã, ao sahir da Torre, não
ousaria marchar para um rapazola decidido que
brandisse um varapau . . . E depois, de repente, na
solidão d'aquella casa térrea, quando o bruto das
suissas louras lhe atira a suja injuria — eis um não
sei qa(' que se desprende dentro do seu ser, e trans-
borda, e lhe enche cada veia de sangue ardido e lhe
enrija cada nervo de força destra, e lhe espalha na
pelle o desprezo e a dór, e lhe repassa fundamente
a alma de fortaleza indomável . . . E agora alli volta-
va, como um varão novo, soberbamente virilisado,
liberto emfim da sombra que tão dolorosamente as-
sombreára a sua vida, a sombra molle e torpe do
seu medo! Por que sentia ((ue, agora se todos os
W2 A ILLLSTHE CASA DE RAMIRES
valentões de Nacejas o affrontassem n'ani rijo erguer
de cajados — esse não sei quê, lá dentro, no seu ser,
de novo se soltaria, e o arremessaria, cora cada veia
inchada, cada nervo retesado, para o delicioso fra-
gor da briga! Emflm era mn homem! (Juando em
Villa Clara o Manuel Duarte, o Tito com o peito al-
to, contassem façanhas, já elle não enrolaria enco-
Ihidamente o cigarro — encolhido, mudo não so-
mente pela ausência desconsoladora das valentias,
mas sobretudo pela liumilhante recordação das íra-
quezas. E galopava, galopava apertando furiosamente
o cabo do chicote, como para investidas mais bellas.
Para além dos Bravaes, mais galopou, ao avistar a
Torre. E singularmente lhe pareceu, de repente, que a
sua Torre, agora mais sua, e que uma affmidade no-
va fundada em gloria e força, o tornava mais senhor
da sua Torre!
Como para acolher Gonçalo mais dignamente, o
portão grande, ssmpre cerrado, oíTerecia uma entra-
da triumphal com os dons pesados batentes escan-
carados. Elle atirou a cgoa para o meio do pateo,
bradando:
— Oh Joaquim! Oh !\Ianoel! Eh lá! um de vossès!
O Joaquim surdiu da cavallariça, de mangas ar-
regaçadas, com uma esponja na mão.
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 433
— Oh Joaquim, depressa! Apparelha o Rocilho,
corre a um sitio na estrada de líamilde, a que cha-
mam a Grainha. .. Tive agora lá uma grande desor-
dem! Creio que dei cabo de dous homens... Fica-
ram n'uma poça de sangue! Não digas que vaes da
Torre, que te podem atacar! Mas sabe o que suc-
cedeu, se estão mortos... Depressa, depressa!
O Joaquim, estonteado, remergulhou na cavai -
larica escura. E de cima d'uma das varandas do cor-
redor, partiram exclamações assombradas :
— Oh Gonçalo, o que toi?! santo Deus! o que foi?!
Era o Barrôlo. Sem desmontar, sem surpresa
ante a appariçâo do Barrôlo, Gonçalo atirou logo
para a varanda a historia da bulha, tumultuosa-
mente. Um malandro que o insultara... Depois ou-
tro, que desfechou a caçadeira... E ambos derriba-
dos sob as patas da egoa, n'uma poça de sangue...
O Barrôlo despegou da varanda — e n'outro re-
lance, investia pelo pateo, com os curtos braços a
boiar, enfiado. Mas então? mas então?... E Gonçalo,
desmontando, tremulo agora do cançasso e da emo-
ção, esmiuçou mais lances... Na estrada de Piamilde!
Um valentão que o injuriou! A esse rasgara aboca,
decepara a orelha... Depois o outro, um rapasola,
desfecha uma carabina. . . Elle corre, tão vivamente
o colhe com uma cutilada que o estira, para cima
d'uma pedra, como morto...
2S
434 A ILLUSTRE CAS\ DE RAMIRES
— Uma cutilada?
— Com este chicote, Barròlo! Arma terriveli...
Bem dizia o Tito!... Estou perdido se não levo este
chicote.
Esgaseado, Barrôlo remirava o chicote. Sim, com
effeito ainda manchado de sangue. — Então Gon-
çalo attentou no chicote, no sangue... Sangue de
gente! sangue fresco, que elle arrancara!... E por
entre o seu orgulho, uma piedade passou que o em-
pallideceu :
— Que desgraça, vejam que desgraça!
Esquadrinhou vivamente o fato, as botas, no
horror de nódoas de sangue, que o salpicassem.
Sim, santo Deus! sangue na polaina!... E immedia-
tamente anciou por se despir, se lavar,— galgou a
escada, com o Barròlo que enxugava o suor, balbu-
ciava:— «Ora uma d'essas! E de repente! Assim na
estrada!...» Mas no corredor, subindo n"uma car-
reira da cosinha, appareceu Gracinha, pallida, com a
Rosa atraz, que enterrava os dedos entre o lenço e
o cabello n'um pavor mudo.
— One foi, Gonçalo? Jesus, que foi?!
Então, encontrando Gracinha junto d'elle, na
Torre, n"esse momento magnifico do seu orgulho,
depois de tão rijo perigo vencido, Gonçalo esqueceu
o André, o Mirante, as sombrias humilhações, e no
abraço em que a colheu, nos lortos beijos que atirou
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 'hiU
á face querida, todo o sea amuo se fundio cm ter-
nura. Com ella ainda chegada ao coração, suspi-
rou de leve, como uma creança cançada. Depois
apertando as duas pobres mãos tremulas, com um
lento, enternecido sorriso, em quanto os olhos se
lhe humedeciam de confusa emoção, de confusa ale-
gria:
— Pois íoi o diabo, filha! Uma desordem horrí-
vel, eu que sou tão pacato! imagina tu...
E pelo corredor recomeçou para Gracinha, que
arfava, e para a Rosa, estarrecida, a historia do encon-
tro, e o sujo ultrage, o tiro que falhara e os malan-
dros lacerados a chicote, e o velho marchando como
ura captivo, a gemer pela estrada de Ramilde. Aper-
tando o peito, n'um desmaio. Gracinha murmurou:
— Ai, Gonçalo! E se um dos homens estivesse
morto !
O Barrôlo, mais vermelho que uma pionia, ber-
rou logo que taes malandros mereciam ricamente a
morte ! E mesmo feridos, ainda necessitavam castigo
tremendo d' Africa! O Gouveia! era necessário man-
dar a Villa-Clara, avisar o Gouveia ! . . . Mas largas
passadas ávidas abalaram o soalho — e foi o Bento,
que se ergueu deante de Gonçalo, bracejando n'uma
anciã :
— Então, Snr. Doutor?... Diz que uma grande
desordem ! . . .
436 A ILLLSTKE CAí^A DE líAMlKE;
E á porta do escriptorio, onde todos pararam,
novamente attentos, a historia recomeçou, especial-
mente para o Bento, que a bebia, n'um lento riso de
gosto, crescendo, inchando, com os olhinhos húmi-
dos a reluzir, como se também triumphasse. Por fim.
triumphou, com estrondo:
— Foi o chicote, Snr. Doutor! O que serviu ao
Snr. Doutor, foi o chicote que eu lhe dei !
Era verdade. E Gonçalo, commovido, abraçou o
velho aio, que n'uraa excitação, gritava para a Rosa.
para Gracinha, para o Barrulo :
— O Snr. Doutor deu cabo d'elles!.,. Aquelle
chicote mata um homem!... Os malvados estão mor-
tos!... E foi o chicote! Foi o chicote que eu dei ao
Snr. Doutor!
Mas Gonçalo reclamava agua quente para se
lavar da poeira, do suor, do sangue... E o Bento
correu, berrando ainda pelo corredor ! depois pelas es-
cadas da cosinha— «que fora o chicote! o chicote, que
elle dera ao Snr. Doutor!» Gonçalo entrara no quar-
to, acompanhado pelo Barròlo. E pousou o chapéu so-
bre o mármore da commoda, com um immenso ah
consolado! Era o consolo immenso de se encontrar,
depois de tão violenta manhã, entro as doces cousas
costumadas, pisando o seu velho tapeto azul, roçan-
do o leito de pau preto em que nascera, respirando
polas vidraças abertas, onde as ramagens íamiliares
A ILLLSraE CASA DE RAMIRES 437
das faias s^empurravam na aragem para o saudar.
Com que gosto se acercou do espelho de columnas
douradas, se mirou e se remirou, como a um Gon-
çalo novo e tão melhorado, que nos hombros reco-
nhecia mais largueza, e até no bigode um arquear
mais crespo.
E foi ao arredar do espelho, topando com o Bar-
rôlo, que subitamente despertou n'uma curiosidade
immensa:
— Mas, oh Barrôlo, como é que vos encontro
esta manhã na Torre?
Resolução da véspera, ao chá. Gonçalo não ap-
parecia, não escrevia... Gracinha a matutar, inquie-
ta. EUe também espantado d'aquelle sumiço depois
do cesto dos pêcegos. De modo que ao chá, pensan-
do lambem que a parelha necessitava uma trotada,
lembrara a Gracinha : — « Vamos nós amanhã á Tor-
re? no phaeton?»
— Além d"isso precisava íallar comtigo, Gonça-
lo... Tenho andado aborrecido.
O Fidalgo juntou duas almoíadas no divan, onde
se enterrou:
— Como aborrecido?... Aborrecido por que?...
Barrôlo, com as mãos nos bolsos da rabona de
ílanella, que lhe cingia as ancas gordas, considerou
as flores do tapete, melancolicamente:
438 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
— E' uma grande secca! A gente não pôde con-
fiar em ninguém . . . Nem ter familiaridades ! . . .
N'um lampejo Gonçalo imaginou o Cavalleiro e
Gracinha mostrando estouvadamente nos Cunhaes,
como outr'ora entre os arvoredos da Torre, o senti-
mento que os dominava. E presentiu um desabafo,
alguma queixa triste do pobre Barrôlo, amargurado
por suspeitas, talvez por intimidades que espreitara.
Mas a emoção suprema da sua batalha, sumira para
uma sombra interior os cuidados que, ainda na vés-
pera, o opprimiam: todas as difficuldades da vida lhe
appareciam agora, de repente, n'aquelle frescor da
sua coragem nova, tão fáceis d'abater como os desa-
fios dos valentões; e não se assustou com as confi-
dencias do cunhado, bem seguro d'impôr áquella
alma submissa de bacoco a confiança e a quietação.
Até sorriu, com indolência:
— Então, Barrolinho? Succedeu alguma peripé-
cia?
— Recebi uma carta.
— Ah!
Gravemente Barrôlo desabotoou o jaquetão, pu-
xou do bolso interior uma larga carteira, de couro
verde e lustroso, com monogramma d'ouro. E foi a
carteira que elle mostrou a Gonçalo, com satisfação.
— Bonita, hein? Presente do André, coitado...
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 439
Creio que até a mandou vir de Paris. O monogram-
ma tem muito chie.
Gonçalo esperava, espantado. Emfim o bom Bar-
rôlo tirou da carteira uma carta— já amarrotada,
depois alisada. Era, n'um papel pautado, uma lettra
miudinha que o Fidalgo apenas relanceou, declaran-
do logo com segurança:
— É das Louzadas.
E leu, vagarosamente, serenamente, com o co-
tovello enterrado na almofada: aEx."° Snr. José
«Barrôlo. — V. Ex.** apesar de todos os seus amigos
«o alcunharem de Zé bacoco, mostrou agora muita
«espertesa, chamando de novo para a sua intimida-
«de e de sua digna esposa o gentil André Caval-
«leiro, nosso Governador Civil. Com eííeito a esposa
«de V. Ex.^ a linda Gracinha, que n'estes últimos
«tempos andava tão murcha e até desbotada (o que
« a todos nos inquietava) immediatamente reflorio, e
«ganhou cores, desde que possue a valiosa compa-
«nhia da primeira auctoridade do districto. Portou-se
«pois V. Ex.* como marido zeloso, e desejoso da íe-
«licidade e boa saúde de sua interessante esposa.
«Nem parece rasgo d'aquelle que toda a Oliveira
«considera como o seu mais illustre pateta! Os nos-
«sos sinceros parabéns!»
Gonçalo guardou muito socegadamente na algi-
4Í0 A ILUSTRE CASA DE RAMIRES
beira aquella carta que, dias antes, o lançaria era in-
finita amargura e fúria:
— É das Louzadas... E tu deste importância a
semelhante babuseira?
O Barròlo repontou, com as bochechas abraza-
das:
— Se te parece! Sempre embirrei com bilhe-
tinhos anonymos... E depois essa insolência a res-
peito dos amigos ine chamarem bacoco... Grande
infâmia, hein? Tu acreditas?... Eu não acredito!
mas lança sizania entre mim e os rapazes... Nem
voltei ao Club... Bacoco! Porquê? Por que eu sou
simples, sempre franco, disposto a arranchar... Não!
se os rapazes no Club me chamam bacoco pelas cos-
tas, caramba, mostram ingratidão ! IMas eu não acre-
dito ! Rebolou pelo quarto, desconsoladamente, as
mãos cruzadas sobre as gordas nádegas. Depois, es-
tacando deante do divan, d'onde Gonçalo o consi-
derava, com piedade:
— Em quanto ao resto da carta é tão estúpido,
tão atrapalhado que ao principio nem comprehendi.
Agora percebo... Querem dizer que a Gracinha e o
Cavalleiro teem namoro... É o que me parece que
querem dizer! Ora vê tu que disparate! Até a intimi-
dade do Cavalleiro é mentira. O pobre rapaz, desde
que lá jantou, só appareceu três ou quatro vezes, á
A ILUSTRE CASA DE RAMIRES iU
noite, para a manilha, com o Mendonça... E agora
abalou para Lisboa.
Então o Fidalgo pulou, de surpresa.
— O quê! o Cavalleiro íoi para Lisboa?
— Pois partiu ha três dias!
— Com demora?
— Com demora, com grande demora... Só volta
no meado d'outubro para a Eleição.
— Ah!
Mas o Bento rompeu pelo quarto, com o jarro
d'agua quente, duas toalhas de rendas, ainda n'uma
excitação que o azafamava. Deante do espelho, len-
tamente Barrôlo reabotoava o jaquetão :
— Bem, até logo, Gonçalinho. Eu desço á caval-
lariça, visitar a parelha. Não imaginas! desde Oli-
veira, sem descanso, uma trotada explendida. E nem
um pello suado! Tu guardas a carta?
— Guardo, para estudar a lettra.
Apenas Barrôlo cerrara a porta — o Fidalgo re-
começou com o Bento a deliciosa historia da bri-
ga, revivendo as sur prezas e os rasgos, simulando
os arremessos da egoa, arrebatando o chicote para
representar as cutiladas silvantes, que arrancavam
lebra e sangue... E de repente, em ceroulas:
— Oh Bento, traze o meu chapéu... Estou des-
confiado que a bala roçou pelo chapéu.
Ambos remiraram, esquadrinharam o chapéu. O
442 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
Bento, no seu encarecimento da tacanha, achava a
copa amolgada — até chamuscada.
— A bala passou de raspão, Snr. Doutor!
O Fidalgo negou, com a modéstia grave d' um
íorte :
— Não! Nem de raspão!... Quando o malandro
desfechou já o braço lhe tremia... Devemos agrade-
cer a Deus, Bento. Mas eu realmente não corri gran-
de perigo!
Depois de vestido, Gonçalo, passeando no quarto,
releu a carta. Sim, certamente das Lousadas. Mas
agora essa maledicência, soprada com tão sórdida
maldade sobre as pobres bochechas do Barrulo, não
causava damno — antes servia, quasi beneficamente,
como a braza d'um ferro, para sarar um damno. O
pobre Barròlo apenas se impressionara com a reve-
lação da sua bacoquice, essa ingrata alcunha posta
pelos rapazes amigos, em galhofas ingratas do Club
e debaixo dos Arcos. A outra insinuação terrível.
Gracinha reverdecendo ao calor amoroso do Caval-
leiro, essa mal a comprehendera, escassamente a at-
tendera n'um desdém distraMdo e cândido. Mas a
carta que assim silvava por sobre o bom Barrôlo
como ílecha errada — acertava em Gracinha, íeriria
Gracinha no seu orgulho, no seu impressionai pudor,
mostrando á pobre tonta como o seu nome c mes-
mo o seu coração, já arrastavam enxovalhadamente.
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 443
pela rasteira mexeriquice das Lousadas!... Certesa
tão humilhadora nâo apagaria um sentimento — que
se nâo apagava com humilhações mais intimas, tanto
mais dolorosas. Mas estimularia a sua reserva e o
seu desconfiado recato : — e agora que André se afas-
tara para Lisboa, operaria n'ella, surdamente, soli-
tariamente, sem que a presença tentadora lhe des-
manchasse a influencia socegadora e salutar. Assim
o torpe papel aproveitava a Gracinha como um aviso
temeroso pregado na parede. E rancorosamente pre-
parada pelas duas fêmeas para desencadear nos Cu-
nhaes escândalo e dôr — talvez restabelecesse, na
ameaçada casa, quietação e gravidade. — Gonçalo
esfregou as mãos pensando — que em tão ditosa ma-
nhã talvez até esse mal redundasse em bem!
— Oh Bento, onde está a Snr." D. Graça?
— A menina subiu agora ha pouco para o seu
quarto, Snr. Doutor.
Era o seu quarto de solteira, claro e íresco so-
bre o pomar, onde ainda se conservava o seu leito
de linda madeira embutida, um toucador illustre que
pertencera á Rainha D. Maria Francisca de Saboya,
e o sophá, as cadeiras de casimira clara em que
Gracinha bordara, n'um arrastado labor d"annos, o
Açor negro dos Ramires. E sempre que voltava á
Torre Gracinha gostava de reviver no seu quarto,
as horas de solteira, remexendo as gavetas, folhean-
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
do velhos romances inglezes na estantesinha envi-
draçada, ou simplesmente da varanda contemplando
a querida quinta estendida até aos outeiros de Val-
verde, a verde quinta, tão misturada á sua vida que
cada arvore lhe susurrava, cada recanto de verdura
era como um recanto do seu pensamento.
Gonçalo subiu — bateu á porta cerrada com o
antigo aviso: — «Licença para o mano!» Ella correu
da varanda, onde regava nos seus antigos vasos vi-
drados plantas sempre renovadas e cuidadas pela
Rosa com carinho. E desabafando logo do pensa-
mento que a enchia: •
— Oh Gonçalo! mas que felicidade nós virmos á
Torre, justamente hoje, que te succedeu cousa ta-
manha !
— É verdade, Gracinha, grande sorte! E não me
admirei nada de te vèr... Era como se ainda vi-
vesses na Torre e te encontrasse no corredor... Quem
estranhei foi o Barrôlo ! E no primeiro momento de-
pois de desmontar, pensava assim, vagamente: «mas
que diabo faz aqui o Barròlo? como diabo se acha
aqui o Barròlo?...» Curioso, hein? Foi talvez que,
depois da desordem, me senti remoçado, com um
sangue novo, e me julguei no tempo em que dese-
jávamos uma guerra em Portugal, e nós cercados
na Torre, sob o nosso pendão, o nosso terço atiran-
do bombardas aos hespanhoes. . .
A ILLUSTRE CASA DE HAMIUES 443
Ella ria, lembrada d'essas imaginações heróicas.
E com o vestido entalado entre os joelhos recome-
çou a lenta rega dos seus vasos — em quanto Gonça-
lo, encostado á varanda, considerando a Torre, reto-
mado pela ideia d'uma concordância mais intima,
que desde essa manhã se estabelecera entre elle e
aquelle heróico resto da Honra de Santa Ireneia, co-
mo se a sua força, tanto tempo quebrada, se soldasse
emfim firmemente á íorça secular da sua raça.
— Oh Gonçalo! tu deves estar muito cançado!
Depois d'essa verdadeira batalha ... *
— Não, cançado não . . . Mas com fome. Com ío-
me, e com uma sede explendida!
Ella pousou logo o regador, sacudindo as mãos
alegremente :
— Pois o almoço nâo tarda!... Já andei a tra-
balhar na cosinha, com a Rosa, n'uma pescada á
hespanhola ... É uma receita nova do Barão das
Marges.
— Então insonsa, como elle.
— Nâo! até picante: foi o Snr. Vigário Geral
que lh'a ensinou.
E como, deante do toucador da Rainha Maria
Francisca, ella arranjava á pressa os ganchos do ca-
Itello, para aproveitar a solidão favorável, apressou
com um esforço, a confidencia que o commovia :
— E em Oliveira? Lá por Oliveira?
446 A ILLLSTRE CASA DE RAMIRES
— Em Oliveira, nada . . . Muito calor !
Gonçalo, movendo os dedos lentos pela moldara
do espelho, fino entrelaçamento de açucenas e lou-
ros, murmurou :
— Eu sei apenas das Lousadas, das tuas amigas
Lousadas. Continuam om plena actividade . . .
Gracinha negou candidamente:
— As Lousadas? Não! Nem teem apparecido.
— Mas teem tecido!
E como os verdes olhos de Gracinha se alarga-
ram, sem comprehender, Gonçalo arrancou viva-
mente da algibeira a carta que guardara, que agora
lhe pesava, como uma chapa de ferro;
— Olha, Gracinha ! Mais vale desabafarmos ! Ahi
tens o que ellas ha dias escreveram a teu marido...
N'um relance, Gracinha devorou as linhas ter-
ríveis. E com ondas de sangue nas taces, apertando
as mãos n'uma aíílicçâo, um desespero, em que o
papel amarfanhou :
— Oh Gonçalo ! pois . . .
Gonçalo accudio :
— Não! o Barròlo nâo se importou! Até se rio!
E eu também, quando elle me entregou esse pape-
lucho... E a prova que ambos o consideramos uma
mexeriquice insensata, é que eu t'o mostro tão fran-
camente.
Ella esmagava a carta nas mãos juntas e tre-
A ILLLSTRE CASA DE RAMIRES 44/
mulas, pallida agora e emmudecida pelo espanto,
retendo grandes lagrimas que rebrilhavam. E Gon-
çalo commovido, com gravidade, com ternura:
— Mas tu. Gracinha, sabes o que são terras pe-
quenas. Sobre tudo Oliveira! Precisas muito cuida-
do, muita reserva ... Ai de mim ! De mim vem a
culpa. Reatei relações que nunca se deviam reatar . . .
Bem me tenho arrependido ! E acredita ! por cau-
sa d'essa situação tão falsa e tão perigosa, que eu
creei, levianamente, por ambição tola, passei aqui na
Torre dias amargurados . . . Até nem m'atrevia vol-
tar a Oliveira. Hoje, não sei porquê, depois d' esta
aventura, parece que tudo se esbateu, s'afundou.
para uma grande sombra... Emfim já não me arde
tão em braza no coração . . , Por isso desabaío assim,
serenamente.
Ella desatou n'um solto, doloroso choro em que
a sua fraca alma se desfazia. Com redobrada ternu-
ra Gonçalo abraçou os pobres hombros vergados que
os soluços espedaçavam. E íoi com ella toda refu-
giada no seu peito, que ainda a aconselhou, doce-
mente :
— Gracinha, o passado morreu, e todos precisa-
mos, para honra de todos, que continue morto. Pelo
menos que por íóra, em cada gesto teu, pareça bem
morto ! Sou eu que t'o peço, pelo nosso nome ! . . .
D'entre os braços do irmão, ella gemeu com in-
finita humildade:
448 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
— Mas elle até foi embora ! . , . Nem quiz estar
mais em Oliveira!
Gonçalo acariciou a acabrunhada cabeça que de
novo se escondera contra o seu peito, contra elle se
apertava, como procurando a fresca misericordiosa
que dentro sentia brotar :
— Bem sei. E isso me mostra que tens sido for-
te .. . Mas precisas muita reserva, muita vigilância,
Gracinha ! . . . E agora socega. Não íallemos mais,
nunca mais, n'este incidente... Por que foi apenas
um (ticidente. E que eu provoquei, ai de mim, por
leviandade, por illusão. Passou, está esquecido ! So-
cega, descança. E quando desceres traze os olhos
bem seccos.
Lentamente a desprendera dos braços, onde ella
se arraigava como ao abrigo mais certo e á conso-
lação mais desejada. E sahia, engasgado pela emo-
ção, recalcando também as lagrimas . . . Um gemido
timido, supplicante, ainda o reteve.
— Gonçalo! mas tu pensas . . .
Elle voltou, de novo a abraçou, a beijou na tes-
ta lentamente:
— Eu penso que tu, agora bem avisada, bem
aconselhada, vaes mostrar muita dignidade, muitii
firmeza.
Rapidamente abalou, cerrou a porta. E na esca-
da estreita, escassamente allumiada por utna clara-
i
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 449
boia baça, limpava as pálpebras, quando esbarrou
com o Barròlo, que procurava Gracinha, para apres-
sar o almoço.
— A Gracinha já desce! atabalhoou o Fidalgo.
Está a lavar as mãos! Já desce! . . . Mas antes do al-
moço vamos á cavallariça. Devemos uma visita á
egoa, a essa querida egoa que me salvou!
— É verdade, caramba! concordou logo Barrôlo
revirando nos degraus, com enthusiasmo. Precisa-
mos visitar a egoa . . . Grande, briosa, hein ! Mas
aposto que ficou mais suada que as minhas . . . Ima-
gina! uma trotada d'aquellas, desde Oliveira, e nem
«m pello molhado! Grandes egoas! Também, o que
e\i as olho, o que as trato!
Na cavallariça, ambos affagaram a egoa. Barrô-
lo lembrou que se mimoseasse com uma ração larga
de cenoura. Depois — para que Gracinha, com vagar
se calmasse, — o Fidalgo arrastou o Barrôlo ao po-
mar e á horta . . .
— Tu não vens á Torre ha perto de seis mezes,
Barrolinho! Precisas vêr, admirar progressos. Anda
agora por aqui a mão forte do Pereira da Riosa . . .
— Imagino! grande homem, o Pereira! Mas eu
tenho uma fome, Gonçalinho !
— Também eu!
450 A ILLLSTRE CASA DE RAMIRES
Uma hora batia quando entraram na varanda
onde a mesa esperava, florida e em lesta — e Graci-
nha, á beira do divan, percorria pensativamente a ve-
lha Gazeta do Porto. Apesar de muito banhados, os
seus bellos olhos conservavam um ardor: e para o
justificar, e o seu modo abatido, logo se lastimou,
corando, d' uma enxaqueca. Eram as emoções, o pe-
rigo de Gonçalo . . .
— Também eu tenho dòr de cabeça! declarou o
Barrôlo, rondando a mesa. ]\Ias a minha vem da fo-
me ... Oh filhos, é que estou desde as sete da ma-
nhã com uma chávena de café e um ovo quente!
Gonçalo repicou a campainha. Mas quem rom-
peu pela porta envidraçada, esbaforido, escancarando
a bocca n'um riso immenso, foi o Joaquim, o moço
da cavallariça que voltava da Grainha.
Gonçalo atirou os braços, soffrego:
— Então?! então?!
— Pois lá estive, meu Fidalgo! exclamou o Joa-
quim com o peito a estalar d'importancia. E vae por
lá um povoléu, todos já sabem! Uma rapariga dos
Bravaes espreitou tudo, de dentro do quinteiro . . .
Depois correu, badalou . . . Mas o velho, o tal Do-
mingues que mora na casa, e o filho, abalaram am-
bos. E o rapaz, ao que dizem, pouco ferido. Se ca-
hio, sem sentidos, foi com o susto. O Ernesto de
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 431
Nacejas, esse sim, santo nome de Deus, apanhou. Lá
o levaram em braços para casa d'um compadre alli
ao pé, na Arribada. Parece que fica sem orelha, e
que fica sem bocca ! . . . Pois por todos aquelles sí-
tios era o ai-jesus das moças ! . . . E logo lá o car-
regam para o Hospital de Villa Clara, que na casa
do Compadre não pode sarar. Um povoléu, e todos
dão a rasâo ao Fidalgo. O tal Domingues era ma-
landro. E o Ernesto, esse ninguém o podia enxergar !
Mas todos lhe tinham medo ... O Fidalgo íez uma
limpeza!
Gonçalo resplandecia. Ah! Ainda bem! que não
passara damno mais forte, que belleza perdida do
D. Juan de Nacejas!
— E então o povo por lá, a f aliar, a olhar para
o sitio?
— Pois o povo não se arreda! E a mostrar o
sangue, no chão, e as pedras por onde se atirou a
egoa do Fidalgo . . . E agora até contam que foi uma
espera, e que desfecharam três tiros ao Fidalgo, e
que depois adiante no pinhal ainda saltaram três ho-
mens mascarados que o Fidalgo escangalhou . . .
— Eis a lenda que se íorma! declarou Gonçalo.
O Bento apparecera com uma larga travessa
íumegante. O Fidalgo aífagou risonhamente o hom-
bro do Joaquim. E em baixo a Rosa que abrisse,
para o almoço da íamilia, duas garrafas de vinho do
452 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
Porto, velho. Depois com a mão nas costas da cadei-
ra murmurou gravemente: — Pensemos um momento
em Deus, que me tirou hoje !l'um grande perigo !
Barrôlo pendeu a cabeça, reverente. Gracinha,
atravez d'um leve suspiro, pensou uma leve oração.
E desdobravam os guardanapos; Gonçalo acclamava
a travessa de pescada á hespanhola— quando o peque-
no da Crispola empurrou ainda a porta envidraçada
«com um telegramma, que viera da Villa!» Uma
inquietação deteve os garíos. A manhã correra com
tantas agitações e espantos ! Mas já um sorriso de
gosto, de triumpho, se espalhara na fina face de
Gonçalo :
— Não é nada... E do Castanheiro, por causa
dos capítulos do Romance que eu lhe mandei . . .
Coitado! Bom rapaz!
E, recostado na cadeira, recitou vagarosamente
o telegramma, que os seus olhos afíagavam : — « Ca-
pítulos romance recebidos. Leitura feita amigos.
Enthusiasmo! Verdadeira obra prima! Abraço!...»
Barrôlo, com a bocca cheia, bateu as palmas. E
Gonçalo, sem reparar na travessa da pescada que
Bento lhe apresentava, mas enchendo o copo de vi-
nho verde, com uma vaga tremura, um sorriso di-
toso que não se dissipava :
— Emfim, boa manhã . . . Grande manhã !
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 4o3
Gonçalo, apesar das insistências de Gracinha e
do Barròlo, não os acompanhou para Oliveira — no
desejo de acabar, durante essa semana, o derradeiro
Capitulo da Novella, e depois cerrar o preguiçoso
giro de visitas aos influentes Eleitoraes do Circulo.
Assim rematava a Obra d'Arte e a obra de Politi-
ca,— e cumpria, Deus louvado, a tareia d'esse verão
fecundo !
Logo n'essa noite retomou o manuscripto da No-
vella— e na margem larga lançou a data, uma no-
ta:— if. Hoje, na freguezia da Grainha, tive uma
briga terrível com dous homens que me assaltaram
a pau e tiro, e que castiguei severamente ...» Depois,
com facilidade atacou o lance de tanto sabor medie-
val, em que Tructesindo Ramires, correndo no rasto
do Bastardo, penetrava, ao espalhado e íumarento
clarão dos archotes, no arraial de D. Pedro de Castro.
Com grave amisade acolhia o velho homem de
guerra aquelle seu primo de Portugal, que lhe trou-
xera a sua íorte mesnada, de Santa Ireneia, quando
os Castros combateram um grande poder de Mouros
em Enxarez de Sandornin. Depois, na vasta tenda,
reluzente d'armas, tapizada de pelles de leão e d" ur-
so, Tructesindo contava, ainda a aríar de dôr repre-
sa, a morte de seu filho Lourenço, ferido na lide de
Canta-Pedra, acabado á punhalada pelo Bastardo de
454 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
Bayào, deante das muralhas de Santa Ireneia, com o
sol no ceu alto a olhar a traição ! Indignado, o velho
Castro esmurraçou a mesa, onde um rosário d'ouro
se misturava a grossas peças de xadrez; jurou pela
vida de Christo, que, em sessenta annos d'armas e
surpresas nunca soubera de feito mais vil ! E agar-
rando a mão do senhor de Santa Ireneia, ardentemen-
te lhe oífereceu, para a empreza da santa vingança,
a sua hoste inteira — tresentas e trinta lanças, vasta
e rija peonagem.
— Por Santa Maria! Formosa arrancada! bradou
Mendo de Briteiros com as vermelhas barbas a flam-
mejar de gosto.
Mas D. Garcia Viegas, o Sabedor, entendia que
para colherem o Bastardo vivo, como convinha a
uma vingança vagarosa e bem gosada, mais utilmen-
te serviria uma calada e curta fila de cavalleiros,
com alguns homens de pé . . .
— Porquê, D. Garcia?
— Porque o Bastardo, depois de se aligeirar,
junto da Bibeira, da pionada e carriagem correra,
com a mira em Coimbra, para se acolher á íorça da
Hoste Beal. N'essa noite, com o seu esfalfado bando
de lanças, pernoitara certamente no solar de Lan-
dim. E com o luzir da alva, para encurtar, certamente
retomava a galopada pelo velho caminho de Mira-
dães, que trepa e foge atravez das lombas do Cara-
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 433
mulo. Ora elle, Garcia Viegas, conhecia para deante
do Poço da Esquecida, certo passo, onde poucos ca-
valleiros, e alguns besteiros, bem postados por entre
o bravio, apanhariam Lopo de Bayão como lobo era
fojo . . .
Tructesindo, incerto e pensativo, mettia os dedos
lentos pelos fios da barba. O velho Castro duvida-
va, preferindo que se pozessse batalha ao Bastardo
em campo bem liso onde se avantajassem tantas
lanças já aprestadas, que depois correriam em alegre
levada a assolar as terras de Bayão. Então Garcia
Viegas rogou aos seus primos d'Hespanha e de Por-
tugal que sahissem ao terreiro, deante da tenda,
com fartura de tochas para bem se allumiarem. E
ahi, no meio dos cavalleiros curiosos, á claridade dos
lumes inclinados, D. Garcia vergou o joelho, riscou
sobre a terra, com a ponta d'uma adaga, o roteiro
da sua caçada para lhe comprovar a belleza . . .
D'além castello Landim, largaria com a alva o Bas-
tardo. Por aqui, quando a lua nascesse, abalariam el-
les, com vinte cavalleiros dos Ramires e dos Castros,
para que lidadores d'ambas as mesnadas gosassem a
lide. Além, se postariam, alapados no mattagal, bes-
teiros e peões de frecha. Por traz, d'este lado, para
entaipar o Bastardo, o senhor D. Pedro de Castro,
se com tão gostosa ajuda elle honrasse o Senhor de
Santa Ireneia. Adiante, acolá, para colher pela gor-
4o6 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
ja O villâo, o Snr. D. Tructesindo que era o pae e
Deus mandava íosse o vingador. E alli, na estreita-
ra o derrubariam e o sangrariam como um porco —
e como o sangue era vil, a um tiro de besta encon-
trariam agua farta para lavar as mãos, a agoa do
pego das Bichas ! . . .
— Famosa traça! murmurou Tructesindo con-
vencido.
E D. Pedro de Castro bradou atirando um fais-
cante olhar aos Cavalleiros d'Hespanha:
— Vida de Christo, que se meu tio-avô Gutier-
res tivera por Coudel aqui o snr. D. Garcia, não lhe
escapavam os de Lara quando levaram o Rei Meni-
no, na grande carreira, para Santo Estevam de Gu-
rivaz ! . . . Entendido pois, primo e amigo 1 E a ca-
vallo, para a monteria, mal reponte a lua!
E recolheram as tendas — que já nas fogueiras
lourejavam os cabritos da ceia, e os uchões acarre-
tavam, d"entre os carros da sarga, os pesados odres
de vinho de Tordesillas.
Com a ceia no arraial (grave e sem ruido, por
que um luto velava o coração dos hospedes) Gon-
çalo terminou, n'essa noute, o seu capitulo iv, lan-
çando á margem outra nota: — «Meia noite... Dia
cheio. Batalhei, trabalhei. — ». Depois no seu quarto,
em quanto se despia, traçou todo o alvoroto da bri-
ga curta em que o Bastardo como lobo em fojo que-
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 4o7
daria captivo, á mercê vingadora dos de Santa Ire-
neia . . . Mas de manhã, antes d'almoço, ao abancar
com gosto para o trabalho — recebeu dous telegram-
mas, que o desviaram deliciosamente da ardente
correria contra o Bastardo de Bayâo.
Eram dois telegrammas d'OIiveira, um do Barão
das Marges, outro do capitão Mendonça — ambos
com parabéns ao Fidalgo « por assim escapar de tão
terrível espera, destroçando os valentões de Nacejas.»
O Barão das Marges accrescentava :-« ^rafmEmo /
É d'heroe ! »
Gonçalo, enternecido, mostrou os telegrammas
ao Bento. A nova da sua façanha, pois, já se espa-
lhara, impressionara Oliveira.
— Foi o Snr. José Barrôlo que contou! acudiu
o Bento. E o Snr. Dr. verá ! o Snr. Dr. verá . . . Até
no Porto se vão assombrar!
Ao bater meio dia, rompeu pelo corredor, com
estrondo, o immenso Tito, acompanhado pelo João
Gouveia que chegara na véspera á tarde da Costa,
soubera da aventura na Assembleia, corria á Torre,
como amigo para o abraço, antes de comparecer,
como Auctoridade, para o auto. Então Gonçalo, ainda
nos braços do Gouveia, pediu generosamente, «que
se não procedesse contra os bandidos ...» O Admi-
nistrador recusou, decidido e secco, proclamando o
principio da Ordem, e necessidade d' um escarmento
4o8 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
rijo, para que Portugal não recuasse aos tempos bár-
baros do João Brandão de Midões. Elle e Tito al-
moçaram na torre: — e Tito, á sobremesa, lembrou
galhofeiramente a conveniência d'um brinde, e bra-
mou elle o brinde, comparando Gonçalo ao elefante,
«sempre bom, que tanto aguenta, e de repente, zás,
esmaga o mundo!»
Depois João Gouveia accendendo um grande cha-
ruto reclamou a representação verídica da desordem,
com os pulos, os gritos, para elle se compenetrar co-
mo auctoridade. Então atravez da varanda, reviveu
a historia heróica, simulando com o chicote sobre o
divan (que terminou por esgaçar) os golpes que ar-
remessara imitando os tombos meio desmaiados do
valentão de Nacejas, quando já o sangue o alagava.
O Administrador e o Tito visitaram na cavallariça a
egoa histórica: e no pateo, Gonçalo ainda lhes mos-
trou as duas polainas de couro seccando ao sol, la-
vadas do sangue que as salpicara.
Deante do portão João Gouveia bateu grave-
mente no hombro do Fidalgo:
— Gonçalo, vossé deve apparecer esta noite na
Assembleia . . .
Appareceu — e íoi acolhido como o vencedor
d'uma batalha illustre. No bilhar, por proposta do
velho Ribas, ílammcjou um grande punche— e o Com-
mendador Barros, afogueado, teimava que no do-
A ILLISTRE CASA DE RAMIRES 439
mingo se celebrasse em S. Francisco um Te-Deum
de graças, de que elle costearia as despezas, com
orgulho, caramba ! Á sabida, acompanhado pelo Tito,
pelo Gouveia, pelo Manoel Duarte, por outros sócios,
encontraram o Videirinha — que não pertencia á As-
sembleia, mas ronda\'a, esperando o Fidalgo para lhe
lançar duas trovas do Fado, improvisadas n'essa tar-
de, em que o exaltava acima dos outros Ramires, da
Historia e da Lenda !
O rancho quedou no chafariz. O violão gemeu,
com amor. E o cantar do Videirinha, elevado da al-
ma, varou a muda ramagem das olaias:
Os Ramires d"outras eras
Venciam com grandes lanças.
Este vence com um chicote,
Vede que estranhas mudanças'.
E que os Ramires famosos,
Da passada geração,
Tinham a força nas armas
E este a tem no coração!
A tão requebrado conceito — os amigos rompe-
ram em vivas a Gonçalo, á Casa de Ramires. E o
Fidalgo recolhendo á Torre, commovido, pensava:
— É curioso! Esta gente toda parece gostar de
mim ! . . .
Mas que emoção quando, de manhã cedo, o
Bento o acordou com um teleorramma de Lisboa!
460 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
Era do Cavalleiro — que «soubera pelos jornaes at-
tentado, lhe mandava enthusiastico abraço pela felici-
dade e pela valentia!» Gonçalo berrou, sentado na
cama:
— Caramba! então os jornaes em Lisboa já fal-
iam, Bento! o caso anda celebrado!
Certamente celebrado! — por que durante o de-
licioso dia, o moço do Telegrapho, esbaforido sobre a
perna manca, não cessou d'empurrar o portão da Tor-
re, com outros telegrammas, todos de Lisboa, da Con-
dessa de Chellas; de Duarte Lourençal; dos Marque-
zes de Cója felicitando; da tia Louredo com «para-
béns ao destemido sobrinho»; da marqueza d'Espo-
sende «esperando que o caro primo tivesse agrade-
cido a Deus!»... E o ultimo do Castanheiro, com
exclamações: — Magnifico! Digno de Tniclesindo! —
Gonçalo, pela livraria, erguia os braços, estonteado:
— Santo nome de Deus! mas que terão dito os
jornaes?
E, por entre os Telegrammas, accudiam os ca-
valheiros dos arredores, os influentes,— o Dr. Ale-
xandrino, aterrado, antevendo um regresso ao Ca-
bralismo; o velho Pacheco Valladares de Sá, que
não se espantara do seu nobre primo, por que san-
gue de Ramires, como sangue de Sás, sempre ferve;
o padre Vicente da Finta, que com os seus parabéns,
offereceu um cestinho de cachos do seu famoso mos-
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 461
catei tinto; e por fim o Visconde de Rio-Manso, que
agarrado a Gonçalo, soluçou, no enternecimento quasi
ufano de que a briga assim rompesse, na estrada,
quando «o querido amigo, o amigo da sua Rosa» se
encaminhava para a Varandinha. Gonçalo, afoguea-
do, banhado de riso, abraçava, recontava paciente-
mente a façanha, acompanhava até ao portão aqael-
les cavalheiros, que ao montar as egoas, ao entrar
nas caleches, sorriam para a velha Torre, escara e
rigida, na doce claridade da tarde de Setembro, co-
mo saudando, depois do heroe, o secular fundamento
do seu heroismo.
E o Fidalgo, galgando as escadas para a livra-
ria, de novo murmurava, estonteado:
— Que terão dito os jornaes de Lisboa?
Nem dormiu, na anciedade de os devorar. Quan-
do o Bento, em alvoroço, rompeu pelo quarto com o
correio — Gonçalo saltou, arrojou o lençol, como se
abafasse. E logo no Século, soífregamente percorrido,
encontrou o telegramma d'01iveira, contando o as-
salto! os tiros disparados! a immensa coragem do
Fidalgo da Torre, que com um simples chicote... O
Bento quasi arrebatou o Século das mãos tremulas
do Fidalgo, para correr á cosinha, bramar á Rosa a
noticia gloriosa!
De tarde, Gonçalo correu a Villa-Clara, á As-
sembleia, para devorar os outros jornaes de Lisboa,
462 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
OS do Porto. Todos contavam, todos celebravam!'
A Gazeta do Porto, attribuindo o attentado a Poli-
tica, ultrajava furiosamente o Governo. O Liberal
Portuense, porém, relacionava « com certas vingan-
ças dos republicanos d'01iveira, o pavoroso attenta-
do que quasi causara a morte d' um dos maiores fi-
dalgos de Portugal e dTIespanha e d'um dos mais
pujantes talentos da nova geração!» Os jornaes de
Lisboa, glorificavam sobre tudo «a coragem explen-
dida do Snr. Gonçalo Ramires.» E o mais ardente
era a Manhã, n'um verboso artigo (de certo escri-
I)to pelo Castanheiro), recordando as heróicas tradi-
ções da Casa illustre, esboçando as bellezas do Cas-
tello de Santa Ireneia e terminando por affirmar que
«agora, se esperava com redobrada anciedade a ap-
«pariçâo da novella de Gonçalo Ramires, fundada so-
«bre um feito de seu avô Tructesindo no século xii,
«e promettida para o primeiro numero dos AnnRes
«de Litteratura e de Historia^ a nova Revista do
«nosso querido amigo Lúcio Castanheiro, esse bene-
« mérito restaurador da Consciência heróica de Por-
«tugal!» — As mãos de Gonçalo, ao desdobrar os
jornaes, tremiam. E o João Gouveia, também sof-
frego, devorando também os artigos, por sobre o
hombro do Fidalgo, murmurava, impressionado:
— Vossè, Gonçalinho, vae ter uma votação tre-
menda I
A ILLUSrnE CASA DE RAMIRES 4G3
Depois n'essa noute, recolhendo á Torre, Gon-
çalo encontrou uma carta que o perturbou. Era de
Maria de Mendonça, n'um papel perfumado, com o mes-
mo perfume que tão docemente espalhava D. Anna,
pelo adro de Santa Maria de Craquéde: — «Só esta
«manhã soubemos o grande perigo que passou, e fi-
«camos ambas muito commovidas. Mas ao mesmo
«tempo eu (e não só eu) muito vaidosa da magni-
«fica coragem do primo. É d'um verdadeiro Rami-
«res! Eu não vou ahi abraçal-o (com risco de me
« comprometter e fazer invejas) por que um dos
« meus pequenos, o Neco, anda muito constipado. Fe-
«lizmente não é cousa de cuidado... Mas aqui todos,
«até os pequenos, anelamos por vêr o heroe, e não
«creio que houvesse nada d'extraordinario, nem
ad'um lado nem d'outro, em que o primo por aqui
«apparecesse além d'amanhâ (quinta feira) pelas três
«horas. Dávamos um passeio na quinta, e até se me-
« rendava, á boa e velha moda dos nossos avós. Está
« dito ? Muitos comprimentos, muilos, da Annica, e o
« primo creia-me, etc.» — Gonçalo sorriu, pensativa-
mente, considerando a carta, recebendo o aroma.
Nunca a prima Maria lhe empurrara, tão claramente,
a D. Anna para os braços... E como D. Anna se dei-
xava empurrar, prompta, e d'olhos cerrados . . . Ah,
se íosse somente para a alcova! Mas ai! era também
para a Egreja. E de novo sentia aquelle vozeirão do
464 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
Tito, nos degraus da portinha verde com a lua cheia
por cima dos olmos negros: «Essa creatura teve um
amante, e tu sabes que eu nunca minto?»
Então tomou lentamente a penna, respondeu
a D. Maria Mendonça: — «Querida prima — Fiquei
«muito enternecido com o seu cuidado, e os seus
«enthusiasmos. Não exaggeremos! Eu não fiz mais
«que correr a chicote uns valentões que me assal-
te taram a tiro. É façanha íacil para quem tenha, co-
«mo eu, um chicote excellente. Emquanto á visita
« á Feitosa, que me seria tão agradável, não a posso
«realisar com fundo pezar meu, nem na quinta-feira,
«nem mesmo por todo este mez... Ando occupadis-
«simo cora o meu livro, a minha Eleição, a minha
«mudança para Lisboa. A era dos cuidados sérios
«soou severamente para mim, — cerrando a doce era
«dos passeios e dos sonhos. Peço que apresente á
«Snr.'' D. Anna os meus profundos respeitos. E com
«muitas amisades para si, e bons desejos pelo resta-
«belecimento d'esse querido Neco, espero me creia
«sempre seu dedicado e grato primo, etc.»
Fechou vagarosamente a carta. E batendo o seu
sinete d'armas sobre o lacre verde, pensava:
— Assim aquelle maroto do Tito me rouba du-
sentos contos! . . .
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES ' 465
Durante toda essa macia semana dos fins de Se-
tembro, Gonçalo trabalhou no Capitulo final da sua
Novella.
Era emfim a madrugada vingadora em que os
Oavalleiros de Santa íreneia, reforçados pelas mais
nobres lanças da mesnada dos Castros, surprehen-
diam, no bravio desfiladeiro marcado por Garcia
Viegas, o Sabedor, o bando de Rayâo, na sua aço-
dada corrida sobre Coimbra . . . Briga curta e íalsa,
sem destro e brioso terçar d'armas, mais semelhante
a montaria contra um lobo do que a arremettida con-
tra um Filho-de-Algo. E assim a desejara Tructe-
sindo, com ruidosa approvaçâo de D. Pedro de Cas-
tro, por que não se cuidava de combater um inimigo,
mas de colher um matador.
Antes do luzir d'alva, o Bastardo abalara do cas-
tello de Landim, em dura pressa e com tâo descui-
-dada segurança, que nem almogavar nem coudel lhe
atalayavam os trilhos. As cotovias cantavam quando
elle, em áspero trote, penetrou por essa brecha, en-
talada entre escarpas de penedia e urze, que chamam
a Racha do Moiro, desde que Maforaa a fendeu para
<jue escapassem as adagas christans de El-Rei Fer-
nando, o Magno, o Alcaide moiro de Coimbra e a
monja que elle arrebatara á garupa. E apenas pela
«sguia greta enfiara a derradeira lança da fila — eis
466 A ILLUSTRE CASA DE RAMiJtES
que da outra embocadura do valle surde o cerrado
troço dos cavalleiros de Santa Ireneia, que Tructe-
sindo guia, com a viseira erguida, sem broquel, sa-
cudindo apenas uma ascuma de monte como se íol-
gadamente andasse em caçada. Da selva arredada
que os encobria, rompem por traz as lanças dos Cas-
tros, ristadas e cerrando a brecha mais densamente
que as puas d'uma levadiça. Do recosto dos cerros
rola, como represa solta, uma rude e escura peona-
gem! Colhido, perdido, o Bastardo terrível! Ainda
arranca furiosamente a espada, que redomoinhando
o coroa de coriscos. Ainda com um fero grito arre-
mette contra Tructesindo . . . Mas bruscamente, d'en-
tre um escuro magote de fundeiros baleares, parte
ondeando uma corda de canave, que o laça pela
gargalheira, o arranca n'um brusco sacão da sela
mourisca, o derriba, sobre pedregulhos em que a
sua larga espada se entala e se parte rente ao pu-
nho dourado. E emquanto os cavalleiros de Bayào
aguentam assombradamente o denso cerco de lanças,
que os envolvera — um rolo de peões, em dura grita,
como mastins sobre um cerdo, arrastam o Bastardo
para a lomba do outeiro, onde lhe arrancam broquel
e adaga, lhe despedaçam o brial de lã roxa, lhe que-
bram os fechos do elmo, para lhe cuspirem na face,
nas barbas côr de ouro, tão bellas e de tanto orgulho !
Depois a mesma bruta matula o iça, amarrado.
A ILUSTRE CASA DE RAMIRES 467
para sobre o dorso d' uma possante mula de carga, o
estende entre dous esguios caixotes de virotões, co-
mo rez apanhada ao recolher da montaria. E servos
da carriagem ficam guardando o Cavalleiro soberbo,
o Claro-Sol que aliumiava a casa de Bayâo, agora
entaipado entre dois caixotes de pau, cora cordas
nos pés, e cordas nas mãos, e n'ellas espetado um
triste ramo de cardo — emblema da sua traição.
No emtanto os seus quinze Cavalleiros juncavam
o chão, esmagados sob o furioso cerco de lanças que
os investira — uns hirtos, como adormecidos, dentro
das negras armaduras, outros torcidos, desfeitos, com
as carnes retalhadas, pendendo horrendamente entre
malhas rotas dos lorigaes. Os escudeiros, colhidos,
empurrados a pontoada de chuço para a boca d' uma
barroca, sem resgate ou mercê, como alcateia im-
munda de roubadores de gado, acabaram, decepa-
dos a macheta pelos barbudos estafeiros leonezes.
Todo o valle cheirava a sangue como um pateo de
magarefes. Para reconhecer os companheiros do Bas-
tardo, uma turma de cavalleiros desafivelava os gor-
jaes, as viseiras, arrancando furtivamente as meda-
lhas de prata, os bentos, saquinhos de relíquias, que
todos traziam como bem-tementes. N'uma face, de fi-
na barba negra, que uma espuma sangrenta mancha-
va, Mendo de Briteiros reconheceu seu primo Sueiro
468 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
de Lugilde com quem, pela fogueira de S. João,
íolgára tão docemente e bailara no castello de
Unhello, — e vergado sobre a alta sella rezou, pela po-
bre alma sem confissão, uma devota Ave-Maria. Fus-
cas, tristonhas nuvens, abafavam a manhã d'Agosto.
E afastados á entrada do valle, sob a ramagem^ d'um
velho azinheiro, Tructesindo, D. Pedro de Castro, e
Garcia Viegas, o Sabedor, decidiam que morte lenta,
e bem dorida e viltosa, se daria ao Bastardo, Aillão
de tão negra vilta.
Contando assim a sombria emboscada com o ge-
mente esforço de quem empurra um arado por terra
pedreira — gastara Gonçalo essa doce semana de Se-
tembro. E no sabbado, cedo, na livraria, com os ca-
bellos ainda molhados do banho de chuva, esfregava
as mãos deante da banca — porque certamente com
duas horas de attento trabalho, findaria antes d'al-
moço a sua Novella, a sua Obra! E todavia esse fi-
nal, quasi o repellia, com o seu sujo horror. O tio
Duarte no seu Poemeto apenas o esboçara, com es-
quiva indecisão, como nobre Lyrico que ante uma
visão de bruta ferocidade solta um lamento, res-
guarda a Lyra, e desvia para sendas mais doces. E,
ao tomar a penna, Gonçalo também, realmente la-
mentava que seu avò Tructesindo não matasse ou-
tr'ora o Bastardo, no fragor da briga, com uma d'es-
A ILLLSTRE CASA DE RAMIRES 469
sas cutiladas maravilhosas, e tão doces de celebrar,
que racham o cavalleiro e depois racham o ginete,
e para sempre retinem na Historia.
Mas nâo! Sob a folhagem do azinheiro, os três
cavalleiros combinavam com lentidão uma vingança
terrífica. Tructesindo desejara logo recolher a Santa
Ireneia, alçar uma íorca deante das barbacans, no
chão em que seu filho rolara morto, e n'ella enforcar,
depois de bem açoitado, como villâo, o villâo que o
matara. O velho D. Pedro de Castro, porém, aconse-
lhava despacho mais curto, e também gostoso. Para
que rodear por Santa-Ireneia, desbaratar esse dia
d'Agosto na arrancada que os levava a ^lontemór, a
soccorro das Intantas de Portugal ? Que se estendes-
se o Bastardo amarrado sobre uma trave, aos pés de
D'. Tructesindo, como porco pelo Natal, e que um ca-
vallariço lhe chamuscasse as barbas, e depois outro,
com facalhâo de ucharia, o sangrasse no pescoço, pa-
chorrentamente.
— Que vos parece, Snr. D. Garcia?
O Sabedor desafivelára o casco de ferro, limpava
nas rugas o suor e a poeira da lide:
— Senhores e amigos! Temos melhor, e perto
também, sem delongas de cavalgada, logo adiante
destes cerros, no Pego das Bichas . . . E nem torce-
mos caminho, que de lá, por Tordezello e Santa Ma-
ria da Varge, endireitamos a Montemor, tão direitos
470 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
como v6a o corvo... Confiae em mim, Tructesindo!
Confiae em mim, que eu arranjarei ao Bastardo tal
morte e tâo vil, que d'outra egual se não possa con-
tar desde que Portugal foi condado.
— Mais vil que forca, para cavalleiro, meu ve-
lho Garcia?
— Lá vereis, senhores e amigos, lá vereis!
— Seja! Mandae dar ás bozinas.
Ao commando d'Aíionso Gomes, o Alferes, as
bozinas soaram. Um troço de besteiros e de estafei-
ros Leoneses rodearam a mula que carregava o
Bastardo amarrado e entalado entre dois caixotes.
E acaudilhada por D. Garcia, a curta hoste metteu
para o Pego das Bichas, em desbando, com os se-
nhores de lança espalhados, como em marcha de fol-
gança e paz, (?) e todos n'uma rija fallada recordando,
entre gabos e risos, as proezas da lide.
A duas léguas de Tordezello e do seu castello
formoso, se escondia entre os cerros o Pego das Bi-
chas. Era um lugar de eterno silencio e de eterna
tristeza. Em esmerados versos lhe marcara o tio
Duarte a desolada asperidâo :
Nem trillo d'ave em balançado raraol
Nem fresca flor junto de fresco arroio!
Só rocha, mattagal, ribas soturnas,
E em meio o Pego, tenebroso e morto ! .
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 471
E quando os primeiros cavalleiros, galgada a
lomba dum cerro, o avistaram, na melancholia da
manhã nevoenta, emmudeceram da larga fallada, re-
pudiaram os freios, assustados ante tão áspero ermo,
tão propicio a Bruxas, a Avantesmas e a Almas pe-
nadas. Deante do escalavrado barranco, por onde os
ginetes escorregavam, ondulava uma ribanceira,
aberta com charcos lamacentos, quasi chupados pela
estiagem, luzindo pardamente, por entre grossos pe-
dregulhos e o tojo rasteiro. Ao íundo, a meio tiro de
besta, negrejava o Pego, lagoa estreita, lisa, sem uma
ruga n'agua, duramente negra, com manchas mais
negras, como lamina d'estanho onde alastrasse a fer-
rugem do tempo e do abandono. Em torno subiam
os cerros, eriçados de matto bravio e alto, sulcados
por trilhos de saibro vermelho como por fios de san-
gue que escpresse; e rasgados no alto por pene-
dias lustrosas, mais brancas que ossadas. Tão pesa-
do era" o silencio, tão pesada a soledade, que o velho
D. Pedro de Castro, homem de tanta jornada, se es-
pantou :
— Feia paragem ! E voto a Christo, a Santa Ma-
ria, que nunca antes de nós, n'ella entrou homem
remido pelo baptismo.
— Pois, Snr. D. Pedro de Castro ! accudiu o Sa-
bedor, já por aqui se moveu muita lança, e luzida,
e ainda em tampos do Conde D. Sueiro, e de vosso
A ILLUSTlíE CASA DE RAMIRES
rei D. Fernando, se erguia n'aqaelia beira d'agua,
uma castellania famosa! Vede além! — E mostrava na
ponta do pego, fronteira ao barranco, dous rijos pi-
lares de pedra, que emergiam da agua negra, e que
chuva e vento polira como mármores finos. Um pas-
sadiço de traves, sobre estacas limosas e meio apo-
drecidas, atava a margem ao mais grosso dos pilares.
E a meio d' esse rude esteio pendia uma argola de
ferro.
No em tanto já o tropel da peonagem se espa-
lhara pela ribanceira. D. Garcia Viegas desmontou,
bradando por Pêro Ermigues, o Coudel dos besteiros
de Santa Ireneia. E, ao lado do ginete de Tructesindo,
risonho e gozando a surpreza, ordenou ao Coudel
que seis dos seus rijos homens descessem o Bastardo
da mula, o estirassem no chão, o despissem, todo nú.
como sua mãe barregã o soltara á negra vida...
Tructesindo encarou o Sabedor, franzindo as so-
brancelhas hirsutas:
— Por Deus, D. Garcia! que me ides simples-
mente afogar o villâo, e sujar essa agua innocente!...
E alguns Cavalleiros, em redor, murmuraram
também contra morte tão quieta e sem malicia. Mas
os miúdos olhos de D. Garcia giravam, lampejavam
de triumpho e gosto:
— Socegae, socegae ! Velho estou certamente,
mas ainda o senhor Deus me consente algumas tra-
A ILLUSTRE CASA I>E RAMIRES 473
ças. Não! Nem enforcado, nem degolado, nem afo-
gado... Mas chupado, senhores! Chupado em vida, e
de vagar, pelas grandes sanguesugas que enchem toda
essa agua negra!
D. Pedro de Castro, maravilhado, bateu o guante
nas solhas do coxote:
— Vida de Christo! Q\ig ter n" uma hoste o Snr.
D. Garcia, é ter juntamente, para marchas e conse-
lho, enrolados n"um só, Annibal e Aristóteles!
Um rumor d'admiração correu pela hoste:
— Boa traça, boa traça!
E Tructesindo, radiante, bradava:
— Andar, andar, besteiros! E vós, senhores, re-
cuae para a lomba do cerro, como para palanque,
que vae ser grande a vista! Já seis besteiros descar-
regavam da mula o Bastardo amarrado. Outros cer-
cavam, com molhos de cordas. E, como magarefes
para esfolar uma rez, toda a rude turma se abateu
sobre o malfadado, arrancando por cordas que des-
atavam a cervilheira, o saio, as grevas, os sapatões
de íerro, depois a grossa roupa de linho encardido.
Agarrado pelos compridos cabellos, fdado pelos pés,
onde se cravavam agudas unhas no furor de o man-
ter, com os braços esmagados sob outros grossos bra-
ços retêsos, o possante Bastardo ainda se estorcia,
urrando, cuspindo contra as faces confusas da ma-
tulagem um cuspo avermelhado, que espumava!
474 A ILLUSTRK CASA DE RAMIRES
Mas, por entre o escuro tropel que o cobria, o
seu corpo, todo despido, branquejava, atado com cor-
das mais grossas. Lentamente o seu furioso urrar
esmorecia, arquejado e rouquenho. E um após outro
se erguiam os besteiros, esfalfados, bufando, limpando
o suor do esforço.
No emtanto os Cavalleiros d'Hespanha, de Santa
Ireneia, desmontavam cravando o couto das lanças
entre o tojo e as pedras. Todos os recostos dos ou-
teiros se cubriam da mesnada espalhada, como pa-
lanques em tarde de justa. Sobre uma rocha mais
lisa, que dous magros espinheiros toldavam de folha
rala, um pagem estendera pelles d'ovelha para o
Snr. D. Pedro de Castro, para o senhor de Santa
Ireneia. Mas só o velho Castellão se accommodou,
para uma repousada delonga, desaíivelando o seu
corselete de ferro tauxeado d'ouro.
Tructesindo permanecera erguido, mudo, com
os guantes apoiados ao punho da sua alta espada,
os olhos fundos avidamente cravados na tenebrosa
lagoa que, com morte tão fera e tão suja, vingaria
seu filho... E pela borda do Pego, peões, e alguns
cavalleiros d'Hespanha, remexiam com virotòes, com
os coutos das ascumas, a agua lodosa, na curiosidade
das negras bichas escondidas, que o povoavam.
Subitamente a um brado de D. Garcia, que ron-
dava, toda a chusma de peões amontoada em torno
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 473
ao Bastardo se arredou: — e o íorte corpo appareceu,
nú e branco, sobre a terra negra, com um denso
pello ruivo nos peitos, a sua virilidade afogada n'ou-
tra matta de pello ruivo, e todo ligado por cordas de
canave que o inteiriçavam. N'aquella rigidez de fardo,
nem as costellas arfavam — apenas os olhos reful-
giam, ensanguentados, horrendamente esbugalhados
pelo espanto e pelo íuror. Alguns cavalleiros corre-
ram a mirar a aviltada nudez do homem famoso de
Bayâo. O senhor dos Paços d'Argelim mofou, com
estrondo :
— Bem o sabia, por Deus! Corpo de manceba,
sem costura de lerida ! . . .
Leonel de Çamora raspou o sapato de íerro pelo
hombro do malfadado:
— Vede este Claro-Sol, tão claro, que se apaga
agora, em agua tão negra!
O Bastardo cerrava duramente as pálpebras, —
d'onde duas grossas lagrimas escaparam, lentamente
rolaram . . . Mas um agudo pregão resoou pela ri-
banceira:
— Justiça! Justiça!
Era o Adail de Santa íreneia, que marchava,
sacudia uma lança, atroava os cerros:
— Justiça! justiça que manda lazer o Senhor
de Treixedo e de Santa íreneia, n'um perro mata-
476 A ILLLSTRE CA.SA DE RAMIRES
dor!... Justiça num perro, filho de perra, que ma-
tou vilmente, e assim morra vilmente por ella!...
Trez vezes pregoou por deante da hoste api-
nhada nos cerros. Depois quedou, saudou humilde-
mente Tructesindo Ramires, o velho Castro, — como
a julgadores no seu Estrado de julgamento.
— Aviae, aviae! bradava o Senhor de Santa Ire-
neia.
Immediatamente, a um com mando do Sabedor,
seis besteiros, com as pernas embrulhadas em man-
tas da carga, ergueram o corpo do Bastardo como
se ergue um morto enrolado no seu lençol, e com
elle entraram na agua, até ao mais alto pilar de gra-
nito. Outros, arrastando molhos de cordas, correram
pelo limoso passadiço de traves. Com um alarido
({'aguenta! endire/ta ! alça! n'um desesperado es-
forço o robusto corpo branco foi mergulhado n'agua
até ás virilhas, arrimado ao mais alto pilar, depois
n'elle atado com um longo calabre que, passando
pela argola de ferro, o suspendia, sem escorregar,
tão seguro e coUado como um rolo de vela que se
amarra ao mastro. Rapidamente os besteiros fugiram
dagoa, desentrapando logo as pernas, que palpa-
vam, raspavam no horror das bichas sugadoras. Os
outros recolheram pelo passadiço, n'uma fda que se
empurrava. No Pego ficava Lopo de Bayâo bem ar-
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 477
ranjado para a vistosa morte lenta, com a agoa que
já o aíogava até ás pernas, com cordas que o enros-
cavam até ao pescoço como a um escravo no poste;
€ uma espessa mecha dos cabellos louros laçada na ar-
gola de ferro, repuxando a face clara, para que todos
n'ella gozassem largamente a humilhada agonia do
Claro-SoL
Então o attento da hoste, esperando espalhada
pelos recostos dos cerros, mais entristeceu o ene-
voado silencio do ermo. A agoa jazia sem um ar-
repio, com as suas manchas, negras como uma la-
mina d'estanho eníerrujado. Entre as cristas das
rochas, archeiros postados pelo Sabedor, atalaiavam,
para além, os descampados. Um alto vôo de gralha
atrevessou grasnando. Depois um bafo lento agitou
as flâmulas das lanças cravadas no tojo denso.
Para despertar, aviar a lentidão das bichas, alguns
peões atiravam pedras á agoa lodosa. Já alguns caval-
leiros hespanhoes rosnavam impacientes com a delon-
ga, n'aquella cova abafada. Outros, descendo agacha-
dos a borda da lagoa, para mostrar que falladas bichas
nunca acudiriam, mergulhavam lentamente, n'agoa
negra, as mãos descalçadas, que depois sacudiam,
rindo, e mofando o Sabedor . . . Mas de repente um
estremeção sacudiu o corpo do Bastardo; os seus
rijos músculos, no furioso esforço de se desprende-
rem, inchavam entre as cordas, como cobras que se
478 A ILLUSTRE CASA DE HAMIIÍES
arqueiam; dos beiços arreganhados romperam, em
rugidos, em grunhidos, ultrages e ameaças contra
Tructesindo covarde, e contra toda a raça de Ra-
mires, que elle emprasava, dentro do anno, para
as labaredas do Inferno! indignado, um Cavalleiro
de Santa Ireneia agarrou uma besta de garrunche, a
que retesou a corda.
Mas D. Garcia deteve o arremesso:
— Por Deus, amigo! Não roubeis ás sanguesu-
gas nem uma pinga d'aquelle sangue fresco!... Vede
como vêem! vede como vêem!
Na agoa espessa, em torno ás coxas mergulha-
das do Bastardo, um frémito corria, grossas bolhas
empolavam, — e d'ellas, mollemente, uma bicha sur-
dio, depois outra e outra. Insidias e negras, que on-
dulavam, se collavam á branca pelle do ventre, d'onde
pendiam, chupando, logo engrossadas, mais lustrosas
com o lento sangue que já escorria. O Bastardo emr
mudecêra — e os seus dentes batiam estridente-
mente. Enojados, até rudes peões desviaram a íace
cuspindo para as urzes. Outros, porém, chasqueavam,
assuavam as bichas, gritando — a elle, donzellas! a
elle! E o gentil Çaraora de Cendufe, clamava rindo
contra tão ensossa morte! Por Deus! Uma apostura
de bichas, como a enfermo d"almorreimas. Nem era
sentença de Rico-Homem — mas receita d'herbaaista
moiro !
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 479
— Pois que raais quereis, meu Leonel? acudio
alegremente o Sabedor, resplandecendo. Morte é esta
para se contar em livros! E não tereis este inverno
serão á lareira, por todos os solares de Minho a
Douro, em que não volte a historia d'este Pego, e
d'este feito! Olhae nosso primo Tructesindo Rami-
res! Formosos tratos presenceou de certo era tão
longo lidar d'armas!... E como goza! tão attento! tão
maravilhado !
Na encosta do outeiro, junto do seu balsâo, que
o Alferes cravara entre duas pedras, e como elle
tão quedo, o velho Ramires não despregava os olhos
do corpo do Bastardo, com deleite bravio, n'um ful-
gor sombrio. Nunca elle esperara vingança tão ma-
gnifica! O homem que atara seu filho com cordas,
o arrastara n'umas andas, o retalhara a punhal deante
das barbacans da sua Honra — agora, vilmente nú,
amarrado também como cerdo, pendurado d'um pi-
lar, emergido n'uma agoa suja, e chupado por san-
guesugas, deante de duas mesnadas, das melhores
d"Hespanha, que miravam, que moíavam! Aquelle
sangue, o sangue da raça detestada, não o bebia a
terra revolta n'uma tarde de batalha, escorrendo de
ferida honrada, atravez de rija armadura — mas, gota
a gota, escuramente e mollemente se sumia, sorvido
por nojentas bichas, que surdiam famintas do lodo
e no lodo recahiam fartas, para sobre o lodo bolsar
480 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
O orgulhoso sangue que as enfartara. N'um charco,
onde elle o mergulhara, viscosas bichas bebiam so-
cegadamente o cavalleiro de Bayâo! Onde houvera
homizio de solares fundado em desforra mais doce?
E a íera alma do velho acompanl^ava, com ine-
xorável goso, as sanguesugas subindo, espalhada-
mente alastrando por aquelle corpo bem amarrado,
como seguro rebanho pela encosta da collina onde
pasta. O ventre já desapparecia sob uma cam.ada
viscosa e negra, que latejava, relusia na humidade
morna do sangue. Uma fila sugava a cinta, encovada
pela anciã, d'onde sangue se esfiava, n'uma franja
lenta. O denso pello ruivo do peito, como a espes-
sura d' uma selva, detivera muitas, que ondulavam,
com um rasto de lodo. Um montão ennovelado san-
grava um braço. As mais íartas, já inchadas, mais
relusentes, despegavam, tombavam mollemente : mas
logo outras, famintas, se aferravam. Das chagas aban-
donadas o sangue escorria delgado, represo nas
cordas, d'onde pingava como uma chuva rala. Na
escura agoa boiavam gordas postemas de sangue
esperdiçado. E assim sorvido, ressumando sangue,
o malfadado ainda rugia, atravez ultrages immun-
dos, ameaças de mortes, de incêndios, contra a raça
dos Ramires! Depois, com um arquejar em que as
cordas quasi estalavam, a bocca horrendamente es-
cancarada e ávida, rompia aos roucos urros, im-
A ILLISTRE CASA DE RAMIRES 48i
piorando n<joa, agoal No seu íuror as unhas, que
uma volta de amarras lhe collára contra as íortes
coxas, esfarrapavam a carne, cravavam -se na fenda
esfarrapada, ensopadas de sangue.
E o furioso tumulto esmorecia n'um longo ge-
mer cançado — até que parecia adormecido nos gros-
sos nós das cordas, as barbas relusindo sob o suor
que as alagara como sob um grosso orvalho, e entre
ellas a espantada lividez d' um sorriso delirado.
No emtanto já na hoste derramada pelos cerros,
como por um palanque, se embotara a curiosidade
bravia d'aquelle supplicio novo. E se acercava a
hora da ração de meridiana. O Adail de Santa íre-
neia, depois o Almocadem Hespanhol, mandaram
soar os anafins. Então todo o áspero ermo se ani-
mou com uma faina d'arraial. O almazem das duas
mesnadas parara por detraz dos morros, n'uma curta
almargem d'herva, onde um regato claro se arrastava
nos seixos, por entre as raizes de amieiros chorões.
N'uma pressa esfaimada, saltando sobre as pedras,
os peões corriam para a fila dos machos de carga,
recebiam dos uchões e estaleiros a fatia de carne, a
grossa metade d'um pão escuro: e, espalhados pela
sombra do arvoredo, comiam com silenciosa lenti-
dão, bebendo da agoa do regato pelas concas de
pau. Depois preguiçavam, estirados na relva, — ou
trepavam em bando pela outra encosta dos morros,
31
482 A ILI.USTIUÍ CASA DE RAMIltES
através do matto, na esperança d'atravessar com um
virote alguma caça erradia. Na ribanceira, deante
da lagòa, os cavalleiros, sentados sobre grossas man-
tas, comiam também, em roda dos alforges abertos,
cortando com os punhaes nacos de gordura nas
grossas viandas de porco, empinando, em longos tra-
gos, as bojudas cabaças de vinho.
Convidado por D. Pedro de Castro, o velho Sa-
bedor descançava, partilhando d'ama larga escudella.
de barro, cheia de bolo papal, d'um bolo de mel
e ílòr de farinha, onde ambos enterravam lentamente
os dedos, que depois limpavam ao lorro dos morriões.
Só o velho Tructesindo não comia, não repousava,
hirto e mudo deante do seu pendão, entre os seus
dous mastins, n'aquclle fero dever de acompanhar,,
sem qae lhe escapasse um arrepio, um gemido, um
íio de sangue, a agonia do Bastardo. Debalde o Cas-
fellão, estendendo para elle um pichei de prata, ga-
bava o seu vinho de Tordesillas, fresco como ne-
nhum d'Aquilat ou de Provins, para a sede de tão
rija arrancada. O velho Rico-Homem nem atten-
dera: — e D. Pedro de Castro, depois de atirar dous
pães aos alões fieis, recomeçou discorrendo com
Garcia Viegas sobre aquelle teimoso amor do Bas-
tardo por Violante Ramires que arrastara a tantos
homizios e furores.
— Ditosos nós, Snr. D. Garcia! Nós a quem a
A ILLLSTHE CASA DE RAMIRES 483
edade e o quebranto e a fartura já arredam d"essas
tentações... Que a mulher, como m'ensinava certo
Physico quando eu andava com os moiros, é vento
que consola e clieira bem, mas tudo enrodilha e es-
bandalha. Vede como os meus por ellas penaram!
Só meu pae, com aquella desvairança de zelos, em
que matou a cutello minha doce madre Estevani-
nha. E cila tão santa, e filha do Imperador! A tudo,
tudo leva, a tonta ardência ! Até a morrer, como es-
te, sugado por bichas, deante d'uma hoste que me-
renda e moía. E por Deus, quanto tarda em morrer,
Snr. D. Garcia !
— Morrendo está, Snr. D. Pedro de Castro. E
já com o demo ao lado para o levar !
O Bastardo morria. Entre os nós das cordas en-
sanguentadas todo elle era uma ascorosa aventesma
escarlate e negra com as viscosas pastas de bichas
que o cobriam, latejando com os lentos fios de san-
gue que de cada ferida escorriam, mais copiosos que
os regos dhumidade por um muro denegrido.
O desesperado arquejar cessara, e a anciã con-
tra as cordas, e todo o furor. Molle e inerte como
um fardo, apenas a espaços esbogalhava horrenda-
mente os olhos vagarosos, que revolvia em torno
com enevoado pavor. Depois a face abatia, livida e
flaccida, cora o beiço pendurado, escancarando a boc-
ca em cova negra, d'onde se escoava uma baba en-
484 A ILUSTRE CASA DE RAMIRES
sanguentada. E das pálpebras novamente cerradas,
entumecidas, um muco gotejava, também como de
lagrimas engrossadas com sangue.
A peonagem, no emtanto, voltando da ração, rea-
tulhava a ribanceira, pasmava, com rudes chulas
para o corpo pavoroso que as bichas ainda suga-
vam. Já os pagens recolhiam manteis e alforges.
D. Pedro de Castro descera do cabeço com o Sabe-
flor até â borda da agoa lodosa, onde quasi mergu-
lhava os sapatos de íerro, para contemplar, mais de
cerca, o agonisante de tão rara agonia ! E alguns se-
nhores, estafados com a delonga, afivelando os giba-
netes, murmuravam : — « Está morto ! Está acabado ! »
Então Garcia Viegas gritou ao Coudel dos Bes-
teiros :
. — Ermigues, ide vêr se ainda resta alento na-
quella postema.
O Coudel correu pelo passadiço de traves, e ar-
repiado de nojo palpou a livida carne, acercou da
bocca, toda aberta, a lamina clara da adaga que des-
embainhara.
— ]Morto ! morto ! — gritou.
Estava morto. Dentro das cordas que o arroxea-
vam o corpo escorregava, engilhado, chupado, esva-
siado. O sangue já não manava, havia coalhado em
postas escuras, onde algumas bichas teimavam late-
jando, relusindo. E outras ainda subiam, tardias. Duas,
A ILLLSTOE CASA DE RAMIRES 485
enormes, remexiam na orelha. Outra tapava um olho.
O Claro-Sol não era mais que uma immundice que
se decompunha. Só a madeixa dos cabellos louros,
repuxada, presa na argola, relusia com um lam-
pejo de chamma, como rastro deixado pela ardente
alma que tugira.
Com a adaga ainda desembainhada, e que sacu-
dia, o Coudel avançou para o vSenhor de Santa íre-
neia, bradou:
— Justiça está feita, que mandastes fazer no
perro matador que morreu!
Então o velho Rico-Homem atirando o braço, o
cabelludo punho, com possante ameaça, bradou, n'um
rouco brado que rolou por penhascos e cerros:
— Morto está! E assim morra de morte infame
quem traidoramente me affronte a mim e aos da
minha raça!
Depois, cortando rigidamente pela^ encosta do
cerro, atravez do matto, e com um largo aceno ao
Alteres do Pendão:
— Aífonso Gomes, mandae dar as bozinas. E a
cavallo, se vos praz, Snr. D. Pedro de Castro, pri-
mo e amigo, que leal e bom me fostes!...
O Caatellào ondeou risonhamente o guante:
— Por Santa Maria, primo e amigo! que gosto
e honra os recebi de vós. A cavallo pois se vos praz !
(Jue nos promette aqui o Snr. D. Garcia vermos ain-
da, com sol muito alto, os muros de Monte-mór.
l86 A ILUSTRE CASA DE RAMIRES
Já a peonagem cerrava as quadrilhas, os don-
zeis d'armas puxavam para a ribanceira os ginetes
folgados que a vasta agua escura assustava. E, com
os dous balsões tendidos, o Açor negro, as Treze Ar-
ruellas, a fila da cavalgada atirou o trote pelo bar-
ranco empinado, d'onde as pedras soltas rolavam.
No alto, alguns cavalleiros ainda se torciam nas
sellas para silenciosamente remirarem o homem de
Bayão, que lá ficava, amarrado ao pilar, na solidão do
Pego, a apodrecer. Mas quando a ala dos besteiros
e fundibularios de Santa íreneia desfilou, uma rija
grita rompeu, com chufas, sujas injurias ao «perro ma-
tador». A meio da escarpa, um besteiro, virando, re-
tezou furiosamente a besta. A comprida garruncha
apenas varou a agua. Outra logo zinio, e uma baia
de funda, e uma setta barbada,— que se espetou na
ilharga do Bastardo, sobre um negro novello de bi-
chas. O Coudel berrou; «cerra! anda!» A recua das
azemolas de carga avançava, sob o estralar dos lá-
tegos: os moços da carriagem apanhavam grossos
pedregulhos, apedrejavam o morto. Depois os servos
carreteiros marcharam, nos seus curtos saios de
couro crú, balançando um chuço curto: — e o capa-
taz apanhou simplesmente esterco das bestas, que
chapou na íace do Bastardo sobre as finas barbas
d'ouro.
XI
Ouando Gonçalo, estafado e já todo o ardor bru-
xuleando, retocou este derradeiro traço da affronta —
a sineta no corredor repicava para o almoço. Em-
fim! Deus louvado! eis finda essa eterna Torre de
Ramires ! Quatro mezes, quatro penosos mezes desde
Junho, trabalhara na sombria resurreição dos seus
avós bárbaros. Com uma grossa e carregada lettra,
traçou no fundo da tira Finis. E datou, com a hora,
que era do meio-dia e quatorze minutos.
IMas agora, abandonada a banca onde tanto la-
butara, não sentia o contentamento esperado. Até
esse supplicio do Bastardo lhe deixara uma aversão
por aquelle remoto mundo Affonsino, tão bestial, tão
deshumano! Se ao menos o consolasse a certeza de
que reconstituirá, com luminosa verdade, o ser mo-
ral d'esses avós bravios... Mas que! bem receava
488 A ILUSTRE CASA DE RAMIRES
que sob desconcertadas armaduras, de pouca exacti-
dão archeologica, apenas s'esfumassera incertas al-
mas de nenhuma realidade histórica!... Até duvidava
que sanguesugas recobrissem, trepando d'um charco,
o corpo d'ura homem, e o sugassem das coxas ás
barbas, em quanto uma hoste mastiga a ração!...
Emfira, o Castanheiro louvara os primeiros Capitu-
los. A Multidão ama, nas Novellas, os grandes furo-
res, o sangue pingando: e em breve os Annaes es-
palhariam, por todo o Portugal, a fama d"aquella Casa
illustre, que armara mesnadas, arrasara castellos,
saqueara comarcas por orgulho de pendão, e aí-
frontára arrogantemente os Reis na cúria e nos cam-
pos de lide. O seu verão, pois, íôra fecundo. E para
o coroar, eis agora a Eleição, que o libertava das
melancolias do seu buraco rural...
Para não retardar as visitas ainda devidas aos
Influentes, e também para espairecer, logo depois
d'aImoço montou a cavallo - apezar do calor, que
desde a véspera, e n'aquelle meado d"outubro, es-
magava a aldeia com o refulgente peso d' uma ca-
nicula d'Agosto. Na volta da estrada dos Bravaes um
homem gordo, de calça branca enxovalhada, que
s'apressava, bufando, sob o seu guarda-sol de pan-
ninho vermelho, deteve o Fidalgo com uma corte-
zia iinraensa. Era o Godinho, amanuense da Admi-
nistração. Levava um officio urarentc ao Regedor dos
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 489
Bravaes, e agora corria á Torre de mandado do Snr.
Administrador...
Gonçalo recuou a egoa para a sombra d' uma
carvalha:
— Então que temos, amigo Godinho?
O Snr. Administrador annunciava a S. Ex.'' que o
maroto do Ernesto, o valentão de Nacejas, em tra-
tamento no Hospital d'01iveira, melhorara conside-
ravelmente. Já lhe repegára a orelha, a bocca solda-
va... E, como se procedeu á querella, o patife pas-
sava da enfermaria para a cadeia . . .
Gonçalo protestou logo, com uma palmada no
selim:
— Não senhor! Faça o obsequio de dizer ao Snr.
João Gouveia que não quero que se prenda o ho-
mem ! Foi atrevido, apanhou uma dose tremenda,
estamos quites.
— Mas Snr. Gonçalo Mendes.. .
— Pelo amor de Deus, amigo Godinho! Não que-
ro, e não quero... Explique bem ao Snr. João Gou-
veia . . . Detesto vinganças. Não estão nos meus há-
bitos, nem nos hábitos da minha íamilia. Nunca
houve uin Ramires que se vingasse... Quero dizer,
sim, houve, mas... Emíim explique bem ao Snr. João
Gouveia. De resto eu logo o encontro, na Assem-
bleia... Bem basta ao homem ficar desfeiado. Não
490 A ILUSTRE CASA DE RAMIRES
consinto que o apoquentem mais!... Detesto íeroci-
dades.
— Mas...
— Esta é a minha decisão, Godinho.
— Lei, darei o recado de V. Ex.'"^
— Obrigado. E adeus!... Que calor, hein!
— De rachar, Snr. Gonçalo Mendes, de rachar!
Gonçalo seguiu, revoltado pela ideia de que o
pobre valentão de Nacejas, ainda moido, com a ore-
lha mal soldada, baixasse á sórdida enxovia de Villa-
Clara, para dormir sobre uma taboa. Pensou mesmo
em galopar para Villa-Clara, reter o zelo legal do
.íoão Gouveia. Mas perto, adeante do lavadoiro, era
a casa d'uin Influente, o João Firmino, carpinteiro e
seu compadre. E para lá trotou, apeando ao portal
do quinteiro. O compadre Firmino largara cedo para
a Arribada, onde trabalhava nas obras do lagar do
Snr. Esteves. E foi a comadre Pirmina que correu
da cosinha, obesa e lusidia, com dous pequenos de-
pendurados das saias e mais sujos que esíregões. O
Fidalgo beijou ternamente as duas íaces ramelosas:
— E que rico cheiro a pâò iresco, oh comadre!
Foi a fornada, hein? Pois então grande abraço ao Fir-
mino. E que se não esqueça! A Eleição vem para o
outro Domingo. Lá conto com o voto d'elle. E olhe
que não é pelo voto, é pela amisade.
A ILUSTRE CASA DE RAMIRES 491
A comadre arreganhava os dentes magníficos
n'um regalado e gordo riso: — «Ai o Fidalgo podia fi-
car seguro! Hue o Firmino já jurara, até ao Snr.
Regedor, que para o Fidalgo era todo o sitio a vo-
tar, e quem não fosse a amor ia a pau.» O Fidalgo
apertou a mão da comadre - que do degrau do quin-
teiro, com os dous pequenos enrodilhados nas saias,
e o gordo riso mais embevecido, seguiu a poeira da
egoa como o sulco d' um Rei benéfico.
E depois nas outras visitas, ao Cerejeira, ao Ven-
tura da Chiche, encontrou o mesmo fervor, os mes-
mos sorrisos luzindo de gosto. «O que! para o Fi-
dalgo! Isso tudo! Fi nem que fosse contra o Gover-
no!»—Na tasca do Manoel da Adega, um rancho de
trabalhadores bebia, já ruidoso, com as jaquetas ati-
radas para cima dos bancos: o Fidalgo bebeu com
elles, galhofando, gosando sinceramente a pinga ver-
de e o barulho. O mais velho, um avejâo escuro,
sem dentes, e a face mais engilhada que uma ameixa
secca, esmurrou com euthusiasmo o balcão: — «Isto,
rapazes, é fidalgo que, quando um pobre de Christo
escala\ ra a perna, lhe empresta a egoa, e vae elle ao
lado mais d'uma légua a pé, como foi com o Solha!
Rapazes! isto é Fidalgo para a gente ter gosto!» As
sandes atroaram a venda. E quando Gonçalo mon-
tou, todos o cercavam como vassallos ardentes, que
a um aceno correriam a votar, — ou a matar!
492 A ILLISTBE CASA DE IlAMIRES
Em casa do Thomaz Pedra, a avó Anna Pedra,
uma velha entrevada, muito velha e tremula, rom-
peu a choramigar por o seu Thomaz andar para o
Olival quando o Fidalgo o visitava. «Que aquillo era
como visita de santo!»
. — Ora essa, tia Pedra! Peccador, grande peccador!
Dobrada na cadeirinha baixa, com as farripas
brancas descendo do lenço, pela face toda chupada de
gelhas e pelluda, a tia Anna bateu no joelho agudo :
— Não senhor! não senhor! que quem mostrou
aquella caridade pelo filho do Casco, merece estar em
altar !
O Fidalgo ria, beijocava pequenadas encardidas,
apertava mãos ásperas e rugosas como raizes, accen-
dia o cigarro á braza das lareiras, conversando, com
intimidade, das moléstias e dos derriços. Depois, no
calor e pó da estrada, pensava: — «É curioso! parece
haver amisade, n'esta gente!»
Ás quatro horas, derreado, decidiu cessar o giro.
recolher á Torre pela estrada mais fresca da Bica
Santa. E passara o Ioga rejo do Cerdal, quando na volta
aguda do Caminho, rente ao souto de azinheiros,
quasi esbarrou com o Dr. Júlio, também a cavallo,
lambem no seu giro, de quinzena d'alpaca, alagado
em suor, debaixo d' um guarda-sol de seda verde.
Ambos detiveram as egoas, se saudaram amavel-
mente.
A ILLUSTP.E CASA DE RAMIRES 493
— Muito gosto em o vêr, Snr. Dr, Júlio...
— Egualmente, com muita hom^a, Snr. Gonçalo
Ka mires...
— Então também na tarefa? . . .
O Dr. Júlio encolheu os hombros:
— Que quer V. Ex.''? Se me metteram n"estal
E sabe V. Ex.** como isto acaba?... Acaba em eu
mesmo, no* outro Domingo, votar em V. Ex.*.
O Fidalgo riu. Ambos se debruçaram, para se
apertarem as mãos com alegria, com estima.
— Oue calor este, Snr. Dr. Júlio!
— Horroroso, Snr. Gonçalo Ramires... E que
massada !
Assim o Fidalgo empregou essa semana nas visi-
tas aos Eleitores — «os grandes e os miúdos.» E dois
dias antes da Eleição, n'uma sexta-íeira á tarde, cora
um tempo já macio e íresco, partiu para Oliveira —
onde chegara, na véspera, o André Cavalleiro, depois
da sua tão longa, tão fallada demora em Lisboa.
Nos Cunhaes, apenas saltara da caleche, logo se
enfureceu ao saber, pelo bom João da Porta— «que
as Snr.'^' Louzadas estavam em cima, de visita, com
a Snr.** D. Graça ...»
— Ha muito?
— .Já lá estão pegadas ha meia hora boa, meu
senhor.
Gonçalo enfiou surrateiramente para o seu quar-
49i A ÍLLUSTRK CASA DE ItAMIiíKS
to, pensando: — «Que desavergonhadas! Chegou o
André, vêem logo cocar!» E já se lavara, mudara o
íato cinzento, — quando o Barrôlo appareceu, esbafo-
rido, desusadamente radiante, de sobrecasaca, de
chapéu alto, com as bochechas accesas, alvoroçada-
mente radiantes:
— Eh, seu Barrôlo, que janota!
---Parece bruxedo! gritou o Barrôlo, depois d*um
abraço, que repetiu, com desacostumado fervor. Es-
tava agora mesmo para te mandar um telegramma,
que viesses . . .
— Para quê?
O Barrôlo gaguejou, com um riso reprimido que
o illuminava, o inchava:
— Para quê? P'ra nada... Quero dizer, para a
Eleição! Pois a Eleição é além d"ámanhã, menino! O.
Cavalleiro chegou hontem. Agora volto eu do Go-
verno Civil. Estive no Paço com o Snr. Bispo, de-
pois passei pelo Governo Civil... Óptimo, o André!
Aparou o bigode, parece mais moço. E traz novida-
des... Traz grandes novidades!
E o Barrôlo esfregava as mãos, n'um tão fais-
cante alvoroço, com tanto riso escapando dos olhos
e da face relusente, que o Fidalgo o encarou curio-
so, impressionado:
— Ouve lá, Barrolinho! Tu tens alguma cousa
boa para me annunciar?
A ILUSTKR l',ASA DK UAAllUES 4Í>5
Barrôlo recuou, negou com estrondo, como quem
bruscamente íecha uma porta, Elle? Não! Não sabia
nada! Só a Eleição! Na Murtosa votação tremenda...
— Ah! pensei, murmurou Gonçalo. E a Gracinha?
— A Gracinha também não!
— Também não qut\ homem? Como está? Sim-
plesmente como está?
— Ah! está com as Louzadas. Ha mais de meia
hora, aquellas bêbedas!... Naturalmente por causa
do Bazar do Asylo Novo... Esta massada dos Baza-
res... E ouve lá, Gonçalinho! Tu ficas até Domingo?
— Não, volto amanhã para a Torre.
— Oh!...
— Pois dia d'Eleiçâo, homem! devo estar em
casa, no meu centro, no meio das rainhas fregue-
zias . . .
— É pena, murmurou o Barrôlo. Logo se sabia
juntamente com a Eleição... Eu dava um jantar tre-
mendo . . .
— Logo se sabia, o quê?
O Barrôlo emmudeceu, com outro riso nas bo-
chechas, que eram duas brazas gloriosas. Depois
novamente gaguejou, gingando :
— Logo se sabia... Nada! O resultado, o apura-
mento. E grande bródio, grande foguetorio. Eu, na
Murtosa, abro pipa de vinho.
496 A ILLrSTlíE CASA DE RAMIRES
Então Gonçalo risonhamente prendeu o Barrôlo
pelos hombros:
— Uize lá, Barrolinho. Dize lá. Tu tens uma
cousa boa para contar ao teu cunhado.
O outro escapou, protestando com alarido: Que
teima, que tolice. EUe não sabia nada. O André não
lhe contara nada!
— Bem, concluiu o Fidalgo, certo de um amável
mysterio, que pairava. Então descemos. E se essas
carraças das Louzadas ainda estiverem lá pegadas,
manda dizer pelo escudeiro á sala, bem alto, á Gra-
cinha, que cheguei, que lhe desejo íallar immedia-
tamente no meu quarto : com esses monstros não ha
considerações,
O Barrôlo balbuciou, hesitando:
— O Snr. Bispo gosta d'ellas... Muito amável
commigo, ainda ha pouco, o Snr. Bispo.
Mas, logo nas escadas, sentiram o piano, Graci-
nha cantarolando. .Já se libertara das Louzadas. Era
uma antiga canção patriótica da Vendeia, que ou-
tr'ora na Torre, ella e Gonçalo entoavam com emoção,
quando os inflammava o amor fidalgo e romântico
dos Bourbons o dos Stuarts :
Monsieur de Charette a dit ii ceux d'Ancene.s
" Mes Amis ! . . .
Monsieur de Charette a dit . . .
A ILLISTRE CASA DE UAMIRES 497
Gonçalo franziu vagarosamente o reposteiro da
sala, rematando a estrophe, com o braço erguido co-
mo uma bandeira:
" Mes amis!
Le Roy va rammener les Fleurs de Lysl"
Gracinha saltou do mocho, n"uma surpresa.
— Não te esperávamos! imaginei que passavas a
Eleição na Torre... E por lá?
— Na Torre, tudo bem, com a ajuda de Deus...
Mas eu com trabalho immenso. Acabei o meu roman-
ce; depois visitas aos Eleitores.
Barròlo, que não socegava pela sala, rompeu
para elles, com o mesmo riso suílocado:
— Queres tu saber, Gracinha? Tem estado este
homem, desde que chegou, n'uma curiosidade, a fer-
ver. Imagina que eu tenho uma boa nova, uma
grande nova para lhe contar ... Eu nÂo sei nada, a
não ser a Eleição! Pois não é verdade, Gracinha?
Gonçalo, muito serio, prendeu o queixo da irmã:
— Sabes tu, dize lá.
EUa sorriu, corada . . . Não, não sabia nada, só a
Eleição.
— Dize lá!
— Não sei... São tolices do José.
Mas então, ante aquelle sorriso íraco, rendido,
•que confessava -o Barròlo não se conteve, desafo-
53
498 A ILLUSTRE CASA DE HAMIRES
gou como um morteiro estoira.— Pois bem! simí
com effeito! — Grande novidade! Mas o André, que a
trouxera de Lisboa, fresquinha a saltar, queria elle,
só elle, causar a surpresa a Gonçalo . . .
— De modo que eu não posso! Jurei ao André.
A Gracinha sabe, que eu já lhe contei hontem...
Mas lambem não pôde, também jurou. Só o André.
Elle vem logo tomar chá, e rebenta a bomba... Que
é uma bomba! e graúda!
Gonçalo, roido de curiosidade, murmurou sim-
plesmente, encolhendo os hombros :
— Bem, já sei, é uma herança! Tens quinze tos-
tões d'alviçaras, Barrôlo.
Mas durante o jantar e depois na saia tomando
café, emquanto Gracinha recomeçara as velhas
canções patrióticas, agora as jacobitas, em louvor
dos Stuarts — Gonçalo anciou pela appariçâo do Ca-
valleiro. Nem receava que a esse encontro se mistu-
rasse amargura, despeito sufíocado. Todo o seu furor
contra o Cavalleiro, acceso na dolorosa tarde do Mi-
rante, revolvido na Torre durante torturados dias,
logo se dissipara lentamente depois da sua tocante
conversa com a irmã, na manhã histórica da briga
da Grainha. Gracinha então, com grandes lagrimas
de pureza e do verdade, jurara reserva, retrahi-
mento. Gonçalo, abandonando Oliveira, mostrava tam-
bém uma resistência louvável contra o sentimento ou
A ILUSTRE CASA DE RAAnRES 499
a vaidade que o transviara. Demais elle não podia
romper novamente com o Cavalleiro, andando ainda
nos mexericos e espantos d'Oliveira aquella reconci-
liação ruidosa que chamara o Cavalleiro á intimidade
dos Cunhaes. E por fim de que valiam furores ou
magoas? Nenhum rugir ou gemer seu annuUariam
o mal que se consummára no Mirante — se porven-
tura se consummára. E assim toda a cólera contra
o André se dissipara n'aquella sua leve e doce alma,
onde os sentimentos, sobretudo os mais escuros, os
mais carregados, sempre facilmente se desfaziam co-
mo nuvens em ceu de estio . . .
!Mas quando, perto das nove horas, o Cavalleiro
penetrou na sala, vagaroso e magnifico, com o bi-
gode encurtado mas mais retorcido, uma gravata
vermelha entufando estridentemente no largo peito
que entufava, Gonçalo sentiu uma renovada aver-
são por toda aquella petulância recheada de falsida-
de— e apenas poude bater mollemente, desenxabi-
damente, nas costas do velho amigo, que o apertava
n"um abraço d'apparatosa ternura. E em quanto An-
dré, torcendo as luvas claras, languidamente enter-
rado na poltrona que o Barrôlo lhe achegou com ca-
rinho, contava de Lisboa e de Cascaes, tão alegre,
e partidas de hrkhje e da Parada e d'El-Rei — Gonçalo
revivia a tarde do Mirante, o seu pobre coração a
bater contra a persiana mal fechada, a bruta suppli-
300 Ã ILLUSTRE CASA DE UAMIUES
ca murmurada atravez (i'aquelles bigodes atrevidos,
e emmudecera, como empedernido, esmigalhando
nerAOsamente entre os dentes o charuto apagado.
Mas (Gracinha conservava uma serenidade attenta,
sem nenhum dos seus chammejantes rubores, dos
seus desgraçados enleios de modo e gesto, apenas
levemente secca, d'uma seccura preparada e posta.
Depois André alludira muito desprendidamente ao
seu regresso a Lisboa, depois da Eleição, «porque
o tio Reis Gomes, o José Ernesto, esses cruéis ami-
gos, lhe andavam atirando para os hombros todo o
trabalho da Nova Reíorma Administrativa.»
Entre elle e Gracinha, separados por um curto
tapete, parecia cavada uma íunda légua de fosso,
onde rolara, se afundara todo aquelle romance do
verão, sem que na face d'ambos restasse um afo-
gueado vestígio do seu ardor. E Gonçalo, insensivel-
mente contente pela apparencia, terminou por aban-
donar a cadeira onde se impedernira, accendeu o
charuto na vela do piano, perguntou pelos amigos
de Lisboa. Todos (segundo o Cavalleiro) anelavam
pela chegada de Gonçalo.
— Lá encontrei também o Castanheiro... En-
thusiasmado com o teu Romance. Parece que nem
no Herculano, nem no Rebello existo nada tão forte,
como reconstrucçâo histórica. O Castanheiro prefere
mesmo o teu realismo épico ao do Flaubert, na Sa-
A ILLISTHE casa de RAMIHES oOl
Lammbò. Emfim, enthusiasmado! E nós, está claro,
ardendo por que appareça a sublime obra.
O Fidalgo corou profundamente, murmurando —
«Que tolice!» Depois roçou pela poltrona em que se
enterrava o André, afagou suavemente o largo hom-
bro do André :
— Pois, tens íeito cá muita falta, meu velho! Ha
dias passei em Corinde, tive saudades...
Então o Barrôlo, que não socegava, vermelho, a
estoirar rebolando pela sala, espiando ora o Cavai -
leiro, ora o Gonçalo, com um riso mudo e ávido, não
se conteve mais, gritou:
— Bem, basta de prólogos... Vamos lá agora á
grande surpresa, André! Eu tenho estado toda a tarde
a rebentar... Mas emfim, jurei e calei! Agora não
posso... Vamos lá. E tu, Gonçalinho, vae preparando
os quinze tostões.
Gonçalo, com a curiosidade de novo refervendo,
apenas sorria, desprendidamente:
— Com effeito! Parece que tens uma bella no-
vidade.
O Cavalleiro alargou lentamente os braços, sem-
pre enterrado na vasta poltrona, sem pressa:
— Oh! é a cousa mais simples, mais natural... A
Snr.'' D. Graça já sabe, não é verdade?... Não ha mo-
tivo para surpresa... Tão legitima, tão natural!
Gonçalo exclamou, já impaciente :
o02 A ILUSTRE CASA DE RAMIRES
— Mas emfim, venha lá, dize.
O Cavalleiro insistia, indolente. Todo o espanto
era que só agora se pensasse em a realisar, cousa tão
devida, tão adequada. Pois não lhe parecia á Snr.**
D. Graça?
Gonçalo, n'uma braza, berrou:
— Mas quê? que diabo?
O Cavalleiro, que se despegara vagarosamente da
poltrona, puxou os punhos, e deante de Gonçalo, no
silencio attento, alteando o peito, grave, quasi offi-
cial, começou:
■ — Meu tio Reis Gomes, e o José Ernesto, tive-
ram uma ideia muito natural, que comraunicaram a
El-Rei, e que El-Rei approvou... Oue approvou mes-
mo ao ponto de a appetecer, de se assenhorear d'ella,
de desejar que íosse só sua. E hoje é só d'El-Rei.
El-Rei pois pensou, como nós pensamos, que um dos
primeiros fidalgos de Portugal, decerto mesmo o pri-
meiro, devia ter um titulo que consagrasse bem a
antiguidade illustre da Casa, e consagrasse também
o mérito superior de quem hoje a representa... Por
isso, meu querido Gonçalo, jd te posso annunciar, e
quasi em nome d'El-Rei, que vaes ser Marquez de
Treixedo.
— Rravo! bravo! ])ramou o Barruio, com palmas
delirantes. Saltem para cá os quinze tostões, Snr.
Marquez de Treixedo!
A ILLLÍSTRE CASA DE RAMIRES 503
Uma onda de sangue cobria a fina íace de Gon-
çalo. N'iim relance sentiu que o Titulo era um dom
do Cavalleiro, não ao chefe da casa de Ramires, mas
ao irmão complacente de Gracinha Ramires... E so-
bre tudo sentia a incoherencia de que, ao chefe
d' uma Casa dez vezes secular, mãe de Dynastias,
edificadora do Pieino, com mais de trinta dos seus
varões mortos sob a armadura, se atirasse agora um
ouço titulo, atravez do Diário do Governo, como a
um tendeiro enriquecido que subsidiou eleições. To-
davia saudou o Cavalleiro, que esperava a effusão,
os abraços. — Oh! Marquez de Treixedo! certamente
muito elegante, muito amável... Depois, esfregando
as mãos, com um sorriso de graça e d'espanto...
Mas, meu caro André, com que auctoridade me íaz
El-Rei Marquez de Treixedo?
O Cavalleiro levantou vivamente a cabeça n'uma
oífendida surpresa :
— Com que auctoridade? Simplesmente com a
auctoridade que tem sobre nós todos, como Piei de
Portugal que ainda é, Deus louvado!
E Gonçalo, muito simplesmente, sem fumaça ou
pompa, com o mesmo sorriso de suave gracejo:
— Perdão, Andrésinho. Ainda não havia Reis de
Portugal, nem sequer Portugal, e já meus avós Ra-
mires tinham solar em Treixedo! Eu approvo os
grandes dons entre os grandes fidalgos ; mas cum-
í)04 A ILLCSTRE CASA DE RAMIRES
pre aos mais antigos começarem. El-Rei tem uma.
quinta ao pé de Beja, creio eu, o fíoncão. Pois dize
tu a El-Rei, que eu tenho immenso gosto em o fa-
zer, a elle, Marquez do Roncâo.
O Barròlo embasbacara, sem comprehender, com
as bochechas descabidas e murchas. Da beira do ca-
napé. Gracinha, toda corada, faiscava de gosto, por
aquelle lindo orgulho que tão bem condizia com o
seu, mais lhe íundia a alma com a alma do irmão
amado. E André Cavalleiro, furioso, mas vergando os
hombros com irónica submissão, apenas murmurou:
— a Bem, períeitamente!... Cada um se entende a seu
modo ...»
O escudeiro entrava com a bandeja do chá.
E no Domingo íoi a Eleição.
Ainda com uma desconfiança, uma reserva su-
persticiosa, o Fidalgo desejou atravessar esse dia
muito solitariamente, quasi escondido, e no sabbado,
em quanto todos os amigos de Villa-Clara, mesmo os
d*01iveira, o consideravam estabelecido nos Cunhaes,
e em communicação azaíamada com o Governo Ci-
vil, montou a cavallo ao escurecer, e trotou surra-
teiramente para Santa Ireneia.
Mas o Barròlo (ainda abalado com «aquelle
despauterio do Gonçalo, que era uma offensa para o
A ILLLSTllE CASA DE lUMIUES 50*)
Cavalleiro! até para El-Rei!») ficara com a missão
de telegraphar para a Torre as noticias successivas
das assembleias, á maneira que ellas acudissem ao
Governo Civil. E, com ruidoso zelo, logo depois da
missa, estabeleceu entre os Cunhaes e o velho Con-
vento de S. Domingos um serviço de creados for-
migando sem repouso. Gracinha, na sala de jantar,
ajudada por Padre Sueiro, copiava com amor, n'uma
lettra muito redonda, os telegrammas mandados pelo
Cavalleiro, que ajuntava a lápis alguma nota amável
— « Tudo optimamente ! » — Victoria cresce. — Para-
béns a V. Ex."'.
Pela estrada de Villa-Clara á Torre, incessante-
mente, o moço do Telegrapho se esbaforia sobre a
perna manca. O Bento rompia pela livraria, berran-
do: aoutro telegramma, Snr. Doutor». Gonçalo, ner-
voso, com um immenso bule de chá sobre a banca,
a bandeja já alastrada de cigarros meio fumados,
lia o telegramma ao Bento. O Bento, com vivas pelo
corredor, corria a bramar o telegramma á Rosa.
E assim, quando cerca das oito horas, o Fidalgo
consentiu em jantar — já conhecia o seu triumpho
explendido. E o que o impressionava, relendo os te-
legrammas, era o enthusiasmo carinhoso d'aquelles
influentes, povos que elle mal rogava, e que conver-
tiam o acto da Eleição quasi n'um acto d' Amor. Toda
a freguezia dos Bravaes marchara para a Egreja,
506 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
cerrada como uma hoste, com o José Casco na frente
erguendo uma enorme bandeira, entre dous tambo-
res que estouravam. O Visconde de Rio-Manso en-
trara no adro da Egreja do Ramilde na sua victoria,
cora a neta toda vestida de branco, seguido por uma
vistosa fila de cimr-à-bancs, onde se apinhavam elei-
tores sob toldos de verdura. Na Finta todos os casaes
se esvasiavam, as mulheres carregadas d'ouro, os ra-
pazes de flor na orelha, correndo á Eleição do Fi-
dalgo entre o repenicar das violas, como á romaria
d'um Santo. E deante da taberna do Pintainho, em
íace á Egreja, a gente da Velleda, da Riosa, do Cer-
cal, erguera um arco de buxo, com dístico verme-
lho, sobre panninho: — «Viv^a o nosso Ramires, flor
dos homens!»
Depois, em quanto jantava, um moço da quinta
voltou de Villa-Clara, alvoroçado, contando o delirio,
as philarmonicas pelas ruas, a Assembleia toda em-
bandeirada, e na casa da Camará, sobre a porta, um
transparente com o retrato de Gonçalo, que uma
multidão acclamava.
Gonçalo apressou o café. Por timidez, receoso
dos vivorios, não ousava correr a Villa-Clara —a es-
preitar. Mas accendeu o charuto, passou á varanda,
para respirar a doce noite de festa, que andava tão
cheia de clarões e rumores em seu louvor. E ao
abrir a porta envidraçada quasi recuou, com outro
A ILLLSTRE CASA DE RAMIRES 507
espanto. A Torre illuminára! Das suas fundas fres-
tas, atravez das negras rexas de ferro, sahia um cla-
rão; e muito alta, sobre as' velhas ameias, refulgia
uma serena coroa de lumes! Era uma surpresa, pre-
parada, com delicioso mysterio, pelo Bento, pela Rosa,
pelos moços da quinta, — que agora, todos, no escuro,
por baixo da varanda, contemplavam a sua obra, al-
lumiando o ceu sereno. Gonçalo percebeu os passos
abaíados, o pigarro da Rosa. Gritou alegremente da
borda da varanda:
— Oh, Bento! Oh, Rosa!... Está ahi alguém?
Um risinho estusiou. A jaqueta branca do Bento
surdio da sombra.
— O Snr. Doutor queria alguma cousa?
— Não, homem! Queria agradecer... Foram vo-
cês, hein? Está linda a illuminaçâo! Mas linda. Obri-
gado, Bento. Obrigado, Rosa! Obrigado, rapazes! De
longe deve fazer um effeito soberbo.
Mas o Bento ainda se não contentava com aquel-
las lamparinas frouxas. A Torre, para sobresahir,
necessitava chammas fortes de gaz. O Snr. Doutor
nem imaginava a altura, depois em cima, a immen-
sidão do eirado.
Então, de repente, Gonçalo sentiu um desejo de
subir a esse immenso eirado da Torre. Não entrara
na Torre desde estudante — e sempre ella lhe des-
agradara por dentro, tão escura, de tão duro granito,
508 A ILLUSTIIE CASA DE RAMIRES
com a sua nudez, silencio e frialdade de jazigo, e
logo no pavimento térreo os negros alçapões chapea-
dos de ferro que levavam ás masmorras. Mas agora
as luzes nas frestas aqueciam, reviviam aquella der-
radeira ossada, Honra de Ordonho Mendes. E de en-
tre as suas ameias, mais alto que da varanda, lhe
parecia interessante respirar aqueila rumorosa sym-
pathia esparsa, que em torno, pelas íreguezias rolava,
subindo para elle, atravez da noite, como um in-
censo. Enfiou um paletot, desceu á cosinha. O Bento,
o Joaquim da horta, divertidos, agarraram grandes
lanternas. E com elles atravessou o pom.ar, penetrou
pela atarracada poterna, de funda hombreira, co-
meçou a trepar a esguia escadaria de pedra, que
tanta sola de ferro polira e poira.
Já desde séculos se perdera a memoria do legar
que occupava aquella torre nas complicadas fortifi-
cações da Honra e Senhorio de Santa Ireneia. Não
era de certo (segundo padre Sueiro) a nobre torre
albarran, nem a do Alcáçova, onde se guardava o
thesouro, o cartório, os sacos tão preciosos das es-
peciarias do Oriente — e talvez, obscura e sem no-
me, apenas defendesse algum angulo de muralha,
para os lados em que o Castello enfrontava com as
terras semeadas e os olmedos da Ribeira. Mas, so-
brevivente ás outras mais altivas, comprehendida
nas construccões do Paço formoso que se erguera
A ILLUSTRE CASA DE HAMIRES o09
dV.ntrc o sombrio Castello Affonsino, e que dominava
Santa Ireneia durante a dynastia d'Aviz, ligada ainda
por claras arcarias d'um terraço ao Palácio de gosto
italiano, em que Vicente Ramires converteu o Paço
manuelino depois da sua campanha de Castella; iso-
lada no pomar, mas sobranceando o casarão que
lentamente se edificara depois do incêndio do Palá-
cio em tempo d'El-Rei D. José, e a derradeira certa-
mente onde retiniram armas e circularam os homens
do Terço dos Ramires — ella ligava as edades e co-
mo que mantinha, nas suas pedras eternas, a uni-
dade da longa linhagem. Por isso o povo lhe cha-
mara vagamente a «Torre de D. Ramires». E Gon-
çalo, ainda sob a impressão dos avós e dos tempos
que resuscitára na sua Novella, admirou com um
respeito novo a sua vastidão, a sua força, os seus
empinados escalões, os seus muros tão espessos, que
as frestas esguias na espessura se alongavam como
corredores, escassamente allumiadas pelas tigelinhas
d'azeite, com que o Bento as despertara. Em cada
um dos trez sobrados parou, penetrando curiosamen-
te, quasi com uma intimidade, nas salas níias e so-
noras, de vasto lagedo, de tenebrosa abobada, com
os assentos de pedra, estranho buraco ao meio, re-
dondo como o d' um poço e ainda pelas paredes ris-
cadas de sulcos de fumos, os anneis dos tocheiros.
Depois em cima, no immenso eirado que a fieira de
olO A ILMSTllE CASA DE RAMIRES
lamparinas, cingiado as ameias, enchia de claridade,
Gonçalo, erguendo a gola do paletot na aragem mais
fina, teve a dilatada sensação de dominar toda a Pro-
víncia, e de possuir sobre ella uma supremacia pa-
ternal, só pela soberana altura e velhice da sua torre,
mais que a Província e que o Pieino. Lentamente ca-
minhou em roda das ameias, até ao miradouro, a que
um candieiro de petróleo, sobre uma cadeira de pa-
lhinha posta em frente ú fresta, estragava o entono
feudal. No céo macio, mas levemente enevoado, ra-
ras estrellas luziam, sem brilho. Por baixo a quinta,
toda a largueza dos campos, a espessura dos arvo-
redos se fundiam em escuridão. Mas na sombra e
silencio, por vezes além, para o lado dos Bravaes,
lampejavam foguetes remotos. Um clarão amarellado
e fumarenio, caminhando mais longe, entestando
para a Finta, era de certo um rancho com ar-
chotes festivos. Na alta Egreja da Velleda tre-
meluzia uma illuminaçâo vaga, rala. Outras luzes,
incertas através do arvoredo, riscavam o velho
arco do Mosteiro, em Santa Maria de Craquêde. Da
terra escura subia, por vezes, um errante som de
tambores. E lumes, fachos, abafados rufos, eram dez
freguezias celebrando amoravelmente o Fidalgo da
Torre, que lhes recebia o amor e o preito no eira-
do da sua torre, envolto em silencio e sombra.
O Bento descera, com o Joaquim, para reforçar
A ILLUSTHK CASA DE RAMIRES 511
as lamparinas nas írestas dos muros, onde ellas es-
moreciam na espessura. E Gonçalo sósinho, acaban-
do o charuto, recomeçou a roída, lento, em torno ás
ameias, perdido n'um pensamento que já o agitara
estranhamente, atravez d'aquelle sobresaltado Do-
mingo... Era pois popular! Por todas essas aldeias,
estendidas á sombra longa da Torre, o Fidalgo da
Torre era pois popular! E esta certeza não o pene-
trava d'alegria, nem de orgulho, — antes o enchia
agora, n'aquella serenidade da noite, de confusão,
d'arrependimento! Ah! se adivinhasse— se elle adivi-
nhasse!... Como caminharia, com a cabeça bem le-
vantada, com os braços bem estendidos, sósinho, em
confiança risonha para todas essas sympathias que o
esperavam, tão certas, trio dadas. Mas não! Sempre
se julgara cercado da indiíferença d'aquellas aldeias,
onde elle, apesar do antiquíssimo nome, era o costu-
mado moço, que volta de Coimbra e vive silenciosa-
mente da sua renda, passeando na sua egoa, A essas
indifíerenças tão naturaes nunca elle imaginara ar-
rancar o punhado de votos, o punhado de papelinhos
que necessitava para entrar na Politica, onde elle
conquistaria pela destreza o que os velhos Ramires
recebiam por herança — fortuna e poder. Por isso se
agarrara tão avidamente á mão do Cavalleiro, á mão
do Snr. Governador Civil — para que S. Ex.% o bom
ol2 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
amigo, o mostrasse, o impozesse como o homem ne-
cessário, o querido 'do Governo, o melhor entre os
bons, a quem as freguezias deviam offerecer n"um
Domingo o punhado de votos.
E na impaciência d*esse favor abafara a memo-
ria de amargos aggravos ; deante d'01iveira pasmada
abraçara o homem detestado desde annos, que an-
dava chasqueando e demolindo, pôr praças e jornaes:
facilitara a resurreiçâo de sentimentos que para sem-
pre deviam jazer enterrados; e envolvera o ser que
mais amava, a sua pobre e fraca irmãsinha, em
confusão e miséria moral... Torpezas e damnos — e
para quê? Para surripiar um punhado de votos que
dez freguezias lhe trariam correndo, gratuitamente,
eífusi vãmente, entre vivas e íoguetes, se elle ace-
nasse e lh"os pedissse . . .
Ah! eis ahi... Fora a desconfiança, essa encolhida
desconfiança de si mesmo, — que desde o collegio,
atravez da vida, lhe estragara a vida. Era a mesma
desgraçada desconfiança, que ainda semanas antes,
deante de uma sombra, um pau erguido, uma risa-
da n"uma taberna, o forçava a abalar, a tugir, ar-
ripiado e praguejando contra a sua fraqueza. Por
fim, um dia, n'uma volta d'estrada, avança, ergue o
chicote — e descobre a sua força! E agora, penetra
por entre o povo, agarrado timidamente á mão po-
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES ol3
derosa, por se imaginar impopular — e descobre a
sua popularidade immensa. Que vida enganada, e
tanto a sujara — por não saber t
O Bento não apparecia, ainda azaíamado em il-
luminar condignamente as rexas da Torre. Gonçalo
atirou a ponta do charuto, e com as mãos nas algi-
beiras do paletó t, parou junto do miradouro, olhou
vagamente para as estrellas. A névoa adelgaçara
quasi sumida, — lumes mais vivos palpitavam no ceu
mais profundo. De lumes e céus descia essa sensa-
ção de infinidade, d'eternidade, que penetra, como
uma surpresa, nas almas desacostumadas da sua
contemplação. Na alma de Gonçalo passou, muito
fugidiamente, o espanto d'essas eternas immensida-
des sob que se agita, tão vaidosa da sua agitação, a
rasteira, a sombria poeira humana. Longe, algum
derradeir.o foguete ainda lampejava, logo apagado na
escuridão serena. As luzinhas sobre a capella de Vel-
leda, sobre o arco de Santa Maria de Craquêde, es-
moreciam, já ralas. Todo o remoto rumor de musi-
catas se perdera, na mudez mais íunda dos campos
adormecidos. O dia de triumpho findava, breve co-
mo os luminares e os foguetes. — E Gonçalo, parado,
rente do miradouro, considerava agora o valor d'esse
triumpho por que tanto almejara, porque tanto sa-
bujára. Deputado! Deputado por Villa-CIara, como o
Sanches Lucena. E ante esse resultado, tão miúdo,
33
T-JIl A ILUSTRE CAPA DE RAMIRES
tâo trivial, — todo o seu esforço tão desesperado, tâa
sem escrúpulos, lhe parecia ainda menos immoral
que risível. Deputado! Para quê? Para almoçar no
Bragança, galgar de tipóia a ladeira de S. Bento, e
dentro do sujo convento escrevinhar na carteira do
Estado alguma carta ao seu alfaiate, bocejar com a
inanidade ambiente dos homens e das ideias, e dis-
trahidamente acompanhar, em silencio ou balando, o
rebanho do S. Fulgencio, por ter desertado o reba-
nho idêntico do Braz Victorino. Sim, talvez um dia,
com rasteiras intrigas e sabujices a um chefe e á
senhora do cheíe, e promessas e risos atravez do
Redacções, e algum Discurso esbrazeadamente ber-
rado— lograsse ser Ministro. E então? Seria ainda a
tipóia pela calçada de S. Bento, com o correio atraz
na pileca branca, e a farda mal-íeita, nas tardes d'as-
signatura, e os recurvados sorrisos d'amanuenses
pelos escuros corredores da Secretaria, e a lama es-
correndo sobre elle do cada gazeta d'opposiçâo . . .
Ah! que peca, desinteressante vida, em comparação
d"outras cheias o soberbas vidas, que tâo magnifica-
mente palpitavam sob o tremcluzir d'essas mesmas
estrellas! Em quanto elle se encolhia no sou paletot,
deputado por Villa-Clara, e no triumpho d'essa mi-
séria— Pensadores completavam a explicação do
Universo; Artistas realisavam oi)ras de belleza eter-
na; Reformadores aperfeiçoavam a harmonia social;
A 1LLL'STRE CASA DF, lUMIUES ol"
Sautos melhoravam santamente as almas; Physiolo-
gistas diminuiam o velho soffrer humano; Invento-
res alargavam a riqueza das raças; Aventureiros
magnificos arrancavam mundos de sua esterilidade
e mudez ... Ah ! esses eram os verdadeiramente ho-
mens, os que viviam deliciosas plenitudes de vida,
modelando com as suas mãos incançadas íórmas
sempre mais bellas ou mais justas da humanidade.
Ouem fora como elles, que são os sobre-humanos !
Fi tal acção tão suprema requeria o Génio, o dom
que, como a antiga chamma, desce de Deus sobre
um eleito? Não! Apenas o claro entendimento das
realidades humanas — e depois o íorte querer.
E o Fidalgo da Torre, immovel no eirado da
Torre, entre o ceu todo estrellado, e a terra toda
escura, longamente revolveu pensamentos de Vida
superior — até que enlevado, e como se a energia da
longa raça, que pela Torre passara, reíluisse ao seu
coração, imaginou a sua própria encaminhada emfim
para uraá acção vasta e fecunda, em que soberba-
mente gozasse o goso de verdadairo viver, e em torno
de si creasse vida, e accrescentasse um lustre novo
ao velho lustre de seu nome, e riquezas puras o dou-
rassem e a sua terra inteira o bem-louvasse por que
elle inteiro e n*um esforço pleno bem servira a sua
terra ...
o IH A ILLISTRE CASA DE RAMIRES
O Bento surdiu da portinha baixa do eirado,
com a lanterna:
— O Snr. Doutor ainda se demora?
— Não. A festa acabou, Bento.
Nos começos de Dezembro, com o primeiro nu-
mero dos Annaes, appareceu a Torre de D. Rami-
res. E todos os jornaes, mesmo os da opposiçâo, lou-
varam «esse estudo magistral (como affirmou a Tar-
de) que, revelando um erudito e um artista, conti-
nuava, com uma arte mais moderna e colorida, a
obra de Herculano e de Rebello, a reconstituição
moral e social do velho Portugal heróico.» Depois das
festas de Natal, que elle passou alegremente nos Cu-
nhaes, ajudando Gracinha a cosinhar bolos de baca-
lhau por uma receita sublime do padre José Vicente,
da Finta, os amigos d'01iveira, os rapazes do Club e
da Arcada oíTereceram ao Deputado por Villa-Clara,
na sala da Camará, adornada de buxos e bandeiras,
um banquete, a que assistia o Cavalleiro, de gran-
cruz, e em que o Barão das Marges (que presidia)
saudou «o prestigioso moço que, talvez em breve,
nas cadeiras do Podey levantasse do marasmo este
brioso paiz, com a pujança, a valentia, que são pró-
prias da sua raça nobilíssima !»
A ILUSTRE CASA DE RAMIRES ol'
No meado de Janeiro, por uma agreste noite de
chuva, Gonçalo partiu para Lisboa; e atravez do in-
verno, em Lisboa, andou sempre nos Caniet-Mon-
dahi e High-Life dos jornaes, nas noticias de janta-
res, da raoufs, de tiros aos pombos, de Caçadas d'El-
Rei, tão notado nos movimentos mais simples da sua
elegância, que os Barrôlos assignaram o Diário II-
lustrado para saber quando elle passeava na Ave-
nida. Em Villa-Clara, na Assembleia, o José Gouveia
já encolhia os hombros, rosnando: — «Desandou em
janota!» — Mas nos íins d'Abril uma noticia de re-
pente alvoroçou Villa-Clara, espantou na quieta Oli-
veira os rapazes do Club e da Arcada, perturbou
tão inesperadamente Gracinha, então em Amarante
com o Barròlo, que n'essa noite ambos abalaram para
Lisboa — e na Torre atirou a Rosa para um banco
de pedra da cosinha, lavada em lagrimas, sem com-
prehender, gemendo :
— Ai o meu rico menino, o meu rico menino,
que o não torno mais a ver!
Gonçalo Mendes Ramires, silenciosamente, quasi
mysteriosamente, arranjara a concessão d"um vasto
praso de Macheque, na Zambezia, hypothecára a sua
quinta histórica de Treixedo, e embarcava em co-
meços de Junho no paquete Portugal, com o Bento,
para a Africa.
XII
Quatro annos passaram ligeiros e leves sobre a
velha Torre, como voos d'ave.
lN'Lima doce tarde dos fins de Septembro, Gra-
cinha, que chegara na véspera de Oliveira acom-
panhadq peio bom Padre Sueiro, descansava na va-
randa da sala de jantar, estendida sobre o canapé
de palhinha, ainda com um grande avental branco,
tapando o vestido até ao pescoço, ura velho avental
do Bento. Todo o dia, d'avental, atravez do casarão,
ajudada pela Rosa e pela filha da Crispola, s'esfalfára,
arrumando e limpando, com tanto gosto e fervor no
trabalho, que ella mesma sacudira o pó a todos os
livros da livraria, o sou socegado pó de quatro an-
nos. O Barròlo também se occupára, dando senten-
ças nas obras da cavallariea, que a valente egoa da
briga da Grainha em breve partilharia com uma
520 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
egoa ingleza, de meio sangue, comprada em Lon-
dres. Também Padre Sueiro remexera, pelo Archivo,
zelosamente, com um espanejador. E até o Pereira
da Riosa, o bom rendeiro, apressava desde madru-
gada dois moços na final limpeza da horta, agora
muito cuidada, já com meloal, já com morangal, e
duas novas ruas, ambas bordadas de roseiras e re-
cobertas de latada que a parra densa já recobria.
Com eíTeito a Torre, entre a alvoroçada alegria
de todos, enfeitava a sua velhice — por que no Domin-
go, depois dos seus quatro annos d' Africa, Gonçalo
regressava á Torre.
E Gracinha, estendida no canapé com o seu ve-
lho avental branco, sorrindo pensativamente para a
quinta silenciosa, para o ceu todo corado sobre Val-
verde, recordava esses quatro annos, desde a manhã
em que abraçara Gonçalo, suííocada e a tremer, no
beliche do Portugal... Quatro annos! Assimx passa-
dos, e nada mudara no mundo, no seu curto mundo
d'entre os Cunhaes e a Torre, e a vida rolara, e tão
sem historia como rola um rio lento n"uma solidão:
— Gonçalo na Africa, na vaga Africa, mandando ra-
ras cartas, mas alegres, e com um enthusiasmo de
fundador de Império; ella nos Cunhaes, e o seu Bar-
rôlo, n"um tão quieto e costumado viver, que eram.
quasi d" agitação os jantares em que reuniam os INIeu-
donças, os ^larges, o coronel do 7, outros amigos, e
A lUXSTRE CASA DE RAMIRES o21
á noite na sala se abriam duas mezas de panno ver-
de para o voltarete e para o boston.
E n'este manso correr de vida se desfizera man-
samente, qaasi insensivelmente, a sombria tormenta
do seu coração. Nem ella agora comprehendia como
um sentimento, que atravez das suas anciedades ella
justificava, quasi secretamente santificava por o saber
único, e o desejar eterno, assim se sumira, insensi-
velmente, sem dilacerações, deixara apenas um leve
arrependimento, alguma esfumada saudade, também
estranheza e confusão, restos de tanto que ardera,
formando uma cinza fina... A successâo das cousas
rolara, como o vento ás lufadas n'um campo, e ella
rolara, íexada com a inércia d'uma folha secca.
Logo depois do derradeiro Natal passado com
Gonçalo, André, que ainda os acompanhara á Missa
do Gallo e consoara nos Cunhaes, voltou para Lisboa,
para essa «Pieforma», de que se lastimava... No si-
lencio que entre ambos então se alargou, corria já
uma frialdade d'abandono... E quando André reco-
lheu, a Oliveira, ao seu Governo Civil, partia ella
para Amarante, onde a santa mãe do Barrôlo adoe-
cera, com uma vagarosa doença d"anemia e velhice,
que em iMaio a levou para o Senhor.
Em Junho fura o com movido embarque de Gon-
çalo para a Africa, — e no tombadilho do paquete, en-
tre o barulho e as bagagens, um encontro com An-
A ÍLLUSTRE CASA DE RAMIRES
dré, que chegara d'01iveira, dias antes, e contou
muito alegremente do casamento da Mariquinhas
Marges. Todo esse verão, como o Barrôlo decidira fa-
zer obras consideráveis no velho palacete do Largo
d'El-Rei, o passaram na quinta da Blurtosn, que ella
escolhera por causa da linda matta, dos altos muros
de convento. A essa solidão attribuiu logo o Barrôlo
a sua melancolia, a sua magreza, aquelle cansado
scismar a que se abandonava, pelos bancos musgo-
sos da matta, com um romance esquecido no regaço.
Para que ella se distrahisse, se íortificasse com ba-
nhos do mar, alugou em Setembro, na Costa, o vis-
toso chalet do commendador Barros. Ella não tomou
banhos, nem apparecia na praia, á fresca hora das
barracas, entre as senhoras sentadas em cadeirinhas
baixas: — e só á tarde passeava pelo comprido areal,
rente á vaga, acompanhada por dous enormes gal-
gos que lhe dera Manoel Duarte. Uma manhã, ao al-
moço, ao abrir as Novidades, Barrôlo pulou, com
um berro, um espanto. Era a queda inesperada do
Ministério do S. Fulgencio! André Cavalleiro apre-
sentava logo a sua demissão pelo telegrapho. E ain-
da pelas Novidades souberam na Costa que S. Ex.''
partira para uma «longa e pittoresca viagem», a
viagem a Constantinopla, á Ásia Menor, que elle an-
nunciára ao jantar nos Cunhaes. Ella abrira um
Atlas: com o dedo lento caminhou desde Oliveira
A ILLUSTHK T.ASA DK HAMIUKS 323
até á Syria, por sobre fronteiras o montes: já An-
dré lhe parecia desvanecido, n'esses horisontes mais
luminosos; fechou o Atlas, pensando simplesmente
«como a gente umda!»
Em Novembro voltaram a Oliveira, n'um sabba-
do de chuva, e ella na carruagem sentia toda a me-
lancolia e a Irialdade do ceu penetrar no seu coração.
Mas no Domingo acordou com um lindo sol nas vi-
draças. Para a missa das onze na Sé, ella estreou
um chapéo novo; depois, no caminho para casa da
tia Arminda, levantou os olhos para o casarão do
Governo Civil: agora habitava lá outro Governador
Civil, o Snr. Santos Maldonado, um moço louro que
tocava piano.
Na outra primavera o Barríjlo, agora escravi-
sado pela paixão d'obras, imaginou demolir o Mi-
rante para construir outra estufa, mais vasta, com
um repuxo entre palmeiras, que formaria « um jar-
dim d"inverno catita.»
Os trabalhadores começaram por esvasiar o Mi-
rante da velha mobilia que o guarnecia desde o tem-
po do tio Melchior: o immenso divan jazeu dois dias
no jardim, encalhado contra uma sebe de buxo, e o
Barrôlo, impaciente, com aquelle desusado traste, de
molas quebradas, nem o consentiu nas arrecadações
do sótão, mandou (jue o queimassem com outras
cadeiras partidas, n'uma íogueira de festa, na nouto
Uâi A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
dos annos de Gracinha. E ella andou em torno da
fogueira. O estofo poido ílammejou, depois o mogno
pesado mais lentamente, com um leve fumo, até que
uma braza ficou latejando, e a braza escureceu em
cinza.
Logo n'essa semana as Lousadas, mais agudas,
mais escuras, invadiram uma tarde os Cunhaes — e
apenas espetadas no sophá, logo lhe contaram, com
um riso feroz nos olhinhos íurantes, do grande es-
cândalo, o Cavalleiro! em Lisboa! sem rebuço! com
a mulher do Conde de S. Piomâo! um fazendeiro de
Cabo Verde!
N'essa noite, ella escreveu a Gonçalo uma carta
muito longa que começava: — «Por cá estamos to-
dos bem, e n'este rame-ram costumado...» E com
effeito a vida recomeçara, no seu rame-ram, simples,
continua, e sem historia, como corre um rio claro
n*uma solidão.
Á porta envidraçada da varanda o filho da Cris-
pola espreitou — o filho da Crispola, que ficara sem-
pre na Torre, como «andarilho», mas crescera muito
para fora da sua antiga jaqueta de botões amarellos,
usava agora jaquetões velhos do Snr. Doutor, e já
repuxava o buço:
— É que está lá em baixo o Snr. António Villa-
lobos, com o Snr. Gouveia e outro senhor, o Videi-
rinha, e perguntam se podem failar á senhora...
A ILLl'STKE CASA DE RAMIRES 525
— O Snr. Villalobos! Sim! que subam, que en-
trem para aqui, para a varanda!
Ao atravessar a sala, onde dous esteireiros d'01i-
veira pregavam uma esteira nova, o vozeirão do Tito
já ribombava, notando os «preparativos da íesta...»
E quando entrou na varanda a sua íace mais bar-
buda, mais requeimada, rebrilhava com a alegria
d'encontrar emfim a Torre despertando d'aquella
modorra, em que tudo dentro parecia tristemente
apagado, até o lume das caçarolas:
— Peço desculpa da invasão, prima Graça. Mas
passamos, de volta d'um passeio dos Bravaes, soube-
mos que a prima viera com o Barrôlo...
— Oh! gosto immenso, primo António. Eu é que
peço desculpa d'esta figura, assim despenteada, de
grande avental... Mas todo o dia em arranjos, a
preparar a casa . . . E o Snr. Gouveia, como tem pas-
sado? Não o vejo desde a Paschoa.
O administrador, que não mudara n'esses qua-
tro annos, escuro, secco, como feito de madeira, sem-
pre esticado na sobrecasaca preta, apenas com o bi-
gode mais amarellado do cigarro, agradeceu á Snr.*
D. Graça . . . E passara menos mal, desde a Paschoa.
A não ser a desavergonhada da garganta . . .
— E então o nosso grande homem? quando che-
ga? quando chega?
— No Domingo. Estamos todos em alvoroço...
o2G A ÍLLUSTRE CASA PR lUMIUliS
Então não se senta, Snr. Videira? Olhe, puxe aquella
cadeira de vime. A varanda por ora não está arran-
jada.
Videirinha, logo depois da Eleição, recebera de
Gonçalo o logar promettido, fácil e com vagares,
para não esquecer o violão. Era amanuense na Ad-
ministração do Concelho de Vilía-Clara. Mas convi-
via ainda na intimidade do seu chefe, que o utilisava
para todos os serviços, mesmo de enfermeiro, e o
mandava sempre com uma auctoridade secca, mes-
mo ceando ambos no Gago.
Timidamente arrastou a cadeira de vime, que
collocou, com respeito, atraz da cadeira do seu
Cheíe. E depois de tirar as luvas pretas, que agora
sempre trazia para realçar a sua posição, lembrou
que o comboio chegava ao apeadeiro de Craquède
ás dez e quarenta, não trazendo atrazo. Mas talvez
o Snr. Doutor apeasse em Corinde, por causa das
bagagens . . ,
— Duvido, murmurou Gracinha. Em todo o caso
o José está com tenção de partir de madrugada, para
o encontrar na biturcação, em Lamello.
— Nós não! acudiu o Tito, que se sentara fami-
liarmente no rebordo da varanda. Cá o nosso rancho
vae simplesmente a Craquède. Já é terra da familia,
e sitio mais socegado para o vivorio... ÍMas então
esse homem não se demorou em Lisboa, prima Graça?
A FLLLSTItE CASA DE HA MIRES 527
— Desde Domingo, primo António. Chegou no
Domingo, de Paris, pelo Sud-Express. E teve ama
chegada brilhante... Oh! muito brilhante! Hontem
recebi eu uma carta da Maria Mendonça, uma gran-
de carta em que conta...
— O que? A prima Maria Mendonça está era
Lisboa ?
— Sim, desde os fins d'Agosto, n"uma visita a
D. Anna Lucena...
Vi\amente, João Gouveia puxou a cadeira, n'uma
curiosidade que do certo o remoera:
— É verdade, Snr."^ D. Graça! — Então parece que
a D. Anna Lucena couiprou uma casa em Lisboa,
anda em arranjos do mobilia?.. . ^^ Ex." ouviu, Snr.*^
D. Graça?
Não, Gracinha não sabia. Mas era natural, agora
que tanto se demorava em Lisboa, pouco se apro-
veitava da FeiloisQ, tão linda quinta...
— Então casa! exclamou o Gouveia, com im-
mensa convicção. Se anda em arranjos de mobilia,
então casa. É naturai, quer posição. Depois, já lá vão
quatro annos de viuvez, e...
Gracinha sorriu. Mas o Tito, que coçava lenta-
mente a barba, voltou á carta da prima Maria Men-
donça, contando a chegada.
— Sim! acudiu Gracinha, conta, esteve na Es-
tação, no Rocio. Parece que o Gonçalo óptimo, mais
A ILLUSTRE CXSA DE RAMIRES
íorte... Olhe, primo António, leia a carta. Leia alto!
Não tem segredos. É toda sobre o Gonçalo...
Tirara do bolso um pesado enveloppe, com si-
nete d'armas no lacre. Mas a prima Maria escrevia
sempre depressa, n'uma lettra atabalhoada, com as
linhas crasadas. Talvez o primo António não com-
prehendesse...— E com effeito, deante das quatro fo-
lhas de papel erriçadas de negras linhas, parecendo
uma sebe espinhosa, o Tito recuou, aterrado. Mas o
João Gouveia immediatamente se offereceu, com a
sua pericia em decifrar officios de regedores... Não
havendo segredos.
— Não, não ha segredos, afiançou Gracinha, rin-
do. É unicamente sobre o Gonçalo, como n'um jor-
nal.
O administrador folheou a immensa carta, pas-
sou os dedos sobre o bigode, com certa solemnidade :
«Minha querida Graça... A costureira do Silva
«diz que o vestido...»
— Não! acudiu Gracinha. É na outra pagina, no
alto. Volte a pagina.
Mas o Administrador gracejou, ruidosamente.
Oh! está claro, carta de senhora, logo os trapos... E
a Snr." D. Graça a assegurar que era toda sobre
Gonçalo. Pois já veriam se pelo meio se não fal-
lava ainda em vestidos... Ah! estas senhoras, com
A ILUSTRE- CASA DE RAMIRES o20
OS trapos!... — Depois recomeçou, na outra pagina,
com lentidão e gravidade:
«... Deves agora estar anciosa por saber da
«grande chegada do primo Gonçalo. Foi realmente
«brilhante, e parecia uma recepção de pessoa real.
«Éramos mais de trinta amigos. Está claro, appareceu
«toda a roda da nossa parentella; e se rebentasse de
«repente n'essa manhã uma revolução, os Republica-
«nos apanhavam alli junta, na estação do Rocio, toda
« a flor da nobresa de Portugal, da velha, da boa. De
«senhoras, era a prima Chellas, a tia Louredo, as
«duas Esposendes (com o tio Esposende, que apesar
«do rheumatismo e da vindima, veiu expressamente
«da quinta de Torres), e eu. Homens, todos. E co-
«mo estava o Conde de Arega, que é secretario d"El-
« Rei, e o primo Olhalvo, que é o seu Mordomo-Mór,
«e o Ministro da INIarinha e o ^Ministro das Obras
«Publicas, ambos condiscípulos e Íntimos de Gon-
«çalo, as pessoas na estação deviam imaginar que
«chegava El-Rei. O Sud-Express trouxe quarenta mi-
«nutos de demora. De modo que parecia um salão,
«com toda aquella gente da sociedade, muito ale-
« gre, e o primo Arega, sempre tão amável e engra-
«çado, e fazendo já convites para um jantar (que
«depois deu) ao primo Gonçalo. Lá fui a esse jantar
«com o meu vestido verde, novo, que ficou bem. ..
Gouveia gritou triumphando:
34
J.30 A ILLLSTIiE CAS.V DE UAMIUES
— Hein? que disse eu?! cá está vestido. Vestido
verde !
— Lê para deante, homem! bramou o Tito.
E o Administrador, realmente interessado, reco-
meçou, com entono :
a . . . com o meu vestido verde novo, excepto
« a saia, um pouco pesadota. Creio que fui eu a pri-
ameira que avistou o primo Gonçalo, na platatorma
« do Sud-Express. Não imaginas como vem . . . opti-
«rao! Até mais bonito, e sobretudo mais homem. A
«Africa nem de leve lhe tostou a pelle. Sempre a
«mesma brancura. E d' uma elegância, d"um apuro!
«Prova de como se adeanta a civilisaçâo d'Africal
«dizia o primo Arega, este é estylo novo de tangas
«em Macheque!»... Como imaginas, muito abraço,
«muita beijoca. A tia Louredo choramigou. Ah, já
«esquecia! Estava também o Visconde de Rio-Manso,
«com a filha, a Rosinha. Muito linda ella, com um
«vestido do Redfern, fez sensação. Todos me per-
«guntavam quem era, e o conde d' Arega, está claro,
«logo com appetite de ser apresentado. O Rio-Manso
«também choramigou ao abraçar o primo Gonçalo.
oE ali viemos todos, em nobre séquito, pela estação
«fora, entre o pasmo dos povos. Mas immediatamente
«uma scena. De repente, no meio de toda aquella
«nata de brazões, o primo Gonçalo rompe e cabe
«nos braços do homcmzinho de bonet agaloado que
A ILÍASTUE CASA DE RAMIRES iÍ'M
«recebia á porta os bilhetes. Sempre o mesmo Gon-
«çalo! Parece que o conheceu ao chegar a Lourenço
«Marques, onde o homem tratava de se estabele-
«cer como photographo. Mas já esquecia o melhor
a — o Bento! Não imaginas o Bento... Magnifico!
«Deixou crescer um bocado de suissa. É um modelo,
«vestido em Londres, do grande casaco de viagem
«de panno claro, até aos pés, luvas amarelladas, gra-
«vidade immensa. Gostou de me vêr na estação —
«perguntou logo, com o olho húmido, pela Snr.*''
« D. Graça, e pela Rosa. Á noite, o José e eu janta-
« mos em familia, com o primo Gonçalo, no Bragança,
«para conversar da Torre e dos Cunhaes. Elle contou
«muitas cousas interessantes d" A trica. Traz notas
«para um livro, e parece que o praso prospera. N'es-
«tes poucos annos plantou dois mil coqueiros. Tem
«também muito cacau, muita borracha. Gallinhas
«são aos milhares. É verdade que uma gallinha gor-
«da em Macheque vale um pataco. Que inveja! Aqui
«em Lisboa custa sois tostões, só com ossos — por
«que tendo também alguma carne no peito, salta
«para cá dez tostões, e agradece! No praso já se
«construiu uma grande casa, próximo do rio, com
«vinte janellas e pintada de azul. E o primo Gou-
«çalo declara que já não vende o praso nem por oi-
« tenta contos. Para felicidade completa até achou
«um excellente administrador. Eu todavia duvido
0.32 A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
«que elle volte para a Africa. Tenho agora cá a mi-
«nha linda ideia sobre o futuro do primo Gonçalo.
«Talvez te rias. E não adivinhas... com effeito, eu
«mesma só n'essa noite em que jantamos no Bra-
« gança, recebi de repente a inspiração. O Rio-i\lanso
«está também no Bragança. Quando descíamos para
«o jantar, para um gabinete, encontramos no corre-
«dor o velho com a pequena, O homem tornou logo
«a abraçar Gonçalo, com uma ternura de pae. E a
«Rosinha tão vermelha se tez, que até Gonçalo, ape-
«sar de excitado e distrahido, notou e corou de leve.
«Parece que já ha entre elles um conhecimento an-
«tigo, por causa d'um cesto de rosas, e que, desde
« annos, o Destino os anda surrateiramente chegando.
«EUa é realmente uma belleza. E tão sympathica,
«tão bem educada!... Difíerença d'edade, apenas onze
«annos; e o dote tremendo. Faliam em quinhentos
«contos. Ha apenas a questão de sangue e o d'ella,
« coitadinha . . . Emfim, como se diz em heráldica, —
«o Rei faz a pastora Rainka.yy E os Ramires, não
«só vem dos Reis, mas os Reis vem dos Ramires.—
«E agora passando a assumpto menos interessante...»
Discretamente João Gouveia dobrou a carta, que
entregou a Gracinha, louvando a Snr.** D. Maria Men-
donça como um «repórter» precioso. Depois, com
um cumprimento :
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES '}X\
— E, minha senhora, se as previsões d'elia se
realisam . . .
Mas não! Gracinha nâo acreditava! Ora! imagi-
nações da Maria Mendonça.
— O primo António bem a conhece, sabe como
ella é casamenteira . . .
— Pois se até a mim me quiz casar, ribombou
o Tito saltando do rebordo da varanda. Imagine a
prima... Até a mim! Com a viuva Pinho, da loja de
pannos.
— Credo!
Mas o Gouveia insistia, com superioridade, um
sentimento verdadeiro da vida positiva :
— Olhe, Snr.* D. Graça, acredite V. Ex.^, sem-
pre era melhor arranjo para o Gonçalo que a Afri-
ca.. . Eu nâo acredito n"esses prazos . . . Nem na
Africa. Tenho horror á Africa. Só serve para nos dar
desgostos. Boa para vender, minha senhora! A Africa
é como essas quintarolas, meio a monte, que a gente
herda d' uma tia velha, n'uma terra muito bruta,
muito distante, onde nâo se conhece ninguém, onde
não se encontra sequer um estanco; só habitada por
cabreiros, e com sezões todo o anno. Boa para ven-
der.
Gracinha enrolava lentamente nos dedos a fita
do avental:
— O quê! vender o que tanto custou a ganhar.
y3i A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
com tantos trabalhos no mar, tanta perda de vida e
íazenda?!
O Administrador protestou logo, com calor, j.l
enristado para a controvérsia:
— Quaes trabalhos, minha senhora? Era desem-
barcar alli na areia, plantar umas cruzas de pau, ati-
rar uns safanões aos pretos . . . Essas glorias d' Africa
são balelas. Está claro, V. Ex."* falia como fidalga,
neta de fidalgos. Mas eu como economista. E digo
mais. . .
O seu dedo agudo ameaçava argumentos agu-
dos.
Tito acudiu, salvou Gracinha :
— Oh Gouveia, nós estamos a tirar o tempo á
prima Graça, que anda nos seus arranjos. Essas
questões d'Aírica sâo para depois, com o Gonçalo,
á sobremeza... E então, minha querida prima, até
Domingo, em Craquède. Lá comparece o rancho todo.
E quem atira os íoguetes sou eu!
Mas Gouveia, cofiando o coco com a manga,
ainda esperava converter a Snr." D. Graça ás ideias
sãs, sobre Politica Colonial.
— Era vender, minha senhora, era vender! Ella
sorria, já consentia — tomando a mão do Videirinha,
que hesitava, com os dedos espetados:
— E então, Snr. Videira, tem agora algumas qua-
dras novas para o Fadol
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 535
Corando, Videirinha balbuciou que «arranjara
uma coisita, também n'um fado, para a volta do Snr.
Doutor.» Gracinba prometteu decorar, para cantar
ao piano.
— Muito agradecido a V. Ex.''... Creado de
V. Ex." . . .
— Então até Domingo, primo António... Está
uma tarde linda.
— Até Domingo, em Craquède, prima.
Mas á porta envidraçada, João Gouveia parou
mais teso, bateu na testa:
— Já me esquecia, desculpe V. Ex." ! Recebi
uma carta do André Cavalleiro, da Figueira da Foz.
Manda muitas saudades ao Barrôlo. E quer saber se
o Barrôlo lhe poderia ceder d'aquelle vinho verde
de Vidainhos. É também para um africanista, para o
conde de S. Romão . . . Parece que a Snr.^ condessa
se péla por vinho verde!
E os três amigos, em fila, atravessaram a sala
de jantar, onde o vozeirão do Tito ainda ribombou,
louvando a esteira nova de cores. No corredor, Vi-
deirinha espreitou para a Livraria, notou o molho
de penas de pato espetado no velho tinteiro de la-
tão, que esperava, rebrilhando solitariamente sobre
a mesa nua sem papeis nem livros. Depois a Rosa
appareceu á porta do quarto de Gonçalo, ajoujada
de roupa, com um riso em cada ruga da sua lace
o36 A ILLLSTRE CASA DE R.\MmES
redonda e côr de tijolo, que o íarto lenço de cam-
braia, muito branco, circumdava como um nimbo. O
Tito afíagou carinhosamente o hombro da boa cosi-
nheira :
— Então, tia Rosa, agora recomeçam essas gran-
des petisqueiras, hein?
— Louvado seja Deus, Snr. D. António 1 Que ima-
ginei que não tornava a vèr o meu rico senhor.
Também já tinha decidido ... Se me enterrassem o
corpo aqui em Santa Ireneia, antes de eu vêr o me-
nino, a alma com certesa ia á Africa para lhe íazer
uma visita.
Os seus miúdos olhos piscaram, lagrimejando
de gosto — e seguiu pelo corredor, tesa e decidida,
com a sua trouxa que rescendia a maçã camoeza. O
Gouveia murmurara com uma careta: — «Safa!» E
os três amigos desceram ao pateo onde, por curiosi-
dade do Tito, visitaram as obras da cavallariça.
— Veja você! exclamou elle para o Gouveia, que
accendia o charuto. Você a negar!... Mobílias, obras,
egoa ingleza... Tudo já dinheiro d'Aírica.
O Administrador encolheu os hombros :
— Veremos depois como elle traz o fígado...
Deante do portão o Tito ainda parou a colher,
na roseira costumada, uma rosinha para florir o ja-
quetão de velludilho= E juntamente entrava o Padre
Sueiro, recolhendo d'uma volta pelos Bravaes, com
A ILLLSTRE CASA DE RAMIRES o37
O seu grande guarda-sol de panninho e o seu bre-
viário. Todos acolheram com carinho o santo e douto
velho, tão raro agora na Torre.
— E então no Domingo, cá temos o nosso ho-
mem. Padre Sueiro!
O capellâo achatou sobre o peito a mão gorda,
com reverencia, com gratidão...
— Deus ainda me quiz conceder, na minha ve-
lhice, mais esse grande íavor . . . Pois mal o esperava.
Terras tão ásperas, e elle tão delicado...
E para conversar de Gonçalo, da espera em Cra-
quêde, acompanhou aquelles senhores até á ponte
da Portella. João Gouveia manquejava, aperreado por
umas infames botas novas que n"essa manhã es-
treara. E descançaram um momento no bello banco
de pedra que o pae de Gonçalo mandara collocar.
quando Governador Civil d"01iveira. Era esse o doce
sitio d'onde se avista Villa-Clara, tão aceada, sempre
tão branca, áquella hora toda rosada, d'esde o vasto
convento de Santa Theresa até ao muro novo do
cemitério no alto, com os seus finos cyprestes.
Para além dos outeiros de Valverde, longe, so-
bre a Costa, o sol descia, vermelho como um metal
candente que arrefece, entre nuvens vermelhas, ac-
cendendo ainda, em ouro coruscante, as janellas da
Villa.
Ao íundo do valle, uma claridade nimbava as
o38 A ILUSTRE CASA DE RAMIRES
altas ruinas de Santa Maria de Craquêde, entre o
seu denso arvoredo. Sob o arco, o rio cheio corria
sem unm rumor, já dormente na sombra dos chou-
pos finos, onde ainda pássaros cantavam. E na volta
da estrada, por cima dos alamos que escondiam o
casarão, a velha Torre, mais velha que a Villa e que
as ruinas do Mosteiro, e que todos os casaes espa-
lhados, erguia o seu esguio miradoiro, envolto no
vôo escuro dos morcegos, espreitando silenciosamente
a planicie e o sol sobre o mar, como em cada tarde
d'esses mil annos, desde o Conde Ordonho Mendes.
Um pequeno com uma alta aguilhada passou,
recolhendo duas vaccas lentas. Do lado da Villa, o
padre José Vicente da Finta trotou na sua egoa
branca, saudou o Snr. Administrador, o amigo Suei-
ro, abençoando também a chegada do Fidalgo para
quem já preparara uma bella cesta da sua uva mos-
catel. Trez caçadores, com uma matilha de coelhei-
ras, atravessaram a estrada, descendo pelo portello
á quelha que contorna o casal do Miranda.
Um silencio ainda claro, de immenso repouso,
tão doce como se descesse do céu, cobria a largueza
povoada dos campos, onde não se movia uma íolha,
na macia transparência do ar do Setembro. Os fu-
mos das lareiras accesas já se escapavam, lentos o
leves, d"entre a telha rala. Na loja do João ferreiro,
adeante da Portella, o clarão da íorja avivou, mais
A ILLlSTIiE CASA DE RAMir.ES 539
vermelho. Um bu/n-bion de tambor bateu festiva-
mente para o lado dos Bravaes, cresceu apressado,
marchando: — n'algum cabeço, depois lentamente se
afastou, esmoreceu, logo sumido, em arvoredos ou
no valle mais íimdo.
João Gouveia, que se recostara no canto do largo
assento de pedra, com o seu coco sobre os joelhos,
acenou para o lado dos Bravaes:
— Estou a lembrar aquella passagem do romance
do Gonçalo, quando os Ramires se preparam para
soccorrer as Infantas, andam a reunir a mesnada. É
assim, a estas horas da tarde, com tambores: e por
sitios... «Na frescura do valle...» Não! «Pelo valle
de Craquêde. . .» Também não! Esperem vocês, que
eu tenho boa memoria... Ah! «E por todo o fresco
valle até Santa Maria de Craquêde, os atambores
mouriscos abafados no arvoredo, tararam! tararam!
ou mais vivos nos cerros ralatam! ralatam! convo-
cavam á mesnada dos Piamires, na doçura da tar-
de.. .» E lindo!
Por sobre as costas do Tito que, debruçado, ris-
cava pensativamente com o bengalão a poeira da es-
trada, Videirinha adeantou para o seu chefe a face
estendida, com um sorriso de fmura:
— Oh Snr. Administrador, olhe que talvez seja
ainda mais bonito, quando os Ramires largam a per-
seguir o Bastardo! Cá para mim, tem mais poesia.
SVO A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
Quando o velho faz aquella jura com a espada e de-
pois lá na Torre, muito devagar, começa a tocar a
finados . . . É d'appetite !
Á borda do assento, encolhido contra o Tito,
para que o Snr. Administrador se alastrasse confor-
tavelmente, Padre Sueiro, com as mãos no cabo do
seu guarda-soi, concordou:
— Com certesa! são lances interessantes ., . Com
certesa ! N'aquel]a novella ha imaginação rica, muito
rica: e ha saber, ha verdade.
O Tito, que depois de S/mão de Nantua, em pe-
queno, não abrira mais as folhas d'um livro, e não
lera a Torre de D. Ramires, murmurou, com um
risco mais largo na poeira:
— Extraordinário, aquelle Gonçalo!
O Videirinha não findara o seu enlevado sor-
riso :
— Tem muito talento... Ah! o Snr. Doutor tem
muito talento.
— Tem muita raça! exclamou o Tito, levantando
a cabeça. Eco que o salva dos defeitos... Eu sou
um amigo de Gonçalo, e dos firmes. Mas não o es-
condo, nem a ello... Sobretudo a elle. Muito leviano,
amito incoherente... Mas tem a raça que o salva.
— E a bondade, Snr. António Villalobos! atalhou
docemente Padre Sueiro. A bondade, sobretudo co-
mo a do Snr. Gonçalo, também salva... Olhe, ás ve-
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES 541
zes ha um homem muito serio, muito puro, muito
austero, um Catão que nunca cumpriu senão o de-
ver e a lei . . . E todavia ninguém gosta d'elle, nem
o procura. Por que? Por que nunca deu, nunca per-
doou, nunca acarinhou, nunca serviu. E ao lado ou-
tro leviano, descuidado, que tem defeitos, que tem
culpas, que esqueceu mesmo o dever, que oífendeu
mesmo a lei... ^Mas quê? É amoravel, generoso, de-
dicado, serviçal, sempre com uma palavra doce, sem-
pre com um rasgo carinhoso... E por isso todos o
amam, e não sei mesmo, Deus me perdoe, se Deus
também o não pretere . . .
A curta mão que acenara para o ceu, recahiu so-
bre o cabo d'osso do guarda-sol. Depois, e corado com
a temeridade de pensamento tão espiritual, acudiu
cautelosamente :
— Que esta não é propriamente doutrina da
Egreja!... Mas anda nas almas; anda já em muitas
almas.
Então João Gouveia abandonou o recosto do
banco de pedra e teso na estrada, com o coco á
banda, reabotoaudo a sobrecasaca, como sempre que
estabelecia um resumo:
— Pois eu tenho estudado muito o nosso amigo
Gonçalo Mendes. E sabem vocês, sabe o Snr. Padre
Sueiro quem elle me lembra?
— Quem?
612 A ILLUSTUE CASA DE RAMIRES
— Talvez se riam. Mas eu sustento a semelhança.
Aquelle todo de Gonçalo, a franqueza, a doçura, a
bondade, a immensa bondade, que notou o Snr. Padre
Sueiro ... Os fogachos e enthusiasmos, que acabam
logo em fumo, e juntamente muita persistência, mui-
to aferro quando se fila á sua ideia... A generosida-
de, o desleixo, a constante trapalhada nos negócios,
e sentimentos de muita honra, uns escrúpulos, quasi
pueris, não é verdade?... A imaginação que o leva
sempre a exaggerar até á mentira, e ao mesmo tempo
um espirito pratico, sempre attento á realidade útil.
A viveza, a facilidade em coraprehender, em apa-
nhar ... A esperança constante n"algum- milagre, no
velho milagre d'Ouriquc, que sanará todas as difíi-
culdades... A vaidade, o gosto de se arrebicar, de
luzir, e uma simplicidade tão grande, que dá na rua
o braço a um mendigo... Um fundo de melancolia,
apesar de tão palrador, tão sociável. A desconfiança
terrível de si mesmo, que o acobarda, o encolhe, até
que um dia se decide, e apparece um heroe, que
tudo arrasa... Até aquella antiguidade de raça, aqui
pegada á sua velha Torre, ha mil annos... Até agora
aquelle arranque para a Africa... Assim todo com-
pleto, com o bem, com o mal, sabem vocês quem elle
me lembra?
— Ouem?. . .
— Portugal.
A ILLUSTHE CASA DE UAMIRES 543
Os tres amigos retomaram o caminho de Villa-
Clara. No ceu branco uma estrellinha tremeluzia
sobre Santa Maria de Craquêde. E Padre Sueiro,
com o seu guarda-sol sob o braço, recolheu á Torre
vagarosamente, no silencio e doçura da tarde, ro-
sando as suas Avè-Marias, e pedindo a paz de Deus
para Gonçalo, para todos os homens, para campos e
casaes adormecidos, e para a terra formosa de Por-
tugal, tão cheia de graça amoravel, que sempre bem-
dita fosse entre as terras.
FLM
A revisão das provas d'este livro, desde paginas 417 até á
conclusão, não foi feita pelo Auctor. Entretanto seguiu-se á ris-
ca o original.
?^_ Eca ae i.<,ueiroz, José inaria de
;j26l A ilustre cesa de Ramires
1900
cop.<£
PLEASE DO NOT REMOVE
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